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Kent ölçeğinden mekana bakış

3. MİMARLIK ÜRÜNÜ OLARAK MEKANA BAKIŞ

3.3 Mekanın Yer İle Olan İlişkisine Bakış

3.3.2 Kent ölçeğinden mekana bakış

No fim do século XIX, quase todos os países da América do Sul tinham missões metodistas, com exceção de Colômbia, Equador, Bolívia e Paraguai.

Os colportores das sociedades bíblicas foram os precursores da obra evangélica na Bolívia e outros países da América Latina.

63 CARVALHO, 2010, p. 216, 219.

No território boliviano, o trabalho dos colportores foi barrado pelos arcebispos e bispos católicos, apoiados pelo ordenamento legal boliviano64. A constituição política do Estado de 1826 estabelecia no artigo segundo:

La religión Católica Apostólica Romana es la fe de la República, con exclusión de todo otro culto público. El gobierno la protegerá y hará respetar, reconociendo el principio de que no hay poder humano sobre las conciencias65.

Este princípio estava reforçado pelo código penal que, em seu artigo 195, estabelecia: “Todo aquel que conspire directamente para establecer en Bolivia (otra religión que no sea

la Católica) [...] o ser causa de que la República cese de profesar la Religión Católica será traidor y sufrirá la pena de muerte”66.

Essa conferência anual nomeou o Rev. Francis M. Harrintoncomo superintendente do distrito do norte e pastor em La Paz. O distrito correspondia a Antofagasta, Tarapaca e Arica (Chile), Tacna (Peru) e La Paz, Oruro e Uyuni (Bolívia).

F. Harrington chegou a La Paz, em abril de 1906.67 Só com a chegada do casal missionário Francis e Mary Harrington consolidaram-se os esforços missionários.

Durante as últimas décadas do século XIX através de toda a América Hispânica as condições de intolerância religiosa e a tutela da Igreja Católica sobre a vida ética, social, política e cultural foram confrontadas pelos movimentos liberais com aspirações positivistas.

O movimento liberal procurava os ideais de liberdade, laicidade anticlerical, civilização e progresso industrioso enfrentando a mentalidade feudal-colonial. Os ideais dos missionários protestantes eram afins em sua pretensão de educação para a civilização e o progresso; a este respeito a teses apoiada por José Miguez Bonino.68 Assim J. Miguez. B. propôs que os políticos liberais usufruíssem dos esforços educacionais missionários protestantes para apoiar suas proteções modernizadoras positivistas que enfrentavam ao clero católico, e a sua vez os protestantes acharam apoio nos setores liberais em suas tentativas de liberdade e tolerância. Porem como comenta Mortimer Arias69, os missionários

64 QUISPE, Delfin E. Historia de la Iglesia Evangélica Metodista em Bolivia 1906 – 2006. LaPaz: CEHIAM,

2006. p. 15.

65 Ibid. Citando Ciro Félix Trigo, Las constituciones de Bolivia. 2 edicíon. La Paz: Atenea S.R.L. 2003. p. 22. 66 Ibid. p. 22

67 Ibid. p. 28.

68 MIGUEZ BONINO, José. Rostos do protestantismo latino-americano. São Leopoldo: EST Editora Sinodal,

2003. p.11, 12, 15.

69 ARIAS, MORTIMER. El protestantismo en Bolivia In: DUSSEL, E. Historia general de la Iglesia en

America Latina: Peru, Bolivia y Ecuador. v. 8.. Salamanca: CEHILA, Ediciones Sigueme, 1987, 606 p. 265.

que chegavam não tinham a plena compreensão de seu papel na complexa tensão de relações dos fatores culturais, políticos, ideológicos internos a nível provincial e federal como sua relação internacional. Estes missionários eram movidos por seus piedosos anseios de pregar o evangelho, combater a idolatria e o obscurantismo e melhorar as condições de vida dos indígenas pregando os princípios de vida cristãos (que obviamente eram confundidos com o american way of life).

A maior parte dos missionários vinha a terras latino-americanas desafiados pelos apelos avivalistas ou motivados pelos movimentos estudantis cristãos dirigido por John R. Mott (1865-1955) que pretendia “conduzir o mundo a Cristo nesta mesma geração”. Nesse sentido é apropriada a consideração de J. P. Bastian, que considera o missionário norte- americano como sendo entusiasta de classe média rural70. Em seus esforços por trazer a bem sucedida e ‘superior’ civilização norte-americana provada em seus sucessos capitalista, tecnológico-industrial e político, sabiam-se possuidores do absoluto diferencial (um absoluto e superior diferencial) desta sua cultura cristã e protestante: seus valores morais cristãos fundados na Bíblia e nos Evangelhos “traídos e negados aos índios pelo obscurantismo da igreja católica”. Este era o alvo de sua cruzada missionária; trazer o fundamento do progresso da superior cultura norte-americana: o evangelismo conversionista. Acreditavam que cristianizariam a nova ordem social de progresso na América Latina dando-lhe o fundamento teológico, fruto de um pacto de Deus com os homens, cristianizando as relações sociais pela luz da Bíblia erradicariam o atraso da cultura pagã católica71.

Não podemos ter certeza se os primeiros missionários metodistas que chegaram à Bolívia tinham uma compreensão clara da situação sócio-cultural boliviana ou se tinham posições de juízo crítico que abaloassem a estratificação social e sua decorrência político- econômica. Os missionários vinham com os ideais liberais de educação para uma civilização de progresso, enquanto a sociedade boliviana era conservadora e feudal, fruto do colonialismo espanhol, e que a princípios do século XX era regida por uma oligarquia (seja liberal ou conservadora).

Devido às características históricas, sociais e políticas do momento, o metodismo não podia inaugurar de maneira ostensiva seus trabalhos de pregação. Por isso, a educação,

70 BASTIAN J.P, 1994, p. 112.

71 BASTIAN J.P, 1994, p. 114, 113. Ao respeito conferir também: PIEDRA, Arturo. Evangelização

protestante na América Latina:análise das razões que justificaram e promoveram a expansão protestante. Tradução de Roseli Schrader Giese. São Leopoldo : Equador: Sinodal : CLAI, 2008. v. 1 e 2.

ainda que fosse de fato uma necessidade para o país, constituía-se também uma “alternativa” efetiva para abrir as portas para a obra evangelística.

Assim os critérios de J. Miguez Bonino, ao considerar o projeto educacional das empreitadas missionárias evangélicas na América Latina, são aplicáveis para o caso boliviano. Ele diz:

Não é necessária uma grande perspicácia para perceber que é na educação, muito mais que no nível político e social, que o protestantismo missionário liberal encontra uma possibilidade de integrar seus diversos fios... a ênfase na educação e na criação de escolas; oferece uma mediação inobjetável para com o social sem obrigar a pronunciar-se sobre regimes políticos ou definições econômicas; permite reconciliar a ênfase “conversionista” com a preocupação ética e a noção liberal de um desenvolvimento pessoal – uma “educação que forma caráter” é uma frase que permeia os programas educacionais protestantes em todo o continente – e oferece um amplo campo de colaboração com as novas elites ilustradas da América Latina, obcecadas com a “redenção do povo” mediante a educação72.

Num contexto com estas características apontadas por J. Miguez Bonino, iniciando-se o século XX os metodistas foram convidados pelo então Presidente da Bolívia a instalar escolas (para servir às elites criollas) com os padrões americanos com o inicial suporte econômico do Estado boliviano nas cidades de La Paz e Oruro, com a única condição de que não ensinassem religião.

O governo do presidente Ismael Montes73 fez uma oferta muito tentadora para a missão metodista e a Francisco Harrington, para estabelecer uma escola metodista com o financiamento estatal. Antes que a sociedade missionária formalmente aceitasse, Harrington toma o risco desta empreitada e assume um acordo com o governo de I. Montes por três anos para criar e dirigir duas escolas nos parâmetros norte norte-americanos; uma na cidade de La Paz, com um suporte estatal de 15 mil pesos bolivianos (U$. 6.000), e outra na cidade de Oruro, com o suporte de 25 mil pesos bolivianos (U$10.000)74, recebendo assim não só o suporte econômico mas também toda a validade legal ao ponto de que, posteriormente, os colégios metodistas serem reconhecidos legalmente com grau universitário. Harrington pensava que: “O país precisa da influência liberalizadora das progressistas escolas protestantes [...] e esta é uma oportunidade de penetrar, a pouco custo, na sociedade”75.

72 MIGUEZ B, J, 2003, p. 21.

73 Ismael Montes, presidente da Bolívia, em sua condição de político liberal enfrentou a Igreja Católica. Esta,

por sua vez, como a outros liberais e maçons, lhe negava seus serviços de educação. Por isto, ele tinha sua filha estudando no Chile, numa escola anglicana. É ali onde ele toma contato com os missionários metodistas e os convida a estabelecer em território boliviano escolas como a que existiam no Chile.

74 QUISPE, 2006, p. 31. 75 Ibid. p. 30.

Definia-se assim, ainda que inconscientemente, um bem sucedido plano de influência progressista anglo-americana.

Nos primeiros anos, esta empreitada não contou com o reconhecimento da junta de missões metodistas em Nova York, permanecendo o “The American Institute” de La Paz como propriedade particular de Harrington.

Foi uma experiência diferente da peruana76, por exemplo, e de outras onde as escolas metodistas tinham o caráter paroquial, isto é, onde havia uma Igreja, abria-se uma escola. A implantação das escolas metodistas na cidade de La Paz, o ‘American Institute’, e em Oruro, o ‘Colégio Bolivar’, (este último só administrado por um missionário metodista), foram iniciativas sustentadas inicialmente pelo governo boliviano à margem de um prévio trabalho de implantação de uma Igreja. O mesmo aconteceria posteriormente com o ‘American

Intitute’, na cidade de Cochabamba. Assim, os missionários metodistas se estabelecem na

Bolívia, implantando as ‘escolas americanas’; este fato seria lapidar de uma falência/fortaleza que caracterizaria a missão metodista na Bolívia e a futura IEMB.

F. Harrington teve um árduo trabalho de lobby entre os influentes pais de seus jovens educandos e com os políticos e funcionários de governo para conseguir do governo e do Senado da Bolívia a promulgação da “Ley de libertad de culto”. Em 19 de agosto de 1906, então, oficialmente organizou-se a primeira Igreja Metodista conforme os cânones da Igreja Metodista Episcopal. Tempos depois, Mary Harrington escreveria “[…] Cuando comenzamos labores con la iglesia ya teníamos clases en el idioma nativo (aymara) […] simultáneamente con las que dábamos en inglés y español, o sea nuestra iglesia era trilingüe”77.

Uma das marcas do trabalho missionário desde o princípio foi a forte ênfase no testemunho dos costumes. Os missionários norte-americanos e os pastores nacionais estavam obrigados a pregar e ensinar contra a mastigação da folha de coca (prática muito comum entre os índios e mestiços das terras andinas), o consumo de bebidas alcoólicas e do tabaco. Os membros da Igreja com estes “vícios” eram expulsos78. Evidenciava-se a dicotomia de uma moralidade e forma eclesiológica conservadora com os princípios progressistas liberais. A este respeito J. Miguez nos diz:

76 No caso peruano se reportam em 1919 existiam 8 escolas com 998 alunos. GUTIÉRREZ Sámchez, Tomás.

Los evangélicos en Perú y América Latina. Lima: CEHILA/ Ediciones AHP. 1997, p.108.

77 QUISPE, 2006, p. 28.

78 GUACHALLA, Alejandro. Breve Historia de la Iglesia Metodista en Bolivia 1984. La Paz: S.C.P., 1984.

[...] muitos dos líderes missionários fizeram seus estudos nas universidades liberais da Nova Inglaterra (Harvard, Yale, Culumbia) e aí absorveram elementos das ideologias liberais progressistas, e aí absorveram elementos das ideologias liberais progressistas, que em parte interpretaram teologicamente como o evangelho social [...] Por outro lado, porém, o movimento missionário ao que se somem está fortemente marcado pelo “segundo despertar”, [...] se a visão liberadora os leva a esboçar um modelo missionário socialmente comprometido, a soteriologia missionária os obriga a aplicar de imediato a surdina79.

Esta identidade teológica-ideológica ‘conservadoramente progressista’ durante toda a história da IEMB seria uma constante tensão, em alguns casos, geradora de crescimento numérico, como o caso da expansão da igreja na área rural aymara durante a década de 70, protagonizada por leigos zelosos da pregação conversionista evangelical, e muitas outras vezes um forte senso inovador na filosofia das técnicas e políticas educacionais implantadas com caráter pioneiro no país, e os grandes projetos desenvolvimentistas administrados por funcionários da IEMB em áreas rurais e de colonização durante os anos 70 e 80.

Esta identidade ‘conservadora’ geraria congregações com uma auto-percepção evidentemente e moralmente conservadora, evangélica e não católica, com clérigos e lideranças ilustradas claramente ‘progressistas’. Em certos momentos da história, isso se manifestaria numa clara distância entre os funcionários da burocracia eclesial e os membros das congregações de base.