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Seja o modelo da vaquinha virtual ou o de recompensas – e mesmo os que aqui deixamos de lado, equity crowdfunding e loan-based – há um círculo relacional entre três vértices principais que faz com que o processo se efetive. Fazem parte do que aqui chamaremos de “tríade relacional” os colaboradores, os proponentes e as plataformas. Ainda que haja de fato uma separação formal entre os três vértices, é importante ressaltar a interdependência da tríade. O projeto só é bem sucedido para todos quando todos, colaborativamente, trabalham em prol do sucesso deste. Se o Catarse ou o Vakinha agem como aproximadores, eles são também dependentes do sucesso desta aproximação. Como na acepção de dispositivo midiático de Antunes e Vaz (2006), a tríade é também um halo, um aro e um elo, na medida em que, mesmo se destacando um ou outro vértice, os outros estão sempre em relação, sempre presentes no jogo das interações e mutuamente implicados. 34 http://www.crowdsourcing.org/ 35 http://www.rockethub.com/ 36 http://www.gofundme.com/ 37 http://br.ulule.com/

Os três vértices vão atuar de formas distintas na composição do projeto, com funções bem específicas. A plataforma é o dispositivo técnico responsável por sediar a ação e mediar a relação entre proponente e apoiador. O proponente é quem vai por em prática sua estratégia para que o projeto seja bem sucedido e os colaboradores são os responsáveis diretos pela realização – mas só o farão se plataforma e proponente cumprirem bem o seu papel. Estudar a mobilização online em projetos de crowdfunding é, além de um exercício de mapeamento do ciberespaço que nos permita entender por onde caminham os ciberseres e o que estes terrenos significam, compreender a função de cada vértice dentro do processo mobilizador. Quem convoca os apoiadores? Como convoca? Qual o papel da plataforma, palco das interações, no processo? O que motiva o apoio aos projetos? Acreditamos que para responder a estas perguntas se faz necessário aprofundar descritiva e analiticamente estes três vértices.

a) Os proponentes

Os proponentes são aqueles que criam seus projetos e buscam na multidão de ciberseres o apoio para que ele aconteça. Ele se relaciona com a plataforma, pois se inscreve nela e está submetido às suas limitações arquitetônicas e burocráticas, a suas regras de uso e normas de trabalho. Portanto, seu planejamento estratégico prévio passa, inclusive, pela escolha de qual plataforma hospedará seu projeto, qual atenderá melhor a seus fins. Como mencionamos anteriormente, projetos para o modelo da vaquinha virtual e para o modelo de recompensas são bastante distintos – o que não impediu o surgimento de projetos com recompensa no Vakinha.com, como foi o caso da banda de thrash metal paulista, Nervosa38. Sem entender plenamente o processo e a função das plataformas, a banda recorreu à vaquinha virtual para gravar seu EP, prometendo-o como recompensa aos seus seguidores, mas utilizando uma plataforma cuja arquitetura não favorece esse tipo de participação e engajamento dos sujeitos. O projeto foi um fracasso, tendo como objetivo arrecadar R$ 1.740 e tendo conseguido apenas R$ 382,00.

Dentro da diversidade de opções de modelos de recompensa, também se torna uma tarefa difícil e fundamental escolher bem em qual plataforma depositar seu projeto. Suponhamos um projeto cujo objetivo é criar um fundo de reserva para apoio a animais

abandonados, com comida e remédios, por uma ONG relacionada a esta causa. É possível que a ONG possa oferecer recompensas de cunho mais simbólico do que material, como adesivos no estilo “amo os animais”, fotos dos animais ajudados, agradecimentos em vídeo ou no site etc. Seria um bom projeto para o Catarse? Talvez sim, pois se adéqua às normas de uso. Mas certamente teria mais chances de sucesso se fosse hospedado em uma plataforma especializada como o Bicharia. Por ser um lugar acessado por aqueles que já têm propensão a ajudar causas ambientais e animais, aumenta-se a possibilidade de conseguir colaboradores, ao mesmo tempo em que a plataforma, por ser especializada, pode oferecer visibilidade a parceiros interessantes, como empresas de ração, pet shops etc. Portanto, uma das principais tarefas do proponente é escolher cuidadosamente o lugar em que vai colocar seu projeto, pois como disse Tuan (1983) os lugares são dotados de valor, e estes precisam estar em consonância com os valores do proponente e dos potenciais colaboradores. Cada passo do proponente pode influenciar a participação dos colaboradores. Suas ações terão impacto em seu capital social, afetando sua reputação - que na web deixam rastros, basta buscar o nome do proponente no Google e puxamos uma ficha de sua vida e ações online e, por vezes, offline. (BOTSMAN; ROGERS, 2010)

O processo de mobilização dos apoiadores, de sua convocação a participar e apoiar o projeto é, sem dúvidas, a parte mais penosa do processo de crowdfunding – e por isso também se tornou nosso interesse de pesquisa. Para Al-Tayar, “uma campanha de

crowdfunding de sucesso requer também o engajamento constante com os colaboradores e

potenciais colaboradores. O proponente deve responder às questões clara e prontamente, responder aos comentários e satisfazer os usuários se engajando constantemente com estes”39 (AL-TAYAR,2011. Tradução nossa). Cabe ao proponente estabelecer o diálogo com os colaboradores, criando textos e vídeos que expliquem bem sua ideia, seu projeto e o que será feito com o valor arrecadado. A escolha de quais e quantas serão as recompensas deve ser bem pensada, visando agradar tanto quem pode doar um valor pequeno quanto aqueles mais empolgados que queiram ajudar substancialmente. Um número excessivo de opções pode ser bom por um lado, ampliando o leque de escolhas dos colaboradores, mas, por outro lado, poucas e exclusivas recompensas podem angariar mais rapidamente a participação (AL-TAYAR, 2011). Podemos dizer que o proponente deve

39 a successful CF campaign also requires a constant engagement with backers and potential backers. One must answer questions clearly and promptly, reply to comments and satisfy constantly engaging with users.

trabalhar estrategicamente – pensando com cuidado cada passo – e taticamente, aproveitando as brechas e oportunidades que o ciberespaço cria, por exemplo, se apropriando de memes40 para ajudar na divulgação do projeto e das conexões fáceis entre

os diversos sites de rede social.

b) Os colaboradores

Já dizia o poeta cancioneiro Raul Seixas, “sonho que se sonha só/é só um sonho que se sonha só/mas sonho que se sonha junto é realidade”. De nada adianta propor um projeto e ter uma plataforma para disponibilizá-lo sem que venham também os apoiadores. São certamente o vértice fundamental da tríade, os responsáveis diretos pelo sucesso de uma empreitada, pela realização do sonho do proponente, assumindo uma dupla posição de consumidor-produtor, tendo papel ativo no processo de financiamento. Alcançar seu apoio é uma tarefa complicada, como vimos ao tratar do papel do proponente.

Os colaboradores podem agir de diversas formas em prol do projeto, na medida em que se sintam engajados e motivados a fazê-lo. Mais do que a doação aos projetos, é interessante para proponente e plataforma que os colaboradores também se tornem divulgadores deste. Alguns dados interessantes sobre a participação dos colaboradores está no balanço de 2012 do Kickstarter. Tais dados podem nos dar alguma perspectiva da força do fenômeno pelo mundo. De 2011 para 2012, houve um crescimento de 134% no número de apoiadores, superando a barreira dos dois milhões. Destes, mais de 500 mil apoiaram mais de um projeto, enquanto mais de 50 mil apoiaram 10 ou mais projetos. Incrivelmente, 452 pessoas deram sua contribuição para 100 ou mais projetos, tornando-se verdadeiros “crowdfunders”, que parecem aderir não só a um projeto mas sim à própria prática de financiamento coletivo. Os colaboradores do Kickstarter também saíram do local para o global, com apoiadores presentes em 177 países diferentes. Em estudo sobre a geografia do

crowdfunding, que corrobora estes dados do Kickstarter, Agrawal et al. concluem que “os

40 Os memes que aqui nos referimos são pequenas manifestações culturais, carregadas em geral de um tom humoristico, de criação dos próprios internautas. Os memes podem se originar em gafes cometidas por celebridades ou por anônimos, na adoção de determinados termos por grupos influentes na rede ou ainda serem criações originais e criativas, como os quadrinhos de “ragecomics”. O termo original é de Richard Dawkins (1976) e indica uma espécie de gene cultural que se difunde na sociedade pela imitação e transferência, tal qual os genes. Os memes da web, assim como o meme de Dawkins, tem uma capacidade de viralização, de se espalhar pelas redes e se tornar parte dos modos de fazer particulares da cibercultura.

padrões de investimento ao longo do tempo são independentes da distância geográfica entre o empreendedor e o investidor após o controle da rede social offline do empreendedor”41 (AGRAWAL et al., 2010, tradução nossa). Como analisaremos neste trabalho projetos da plataforma brasileira Catarse, guardaremos para a análise os dados referentes aos processos aqui. Contudo, ainda que em menor escala, podemos perceber que há também um crescimento do interesse pelo crowdfunding no Brasil por parte dos públicos.

c) A Plataforma

A plataforma é o vértice de suporte, cujo serviço é “contratado” pelo proponente e cabe a ela fornecer o suporte tecnológico para o projeto. Mas é a plataforma quem estabelece as regras do jogo, o que é permitido e proibido, o que fere os princípios do

crowdfunding e como se dará o processo de apoio. O Catarse, por exemplo, deixa claro em

suas normas de uso que parte do dinheiro arrecadado (7,5%) vai para o site, que as recompensas não podem ser financeiras (dinheiro em troca de dinheiro), mas podem ser tanto produtos quanto experiências – ou mesmo um simples “muito obrigado”. Particularmente interessante para compreendermos as relações entre a tríade é este trecho do termo de uso do Catarse:

O CATARSE apenas aproxima CRIADORES DE PROJETOS e APOIADORES. A utilização do CATARSE não gera relação de trabalho, vínculo empregatício, associação nem sociedade entre os usuários e o CATARSE, nem tampouco representa transação comercial ou venda de produtos ou serviços. (CATARSE, Termos de Uso. 201142)

Botsman e Rogers (2010) chamam de middleman, “ator entre outros dois atores”43 (BOTSMAN; ROGERS, 2010, p.96, tradução nossa), o que seriam, em modelos tradicionais de consumo, representados pelas lojas que revendem os produtos. De certa forma, então, a plataforma exerce esse papel de intermediário entre proponente e

39 We find that investment patterns over time are independent of geographic distance between entrepreneur and investor after controlling for the entrepreneur's offline social network

42 Disponível em: http://suporte.catarse.me/knowledgebase/articles/161100-termos-de-uso 43 actor in between two other actors

colaborador, porém não da mesma forma que as Lojas Americanas são o middleman entre um sujeito e uma toalha. Numa prática como o financiamento coletivo, o intermediário tem um novo papel de “criar o ambiente e as ferramentas corretas para a construção de familiaridade e confiança, um terreno no qual o comércio e a comunidade se encontram”44 (BOTSMAN; ROGERS, 2010, p.97). A plataforma é, portanto, o dispositivo midiático, aro, halo e elo, que estabelece o terreno para a relação entre a tríade, serve como ponto de interlocução e estabelece os contratos que vão reger estas interações.

Benzer Belgeler