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Espera-se que, durante a adolescência, haja um gradual desprendimento da tutela dos pais e uma maior aproximação dos amigos que terão, inclusive, primazia na rotina dos adolescentes (SCHENKER; MINAYO,2003). O sentimento de bem-estar durante essa fase estará associado à aceitação e integração em um grupo de pares (TOMÉ; MATOS, 2012;

CORSANO; MAJORANO; CHAMPRETAVY, 2006). O desenvolvimento da auto-imagem

se dará a partir do tipo de relação que vai se estabelecendo com os pares. Dessa forma a inexistência de grupo ou uma relação ruim com os pares poderá trazer grande sofrimento psíquico (KIM et al., 2008).

As pessoas tomam decisões diferentes conforme estejam ou não sendo observadas. Acredita-se que por mecanismos similares, assim como as pessoas tendem a ser mais generosas quando estão sendo observadas, também terão seu comportamento influenciado quando a decisão envolver riscos. Isso se dá porque esperam ser reconhecidas como boas tomadoras de decisões, o que evidencia a importância da presença dos pares nas decisões que serão tomadas por um adolescente (TYMULA; WHITEHAIR et al., 2015).

Na busca de entendimento para os comportamentos de risco dos adolescentes, as pesquisas vêm estudando a influência de fatores sociais e emocionais no processo que envolve tomada de decisão. Como há um lacuna entre o precoce amadurecimento do sistema de recompensa socioemocional e um fortalecimento gradual e bem mais lento do sistema de controle cognitivo, poderá haver uma maior sensibilização do sistema de recompensa para responder ao valor da recompensa para os comportamentos de risco estipulados pelo seu grupo de pares. Com o amadurecimento do sistema de controle cognitivo, haverá aumento da capacidade de coordenação entre afeto e cognição e melhor auto-regulação aumentando, dessa forma, a capacidade de resistência à influência dos pares (ALBERT;

CHEIN; STEINBERG, 2013).

a maioria dos comportamentos de risco se darão na presença dos pares o que, como já discutido anteriormente, irá influenciar suas escolhas e alterar sua capacidade de avaliação de riscos e recompensas. Numa pesquisa para avaliar esse fenômeno, os adolescentes foram convidados a realizarem um jogo probabilístico sob duas situações: acreditando ter um observador e sem observador. Eles foram devidamente informados sobre a probabilidade de resultados positivos e negativos de cada uma das decisões. Os adolescentes tomaram as decisões com maior probabilidade de perdas quando achavam que estavam sendo observados do que quando achavam que estavam sozinhos (SMITH et al., 2015).

Em um estudo utilizando Ressonância Magnética Funcional foi observada uma maior ativação do estriato ventral nos adolescente se comparada aos adultos enquanto executavam uma tarefa que implicava uma decisão simples que não envolvia nenhuma tomada de decisão arriscada, mas que geraria uma recompensa. Os participantes foram informados que estariam sendo observados pelos amigos, que inclusive fariam previsões sobre o que esperavam da tarefa. O fato de que os pares estimulam o estriato dos adolescentes às recompensas pode indicar uma maior sensibilidade pela busca de recompensa, mesmo em contextos que envolvam assumir riscos (SMITH et al.,2015).

É evidente o importante papel desempenhado pelos pares na formação da identidade dos adolescentes através do compartilhamento de atitudes, opiniões e objetivos (UNGER; DENT; SUSSMAN,2004;TOMÉ; MATOS,2012). As pesquisas vêm dando muita atenção para a influência negativa do grupo quanto aos comportamentos de risco, deixando de lado os benefícios que a inserção num grupo de pares pode trazer aos adolescentes, assim como o mal- estar que poderá estar associado à ausência de amigos (POELEN et al., 2007). O grupo de pares pode também exercer influência na opção por um estilo de vida saudável (STILES; RANEY, 2004). Um melhor entendimento sobre os caminhos neurais que mediam a influência dos colegas sobre o comportamento do adolescente poderá gerar intervenções mais bem sucedidas destinadas a reduzir comportamentos de risco e de promoção de comportamentos pró-sociais positivos (SMITH et al., 2015). Ter amizades de qualidade pode, inclusive, gerar uma certa proteção aos adolescentes com fraco suporte parental (RUBIN et al., 2004).

O ambiente social dos adolescentes pode afetar seu comportamento não só na decisão de embarcar ou não em atividades arriscadas, mas também para aquisição de

Capítulo 3. Caracterização da problemática 41

comportamentos pró-sociais como em atividades filantrópicas realizadas pelo grupo de pares (SMITH et al., 2015). Trabalho voluntário, atividades extra curriculares, esportivas, associações comunitárias de adolescentes ou associações de estudantes funcionam muito bem quando realizadas entre os pares (TOMÉ; MATOS,2012).

Uma melhor compreensão sobre a influência dos pares na tomada de decisão dos adolescentes trará melhores perspectivas sobre o valor dos programas educacionais que visam reduzir os comportamentos de risco nesse período. Dessa forma, também as estratégias de educação que proporcionam recompensas explícitas aos alunos durante as atividades em sala de aula ou extra-curriculares, com a presença dos pares, poderiam ser estimuladas a fim de melhorar o envolvimento e rendimento escolar dos alunos (SMITH et al., 2015). Os pares têm importante papel, bom ou ruim a depender do grupo, por isso, quanto mais autonomia o adolescente for adquirindo em relação aos seus amigos, mais apto estará para questioná-los e dessa forma mais apto estará para fazer escolhas mais adequadas (SUMTER et al., 2009)

Na presença de fatores protetores, o uso de SPA pode ser evitado mesmo que os adolescentes habitem esses ambientes favoráveis ao uso (SANCHEZ; OLIVEIRA; NAPPO, 2004; NEWCOMB, 1995). Um estudo concluiu que para os não-usuários de SPA a religiosidade teve papel importante como fator preventivo primário, ou seja, evitou o início do uso de SPA. Já para os usuários exerceu papel de fator de prevenção secundário e terciário por ajudar a cessar ou diminuir o uso. Dessa forma, embora com funções distintas, a religiosidade aparece como importante fator de proteção quando se trata do uso de SPA (SANCHEZ; OLIVEIRA; NAPPO, 2004; BUCHER; BUCHER, 1988).

Quando filiado a uma religião, qualquer que seja ela, o adolescente estará mais protegido do uso de SPA (FELIPE; CARVALHO; ANDRADE,2015). Esse efeito protetor da religiosidade se dá, provavelmente, por conta da menor associação com pares que usem SPA. Para serem aceitos irão imitar o comportamento daquele grupo no qual não é permitido o uso de SPA (CAVALCANTE; ALVES; BARROSO,2008). A religiosidade é um fenômeno que está ligado ao sistema de valores, de regras e de conduta específicos, fornecendo, dessa forma, orientações morais e também fortes redes sociais com atitudes conservadoras em relação ao uso de SPA, estimulando também melhor adesão às regras sociais (PITEL et al., 2012; MELLOR; FREEBORN,2011; DUNN, 2005).

Benzer Belgeler