Segundo J. K. Laughton, como vimos, a luta por mercados marítimos e o ataque dos piratas ingleses aos navios espanhóis teriam sido os principais motivos para a guerra contra a Espanha.150 Embora hoje saibamos que muitos outros elementos foram decisivos para conflagrar as hostilidades entre as duas Coroas, Laughton não estava completamente errado. Por trás da questão religiosa, sabia-se que o fator financeiro levava mercadores e nobres a nela tomar parte. Eles montavam empresas marítimas que visavam capturar as riquezas das Índias de Castela e depois dividi-las entre si, a Coroa também participava como investidora junto a agentes particulares, daí a irritação da Rainha em não conseguir partilhar dos despojos da empresa de Cádiz. Eventos que ajudaram na época a consolidar na Inglaterra um sistema mercantil, como o cercamento das propriedades, empresas marítimas, intenso comércio nos portos, migração às áreas
149 Martin Wiggins; Catherine Richardson. British...Op. cit. Volume III. p. 341.
urbanas de grande quantidade de camponeses sem trabalho por conta dos cercamentos, especialização das manufaturas etc. afetavam rapidamente o tecido social. Shakespeare refletia sobre estas questões em seus textos, mas parece em O Mercador de Veneza ter dado maior atenção a elas.
A república chamada de La Serenissima nos fins do século XVI já perdia sua posição privilegiada no comércio europeu. Não só a descoberta da rota às Índias pelo contorno da África havia impulsionado a perda dessa posição, mas a mudança do eixo de ação de Felipe II passava então do Mediterrâneo para o Atlântico.151 Veneza tinha nesse momento sua importância econômica ameaçada por novos agentes, como as Províncias Unidas, Monarquia Hispânica e a própria Inglaterra, porém ainda assegurava a posição especial de cidade esplendorosa.152 Pela peculiar posição no Mediterrâneo, a cidade ainda era vista como uma república multicultural. O editor crítico John Drakakis afirma que Veneza e Roma antiga funcionavam nos palcos londrinos como modelos para uma forma de governo menos centralizada e com maior liberdade financeira.153 Variedade étnica, economia em novos termos e sexualidade exuberante eram elementos narrados por viajantes, permeavam a imaginação dos elisabetanos que naquele tempo ponderavam sobre problemas emergentes na última fase do reinado de Elisabete.154
Em Trabalhos de Amor Perdidos, vimos que a maior parte das metáforas sobre o amor usa expressões religiosas e militares, compondo assim um tipo de “tripé” linguístico em que amor, religião e militarismo aparecem juntos. Em O Mercador de
Veneza, as ferramentas que Shakespeare usa para se referir ao amor possuem uma
diferença estrutural significativa, o dramaturgo deixa de usar expressões militares e em seu lugar passa para as expressões mercantis, criando outro “tripé” linguístico. Graciano, amigo de Antonio e Bassanio, inspirado na figura do Pretensioso da Commedia
dell’Arte, logo na primeira cena da peça diz que o silêncio só convêm a uma “virgem
que não seja vendável” (I, i, 112), referindo-se às donzelas que de acordo com o senso
151 Fernand Braudel. El Mediterraneo y el Mundo Mediterraneo en la Epoca de Felipe II. México,
Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 2 vol.,1953. Volume I. p. xvi.
152 John Drakakis. ‘Introduction’. In.: William Shakespeare. The Merchant of Venice. Edited by John
Drakakis. The Arden Shakespeare Third Series. London, Bloomsbury, 2011. pp. 1-159. pp. 3-8.
153 John Drakakis. ‘Introduction’. In.: William Shakespeare. The Merchant... Op. cit. p. 6.
154 No quesito da sexualidade, podemos imaginar o impacto sobre os ingleses proporcionado por
descrições de rapazes homossexuais que usavam gôndolas luxuosas para se exibirem nus, cobertos apenas com joias femininas, nos canais de Veneza durante o século XVI. Sobre a sexualidade renascentista veneziana, ver: Richard Sennet. ‘O Medo do Contato: o gueto judeu na Veneza renascentista’. In.: Richard Sennet. Carne e Pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. Rio de Janeiro, Editora Record, 2003. pp. 180-210.
comum já passaram da idade de casar.155 A segunda diferença é que enquanto os temas da religião, amor e militarismo são desenvolvidos quase que sequencialmente na composição de Trabalhos de Amor Perdidos, em O Mercador de Veneza os temas de religião, amor e finanças possuem uma relação mais complexa, e no decorrer da trama se sobrepõem, conflitam um com o outro. Os personagens diversas vezes são confrontados, obrigados a separá-los e escolher um deles.
Em alguns momentos a sobreposição entre imagens religiosas, mercantis e amorosas fica bastante evidente. Na primeira cena, Antonio encontra o amigo Bassanio e lhe pergunta “quem é essa dama por quem fizeste voto de empreender uma secreta
peregrinação, da qual me prometeste hoje falar?” (I, i, 119-121).156 O motivo que Bassanio alega a Antonio para o casamento é que o dote prometido poderia livrá-lo de suas dívidas. Portanto, seu primeiro interesse é financeiro, o amoroso é quase casual. Assim, no início da peça já podemos perceber que o amor é descrito em termos tanto religiosos quanto financeiros. A própria Pórcia, obedecendo a um desejo do pai morto, impõe aos pretendentes que vêm a sua casa a prova que premiará o vencedor com sua mão em casamento, ou seja, ela é o prêmio da disputa. A prova consiste na escolha entre três urnas, de ouro, prata e chumbo, cada uma apresenta curtos enigmas cuja função é guiar os pretendentes. Se o candidato escolher aquela com o melhor (ou maior) valor simbólico, dentro encontrará o retrato da heroína e poderá casar-se com ela. Assim, seu próprio destino está associado ao valor de metais como ouro, prata e chumbo, utilizados na fabricação das urnas, e o que cada uma delas esconde por trás das paredes feitas com tais metais. Mais adiante, veremos como se comportam os pretendentes de Pórcia na conquista do dote, por hora, a análise da escolha de Bassanio pode iluminar a referida sobreposição de imagens.
Quando o rapaz se depara com os escrínios das urnas, e precisa julgar o valor daquelas feitas em ouro, prata ou chumbo, logo lhe vem à mente a questão religiosa: “Em religião, qual o erro detestável que não possa, santificado por uma fronte austera e apoiado em textos adequados, esconder a grosseria debaixo de belos ornamentos?” (III, ii, 77-80). A seguir, ao perceber que ele escolheu a urna correta, a de chumbo, Pórcia exultante usa expressões próprias de operações financeiras, sobretudo a usura, para lhe declarar seu amor:
155 William Shakespeare. The Merchant ... Op. cit. p. 181, n. 112. 156 Grifos meus.
[...] por vós quisera poder triplicar-me vinte vezes; quisera ser mil vezes mais bela, mil vezes mais rica; e, enfim somente para elevar-me mais do que vós me estimais, quisera em riquezas, virtudes, em beleza, em amigos, exceder todo cálculo. Porém a soma total de minha pessoa equivale a zero; [..] Minha pessoa e o que me pertence são transferidos para vós e em vossos convertidos.
(O Mercador de Veneza, Ato III, cena ii, ref. versos 153-158; 165-167). Para selar a aliança com o amado, Pórcia dá a Bassanio um anel que simbolizaria sua própria pessoa, casa e todos seus pertences, anel que também simbolizaria seu amor.157
2.3 Os pretendentes: alegorias das nações de origem.