Murat ISSI
C. Âmid-i Sevda (1909)
O ponto de partida para situar historicamente e politicamente a luta do MST pela hegemonia é entender o lugar do movimento social no processo de hegemonia, suas características e níveis de luta. Pode até haver equivalência nos objetivos, mas a luta do movimento social é diferente da luta do partido político. No conceito de hegemonia de Lênin, também no conceito de Gramsci, e na perspectiva de totalidade de Lukács, o Partido Comunista é o grande responsável pela organização e formação política, pela construção da unidade entre teoria e prática revolucionária. Como sabemos, na experiência do chamado “socialismo real” russo, liderado pelo Partido Comunista, o método científico dialético marxiano deu lugar ao stalinismo, à rigidez, ao controle e à burocratização do Estado, o que destoava completamente da perspectiva marxiana.
Ora, essa forma de sociedade destoava radicalmente da concepção marxiana que entendia o comunismo como o fim do poder político e dos antagonismos no interior da sociedade civil. Trata-se, em verdade, de uma completa inversão: o Estado, em vez de desaparecer gradualmente para dar lugar à plena expansão da sociedade civil, hipertrofiou-se e sobrepôs-se a tudo e a todos (FREDERICO, 1994, pp. 29-30).
Gramsci utilizou pela primeira vez o termo hegemonia no texto “Notas sobre a questão do Sul”, em 1920, ainda na primeira fase da sua produção intelectual e política. Nessa
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primeira fase, dos escritos políticos, Gramsci escreve textos mais datados e menos sistemáticos, ligados a sua atuação como jornalista político. A fase madura dos escritos de Gramsci tem início em 1929, três anos após sua prisão, quando começa a escrever os “Cadernos do Cárcere”. Na primeira aparição do termo hegemonia, Gramsci faz uso parecido com o de Lênin na sua formulação original, mas ao invés de enfatizar a liderança do proletariado sobre os camponeses, defende que, para o proletariado italiano se tornar dirigente na luta socialista, deve criar um “sistema de alianças” com a classe trabalhadora, referindo-se principalmente ao consentimento dos camponeses (HALL, 2008, p. 295). Stuart Hall diz que nos últimos escritos, Gramsci expandiu e aprofundou a concepção de hegemonia ligada eminentemente à “aliança de classe” (ibidem, 2008, p. 295).
Com a ampliação do conceito, hegemonia se torna um amplo e complexo processo político, pedagógico e comunicacional de construção e manutenção do poder, nacional e internacional, que envolve o consentimento e o conjunto de todas as classes sociais, instituições da sociedade civil e o Estado, em equilíbrio historicamente conjuntural, com possíveis instabilidades, estruturado na base econômica e na direção moral, intelectual, política e cultural da maioria dos cidadãos. A esse conjunto de equilíbrio do poder entre base e superestrutura, forças materiais e ideológicas, Gramsci dá o nome de “bloco histórico” ou “bloco de poder”. Essa superestrutura não se realiza e se expressa somente como ideologia, há diferentes níveis – jurídico, artístico, científico - com suas especificidades, forma, conteúdo e potencialidades históricas de “ação reflexa”, o que na dialética marxiana aparece como
Wechselwirkung, ou seja, a ação de “retorno da superestrutura sobre o que supostamente a determina ou o que, na teoria sistêmica, se descreve como retroação” (SODRÉ, 2014, p. 11). Enquanto que ideologia é o modo pelo qual os homens adquirem e expressam a consciência sobre o que são e como se situam com relação às forças produtivas e relações de produção, ou seja, como classe na luta de classes. Para Gramsci, a ciência também é uma categoria histórica e, entre os níveis da superestrutura, o que possui particular potencial de ação reflexa: “no estudo das superestruturas a ciência ocupa um lugar privilegiado, pelo fato de que a sua reação sobre a estrutura tem um caráter particular, de maior extensão e continuidade de desenvolvimento...” (GRAMSCI, 1966, p. 71). Por isso, a formação de novos intelectuais orgânicos, oriundos das camadas populares, é prática central na luta pela hegemonia política, pela conquista do dirigismo político-ideológico, para a transformação histórica e constituição de novo bloco de poder.
O modo de ser do novo intelectual não pode mais consistir na eloquência, motor exterior e momentâneo dos afetos e das paixões, mas num imiscuir-se ativamente na vida prática, como construtor, organizador, “persuasor permanente”, já que não apenas orador puro – e superior, todavia, ao espírito matemático abstrato, eleva-se à técnica-ciência e à concepção humanista histórica, sem a qual se permanece “especialista” e não se chega a “dirigente” (especialista mais político). (GRAMSCI, 1968, p. 8).
Para o filósofo italiano, o que muda realmente o panorama ideológico de uma época, o caminho à transformação ética e política para conquista do poder, é a elevação intelectual de camadas populares cada vez mais vastas (GRAMSCI, 1966, p. 27). Esse processo de luta contínua pela conquista do poder, entre hegemonias políticas conflitantes, no campo ético, ideológico, filosófico e político, é denominado por Gramsci como “guerra de posições”. Em sociedades do “Ocidente”, o que para Gramsci significa países em que a sociedade civil e suas instituições, bem como a relação com o Estado, são avançados e bem estruturados historicamente, a revolução se desenvolve em etapas, em “guerra de posições”. Diferentemente da Rússia pré-revolucionária, sociedade do “Oriente”, com “sua sociedade civil relativamente subdesenvolvida e seu baixo nível de desenvolvimento capitalista”, onde se deu, talvez, a última “guerra de manobras” para a revolução socialista (HALL, 2008, p. 298). Na guerra de posições, as superestruturas da sociedade civil são as trincheiras das guerras modernas (HALL, 2003, p. 298) e os intelectuais são os “funcionários” do conjunto das superestruturas (GRAMSCI, 1968, p. 10).
Com as contribuições de Gramsci, podemos perceber que em sociedades democraticamente avançadas as lutas entre projetos de classe envolvem blocos de poder, o que pressupõe disputas entre alianças de classe, ou seja, tendo o socialismo como horizonte social, é a classe trabalhadora contra o bloco de poder hegemônico. Thompson alerta-nos sobre o caráter polissêmico do termo “classes trabalhadoras” (THOMPSON, 1987b, p. 16). De fato, mesmo entre os trabalhadores do campo, como já mencionamos, há inúmeras categorias que vivem, socializam-se, são exploradas, expropriadas, identificam seus opressores e se identificam como classe de formas distintas. Por isso a preocupação do MST, expressa na definição dos objetivos gerais14do Movimento, no 1º Encontro Nacional em 1984, de “integrar à categoria dos sem-terra: trabalhadores rurais, arrendatários, meeiros, pequenos proprietários etc.”. Preocupação cultural, semântica e política que denota o objetivo de construir a unidade de classe entre os trabalhadores rurais em torno da identidade sem-terra. O
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que faz crescer a identidade de classe entre os trabalhadores do campo, neste novo milênio, é a identificação do agronegócio como principal inimigo a ser combatido. Na cidade, também há inúmeras categorias de trabalhadores com lutas diferenciadas, todavia, sua unidade de classe está ligada pela mesma posição que ocupam nas relações de produção. A mediação central é o trabalho, o que, por razões objetivas e subjetivas diversas, não se reflete nesse momento histórico em consciência e luta política para a maioria da classe trabalhadora. Quando Thompson (1987a, 1987b, 1987c) analisa a formação da classe operária inglesa, entre 1790 e 1830, explica que se trata de um processo econômico, político e cultural. Juntamente às inovações técnicas da Revolução Industrial, há um processo de identificação dos diversos grupos de trabalhadores contra os interesses de outras classes, o desenvolvimento do trabalho intelectual, a educação e autoeducação política, diversos esforços de comunicação com uso de jornais, panfletos, cartuns, marchas e, desde 1832, a consolidação da organização política por meio de instituições da classe operária: sindicatos, sociedades de auxílio mútuo, movimentos religiosos, educativos e periódicos.
O MST entende que a aliança de classe com os trabalhadores da cidade é fundamental para colocar em marcha a Reforma Agrária Popular. O que demanda a construção da consciência política, a ciência de fazer parte de força hegemônica, o que exige mediações políticas. E neste momento histórico há imensa fragmentação entre as organizações e movimentos populares. O descenso da luta de massas vem desde o final da década de 1980, com a queda do Muro de Berlim e, nacionalmente, com a derrota de Lula e PT nas eleições para presidente do Brasil em 1989 e o recrudescimento do neoliberalismo no país. O descenso intensificou-se na década de 1990 e evoluiu ainda mais neste novo milênio. Tanto que, na segunda metade da década de 1990, o MST, movimento social que é o principal representante dos trabalhadores rurais, uma categoria minoritária da classe trabalhadora, os camponeses, tornou-se referência e assumiu a hegemonia das lutas de esquerda. A projeção nacional do MST como força política é resultado da luta do Movimento, do apoio da sociedade e da contínua perseguição e massacre que sofreram pelas mãos dos latifundiários e do Estado. Os massacres de Corumbiara, sul de Rondônia, ocorrido no dia 09 de agosto de 1995, que resultou na morte de nove Sem Terra e dois policiais e, principalmente, o massacre de Eldorado dos Carajás, no dia 17 de abril de 1996, quando 19 Sem Terra foram mortos por policiais, fizeram com que o MST ganhasse a solidariedade e apoio da opinião pública internacional. Em 1997, com a marcha a Brasília, quando cinco mil Sem Terra apoiados por 95 mil pessoas chegam ao Distrito Federal, juntamente ao Projeto Terra, livro com fotos de
Sebastião Salgado, textos de José Saramago, poesias de Chico Buarque, CD com letras e músicas também de Chico Buarque, a imagem e força política do MST se fortaleceram ainda mais.
O MST entende que assumiu uma lacuna na oposição ao neoliberalismo e ao governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Teve que encampar um projeto, mesmo que ainda não estivesse pronto. Com a responsabilidade de dialogar com a sociedade, que havia depositado confiança no Movimento, e as violentas críticas que passou a sofrer da mídia burguesa e do Estado, do bloco de poder, teve que intensificar a organização política, profissionalizar e fortalecer a comunicação. Ironicamente, com a vitória de um trabalhador para a presidência da República do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, o Lula, por um partido cuja base é formada majoritariamente pela classe trabalhadora, o PT, iniciou-se o momento de maior fragmentação da esquerda na história recente. Embora tenhamos alguns avanços sociais, o MST entende que o governo Lula “amorteceu” a luta de classes. Resumidamente, desde 2003, as forças de esquerda dividiram-se em três grupos: oposição ao governo pela esquerda, os governistas e uma terceira via, da qual o MST faz parte, que entende ser necessário politicamente não ser nem oposição sistemática ao governo e nem adesão subordinada. Como diz o dirigente nacional João Paulo Rodrigues15: é momento de “terra arrasada”, do ponto de vista da articulação política, principalmente a partir de 2010. Foi no primeiro governo Lula também que o agronegócio, que já vinha ganhando força econômica e política desde o final da década de 1990, fortaleceu-se.
Em síntese, o bloco de poder que o MST enfrenta envolve: as empresas transnacionais do agronegócio, como Monsanto, Syngenta, Bunge, Bayer, ADM, entre outras; os bancos que são seus principais sócios e financiadores, por meio das linhas de crédito e fundos de investimento, a mídia burguesa que, além de reproduzir ideologicamente o discurso modernizador do agronegócio, investe financeiramente no setor e em publicações, como o canal Terra Viva, um dos principais veículos do segmento: plataforma multimídia que envolve TV paga, internet e dispositivos móveis. O Terra Viva é um canal pertencente aos grandes conglomerados de mídia Grupo Bandeirantes de Comunicação e UOL, do Grupo Folha, um dos maiores portais da internet. Os bancos e grupos de mídia também compõem as entidades de classe do setor como a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), que conta com o Grupo Estado, que publica o jornal O Estado de São Paulo, as Organizações
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Globo e o Itaú BBA, maior banco de investimentos da América Latina, que faz parte do Grupo Itaú Unibanco. O Itaú BBA possui um dos seus executivos na diretoria16 da ABAG, empossada recentemente para o período de 2015 a 2017. E, diante desse exército econômico e ideológico, a maior parte da sociedade é a favor do agronegócio. Como pode ser percebido, não é apenas a equivalência de interesses que une este bloco de poder em torno do capital, mas uma grande organicidade em torno de objetivos e estratégias econômicas e ideológicas. Claro que pode haver alguns conflitos de interesses, mas nada que concessões pontuais, que não prejudiquem os grandes interesses econômicos, não possam resolver. Algumas concessões podem ser necessárias, porque manter a hegemonia exige que
sejam levados em conta os interesses e as tendências dos grupos sociais sobre os quais a hegemonia será exercida, que se forme um certo equilíbrio de ordem econômico-corporativa, isto é, que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa. (...) Mas também é indubitável que tais sacrifícios e tal compromisso não podem envolver o essencial, dado que, se a hegemonia é ético-política, não pode deixar de ser também econômica, não pode deixar de ter seu fundamento na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica (GRAMSCI apud MORAES, 2010, pp. 71-72).
O MST, como movimento social, faz parte da sociedade civil, espaço onde essencialmente se desenvolve a luta de classes, onde se formulam e se reproduzem as ideologias. Na concepção de Estado ampliado de Gramsci, a sociedade política, correspondente às forças coercitivas e educadoras do Estado, soma-se à sociedade civil, que tem nas suas instituições, ou aparelhos privados de hegemonia – imprensa, sindicatos, igrejas, movimentos sociais, partidos políticos, entidades de classe e organizações diversas - os espaços por excelência de formação política e ideológica, questionando ou fortalecendo o bloco de poder estabelecido. Claro que esses aparelhos nem sempre podem ser categorizados como privados ou civis, visto que podem possuir vínculos ideológicos e políticos com o Estado, como é o caso de partidos, fundações etc. Conforme Moraes, os aparelhos privados de hegemonia funcionam como “caixas de ressonância de posições presentes nas pelejas ideológico-culturais” (MORAES, 2010, p. 59). Os processos de luta, negociações, articulações, relação com o Estado e conquista de poder dos movimentos sociais possuem características próprias. O “intelectual orgânico”, aquele que se imiscui, informa, forma e traduz os interesses das classes populares, na acepção gramsciana, é fundamentalmente o Partido Comunista. Este possui a função de elaborar a concepção de mundo, com ética e
16 No informativo da entidade número 94 – ano 17 – set-out 2014, está a configuração da nova diretoria.
política adequadas, e construir a unidade entre teoria e prática, um trabalho filosófico, pedagógico e político. O partido é o organizador político que suscita a vontade racional, prática consciente adequada às necessidades objetivas históricas, que pode ser representada inicialmente pelo indivíduo, mas que é necessariamente coletiva, universal. A racionalidade da categoria de vontade gramsciana está na coletividade, quando é acolhida “por um grande número, e acolhida permanentemente, isto é, ela se torna uma cultura, um “bom senso”, uma concepção do mundo, com uma ética adequada à sua estrutura (GRAMSCI, 1966, p. 33). Para o fundador do Partido Comunista Italiano (PCI)‟, cada classe, “cada camada social tem seu “senso comum” e seu “bom senso”, que são, no fundo, a concepção da vida e do homem mais difundida. Cada corrente filosófica deixa uma sedimentação de “senso comum”: é este o documento de sua efetividade histórica.” (GRAMSCI, 1968, p. 178). Este conceito expressa e opera um grande conflito político, ideológico e histórico. Por isso o grande “mergulho” de Gramsci na cultura popular, ou no folclore como costumava denominar. O filósofo italiano buscava entender de que forma essa visão de mundo contida na cultura popular, na filosofia do povo ou do “senso comum17”, poderia sustentar, culturalmente e ideologicamente, a conquista da direção política pela hegemonia da classe trabalhadora.Constatou que a filosofia popular era heterogeneamente estruturada a partir de elementos progressistas e da filosofia das classes dominantes, historicamente sedimentada:
(...) nela se encontram elementos dos homens das cavernas e princípios da ciência mais moderna e progressista; preconceitos de todas as fases históricas passadas, grosseiramente localistas, e intuições de uma futura filosofia que será própria do gênero humano mundialmente unificado. (GRAMSCI, 1966, p. 12).
É difícil esse processo de mudança de opinião das classes populares, que sempre ocorre de forma “mais ou menos heteróclita e bizarra”. Entretanto, “a forma racional, logicamente coerente, a perfeição do raciocínio que não esquece nenhum argumento positivo ou negativo de certo peso, tem a sua importância, mas está bem longe de ser decisiva” (GRAMSCI, 1966, p. 25). Como já mencionamos, é perceptível no MST a combinação de referenciais históricos e políticos diversos. Mao Tsé Tung, Jesus Cristo e Marx podem entrar
17 Gramsci considera que todos somos filósofos e que no senso comum está implícita uma visão de mundo.
“Deve-se, portanto, demonstrar, preliminarmente, que todos os homens são “filósofos”, definindo os limites e características desta “filosofia espontânea”, peculiar a “todo o mundo”, isto é, da filosofia que está contida: 1) na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom-senso; 3) na religião popular e,
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na mesma frase sem grandes conflitos políticos, mas, o mais importante é o despertar da consciência política, de fazer parte de uma força hegemônica em luta política. Indubitavelmente, o MST, como movimento social, sobretudo “armado” com seus aparelhos populares de hegemonia, espaços e esforços de comunicação, arte, cultura e educação, contribui com essa formação política, com o momento “catártico”. Gramscianamente, a catarse é este momento do despertar de classe como vontade coletiva: “pode-se empregar o termo “catarse” para indicar a passagem do momento meramente econômico (ou egoístico- passional) para o momento ético-político” (GRAMSCI apud MALERBA, 2013, p. 6). Na definição de Malerba: “o processo catártico é aquele no qual o sujeito vai se dando conta de seu lugar sócio-histórico e passa a agir em uma prática consciente e orientada, fazendo da sua necessidade um meio para a liberdade” (MALERBA, 2013, p. 6).
O MST possui suas características, distinções, potencialidades e limitações nas lutas pela hegemonia. Sendo o movimento social uma ação coletiva que exige identificação objetiva e subjetiva dos seus agentes, oponentes claros e um projeto de mudança, sempre haverá, no mínimo, três processos comunicativo-político-pedagógicos necessários para colocar em marcha suas reivindicações. Primeiramente, junto a sua base, a militância do movimento. Nenhum movimento social sobrevive se não mantiver a identificação, o comprometimento e o amor da militância em torno dos seus objetivos, da sua causa. Em seguida, é preciso agenciar o Estado, espaço da formulação e de decisão das políticas públicas; e de educação política por meio dos esforços comunicativos das suas diversas instâncias. O movimento social não almeja assumir o Estado. O que todo movimento social faz é lutar, “bater” e negociar com o Estado para pautá-lo e conseguir vitórias para os agentes sociais que compõem o movimento. E, finalmente, precisa se comunicar com a sociedade. Todo movimento social ganha força política, mobilidade, espaço, abertura ao diálogo, se tiver apoio da opinião pública. Com a centralidade e capilaridade que os meios de comunicação de massa possuem, sua força ideológica na formação da opinião pública é enorme. A mídia, de forma geral, produz, distribui e circula signos, linguagem, discurso, a partir dos quais as pessoas dialogam e organizam sua consciência sobre os fatos. Como afirmamos em outras oportunidades18, a mídia funciona como grande espelho que reflete de maneira distorcida a realidade, ao mesmo tempo em que, através das suas imagens que medeiam esta realidade, as pessoas reconhecem e se reconhecem no mundo, formam opinião sobre os fatos. A mídia não se confunde com o “espetáculo”, é uma das suas faces mais perigosa e influente, mistura e
confunde valor de troca e valor de uso, é a “sua manifestação superficial mais esmagadora” e “instrumentação mais conveniente ao seu automovimento total” (DEBORD, 2003, § 24). Celso Frederico aponta "o partido da mídia" como o novo partido da sociedade do espetáculo (FREDERICO, 2013, p. 248). O espetáculo, segundo Debord, “completa reificação, domínio da abstração e da imagem”, embaralha as relações entre signo e referente (FREDERICO, 2010, p. 185).
Ao afirmar que “tudo que é ideológico é um signo”, Bakhtin (2010, p. 31) nos mostra