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A qualidade democrática brasileira deixa a desejar em vários aspectos. O déficit de participação política115 é um deles e afeta a responsividade e a accountability. De forma mais simples, podemos justificar a importância da participação tendo como base a noção de democracia, independente do modelo adotado, que considera essa forma de mobilização como uma condição para seu funcionamento. A baixa participação política no Brasil pode ser estimulada por características de sua cultura política que, possivelmente, atuam em conjunto com a ideologia do Estado autoritário.

A desmobilização social como principal objetivo do autoritarismo culmina com o golpe de 1964116, que praticamente liquida o sistema representativo no Brasil. No entanto, alguns mecanismos representativos, em conjunto com a existência de um partido opositor e com a continuação das atividades legislativas e judiciárias, foram mantidos para mascarar o objetivo antiparticipativo e repressivo do sistema. O funcionamento do Poder Legislativo em regimes autoritários tem como objetivo legitimar as ações do governo via parlamento117. É uma característica do sistema de

115 Mensurado por Neil (2006, p. 15), na verificação de votos brancos, nulos e abstenções.

116 Segundo Silva (1999) e Shin (2005), a maioria dos países latino-americanos absorve os princípios

democráticos antes de rejeitar os autoritários.

117 A maior parte dos regimes autoritários instaurados na história mundial não utilizou o Poder Legislativo para

dominação brasileiro, que influenciou os processos de transição política e abertura democrática do Brasil nos anos 1970 (Silva, 1999; Lamounier, 1990; O‟Donnell, 1988). Dificultar a organização social e levar a sociedade a acreditar que seus interesses são considerados nas decisões políticas (por meio da “fachada” representativa) possibilitam a manutenção das relações clientelistas e assimétricas e do poder político como um bem privado.

Durante a transição democrática, surgiram novas formas de relacionamento entre a sociedade e o Estado. Uma delas foram os movimentos sociais, tendo sido o sindicalismo o mais significativo deles. Contudo, no momento seguinte, com a instauração e consolidação democrática, os movimentos sociais perderam a sua centralidade e aumentou o abismo entre a sociedade e o Estado (Diniz e Boschi, 1989; apud Silva, 1999).

Com tantas mudanças, o principal problema para a consolidação da democracia no país foi a incapacidade institucional de se adaptar às novas mudanças e de absorvê-las. A incongruência do sistema institucional perante as transformações sociais pode ser vista como uma herança autoritária e reflete na “incapacidade dos partidos políticos, como canais de agregação de interesses, de viabilizar a inserção política dos novos atores emergentes” (Silva, 1999, p. 29).

Uma possível solução, pensada na época pelos “autênticos” do MDB, era fazer com que a base da população incorporasse as ideias democráticas, o que seria alcançado pela participação popular. Em outras palavras, o objetivo dessa proposta era combater a cultura política tradicional que estava se fortalecendo, cada vez mais, com o regime autoritário. De fato, o “bom” funcionamento do sistema representativo está na integração entre a democracia tradicional e os mecanismos institucionais de participação direta (Moisés, 1990). A participação direta se faz importante pelo fato de proporcionar a educação política para a cidadania (Silva, 1999, p. 34).

Segundo Moisés (1990, p. 13), participação política se refere ao

[...] conjunto de atividades mediante as quais os cidadãos de uma determinada sociedade pretendem influir tanto na escolha dos responsáveis pelas decisões políticas que afetam esta sociedade como um todo (e, portanto, nas suas ações) como no processo que conduz às próprias decisões relevantes para a coletividade.

Nas palavras de Silva (1999, p. 35), participação política “é aquela que se realiza através de canais institucionais concebidos para viabilizar a intervenção

direta [da população] na atividade de produção de leis e na formulação de políticas governamentais”. A possibilidade da ação direta da população na política esbarra no ranço autoritário “cultural” que sobrevive na democracia representativa e na cultura política brasileira, pelo fato de “valorizar pouco ou não valorizar a relação entre a vontade dos cidadãos e as instituições da representação” (Moisés, 1990, p. 35). Sem participação, não é surpresa que o antagonismo entre sociedade e Estado aumente. Nesse contexto, o Estado é visto como o ator regulador e provedor de direitos; enquanto a sociedade se percebe como incapaz de uma organização autônoma, tornando-se mero cliente. Essa oposição entre os dois atores tornou-se parte da cultura política, que interiorizou a ideia de que a sociedade é amorfa, heterogênea e caótica, necessitando que o Estado a organize e a regule para possibilitar não só a sua sobrevivência, mas também o seu desenvolvimento.

A transição democrática, apesar de ter superado o autoritarismo, pode ser considerada conservadora. Um dos motivos para se afirmar isso está na participação de parlamentares ligados aos militares e, posteriormente, na sobrevivência destes na consolidação democrática. Esses políticos são os principais sustentáculos da cultura política elitista, excludente, tradicional e antiparticipativa dentro da esfera política nos dias de hoje, disseminando-a na população (Silva, 1999, p. 39).

Estudando as propostas de emendas populares para a Constituição Estadual de Santa Catarina, em 1989, Clóvis P. da Silva argumenta a favor da tese de que a cultura política da região sofreu transformações em um rumo democrático, o que gerou propostas de emendas que efetivaram e fortaleceram a participação política118. A vontade popular de alterar os instrumentos de participação mostrava

alguma mudança no consenso normativo mínimo, compartilhado pela sociedade, nos termos de Moisés (1992), ou na cultura política pública, nos termos de Rawls (1993). Essa mudança não significaria nada se esse canal de participação (propostas de emendas populares) não existisse a priori. Portanto, o espaço institucional de participação sem cultura política democrática não surte efeito, e o contrário, cultura política democrática sem canais de participação, também não gera resultados democráticos.

Os valores têm mudado também em direção ao reconhecimento da

118 Foram admitidas 22 emendas populares; a delas metade propunha “a criação de espaços institucionais para a

participação de segmentos da sociedade na formulação e implementação de políticas públicas em áreas específicas” (Silva, 1999, p. 57).

democracia como um valor geral, ou seja, “como forma de organização política e como modo de convivência social” (Moisés, 1992, p. 136). Essa transformação dos valores proporciona a rejeição do modo de operação tradicional da política – formas antirrepublicanas ou com desempenho insuficiente. Contudo, Silva (1999, p. 82) relata ainda observar “a persistência de práticas de clientelismo e cooptação que, todavia marcaram as relações entre a sociedade e as instituições” que sustentam lideranças ligadas ao autoritarismo e a reprodução desses mesmos vícios no estilo político dos novos políticos. Por esse motivo, pensando em âmbito nacional e na possível perseverança do patrimonialismo como força, ainda ativa, na cultura política brasileira e disseminada pela ideologia do Estado, conclui-se que a participação política é baixa devido à desmobilização da população gerada por esses elementos.

De fato, não existe a defesa aberta de práticas antidemocráticas como o clientelismo ou o próprio patrimonialismo no país. A preponderância dos princípios liberais, principalmente na política, ainda continua sendo uma aspiração. Segundo Álvaro de Vita (1993b, p. 102-103), a sociedade brasileira (lembrando que o Brasil é o segundo país a ter a distribuição de renda mais injusta do mundo) é “o avesso da sociedade liberal justa de Rawls: é organizada para o máximo benefício possível dos mais privilegiados”.

Portanto, complementando o que foi discutido no segundo capítulo, o compromisso com valores que motivam o direito de voto, de eleições livres e honestas, de informação e associação, são indispensáveis para a democracia e para a tomada de decisões coletivas. Decorre desse compromisso a escolha pelas instituições políticas que seriam capazes de preservar e disseminar os valores em questão, fato que, por sua vez, depende da tradição de cada sociedade.

Rawls (apud Vita (1993a) distingue entre dois formatos sociais: as sociedades liberais e as “hierárquicas bem ordenadas”. Ambas possuem uma concepção de justiça consensual e, a partir daí, se dá o sistema político e institucional de cada uma119. As sociedades hierárquicas se configuram baseadas em valores específicos e a participação da sociedade na construção da concepção de justiça consensual também depende das características institucionais e culturais que assegurariam a legitimidade de suas instituições. Nessas sociedades, o direito de participação é dado a indivíduos que são membros de grupos ou associações, enquanto nas

119 As emendas populares de Santa Catarina, de fato, se baseavam em concepções de justiça distintas das

sociedades liberais decorre do fato de serem indivíduos livres e iguais.

O sistema de dominação patrimonialista apresenta funcionamento similar ao das “sociedades hierárquicas bem ordenadas”. No patrimonialismo, a condição para ser membro desses grupos (que exercem poder dentro e fora da política) é ter poder econômico (condição primordial no passado, talvez não tanto nos dias de hoje) e/ou ser cooptado, e/ou ser uma família tradicional na atuação da política, como ainda é o caso da família Sarney120 e das famílias donas dos meios de comunicação121. Somente esses grupos específicos e privilegiados têm o direito de participação política “direta” no sistema de dominação patrimonialista e as oportunidades geradas pelo relacionamento deles sob a lógica da corrupção “procedimental” possibilitada pelo sistema de dominação patrimonialista.

Após longos debates e defesa das emendas populares, a maioria dos membros da Constituinte declarou que as primeiras mudanças necessárias à consolidação democrática deviam ser localizadas nas instituições políticas, garantindo a participação popular, como de fato ocorreu122. Entretanto, foi expressa

a preocupação geral com a capacidade de organização social, pois todas as leis aprovadas não valeriam nada se a sociedade não se organizasse para impedir que “em seu nome falem apenas grupos minoritários” (Silva, 1999, p. 110). O episódio da Constituinte de Santa Catarina em 1989 expressa a vontade popular de institucionalizar canais efetivos de participação, o que indica uma absorção parcial das mudanças político-culturais ocorridas na sociedade pela arena política (idem, p. 112). As emendas podem ser vistas como um questionamento às formas de participação tradicional paternalistas, clientelistas e cooptativas e, por isso, indicam certa mudança na cultura política da região.

Portanto, há evidências suficientes para entender que a cultura política afeta diretamente a participação política. Parte da cultura política brasileira internalizou o patrimonialismo considerando-o um aspecto natural da política, como foi debatido nos capítulos anteriores. Além de estar contido na cultura política, o patrimonialismo

120 Inclusive, esse político fez parte do “pacto” da transição democrática no país, garantindo o seu lugar no novo

regime. Cf. Moisés e Albuquerque (1989, p. 143).

121 Nove famílias brasileiras, entre elas, Mesquita, Frias, Saad e Marinho, são proprietárias de 95% dos meios de

comunicação no país, liquidando com um dos elementos principais da democracia: disponibilização de fontes de informação variadas.

122 Foram aprovadas leis para a reclamação acerca do mau funcionamento do serviço público, para o controle e

fiscalização dos órgãos do poder através de conselhos estaduais, compostos por representantes do governo e da sociedade civil (Diário da Constituinte, 5 out. 1989, n. 39, p. 4).

encontra mecanismos de sobrevivência também na ideologia do Estado autoritário, incentivando a desmobilização social. A relação entre o patrimonialismo e a baixa participação não é direta e nem óbvia. Entretanto, a baixa participação causada pela desmobilização social é vantajosa para a cultura política autoritária e facilita a “coisificação” do poder público.

Benzer Belgeler