Segundo a teoria de Vidal de La Blache citada por Santos (2012, p. 69), o homem cria, através do relacionamento constante e cumulativo com a natureza, “[...] um acervo de técnicas e hábitos, usos e costumes que lhe permitem utilizar os recursos naturais disponíveis”. Ainda de acordo com a teoria de Vidal, essas técnicas e costumes, denominados de gênero de vida, demonstram como a população utiliza esses recursos, podendo variar entre sociedades ou mesmo entre épocas.
Carl Sauer, também aludido por Santos (2012), afirma que a relação do homem com a natureza tem caráter não só cultural, mas político e técnico. Dessa forma, a produção humana vem acompanhada da produção do espaço, que é “[...] o resultado da ação dos homens agindo sobre o próprio espaço por meio dos objetos naturais e artificiais”. (SANTOS, 2012, p.70).
Para Lefebvre (2000), o espaço é um produto das práticas sociais, dessa forma, a produção da sociedade é fator determinante para a sua formação. Ainda sobre a opinião do autor supracitado, Schmid (2012, p.12) mostra que “[...] o espaço social aparece na dimensão da prática espacial como uma cadeia de rede de atividades ou interações interligadas, as quais por sua parte residem sobre uma base material determinada (morfologia, ambiente construído)”.
Já no que se refere à paisagem, de acordo com Santos (2012), a mesma se organiza de acordo com os processos específicos de cada produção, diante disso a paisagem urbana se torna mais heterogênea, pois apresenta diferentes tipos e níveis de produção. Outra característica típica da paisagem está relacionada ao fato de que a mesma vai se transformando à medida que os objetos ali encontrados vão sendo utilizados, uma vez que o mesmo objeto pode ter lógicas distintas com o passar o tempo, podendo, inclusive, perder sua utilidade. “O homem vai construindo novas maneiras de fazer coisas e novos modos de produção que reúnem sistemas de objetos e sistemas sociais. Cada período se caracteriza por um dado conjunto de técnicas”. (SANTOS, 2012, p. 74).
O espaço, ao contrário da paisagem que é vista como a materialização de um instante da sociedade, possui movimento e é visto como a união das formas geográficas e do contexto social. “O espaço é o resultado da soma e da síntese, sempre refeita, da paisagem com a sociedade por meio da espacialidade. [...] A espacialidade seria um momento das relações sociais geografizadas, o momento da incidência da sociedade sobre um determinado arranjo espacial”. (SANTOS, 2012, p. 80). Cabe ressaltar que o espaço é formado de fluxos e fixos.
Os fixos nos dão o processo imediato do trabalho. Os fixos são os próprios instrumentos de trabalho e as forças produtivas em geral, incluindo a massa dos homens. Não é por outra razão que os diversos lugares, criados para exercitar o trabalho, não são idênticos e o rendimento por eles obtido está em relação com a adequação dos objetos ao processo imediato de trabalhos. Os fluxos são o movimento, a circulação e assim eles nos dão também a explicação dos fenômenos da distribuição e do consumo (SANTOS, 2012, p. 86).
Esse breve preâmbulo teórico é aqui colocado com a intenção de se abordar uma questão que em todos os momentos esteve entre as preocupações da autora, qual seja, mostrar como relações sociais e técnicas produtivas muito simples, ou pouco elaboradas, se espacializam em um meio natural, por tais razões, ainda pouco tocado e organizado. Tal é o caso do aglomerado produtivo de artesanato da região Norte do Piauí, e discorrer sobre suas espacialidades é o objetivo seguinte, com foco nos municípios que o compõem, bem como nas regiões (bairros) nas quais se localizam as associações.
A aglomeração estudada está concentrada em quatro municípios espacialmente contíguos e limítrofes, mais precisamente Buriti dos Lopes, Parnaíba, Ilha Grande e Luis Correia. Observa-se, em uma macro escala, que existe uma proximidade territorial entre as municípios sedes da aglomeração, daí o uso do próprio conceito de aglomeração; mas essa proximidade geográfica não fica tão evidente quando se analisa a localização das associações propriamente ditas. Assim, apesar de se tratar de municípios territorialmente pequenos e próximos um dos outros, o que se pôde notar, ao nível interno dos municípios, foram espacialidades de dispersão (SELINGARDI-SAMPAIO, 2009), pois as associações se encontram isoladas e distribuídas em bairros ou regiões relativamente distantes entre si. No interior de cada município, não se observa um espaço de produção e comercialização contínuo, compacto, havendo associações localizadas em pontos diferentes e não tão próximos.
Já em uma micro escala, alguns pontos de espacialização das atividades produtivas se tornam evidentes, na medida em que as regiões (bairros) nas quais se localizam as associações possuem várias artesãs trabalhando em residências próximas, as quais têm as sedes como ponto de apoio, de coleta de matéria-prima, de divulgação das peças produzidas, de vendas ou mesmo como um local de convivência das artesãs para troca de informações diversas, como, por exemplo, tomar conhecimento de alguma inovação que permita a confecção de novas peças, com técnicas diversas de produção, ou da possibilidade de melhores preços de venda dos produtos, dentre outras.
Faz-se necessário esclarecer, também, a utilização, pelos moradores do Norte do Piauí, dos recursos naturais disponíveis na área, mais precisamente as palhas existentes na região, como carnaúba, taboa e agaves, para produção do artesanato, como uma forma de sobrevivência. Essa prática, mesmo presente há muitas décadas, está sendo cada vez mais comum, devido, principalmente, à dificuldade em se conseguir empregos formais. Tem-se, assim, a seguinte situação: o frágil crescimento econômico e a lenta progressão dos demais indicadores socioeconômicos, ao manterem o Norte do Piauí como uma região subdesenvolvida, fortalecem a tradição cultural e conferem uma importância adicional, superestimada, à fartura natural de matérias-primas vegetais..
Felizmente, apesar da falta de instruções técnicas a respeito da colheita dos recursos naturais disponíveis, existe um cuidado por parte dos artesãos, ou coletores, em colher da melhor maneira possível as palhas, no intuito de torná-las constantemente acessíveis. Seria como que uma consciência ecológica intuitiva, atuando de forma coletiva, para a preservação de um recurso que, bem ou mal, lhes garante condições mínimas de sobrevivência.
Sobre a afirmação de Lefebvre (2000) anteriormente citada, que as práticas sociais interferem diretamente na produção do espaço, pode-se afirmar que, apesar da importância do artesanato para a região no que se refere à sobrevivência dos artesãos, a prática artesanal (produção, exposição e venda) se projeta de maneira pouco explícita na paisagem local, sendo aquelas atividades ainda concentradas nas casas dos produtores e nas sedes das associações, estas sim constituindo os grandes marcos visuais da produção artesanal ali realizada.
A produção em pequena escala, a venda ainda modesta do artesanato na região, a pouca divulgação por parte dos artesãos e dos órgãos públicos, e a
maneira informal como o trabalho é desenvolvido podem ser consideradas justificativas para ausência de outros locais que caracterizem a prática artesanal na região Norte do Piauí, resultando assim numa espacialização de pouca visibilidade, encrustada, especialmente, nas residências dos artesãos e nas associações. Diante disso, conclui-se que a formação dos espaços urbanos que compõem o aglomerado produtivo teve pouca influência do artesanato; essa pouca visibilidade na paisagem impede, de certo modo, um melhor conhecimento, por parte de potenciais compradores, das associações e das peças produzidas. Tudo isso se relaciona, obviamente, com a fraca atuação das instituições e entidades públicas e particulares que, em teoria, seriam as responsáveis por ações de efetiva governança na área.