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Considerando-se que na década de 1970 foram levados a efeito o Projeto de Povoamento e o Projeto Pioneiro de Colonização que se concentraram no oeste do Maranhão e beneficiaram mais os grandes empreendimentos agropecuários que os pequenos agricultores e posseiros, até o início da segunda metade da década de 1990, tem-se que

[...] o que restou foi a destruição dos recursos florestais, como é o caso da PROMASA, da CACIQUE/ TUCUMÃ, da CERES, da VARIG, da CIKEL e de tantas outras áreas, nas quais os assentados devem, agora, tornar produtivas. (CARNEIRO et alii, 1996, p. 108).

Uma maneira de ilustrar o que significaram os incentivos fiscais concedidos pela União através da SUDAM e da SUDENE a esses empreendimentos é analisar a ascensão e escala de atuação do Grupo Cikel que foi

serraria, e a partir de 1991 se expandiu no Pará, na região de Paragominas, onde possui cinco fazendas com uma área total de 198.141 hectares, além de 300 mil hectares de florestas arrendadas. Atua nos segmentos de madeira, serviços e agropecuária, contando com 2.700 funcionários diretos e indiretos. Nas atividades florestais possui três serrarias, uma laminadora e uma fábrica de compensados, com uma presença anual de cerca de 135 mil metros cúbicos de produtos acabados, em vários municípios do Pará e do Maranhão, constituindo um dos maiores exportadores de madeira tropical do Brasil para o exterior, além de atender ao mercado interno. (BECKER, 2004, p. 48-49).

Após explorar as madeiras em torno do município de Amarante do Maranhão e sinalizar com transferência para o estado do Pará, esse empreendimento sofreu uma ocupação em 14 de setembro de 1990 quando 42 “posseiros”261, apoiados pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Amarante, reivindicaram a apropriação das terras para fins da reforma agrária, mas foram presos pela polícia e em seguida a Justiça concedeu a reintegração de posse à empresa. Seis anos depois, mais uma vez um grupo de pessoas apoiadas pelo referido sindicato voltou a ocupar a área citada. Nesse segundo caso, utilizaram a estratégia de enviar cartas aos parentes e amigos que se encontravam na região, informando que havia possibilidade real de aquisição de terra através da ocupação em curso e, por essa razão, atraíram famílias predominantemente oriundas dos municípios de Açailândia, Amarante, Buritirana, Imperatriz, João Lisboa e Senador La Roque.

Ainda no ano de 1996 os “posseiros” na área, que já totalizavam cem pessoas, se reuniram com o propósito de criar uma associação que deveria representá-los. A materialização da ocupação se iniciou pelas “primeiras roças” e “aberturas em matas virgens”, sendo que, no final desse ano, funcionários do INCRA,

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“Posseiros” foi como se identificaram as famílias entrevistadas durante a construção do histórico do Projeto de Assentamento Cikel. Alegam que nessa ocasião “foram vítimas de atos de violência, sofrendo agressões físicas e humilhações” (p. 12). Cf. INSTITUTO INTERAMERICANO DE COOPERAÇÃO PARA A AGRICULTURA. Programa de Consolidação e Emancipação (Auto- Suficiência) de Assentamentos Resultantes da Reforma Agrária. Plano de Consolidação do Assentamento PA CIKEL: diagnóstico. Amarante – MA: IICA, 2007.

da Polícia Federal e do IBAMA visitaram a área mencionada, a qual foi desapropriada em 1998. Nela atualmente se desenvolve o Projeto de Assentamento Cikel (Figura 19), que ocupa 12.311 hectares nos quais vivem 360 famílias ou 1.232 habitantes.

Figura 19 - Vista parcial da vila residencial do Projeto de Assentamento Cikel, 2006. Fonte: FERREIRA, A. J. de A., 16/03/2006.

A citada vila residencial dista, em média, doze quilômetros das áreas de produção do Projeto de Assentamento Cikel. Particulariza-se por apresentar um traçado bem definido e pelas casas serem de alvenaria e cobertas de telhas, assim como pela presença de equipamentos como energia elétrica, telefone público, água encanada, uma linha de transporte coletivo, incipiente comércio (mercearias, bares e panificadoras) e escola. Destaca-se, ao fundo, uma antena parabólica, e ainda o desmatamento que está sendo levado a cabo em testemunhos da floresta pré-amazônica.

Cumpre considerar-se que, em 1999, 309 famílias desse assentamento foram contempladas com créditos para Fomento de máquinas de pilar, balança de 200 kg, motor Yanmar 9 ¹/², junta de carro de boi, fornos, motor Yanmar n° 18, forrageira, motor elétrico trifásico, prensa, cochos, cevadeira e bateira. Em 2000 e 2001 o Crédito Habitação beneficiou 274 famílias, sendo que nos três últimos anos se registrou a implantação de obras de infra-estrutura (construção de estradas, implantação do sistema de abastecimento d’água, energia elétrica, escola, instalação

de telefones públicos) e no momento aguardam a liberação de projetos do PRONAF A. Constatou-se, no entanto,

[...] o comércio de lotes que tem se instituído no assentamento, facilitando a entrada de pessoas que a priori não têm o perfil de assentado e mais, permitindo a implantação de atividades conflituosas com o meio ambiente e com a capacidade do assentamento, como a instalação de carvoarias e de uma serraria na área do assentamento. ( IICA, 2007, p.13).

A exemplificação, no caso da Cikel, não significa que a reforma agrária foi definitivamente implantada e tenha encontrado um modelo exitoso no Maranhão por meio de projetos de assentamento262, mesmo recorrendo-se à instituição em 2003 do II Plano Nacional de Reforma Agrária que pretendia assentar 400 mil famílias até 2006, com média de 100 mil ao ano263.

Isto é apenas um sinal de que algumas ações derivadas da resistência e lutas sociais surtiram o efeito desejado264 e que demandas sócio-fundiárias foram reconhecidas oficialmente uma vez que a área destinada para a criação dos projetos de assentamento no Maranhão passou de 101.717 hectares para 4.198.454 hectares

262 Entre 1985 e 1988 a área disponibilizada para projetos de assentamento no Maranhão registrou

incremento de 596%, visto que passou de 40.544 hectares para 241.826 ha nesse período, chegou a 53.493 ha entre 1990/1992 e eram 101.717 ha em 1995, os quais concentraram-se no oeste do estado em que se localizava parte dos fundos territoriais a serem incorporados ao sistema produtivo e por isso se tornaram “absolutamente insuficientes, quando consideramos uma demanda potencial” (CARNEIRO et alii, 1996, p. 118-119).

263 O I Plano Nacional de Reforma Agrária (Decreto 91.766/85) pretendia assentar aproximadamente

1,9 milhão de famílias até 1994, mas conseguiu beneficiar somente 125,6 mil famílias nos assentamentos de reforma agrária no Brasil, o que significa menos de 50% do total (228 mil) das famílias beneficiadas durante o regime militar (1964-1985) nos programas de reforma agrária do governo federal que incluíam colonização e regularização. Cf. ROSA, op. cit., Quadros 18 e 19, p. 127. Uma análise do I Censo da Reforma Agrária no Brasil que se atém ao mencionado I PNRA pode ser encontrada na revista Estudos Avançados, v. 11, n. 31. set./ dez. 1997. No discurso do II PNRA, o governo federal alega que o assentamento de novas famílias “envolve um conjunto de atividades que integram um longo e complexo processo [...] em que [...] áreas são vistoriadas e avaliadas, decretos desapropriatórios são emitidos, compras de terras são feitas, projetos de assentamento são criados e famílias são cadastradas e selecionadas para posterior homologação, assentamento, implantação da infra-estrutura, desenvolvimento sócio-econômico e consolidação dos Projetos de Assentamento com sua integração na vida social, cultural e econômica do Município” (BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Secretaria de Planejamento e Investimentos. Plano Plurianual 2004-2007: relatório anual de avaliação – exercício 2007 – ano base 2006. Brasília: MP/SPI, 2007b, p. 11. Ministério da Integração Nacional. Caderno 8).

264 A exemplo das ocupações de terras que nos últimos três anos do governo FHC (2000-2002)

equivaleram a 771 e ascenderam para 1.289 nos primeiros três anos (2003-2005) da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva.

entre 1995 e 2006 (Quadro 19 e Figura 20)265.

Quadro 19 - Maranhão: área disponibilizada para projetos de assentamento (1995- 2006)

Ano Área (hectares) Número de projetos

1995 101.717 126

2005 3.971.676 857

2006 4.198.454٭ 879

FONTE: Quadro Demonstrativo dos PA’s Criados, INCRA (1996); Quadro Tipos de Projeto