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GELİR GİDER DENGESİ

Ayda 1 kere Altı ayda 1 kere

“Essa é a minha universidade, aqui vou me formar. Depois de esperar muito, poderei realizar o meu sonho26”.

Aluno do Curso Técnico em Mecânica (2008).

Nesse contexto, se constitui o IFSul na cidade de Passo Fundo como mais um fio que dá concretude a essa matriz sócio-histórica na tessitura das redes de significações constituintes de processos formativos da docência de professores e professoras – pessoas da pesquisa.

O IFSul é um dos Institutos Federais de Educação Ciência e Tecnologia criados através da Lei Federal nº 11.892, de 29 de dezembro de 2008, definidos como,

instituições de educação superior, básica e profissional, pluricurriculares e multicampi, especializados na oferta de educação profissional e tecnológica nas diferentes modalidades de ensino, com base na conjugação de conhecimentos técnicos e tecnológicos com as suas práticas pedagógicas, nos termos desta Lei (BRASIL, 2008, p. 1).

E tem como finalidades, segundo o artigo 6º da mesma lei:

I - ofertar educação profissional e tecnológica, em todos os seus níveis e modalidades, formando e qualificando cidadãos com vistas na atuação profissional nos diversos setores da economia, com ênfase no desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional;

II - desenvolver a educação profissional e tecnológica como processo educativo e investigativo de geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas às demandas sociais e peculiaridades regionais;

III - promover a integração e a verticalização da educação básica à educação profissional e educação superior, otimizando a infraestrutura física, os quadros de pessoal e os recursos de gestão;

IV - orientar a sua oferta formativa em benefício da consolidação e fortalecimento dos arranjos produtivos, sociais e culturais locais, identificados com base no mapeamento das potencialidades de desenvolvimento socioeconômico e cultural no âmbito de atuação do Instituto Federal;

V - constituir-se em centro de excelência na oferta do ensino de ciências, em geral, e de ciências aplicadas, em particular, estimulando o desenvolvimento de espírito crítico, voltado à investigação empírica;

VI - qualificar-se como centro de referência no apoio à oferta do ensino de ciências nas instituições públicas de ensino, oferecendo capacitação técnica e atualização pedagógica aos docentes das redes públicas de ensino; VII - desenvolver programas de extensão e de divulgação científica e tecnológica;

VIII - realizar e estimular a pesquisa aplicada, a produção cultural, o empreendedorismo, o cooperativismo e o desenvolvimento científico e tecnológico;

IX - promover a produção, o desenvolvimento e a transferência de tecnologias sociais, notadamente as voltadas à preservação do meio ambiente (BRASIL, 2008, p. 4).

O IFSul surgiu em Passo Fundo a partir da fase II do Programa de expansão da rede de Educação Profissional e Tecnológica do País. A cidade de Passo Fundo foi escolhida para implantação de um Campus do IFSul, por se adequar aos critérios definidos pelo referido programa, assim explicitado pelo diretor de políticas da Setec/MEC, em exercício no período de criação do então Programa de Expansão. Conforme Caldas (2008),

A expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, cujo critério na Fase II toma como base a identificação de cidades-pólo, elevará a contribuição da rede federal no desenvolvimento socioeconômico do país e concorrerá, sobretudo com a interiorização, para uma mais justa ordenação da oferta de EPT, ao incluir locais historicamente postos à margem das políticas públicas voltadas para esta modalidade. Ao estabelecer que todas as unidades vinculadas aos Institutos Federais (inclusive as novas) têm elevado e isonômico grau de autonomia, afirma o

território como uma dimensão essencial a sua função e insere na pauta

regimental dessas instituições o seu compromisso com um desenvolvimento socioeconômico que perceba antes o seu “lócus”. Isto implica uma atuação

permanentemente articulada e contextualizada a sua região de abrangência (CALDAS, 2008, p. 2). [grifo do autor].

Porém, o fato de o município de Passo Fundo atender aos critérios propostos pelo Ministério de Educação não foram suficientes, exigindo uma mobilização política, como relata Prof. Flávio, primeiro Diretor de ensino do Campus Passo Fundo.

“A partir da criação do Programa de Expansão da Rede de Educação Profissional por parte do Governo Federal, foi aberta a possibilidade de criação de 2 unidades no estado do RS sob a supervisão do CEFET-RS, hoje IFSul. A partir de então, houve a mobilização de diversas cidades no estado, para receber estas unidades, sendo que a junção de forças políticas da cidade de Passo Fundo, tanto na esfera municipal, estadual quanto federal, conflagrou um movimento vitorioso para que ela fosse escolhida”.

Assim, após a definição da criação do Campus, os primeiros passos rumo à sua constituição, de acordo com o Prof. Flávio, foram se estabelecendo através de ações integradas com a comunidade e, em especial, com a Prefeitura Municipal.

“Além da mobilização política, já mencionada, a prefeitura doou o terreno para a construção do Campus, além de realizar algumas obras de infraestrutura no entorno do terreno. Também, participaram juntamente com a comunidade de audiências públicas, onde, a partir das mesmas, se definiram os cursos a serem ofertados”.

Esse envolvimento da comunidade e das suas instituições gestoras mostra que o IFSul na cidade de Passo Fundo surgiu como fruto da vontade das pessoas, por isto é recebido com grande acolhimento. Esse aspecto pode refletir na decisão dos professores em escolher a cidade de Passo Fundo, para “fixar suas raízes”. Esse processo foi, então, permeado por muita espera, mas, uma espera freireana, em que “o tempo de espera é um tempo de que fazer” (FREIRE, 2000, p. 06). Como relata o Prof. Flávio:

“As áreas de atuação, informática e mecânica, foram definidas a partir das audiências públicas e das visitas ao setor produtivo e estudos realizados entre o grupo diretivo designado para o Campus e, à época, Diretoria de Ensino do CEFET-RS, hoje Pró-reitoria de Ensino. Com a definição dos cursos, se passa para a elaboração dos projetos civis dos prédios, para posterior licitação das obras. Em paralelo, também se começa a definir os equipamentos iniciais a serem adquiridos, com a descrição detalhada e posterior trabalho de licitação. Também, se passa a definir os professores a serem contratados no primeiro lote de vagas liberados, que eram em número de 20. Para a divulgação da chegada do Campus à cidade, foram realizadas visitas aos meios de comunicação, com participação em programas jornalísticos de rádio, TV e jornais impressos”.

O envolvimento, as discussões e as ações no processo constitutivo do IFSul – Campus Passo Fundo geraram o que chamamos de “movimento”, formado por muitas ações coletivas e, por isto, também impregnado pelos diferentes significados e energias. Movido pela heterogeneidade, pelas resistências e pela fragmentação, constituiu-se, assim, por grande complexidade (MELUCCI, 2005).

Dentre essa complexidade, destaco um aspecto de grande relevância, relatado pelo Prof. Flávio, no que se refere à constituição do quadro docente do Campus, caracterizado pela expectativa que permeou a realização do primeiro concurso público para docente, realizado pela instituição em Passo Fundo:

“Uma das maiores preocupações no início das atividades éramos ter docentes comprometidos com a Educação Profissional, que entendessem a proposta de levarmos qualificação a uma região que não era atendida por uma educação pública, gratuita e de qualidade, o que, com o trabalho de conscientização realizada, foi atingido de forma satisfatória. Outra preocupação era em relação a termos no corpo docente alguns membros que, além de não terem experiência docente, eram oriundos de cursos pós- graduação, mas, sem experiência profissional, o que, para a educação profissional, poderia se tornar um problema, pois não tinham aquele contato com o setor produtivo, isto foi sendo contornado ao longo do tempo, com visitas técnicas ao setor produtivo da região”.

Após a nomeação dos servidores, houve uma preocupação da equipe diretiva quanto à formação continuada dos servidores em geral, mas, em especial, dos docentes.

“Inicialmente, se realizou trabalhos de conscientização da formação docente, isto antes do início das aulas, especialmente, por se ter detectado que um bom número de docentes contratados, além de não terem formação docente, também não tinha experiência como professores. Após o início das aulas, se procurava fazer um acompanhamento dos docentes em sala de aula, identificando situações problema que pudessem estar relacionados a questões pedagógicas, e assim se fazer intervenções que melhorassem a situação. Foram definidas reuniões pedagógicas semanais”.

Nesse período e é, através das ações relatadas pelo Prof. Flávio, que inicio o meu tempo de aprendizagens, de desafios e buscas no que era para mim “um desconhecido bosque”, IFSul – Campus Passo Fundo – RS, pois foi o meu primeiro contato com essa modalidade de ensino. Esse fato me mobilizou na busca dos saberes da experiência, bem como dos acadêmicos, em uma perspectiva de ressignificar e construir um novo saber – o da docência nesse contexto, e, por meio dele, contribuir nas ações pedagógicas formativas que o Campus emergia. Esse movimento, para o Prof. Flávio, se desenvolveu através de algumas práticas que foram instituídas e passaram a fazer parte do cotidiano do Campus, porém, com características pautadas em cada tempo e determinadas pelas necessidades interativas que dele demandam.

“Acompanhamento pedagógico permanente junto aos docentes com situações problemas com alunos, sendo realizadas intervenções de cunho pedagógico. Reuniões pedagógicas semanais, onde eram debatidas questões de organização didáticas e planejamento dos cursos. As reuniões eram realizadas por curso, onde ocorriam sempre com a participação do Chefe de Ensino do Campus e da Supervisora Pedagógica. Desde o início das atividades do Campus, se tentou a implementação do Curso de Formação Pedagógica, o que só ocorreu após três anos de atividades. Ressalto novamente o apoio financeiro que a Instituição presta para os docentes realizarem cursos de pós-graduação para sua qualificação”.

Quando iniciamos as atividades no IFSul – Campus Passo Fundo, foram propostos vários momentos de reflexão, entre os quais uma dinâmica27 que possibilitou que expressássemos a concepção de escola que pretendíamos construir. Dessa forma, foi possível perceber as concepções de educação escolar que cada um trouxe, apontando elementos de diferentes culturas constitutivas, fruto de inserções sociais e construções acadêmicas. Essa diversidade de pensamentos permitiu elencarmos uma ampla lista de conceitos articuladores de diálogos pedagógicos que poderiam permear o cotidiano de nossa instituição, como:

Dinamismo, responsabilidade, pesquisa, liderança, competência, comprometimento, comunicação, integração, honestidade, sincronia, humildade, disciplina, criatividade, alegria, educação, união, construção coletiva, persistência, paciência, percepção, atenção, respeito às diferenças, iniciativa e emancipação (Diário de Campo: anotação de 02/08/2007).

Assim, visamos construir um espaço permanente de reflexão de nossas vivências e práticas, à luz de referenciais teóricos, objetivando dar sentido ao perfil traçado e, ao mesmo tempo, construir, a cada dia, uma Educação Tecnológica de qualidade, na qual se entrelaçam a competência técnica e a competência humana.

Essa construção se colocou desafiante diante de sua complexidade, eis que envolve um processo formativo que permita novas construções, possibilitando o rompimento das fronteiras entre o conhecimento técnico e o humano. Então, como responsável pela formação continuada na instituição, senti-me desafiada a construir espaços que possibilitassem a ampla reflexão sobre os processos de ensinar e apreender.

Assim, lançando o olhar nos ensinamentos de Freire (2000), encontro como caminho o conhecimento da realidade e passei a me aproximar das pessoas e de suas histórias constitutivas e, por meio delas, “reparar” em elementos que constituem as singularidades desse grupo. Queria saber, nesse trabalho, inicialmente, quem eram os nossos alunos.

Então, passei a desenvolver um processo de “entrevista diálogo” com os alunos. Após a coleta dos dados, estes eram socializados com os demais professores nas reuniões pedagógicas. Esse trabalho me permitiu perceber, de forma superficial, a diversidade humana que a sociedade tenta encobrir, com padronizações, tendo a escola como um dos mecanismos de homogeneização. Dessa forma, é possível afirmar que os primeiros estudantes do IFSul Campus Passo Fundo se caracterizavam como pessoas com trajetórias que lhes possibilitaram edificar muitos saberes no mundo da vida e que buscam na Educação Profissional novas possibilidades e novos saberes. Esses traços foram categorizadas, com o propósito de traçar um perfil de grupo, porém, sem perder o foco nas características singulares de cada uma das pessoas que constituíram o grupo. Essa diversidade pode ser configurada através de elementos, como:

 predominantemente do sexo masculino,  faixa etária entre 17 e 59 anos;

 39 %, casados com filhos e os demais, solteiros e sem filhos;

 60% residem em Passo Fundo e os demais, em cidades da região, necessitando de transporte municipal para chegar até a escola;

 82% dos alunos encontram-se empregados, dos quais 40% estão na área do curso que frequentam; 42%, em outras áreas; e 18% só estudam, e, nesta última condição, encontram-se as pessoas mais jovens;

 98% dos alunos cursaram escolas públicas.

Diante desses dados, é possível justificar a chegada do IFSul – Campus Passo Fundo, pois, para muitas pessoas, ele representa a única possibilidade de continuidade de seu processo formativo; para outros, é a possibilidade de realizar o sonho por muito tempo adiado.

Esses elementos foram articuladores a partir das reflexões que pautam todas as ações pedagógicas do Campus. A cada semestre essa configuração assume um novo perfil devido à inserção de novos alunos, mas a cultura de conhecer e respeitar a realidade dos estudantes passou a constituir a cultura do Campus.

Essas ações iniciais considero-as fundantes do processo constitutivo da docência no IFSul – Campus Passo Fundo, e essa percepção é reafirmada na narrativa do Prof. Flávio:

“Ao longo desses quase cinco anos de constituição do Campus, percebi um crescimento padronizado da qualificação dos docentes, além de um crescimento pedagógico muito interessante, certamente fruto de todo o trabalho realizado para munir os docentes de métodos e ferramentas que melhorassem suas aulas”.

Portanto, esse quadro formativo possibilitou a ampliação do Campus, tanto em aspectos físicos como estruturais, desencadeando a criação de outros cursos, bem como a inserção de Políticas de Inclusão Social lançadas pelo governo federal. Atualmente, o Campus de Passo Fundo mantém em funcionamento três cursos técnicos na modalidade subsequente nas áreas de Informática, Mecânica Industrial e Edificações e um curso Superior de Tecnologia na Área da Informática. Além desses cursos regulares, o Campus desenvolve, na forma de oferta não regular, o Curso de Especialização PROEJA, que visa a formar professores para atuar no Programa de Integração entre a Educação Profissional e a Educação de Jovens e Adultos, e nos Programas de Inclusão Social, promovidos pelo governo federal, como: PROEJA-FIC, PRONATEC e Mulheres Mil, em parceria com as prefeituras da região. Segundo informações da última matrícula28 do Campus, o número de alunos que frequenta os cursos oferecidos é de 554 alunos, sendo que o curso com maior procura é o Curso Superior de Tecnologia em Informática.

Diante da demanda, a sua estrutura física está constituído por seis prédios em funcionamento e um, em obras. Desses prédios, três se destinam a salas de aulas e laboratórios, um para os departamentos administrativos, biblioteca e ambulatório, um, para sala de professores, sala de coordenações, refeitório, cantina e laboratório do Curso de Edificações e outro prédio é utilizado como auditório para abrigar quatrocentas pessoas.

No tocante à estrutura humana, ou seja, às pessoas – professores, professoras, servidores e servidoras técnicas administrativas que constituem o Campus Passo Fundo do IFSul – somam um total de setenta e cinco pessoas, e, dentre essas, quarenta e quatro atuam na docência; e trinta e uma pessoas, nas atividades de apoio pedagógico e na gestão administrativa.

Entretanto, nem tudo se dá de forma tão tranquila e linear. No Brasil, somos acometidos por uma “cultura histórica” de rupturas e descontinuidades na educação e, em especial, nos programas que se destinam aos processos de democratização do acesso à educação. Mesmo assim, compreendo que os processos até aqui vividos podem contribuir, para melhor entender o mundo da Educação Profissional e Tecnológica, “produzindo ferramentas para analisá-lo e, assim, fazer escolhas e tomar posições, poder ajudar a compreender as relações entre essas políticas e os processos de construção real de cidadania e de democracia” (MOLL, 2000, p. 209). Também, compreendo que esse percurso é permeado por processos humanos e interativos por natureza, por isso muitas construções foram realizadas, experiências que se traduziram em aprendizagens e apontam muitas outras a serem realizadas. Há, a cada dia, um desafio e, a cada desafio, uma nova aprendizagem; assim, no entrelaçar de saberes, vão se constituindo espaços de saberes e de sujeitos em um constante ressignificar coletivo. Seguindo a mesma lógica, Moll (2000) explica que:

[...] a ressignificação da escola só pode existir por obra de todos os interessados. Certamente, não há um modelo, gestam-se no cotidiano experiências dos “novos” obscurantismos que vale a pena identificar e conhecer. A palavra dita, a insatisfação explicitada, o encontro construído entre alunos, pais educadores, trabalhadores em educação podem ser elementos que fecundam estes tempos de viver e esses espaços de educar. (MOLL, 2000, p. 22).

Resta, então, manter o “movimento constitutivo”, acreditando que é possível avançarmos rumo ao cumprimento das finalidades constitutivas do IFSul – Campus Passo Fundo, para além das descontinuidades, das institucionalizações e dos caprichos individuais dos governos.

5 AS NARRATIVAS DE VIDA TECENDO REDES DE SIGNIFICAÇÕES NA CONSTITUIÇÃO DA DOCÊNCIA

“Gente Humana é processo, exige o trabalho interativo

de autoconhecimento”. Paulo Freire (2008, p. 36).

Neste capítulo, relato as trajetórias singulares de seis professores do IFSul Campus Passo Fundo, que participam da pesquisa com as suas narrativas de vida.

Justifico a opção de tais relatos pela densidade e diversidade de elementos que apresentam, ao narrar as suas trajetórias de vida, bem como pela riqueza de experiências ressignificadas (ABRAHÃO, 2006), de fundamental importância para a pesquisa.

Então, inicio a apresentação das trajetórias de vida, fruto do que chamo de uma “conversa desarmada”, entre as pessoas da pesquisa e eu – professores e professoras do IFSul – Campus Passo Fundo – que, ao relatarem as suas vivências de infância e juventude, mergulham em lembranças em um percurso de “... idas e vindas...” (FREIRE, 1998, p. 33), expressando os seus vínculos com a história de um tempo em que lembrar significa

[...] perfilar o tempo. É trazê-lo às suas responsabilidades humanas. Trata- se de assumir o tempo como medida humana, como História. Cada um dos passos dados modifica o futuro e, simultaneamente, re-explica o passado. É postura ante o presente, não se tenha dúvida [...] (NOGUEIRA, 1993, p. 13).

Assim, o momento das entrevistas foi permeado por um espírito de gentilezas, criando uma atmosfera agradável, cheia de calor humano e confiança. Eles me confiaram recordações que os envolviam emocionalmente, às vezes, empenhando toda a sua pessoa, expressa por colocações como: “Isso eu nunca falei para ninguém”.

Mesmo assim, a construção do vínculo de confiança com a pesquisadora passou por momentos de questionamentos, como: “O que devo falar?” “O que você quer ouvir?” “Que informações serão úteis para a pesquisa?” A minha reação a

essas indagações foi a de acolhida às suas narrativas de vida, tal qual diziam de si e de suas histórias. Nesse sentido, segundo Abrahão (2006):

A narrativa (auto)biografica contém a totalidade de uma experiência de vida que é comunicada ao investigador, não sem que, no justo momento da narração, se ressignifique o (os) acontecimento (s) narrado (s). Isto porque a narrativa em pesquisa (auto)biográfica representa um momento de maior imbricação entre o personagem e o pesquisador (MOITA, 1995), em virtude de que aquele não está contando sua vida para um gravador ou relatando a um diário íntimo, mas a está re-elaborando, justo na interação que se dá entre dois sujeitos históricos (ABRAHÃO, 2006, p. 150).

Também, segundo Bosi (2003), as hesitações, os lapsos e as incertezas das testemunhas são sinais de autenticidade, no entanto o silêncio do pesquisado deveria corresponder ao silêncio do pesquisador. De maneira semelhante, Barbier (1993) faz menção à escuta sensível que supõe uma inversão da atenção: “Antes de situar uma pessoa em seu ‘lugar’, procuremos reconhecê-la em seu ser, em sua qualidade de pessoa complexa, dotada de liberdade e imaginação criadora” (BARBIER, 1993, p. 209).

Desta forma, acreditando no caráter singular dos processos constitutivos da condição humana, apresento as narrativas de vida dos professores e das professoras que participaram do presente estudo. Também, através das narrativas,

Benzer Belgeler