a) Visão dos sujeitos envolvidos e a percepção sobre o circo
Na investigação foi identificado alguns momentos que possibilitou entender ou tentar entender a forma como estes adolescentes se sentem. Conforme 9º CN no primeiro contato com a instituição de acolhimento, um dos adolescentes mostra não se importar com sua vida, dizendo que “seria uma a menos na terra para dar
trabalho”, este mesmo adolescente no 12º CN, me fez refletir sobre como eles acabam se desenvolvendo sem perspectiva e aprisionados em vícios, sendo necessário pessoas que compreendam os motivos sociais que os levam aquela condição e que possam olhá-los como vítimas desta sociedade.
No abrigo “B” também houve momentos que os meninos mostram obter uma autoestima baixa, sentindo sem valor e incapazes, conforme 24º, 26º e 30º CN. No entanto, teve outros momentos com o decorrer das atividades que foi possível perceber esta visão se transformando, como os momentos no bosque e na quadra, onde eles estavam alegres e confiantes diante dos desafios e aprendendo a lidar em equipe, também o Marcos veio dizer que estava fazendo o rolamento, algo que ele não conseguia, todos estes registros estão no 22º, 24º, 27º e 34º CN. Além destes resultados, houve um encontro atípico, onde realizamos a “missão água” no 37º CN que possibilitou a eles agirem em relação ao mundo e refletirem sobre suas ações.
Figura 2: “Missão Água”.
Diante dos primeiros relatos sobre a visão que estes adolescentes carregam de si próprios, é preciso compreender as marcas dolosas que estes suportam em suas trajetórias de vida, que resulta em baixo autoestima, descrédito pessoal e muitas vezes até uma culpabilização. Sobre isto Arpini (2003, p. 72) aponta os estigmas sociais que estes meninos sofrem, assim como as demarcações fortes carregadas, onde
O preconceito se funda na ideia de que eles não podem ser pessoas “normais”, de que devem ter falhado em algo em sua história, que são em alguma medida responsáveis por sua situação e pela ideia de marginalidade que os acompanha.
A partir dos relatos na investigação percebe-se a necessidade e importância de ter utilizado a perspectiva da educação não formal que busca uma aproximação com os adolescentes e possibilita compreender o que eles sentem e pensam.
Além disto houveram alguns relatos dos funcionários, mais especificamente na etapa dos abrigos, no 10º CN uma das cuidadoras compara os meninos com “aquela cebola que você vai descascando”. O 16º CN apresenta um momento delicado que uma cuidadora teve que lidar. A primeira psicóloga do abrigo “B”, no 21º CN ao ser indagada por mim sobre algum retorno por parte dos meninos, disse que eles estavam gostando “pois eu dava atenção e conversava com eles”, isto confirma a importância de trabalhar a educação não formal, buscando construir um diálogo com eles. Também se obteve uma carta (Apêndice 1) da nova psicóloga no abrigo “B”, a Maira, onde ela traz uma visão sobre situação de acolhimento e os momentos que ela acompanhou as atividades na investigação.
Esta próxima parte é a análise da percepção sobre o circo das crianças e adolescentes que participaram da investigação. Na etapa da escola, mesmo não se desenvolvendo por longo prazo, foi possível colher alguns desenhos produzidos pelas crianças e adolescentes que ali participaram, estes desenhos revelam a percepção que eles têm, mostrando malabares, acrobacias aéreas, os animais, plateia e outros elementos, alguns destes desenhos (ANEXO “G”) infelizmente não foram apresentados e analisados em roda de conversa como pretendia-se, pela falta de continuidade dos artistas. Outros momentos na escola foram registrados em fotografias.
Figura 3: Realização de desenhos.
No abrigo “A” houve alguns registros realizados através de entrevista gravada em áudio no 10º CN, alguns bastante interessantes, como o que disse ter parentes que eram artistas de circo, outros com interesse de aprender malabares para ir no semáforo e um que disse não gostar de circo por ter medo de palhaço. Nesta Casa também foi realizado o registro de algumas fotografias junto com o Benjamim, que foi o que mais participou dos encontros.
Figura 4: Atividades acrobáticas - abrigo “A”
No abrigo “B” foi o local que teve mais informações, registros e atividades práticas das artes circenses. No primeiro encontro o 18º CN foi realizado entrevista desenvolvida em folha almaço, onde eles se apresentaram, colocaram suas percepções de circo e desejos (ANEXO ”H”).
Nos primeiros encontros realizamos atividades acrobáticas, alguns ali apresentaram dificuldades no início, mas diante dos desafios e desejos de superação conseguimos realizar uma pirâmide acrobática. Infelizmente por não estarem acostumados com esta relação corporal e terem criado mecanismo de defesa pela agressão, houve um desentendimento entre dois adolescentes, mas isto foi tratado depois. A fotografia a seguir não está com boa resolução, pois foi fotografada no período da noite na área da frente no abrigo.
Figura 5: Atividade acrobática, formação de pirâmide - abrigo “B”.
Além das atividades acrobáticas que iniciaram no abrigo “B” teve o 22º CN onde realizamos atividade externa no bosque na região ali próximo, foi instalado o slackline, onde alguns tiveram a oportunidade de vivenciar pela primeira vez sua prática e conhecer sua história. Para muitos era um desafio que despertava suas potencialidades e superação.
Figura 6: Passeio no bosque e prática de slickline.
Continuamos nos encontros seguintes construindo juntos os saberes das acrobacias de circo. O Marco não sabia fazer o rolamento, no 23º CN nós treinamos bastante e no encontro seguinte tive a alegria de vê-lo alegre me contar que tinha aprendido e que treinou nos dias que ali não estive. Neste 24º CN realizamos bastante exercícios e percebi que começaram a absorver os conhecimentos técnicos das atividades circenses, mas o principal é que estavam se divertindo.
Figura 7: Atividade acrobáticas - abrigo “B”.
Foi utilizado como instrumento pedagógico a exibição de vídeo, no 30º CN assistimos ao vídeo de Cirque Du Soleli, espetáculo Saltimbanco.
Figura 8: Assistindo vídeo.
Dando continuidade com as atividades acrobáticas o 29º CN foi realizado numa sexta-feira à tarde, houve a participação de boa parte dos meninos do abrigo, com a coordenadora acompanhando um período das atividades. Depois conversamos sobre a possibilidade de realizar um espetáculo onde eles seriam os artistas protagonistas, percebi que eles não acreditaram muito, disseram em tom de deboche “os palhaços do abrigo”.
Figura 9: Atividades acrobáticas sexta-feira.
Em novembro iniciou o conteúdo de malabares, no começo houve um pouco de dificuldades, pois não foram todos que participaram. Começamos utilizando os
tules como forma de manipulação. No abrigo somente um já tinha habilidade com os malabares. Realizamos também a confecção de alguns malabares.
Figura 10: Atividade e confecção de malabares.
Também foi realizado um passeio na Casa do Circo, ali os meninos puderam conhecer um espaço novo, algo diferente para eles, além de ter a oportunidade de realizar os elementos aéreos do circo. Eles divertiram-se bastante e foi um momento de desafio e superação subir no tecido.
Finalizando este tópico quero citar o 15º CN, que durante os abdominais que estávamos fazendo para aquecimento, um dos adolescentes com vicio em SPA conseguiu relacionar a atividade física como um benefício para largar os vícios, não foi algo que precisei dizer, ele conseguiu compreender e construir este entendimento.
b) Visão da Sociedade
Durante a investigação através de alguns comentários dos funcionários que trabalham nos abrigos, foi identificado certas situações de exclusão com estes meninos. O psicólogo do abrigo me disse no 14º CN que muitas vezes a escola não quer receber estes meninos do abrigo. Isto revela como vivemos em uma sociedade ainda egoísta e excludente, que “na verdade não se considera que o que os levou à instituição não foi uma ação cometida por eles, senão o resultado de uma violência estrutural em nossa sociedade” (ARPINI, 2003, p. 72).
No abrigo “B” também teve o relato de algumas situações como esta. No 28º CN, um dos cuidadores comentou que os meninos não têm “boa fama” na quadra ali próximo, pois já “tocaram o terror” lá. Igualmente no 33º CN uma das cuidadoras me disse que os meninos iriam mudar de casa e que os vizinhos estavam reclamando muito do comportamento e da bagunça que eles fazem.
Portanto através das atividades e dos diálogos que aconteciam, buscava-se conscientizá-los e estimula-los a mostrar a diferença, que são capazes e podem lutar pela libertação. Sobre isto Paulo Freire diz:
Aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos - liberta-se a si e aos opressores. Estes, que oprimem, exploram e violentam, em razão de seu poder, não podem ter, neste poder, a força de libertação dos oprimidos nem de si mesmos. Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos (FREIRE, 2005, p. 33).
É com este pensamento que desejamos que o Circo Social aconteça na Educação não-formal, contribuindo para que estes adolescentes consigam cumprir esta grande tarefa de se libertarem destas visões de preconceito e exclusão, assim como libertar aqueles que ainda tem este olhar.