SOCIAL SUSTAINABILITY WITHIN THE URBAN REGENERATION PROJECTS: BELEDİYE EVLERİ NEIGHBORHOOD CASE
2. KENTSEL DÖNÜŞÜM PROJELERİNDE SOSYAL SÜRDÜRÜLEBİLİRLİK
O fato do MST, um movimento de origem camponesa, de base também majoritariamente camponesa, embora cada vez mais diversificada com a presença de trabalhadores de origem urbana e jovens de classe média, ter se constituído como referência de luta política para a esquerda nacional e internacional é um feito de relevância científica e política. A grande maioria dos autores clássicos que buscaram pensar teoria e prática revolucionária, desde Marx e Engels, passando pelos clássicos do século XX, Lênin, Gramsci, Lukács, defende a tese de que o proletariado, o operário, reúne as condições objetivas necessárias, o potencial para a superação da sociedade de classes. A inevitabilidade histórica desse processo está na concretude desse potencial, no movimento dialético de autoconsciência do proletariado na mútua determinação entre o ser e a consciência social acerca do antagonismo estrutural entre capital e trabalho. Conforme a formulação de Lênin (1978b, p. 31):
Em virtude do seu papel econômico na grande produção, só o proletariado é capaz de ser o guia de todos os trabalhadores e de todas as massas que, embora tão exploradas, escravizadas e esmagadas quanto ele, e mesmo mais do que ele, não são aptas para lutar independentemente por sua emancipação.
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Ainda que, muitas vezes de forma dogmática e doutrinária, como ocorreu repetidamente durante o século XX pelas determinações do Partido Comunista soviético, sobretudo a partir da Segunda Internacional, essa tese vigora porque tem fundamento científico e político, o que embasa a argumentação de Lênin. Uma contradição desta tese clássica, quando vista como doutrina, é que cada avanço de modernização capitalista guardava a possibilidade de sua autodestruição, pensamento reflexo de um materialismo mecanicista, ao custo de desigualdades, impactos sociais e ambientais inestimáveis. O desenvolvimento das forças produtivas sempre ocorre em conflito com as relações de produção, limitando, boicotando ou modificando esse desenvolvimento para manutenção do seu equilíbrio desigual.
Na produção material da sua existência, a objetivação camponesa no trabalho, na linguagem, condiciona os camponeses ao isolamento. Como vimos, indivíduos isolados, ou precisamente unidades produtivas baseadas em núcleos familiares, como é o caso mais comum do campesinato, só se tornam classe quando tem que enfrentar uma luta comum. A aliança da classe camponesa que assistimos nesse século é fruto de condições históricas e econômicas da espacialização do capital entrando em choque com interesses e projetos campesinos sobre o território natural, a base da sua reprodução social. Como veremos no próximo capítulo, a emergência da força política dos camponeses e do MST se dá fundamentalmente com os processos históricos e materiais de aproximação entre campo e cidade, pela modernização capitalista e pelas lutas políticas dos camponeses, principalmente do MST, no espaço, arte, cultura, comunicação e educação. Essas condições permitem paulatinamente a superação do isolamento camponês. Ainda assim, a rigor, não poderíamos falar de uma consciência de classe camponesa. É a condição de subordinação estrutural do trabalho ao capital na sociedade de mercadoria o que constitui a essência do conceito de consciência de classe e da teoria de classes. Desse modo, “o interesse de classe do proletariado é definido em termos de mudança dessa subordinação estrutural (MÉSZÁROS, 1993, p. 92)”.
Na acepção marxista clássica, somente a burguesia e o proletariado são essencialmente classes da sociedade, porque somente essas classes possuem no processo moderno de produção, pelas suas condições de existência, condições para empreenderem planos de organização e desenvolvimento que abarquem o conjunto da sociedade.
O caráter incerto ou estéril da evolução da atitude das outras classes (pequenos-burgueses, camponeses) assenta no fato de a sua existência não se basear exclusivamente no processo de produção capitalista, mas estar indissoluvelmente ligada a vestígios da sociedade dividida em estados. Elas não procuram, portanto, promover a evolução capitalista ou fazê-la ir além
de si própria mas, em geral, fazê-la retroceder ou, pelo menos, impedi-la de chegar ao seu pleno desenvolvimento. O seu interesse de classe orienta-se somente em função de sintomas de evolução e não da própria evolução, em função de manifestações parciais da sociedade e não da estrutura de conjunto da sociedade. (LUKÁCS, 1974, p. 74).
Assim, somente o proletariado, pela sua condição de classe na estrutura social, totalmente expropriado e explorado, reuniria condições, materiais e ideológicas, para construir a unidade entre teoria e práxis revolucionária, opondo-se diametralmente à burguesia na luta de classes. Marx afirma, no Manifesto Comunista, que somente “o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária” (MARX, 1987, p. 85). E o que denomina como classes médias – pequenos comerciantes, pequenos fabricantes, artesãos -, categoria que inclui os camponeses, não são classes revolucionárias, mas conservadoras, reacionárias, que somente combatem a burguesia quando esta compromete sua existência como classe média (ibidem, p. 86). Ainda no Manifesto Comunista, em momento anterior, ao desenvolver o raciocínio sobre o papel revolucionário da burguesia - sua tendência de exploração de todo o mercado mundial, o caráter cosmopolita da produção e do consumo, a exigência para que todos os povos e nações adotem o modo de produção burguês -, Marx aborda um aspecto positivo na submissão do campo ao domínio da cidade. Para o autor, com a criação dos grandes centros urbanos, o crescente aumento da população das cidades com relação ao campo, esta “arrancou uma grande parte da população do embrutecimento da vida rural” (ibidem, p. 80).
Lukács desenvolve argumento sobre a pequena burguesia e os camponeses e afirma que a ausência de ligação com a totalidade da sociedade pode exercer influência sobre a capacidade da classe se organizar. E é na evolução dos camponeses que se pode observar com maior clareza esse fenômeno. Na análise de Lukács, a partir de Marx, os camponeses formam uma massa cujos membros compartilham da mesma situação social, porém não se socializam uns com os outros. No modo de produção da vida camponesa, cada unidade produtiva se isola, havendo maior troca com a natureza do que comércio em sociedade. Assim, o caráter de classe dos camponeses está ligado ao fato de haver milhões de famílias em condições análogas, com relação à economia, modo de vida, interesses, cultura, diferenciando-os de outras classes e se tornando inimigos em alguns momentos históricos. Contudo, reduzidos a uma ligação local, sem vínculo nacional e organização política. Podendo, conforme o momento histórico e as relações das classes em luta, assumir posições progressistas ou reacionárias (LUKÁCS, 1974, p. 75).
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O denominador comum dessas análises é a limitação do potencial revolucionário dos camponeses diante dos condicionamentos objetivos e históricos da sua condição de classe. Entretanto, como nos ensina a dialética marxista, precisamos entender os fenômenos a partir da movimentação concreta e das contradições do real historicamente colocadas. Vínculo nacional e organização política, por exemplo, são pontos nos quais o MST se tornou referência nesses 30 anos de luta, por isso torna-se necessário rever esses conceitos à luz dos problemas históricos e concretos.
A história do século XX apresenta diversos exemplos da participação camponesa, em alguns casos como agente principal, em lutas populares e processos revolucionários. Williams (2011, p. 494) destaca que, durante o século XX, as principais fontes de revolta constante foram as populações exploradas rurais e coloniais, na era de lutas pela libertação nacional e social. Relata que a Revolução Chinesa saiu-se vitoriosa, depois que derrotada nas cidades e reorganizada no campo, e que a Revolução Cubana se fortaleceu indo da cidade para o campo. Na América Latina há outros exemplos também, como a revolução camponesa mexicana pela reforma agrária no início do século XX, com os zapatistas, as lutas na Nicarágua e El Salvador, com os sandinistas, e as diversas lutas no Brasil, desde o início da República, como a Guerra de Canudos, Guerra de Contestado e a Revolta do Formoso. Martins salienta que a Guerra do Contestado foi “a maior guerra popular da história contemporânea do Brasil”, guerra camponesa que aconteceu no sul do país, nas regiões do Paraná e Santa Catarina, entre 1912 e 1916. Na Revolta do Formoso, no Estado de Goiás, por mais de uma década, nos anos 1950 e 1960, os camponeses implantaram um território livre no centro do país (MARTINS, 1990, pp. 26-27). Williams (2011, p. 494), em 1973, conclui sua crítica à supremacia teórica e política da cidade e do operário, com principal alvo no Manifesto Comunista: “assim os „idiotas rurais‟ e os „bárbaros e semibárbaros‟ vêm sendo, há quarenta anos, a principal força revolucionária do mundo”. A próxima seção expõe os principais debates sobre conceitos e alterações das relações entre campo e cidade a partir de autores vinculados com a área da geografia.