BÖLÜM III KENTSEL KORUMA
B- KENTSEL ARKEOLOJİNİN GELİŞİM SÜRECİ
Dados de identificação
Eu tenho 45 anos de dança e 70 de idade. Sou mineira, mas ainda nova eu e a minha mãe fomos para o Rio. Lá morei por 30 anos, estudei, fiz faculdade, sou psicóloga. A minha mãe era cabeleireira. Ela sempre fez questão que eu estudasse. Lá, nós vivíamos na companhia de meu padrasto. Ele era italiano. Eu estudei e me formei em acordeão. Na época, ele estava em alta. Também me formei em teoria musical, pelo Conservatório do Rio de Janeiro. Depois disto, interessei-me pela dança clássica. Eu entrei, estava com dez, onze anos. A professora não me incentivava muito. Ela dizia que este tipo de dança não era para mim. Mesmo assim, eu insisti e fiquei lá estudando por dois anos.
Encontro com Mercedes Batista117 e o Balé Afro
Daí, eu conheci o Balé Folclórico de Mercedes Batista, a precursora da dança afro, no Brasil. Nesta época, ela fazia apresentação nos teatros. Um dia, era na década de 60, eu fui assistir a um espetáculo no Teatro João Caetano, Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Eu achei este balé folclórico uma coisa maravilhosa! Antigamente, não podia falar dança afro. Tinha que falar balé afro. Eu esperei o final e fui conversar com ela. Eu disse que era acordeonista profissional. Também, que eu havia feito dois anos de balé clássico e estava interessada no balé que ela havia apresentado. Ela então quis saber mais sobre a minha experiência e, após conversarmos, convidou-me para eu ir à sua academia. Depois de um tempo que eu ia lá, convidou-me para trabalhar com ela. Eu, sempre muito entusiasmada, fui, agradei e fiquei. Quando eu gosto de uma coisa, eu me dedico mesmo. Neste momento, a minha mãe já havia falecido, porque senão ela não deixaria. Nós tínhamos boa condição financeira. Ela não deixaria de jeito nenhum. Toda a minha formação em acordeão, balé clássico e também em Psicologia aconteceram, principalmente, porque ela queria muito.
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Conversa em Julho de 2006
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a) Coreógrafa Mercedes Batista. Cf. NASCIMENTO, Abdias do. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Estud. av. , São Paulo, v. 18, n. 50, 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br /scielo.php?script=sci_arttext& pid=S0103-40142004000100019&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 12 Aug 2007.
b) Mercedes Batista, 84 anos, bailarina e coreógrafa, discípula de Katherine Dunham e mãe do balé afro, no Brasil. (...) (Atualmente) a grande dama (está) aposentada como bailarina pelo Teatro Municipal. (...) O reconhecimento ao seu trabalho pioneiro está em curso. Um filme de média metragem e um livro sobre sua vida estão a caminho. In: Lopes, Nei. Meu Lote. 01 Setembro, 2005. Disponível em: <http://www.neilopes.blogger.com.br/2005_09_01_archive.html>. Acesso em: 17 de junho de 2007.
c) [A] bailarina Mercedes Baptista, a primeira negra a dançar no Teatro Municipal. (...) [F]undadora da extinta academia de danças étnicas, a bailarina Mercedes Baptista. (...) A mãe do balé afro brasileiro .
GONÇALVES, Wagner. Carnavalesco Cubango: conheça a sinopse do enredo que vai homenagear Mercedes Baptista. Notícias - Tudo de Samba, junho, 2006. Disponível em: <http://www.tudodesamba.com.br/?srcorg=http://www.
De aluna a bailarina profissional, criando estilo próprio
De aluna dela, passei a bailarina profissional. Nessa época, ela já viajava. Ela convidava as dançarinas que iam se aperfeiçoando para ampliar o quadro de bailarinos. Eu me lembro que a minha primeira participação foi no espetáculo Cafezal. Não era fácil dançar e neste eu tive de sambar muito. A primeira viagem que fizemos em sua companhia foi para Buenos Aires. Depois, continuamos viajando muito, por vários estados do Brasil e Europa. Foram três anos fora do Brasil, de 1961 a 63. Mais tarde, eu passei a ser assistente dela. Em 1971, fizemos Casa Grande, Senzala, no teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. E, assim, eu acabei criando o meu próprio estilo de dança.118
O filme Xica da Silva – a coreografia
O tempo passou, eu fui sendo conhecida pelo meu trabalho e um dia o Cacá Diegues e o Jarbas Barbosa me convidaram para participar, como coreógrafa, da produção do filme Xica da Silva. A idéia era explorar o ambiente de Diamantina. O filme contou com a participação da Zezé Mota, do José Wilker, Walmor Chagas e outros atores famosos da época.
Eneida: Foi do trabalho com Mercedes Batista que o Cacá Diegues lhe conheceu?
Marlene: Ele me conheceu na academia de dança na Marisa Estela, no Meier, no Rio. Então, o Cacá
Diegues, o Jarbas Barbosa e uma diretora estavam visitando as academias, no Rio de Janeiro, procurando algo que gostassem. Quando visitaram a academia da Marisa Estela, eu estava dando aula. Era em uma sala que tinha um espelho grande. Apenas quem estava do lado de fora via quem estava do outro lado. A Marisa Estela entrou na sala e disse para eu terminar a aula mais cedo, porque havia uma pessoa que queria falar comigo. Terminei a aula e fui até eles. O Cacá, então, convidou-me para participar do seu filme. Ele disse já ter percorrido mais de dez academias e grupos de dança. Ao ver o meu trabalho, ele gostou. Era alguma coisa como aquilo que eu fazia que ele queria em seu filme. Perguntou se eu aceitava. Eu perguntei sobre o que eu precisava saber. O que eu iria fazer? Ele disse que eu deveria ensaiar a atriz Zezé Mota e outras moças que ainda seriam selecionadas. Eles marcaram dia e local para eu conhecer o trabalho. Eu fui. Combinamos tudo, inclusive, que eu iria trabalhar três meses diretos em Diamantina, com a Zezé Mota. Eu falei com a Mercedes, ela logicamente me autorizou e eu comecei o trabalho. Além da Zezé Mota, eu fiquei responsável pela seleção e preparação de um conjunto de moças negras. Escolhi, entre trinta, doze. Elas tinham de saber sambar e o meu trabalho era de aprimorar o que já sabiam. Com a Zezé Motta foi mais fácil, porque ela já tinha talento, experiência! Ela já era uma atriz! Tudo foi filmado em Diamantina. Nos primeiros encontros, nós ainda não estávamos filmando. Depois que ensaiamos a dança e já com a coreografia pronta, fomos para Diamantina. Lá ficamos cerca de três meses. Foi muito bom. Eu gostei mais de minha
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Xica da Silva: é um filme brasileiro, dirigido por Carlos Diegues em 1976, com Zezé Motta e José Wilker nos papéis principais. Sinopse: Conta a história (romanceada) da escrava Chica da Silva.
participação nesse filme do que no primeiro que eu fiz, em 59, no Morro da Babilônia, Rio de Janeiro. Havia mais recursos e também o que eu fazia eu gostava mais. Neste de 59, apesar de bonito, eu tinha de subir um morro carregando lata d’água na cabeça. Era um filme de produção francesa. Foi através dele, que ganhou a Palma de Ouro, que eu conheci a França.
Primeira academia de dança afro
Enquanto eu fazia este trabalho, a Dulce Beltrão119 que era diretora do Ana Pavlova estava presente. Ela achou o meu trabalho uma maravilha, disse que Belo Horizonte não tinha este tipo de dança! Daí, ela convidou-me para dar aula aqui, no Ana Pavlova. Assim, de Diamantina em vim direto para Belo Horizonte, sem passar pelo Rio, onde eu residia na ocasião. O meu trabalho lá foi o maior sucesso, aulas lotadas, as pessoas assim encantadas com aquele tipo de dança. Aí, por um tempo, eu continuei no Rio e aqui, até que decidi ficar em Belo Horizonte de uma vez. Eu abri a minha academia na Rua Carangola. Ela se chamava Academia de Dança Afro Primitivo Marlene Silva. Eu fiz muito sucesso. Aí, eu montei o grupo Os Loenas. Com este grupo, nós ganhamos muitos concursos, aqui, no Rio, São Paulo, Bahia. Onde havia concurso, eu ia com o grupo. Também, com este grupo de dança, nós fizemos um espetáculo, participando do primeiro concurso de dança, lá no Ginástico120. As modalidades que concorriam eram o clássico, moderno, jazz. Os jurados eram Ana Botafogo, Carlos Leite, Clauss Vianna. Estavam presentes cerca de quatro mil pessoas! Isto foi em torno de 1977, ou 1979. Nós tiramos o quarto lugar, no resultado final, recebendo aplausos de pé. Só participaram academias famosas. A minha estava ficando famosa, porque eu dançava em vários lugares para divulgar a dança afro pela cidade. Houve cobertura da imprensa, saiu no jornal. Para mim, este resultado foi uma consagração, considerando que, na época, não era fácil, por exemplo, conseguir um patrocínio, manter um grupo como o nosso.
Espetáculos no Palácio das Artes
Nesta época, a academia ia muito bem. Então, roupa, figurino era comigo mesma! Havia muito sacrifício, porque era eu quem conseguia manter o padrão dos espetáculos. Assim, eu ganhei muito dinheiro e tinha vontade de realizar os espetáculos que eu investia neles. Para você ter uma idéia, todo ano eu fazia um espetáculo. Fiz dez no Palácio das Artes. Eu fiz “Brasil Mestiço”, “A visita de Oxalá
ao Reino de Xangô”, “Candomblé” e muitos outros. Era sempre um sucesso! Em 1999, eu vim dos
Estados Unidos para os 500 anos do Brasil, fazer o “Quizomba, Integração das Raças”. Eu fiz este espetáculo em 99. E em 2000 eu repeti, porque realmente foi um sucesso.
Aprender para inventar
O meu trabalho explora a cultura afro primitiva. Este é o nome que eu dei ao meu grupo, Os Loenas foi inspirado em um contato que tive com o balé do Quênia, quando eu estava em Boston. Lá nós
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trocávamos. Eles queriam aprender samba, aprender coisas do Brasil. Aquilo que eles tinham conhecimento, que ouviam falar. De minha parte, eu aproveitava para saber da cultura deles. O mesmo ocorreu com grupos de Angola e Moçambique. Eu estava dando aula e eles foram até a minha academia, para aprender. Eu ensinava e aproveitava para aprender o que eles sabiam. Eu tinha interesse em aprender para com isto ter mais possibilidades de inventar a partir daí. Também, o balé do Senegal esteve aqui em Belo Horizonte. Na ocasião, eles ficaram hospedados em um hotel e eu ia até eles. As meninas de lá têm um molejo nas cadeiras, que é uma coisa incrível. Elas dançavam e ensinavam-me e eu as ensinava samba, o coco baião. Para dançar bem o samba é importante ter atenção à posição dos pés. O que você produz de movimento no corpo todo, a partir do movimento dos pés é uma coisa que impressiona. Eles adoravam me ver dançando. Eu vejo então, que as minhas pesquisas, que resultaram em produção de dança, contaram com as circunstâncias. (...) Atualmente, podemos encontrar muitos coreógrafos de dança que fizeram aula comigo e agora dão aula.
Espetáculos fora do Estado
Eu tenho também espetáculos de dança lá fora: “Quenembu, Maracatu e Samba”, “Cafezal” e uma
“Dança indígena”. Em 1983, teve um concurso de dança e coreografia, no Teatro Municipal. Eu fui
um dos grupos convidados para participar, junto com outros de 21 estados brasileiros. Foi um concurso que, aliás, eu vivi uma tensão porque, no processo de organização do concurso, eles não separaram as modalidades. E aí não teve propriamente quem concorresse comigo no afro. Enquanto eu planejava a apresentação, eu me perguntava sobre o que nós deveríamos fazer para ganhar aquele concurso? Eu resolvi propor uma dança indígena. Eu fui até à FUNAI, pedi autorização para visitar o Alto Xingu. Consegui. Eu então pesquisei a festa da lua cheia dos Índios Carajás. Lá, eu os via dançando, produzindo alguns sons, “tum, tum, tum”, acompanhados de batida dos pés. Os índios iam para um lado e iam para outro. Eu então fiquei com o desafio de montar um espetáculo a partir daquilo que eu havia encontrado. Eu cheguei aqui com quatro ritmistas. Para cada um eu pedi para produzir sons diferentes. Também, eu trabalhei com o som de três surdos, três congas, sininho, xique-xiques. Fui organizando para finalmente então montar uma Dança da Lua Cheia. Uma festa que acontece todo ano entre os índios. Ficou maravilhoso o resultado final! Eu já conhecia esta dança. Assim como conhecia muitas danças, movimentos do Candomblé.
Então, foi aquela maravilha! No cenário, tinha a lua cheia. Eu fiz questão de retratar o cotidiano da aldeia, dentro da coreografia que propus. Animais, índios iam saindo do lado do público do teatro. Ao mesmo tempo, eu ia produzindo sons de percussão, sons de outros instrumentos, sons dos pés. O público ia assistindo em total silêncio. Eu estava muito tensa, porque não sabia como o público iria receber aquele espetáculo. Você não sabe a emoção que eu senti, quando terminou e o público veio abaixo, gritando já ganhou, já ganhou! Aí, as lágrimas começaram a descer. Isto foi em 83, no Rio.
Recebemos muitos aplausos! Mas não estava fácil, porque os outros grupos também eram muito bons. Cada um impressionava mais que o outro! Demorou muito para sair o resultado e nós ganhamos o primeiro lugar. Grupo Loena de Marlene Silva, de Belo Horizonte!
Dança afro: avaliação e planos
Eu convivo com Belo Horizonte desde 1972, mesmo quando ainda morava no Rio, eu tinha família aqui. Eu venho lutando muito desde esta época para aceitarem a cultura negra, africana nesta cidade. Lutei sem dinheiro, com sacrifício. Nesta época, não tinha esta coisa de patrocínio. Hoje, eu vejo que as pessoas falam que estão fazendo dança afro, mas alguns grupos pintam a cara, enrolam nos panos, dão uns gritinhos e diz que afro. Não é. Nós temos que moralizar isso. Eu pretendo montar uma escola de dança para a pessoa aprender a percussão com alguém que realmente é um profissional. Vai aprender a dançar realmente com um profissional. Avalio que é necessário o entendimento do que seja um trabalho de qualidade de dança afro. Daí, hoje, há muita produção sem qualquer respeito a pontos básicos desta dança. Ela acaba, então, não merecendo o valor que tem. Ainda mais se considerarmos que esta dança continua sofrendo muita discriminação. Eu procuro, nas palestras que eu faço, alertar para a necessidade de se separar os toques, as cangás, do atabaque121. Para você dançar bem o afro, você tem que ter expressão, coordenação e ritmo. No caso do Axé, por exemplo, você dança livre. Então, você não tem que prestar tanta atenção na coordenação do corpo, como é o caso da dança afro. O afro, quando bem dançado, ele é bonito.
Mais ou menos em 2001, eu fui convidada para montar um espetáculo nos Estados Unidos. Era para ser um carnaval, mas depois do que aconteceu em setembro de 2001, eu fiquei com medo de voltar aos Estados Unidos. Foi um momento muito ruim, fiquei assustada. Mas em Boston eu tenho e-mail, endereço, telefone. Tenho toda uma infra-estrutura e reconhecimento que não consigo ter aqui. E é interessante, porque, apesar disto, gosto de ficar no Brasil. Eu tenho um sonho de fazer uma escola de dança.
Eneida: E quem se interessaria pelo financiamento de um projeto deste tipo? Quem está interessado
em garantir que a cultura negra seja realmente forte?
Marlene: Bem, atualmente eles estão investindo mais em projetos sociais, desenvolvidos pelas ONGS,
para atendimento a crianças, adolescentes. Eu já venho fazendo um trabalho junto com outras moças, dando aula para crianças. Dança e teatro, tudo sobre minha coordenação. Eu passo para as crianças a coreografia e as pessoas que trabalham comigo “limpam”. Por exemplo, recentemente, nós fizemos uma apresentação de dança, no Teatro Marilia.
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A família
Eu tenho cinco filhos, quatro deles foram criados no México. Um agora está comigo há três anos, um está em Brasília. Também, tenho uma filha que é casada com um panamenho e a caçula ainda está no México. Eu tenho uma netinha mexicana, um neto panamenho, quatro netos cariocas e este que mora aqui. (...) Eu sempre viajei muito.
Gil Amâncio Eneida: O Gil, você o conheceu em sua academia na rua Carangola?
Marlene: Não, bem antes. Eu dei aula no Caribe, uma academia lá na Savassi. Lá o pessoal começou a