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C- MENKABE VE KERAMET

2- Keramet:

Pateman (1992) indica Rousseau como o teórico por excelência da participação. Sua teoria política apóia-se na participação individual de cada

cidadão no processo político de tomada de decisões, e a participação é bem

mais do que um complemento protetor de uma série de arranjos institucionais: ela também produz um efeito psicológico sobre os que participam, garantindo uma inter-relação contínua entre o funcionamento das instituições e as qualidades e atitudes psicológicas dos indivíduos que interagem dentro delas.

É o destaque desse aspecto da participação e sua posição no interior de suas teorias que constituem a contribuição distintiva dos teóricos da democracia participativa para a teoria democrática como um todo. “Embora Rousseau tenha escrito antes do desenvolvimento das instituições modernas da democracia é em sua teoria que se podem encontrar as hipóteses básicas a respeito da função da participação de um Estado democrático”. (PATEMAN, 1992, p.35)

Rousseau afirmava que certas condições econômicas eram necessárias para um sistema participativo. Ele almejava uma sociedade formada por pequenos proprietários camponeses na qual houvesse igualdade e

seu interior, mas que as diferenças existentes não deveriam voltar-se à

desigualdade política. Em termos ideais,

deveria existir uma situação em que nenhum cidadão fosse rico o bastante para comprar o outro e em que ‘nenhum fosse tão pobre que tivesse que se vender’; e a exigência vital seria a de que todo homem possuísse alguma propriedade, o mais sagrado dos direitos do cidadão, pois a segurança e independência que ela confere ao indivíduo constituem a base necessária sobre a qual repousam sua igualdade e sua independência políticas. Se existissem tais condições, os cidadãos poderiam agrupar-se enquanto indivíduos iguais e independentes. (PATEMAN, 1992, p.36)

A relação de interdependência, segundo a autora, era defendida por Rousseau, visando a preservação da igualdade e da independência. Como ocorreria a participação na prática? Haveria a vivência dos seguintes procedimentos:

a) cada cidadão seria impotente de realizar qualquer coisa sem a cooperação dos outros, ou da maioria;

b) cada cidadão dependeria excessivamente da polis. Isso significa que, haveria uma dependência igual por parte de cada indivíduo em relação a todos os outros, vistos coletivamente;

c) a interação de todos seria reforçada pelo mecanismo da participação independente.

Na leitura do Contrato social de Rousseau pode-se encontrar a idéia de que as leis - e não os homens - devem governar, mas uma formulação ainda melhor do papel da participação é a de que “os homens devem ser governados pela lógica da operação da situação política que eles mesmos criaram, e que essa situação (...) impossibilita ‘automaticamente’ a existência de governantes individuais”. (PATEMAN, 1992, p. 36)

Isso ocorre porque os cidadãos são iguais mais independentes, ou seja, não dependem de ninguém para votar ou opinar, de modo que na assembléia política nenhum cidadão precisa votar a favor de qualquer política que não seja de seu interesse ou do interesse dos outros. Em outros termos, a única política a ser aceita por todos é aquela em que os benefícios e encargos são igualmente compartilhados; o processo de participação assegura que a igualdade política seja efetivada nas assembléias em que as decisões são tomadas.

O principal resultado político é que a vontade geral é, tautologicamente, sempre justa (afeta a todos de modo igual), de forma que os direitos e interesses individuais são protegidos, ao mesmo tempo que se cumpre o interesse público. A lei emergiu do processo participatório, e é a lei, e não os homens, que governa as ações individuais. (PATEMAN, 1992, p.37, grifo da autora)

De acordo com Pateman (1992), Rosseau considerava que a situação ideal para a tomada de decisões seria a que não contasse com a presença de grupos organizados, somente indivíduos, pois os grupos poderiam exigir o cumprimento da vontade de cada um deles, vontades particulares. Essa observação a respeito de grupos resulta daquilo que Rousseau afirma acerca da operação do processo participatório. Em sua análise, as associações tácitas ocorreriam de qualquer modo, isto é, indivíduos não organizados estariam unidos por alguns interesses comuns, mas seria muito difícil que tais associações tácitas conseguissem apoio para políticas que as favorecessem, especialmente devido à própria forma como se dá a participação. Se fosse impossível evitar as associações organizadas dentro das comunidades, estas deveriam ser tão numerosas e de poder político tão igual quanto possível. Em outras palavras, a situação participativa dos indivíduos se reproduziria com os grupos, e ninguém poderia levar vantagem sobre os outros. Conforme a autora, Rousseau não detalha a estrutura interna de autoridade desses grupos, no entanto, sua análise básica do processo participativo pode ser aplicada a qualquer grupo ou associação.

Pateman (1992) chama a atenção para a análise da operação do sistema participativo de Rousseau e destaca dois aspectos: a participação se realiza na tomada de decisões; a participação depende da ordem social que afeta a personalidade humana. A principal variável é saber se a instituição é ou não participativa, pois a função central da participação é educativa, educação em seu sentido mais amplo.

A autora destaca que o sistema ideal de Rousseau é projetado para gerar uma ação responsável, individual, social e política como resultado do processo participativo. No decorrer desse processo, o indivíduo aprende que a palavra “cada” aplica-se a ele mesmo: ele tem que levar em consideração assuntos bem mais abrangentes do que os seus próprios e imediatos interesses privados, caso queira a cooperação dos outros; ele aprende que o interesse público e o privado encontram-se ligados. A lógica de operação do sistema participativo é tal que o

indivíduo vê-se forçado a decidir em consonância com o seu senso de justiça, pois seus concidadãos podem sempre resistir à implementação de demandas não-equitativas. Como resultado de sua participação na tomada de decisões, o indivíduo é ensinado a distinguir entre seus próprios impulsos e desejos, aprendendo a ser tanto um cidadão público quanto privado.

Pateman (1992) refere que Rousseau acredita que por meio do processo de aprendizagem o indivíduo acaba por não sentir quase nenhum conflito entre as exigências das esferas pública e privada. Após fixado o sistema participativo, este se torna auto-suficiente porque as qualidades que deve caracterizar o cidadão, para que o sistema progrida, são as mesmas que o processo de participação estimula. “Quanto mais o cidadão participa mais ele se torna capacitado para fazê-lo, primeira função da participação. Os resultados humanos obtidos no processo de participação fornecem uma importante justificativa para um sistema participativo”. (PATEMAN, 1992, p. 39)

Um outro ponto importante da teoria de Rousseau acentuado por Pateman (1992) é a profunda associação entre participação e controle, e isto se vincula à noção de liberdade do autor, e o uso deste último conceito está associado ao processo de participação. Tanto a sensação de liberdade do indivíduo quanto sua liberdade efetiva aumentam por meio de sua participação na tomada de decisões, porque tal participação dá a ele um grau bem real de controle sobre o curso de sua vida e sobre a estrutura do meio em que vive. Caso se imponha um sistema indireto, a liberdade exigiria que o indivíduo exercesse uma boa dose de controle sobre os que executam as leis e sobre os representantes.

O processo participatório garante que, mesmo que nenhum homem ou grupo seja senhor de um outro, todos são igualmente dependentes entre si e igualmente sujeitos à lei. O domínio (impessoal) da lei, que se torna possível através da participação, e sua conexão com o fato de ser próprio senhor garante mais um sinal de que os indivíduos irão aceitar conscientemente uma lei resultante de um processo participatório de tomada de decisões. Assim, a segunda função da participação na teoria de Rousseau é que ela possibilita “que as decisões coletivas sejam aceitas mais facilmente pelo indivíduo”. (PATEMAN, 1992, p.41)

A terceira função da participação é de integração, que é conseqüência do que se mencionou anteriormente a respeito de Rousseau. Ela produz a sensação de que cada cidadão isolado “pertence” a sua comunidade. No entanto,

mais importante é a experiência da participação na própria tomada de decisões, e a complexa totalidade de resultados a que parece conduzir, tanto para o indivíduo quanto para o sistema político como um todo; tal experiência integra o indivíduo a sua sociedade e constitui o instrumental para transformá-la numa verdadeira comunidade. (PATEMAN, 1992, p. 42)

Pateman (1992) declara que a análise da teoria política de Rousseau lhe possibilita argumentar que há uma relação mútua entre as estruturas de autoridade das instituições e as qualidades e atitudes psicológicas dos indivíduos e, ainda, que a principal função da participação tem qualidades educativas. Esse conjunto de proposições constituem o fundamento da teoria da democracia participativa, que se tornará clara a partir da discussão das teorias de J.S.Mill e Cole.

Benzer Belgeler