Para as comunidades, as representações do turismo e do turista, estão ancoradas em suas experiências mais recentes, experiências de contatos mais recentes. Já para o grupo diretamente envolvido com o Projeto Mulheres das Águas, as representações, embora também relacionadas com as experiências que tiveram em relação ao tema, estão direcionadas para uma imagem do que desejam para São João d’Aliança em termos de turismo, ancorados a outras imagens do que acreditam ser mais coerente para a conservação do Cerrado e a
valorização da cultura local, beneficiando os pequenos agricultores, os produtos artesanais e regionais.
A expectativa da comunidade do Forte é que o turismo possa colaborar, principalmente, para melhoria de renda, mas também para que “aconteça” algo de novo no lugar. Urututu aponta para a possibilidade de ver sua música valorizada, com a possibilidade de aumentar a presença de pessoas “de fora”.
Na comunidade da Pontezinha, a expectativa está ancorada à possibilidade de facilitar a venda de seus produtos e valorizar as características tradicionais desta produção. Embora essa experiência de contato e valorização local esteja fortemente vinculada à presença e às idéias do grupo do Projeto e também com alguns pesquisadores, ela já compõe o universo de possibilidades relacionadas ao tema e às representações do turismo.
Na comunidade do Mingau, as perspectivas de Urutau, e mesmo de Arirambinha, que a príncipio, revela muitas restrições, associadas ao turismo que experimenta, são também de uma possibilidade de renda. Embora, os dois também revelem diferentes ancoragens, diferentes imagens associadas à atividade, para Urutau, o turismo é mais que renda, ao que tudo indica, é um espaço para estabelecer relações com outras pessoas e para valorizar o lugar onde mora. Já para Arirambinha é uma atividade que está atrelada à prováveis desgastes e incômodos.
Em contato com essas representações, o grupo diretamente envolvido com o Projeto, tem a oportunidade de repensar às suas próprias expectativas, tanto para as comunidades que participaram da pesquisa quanto para os reais e correntes encontros com o turista. Assim como, torna-se necessário avaliar a possibilidade de pensar o turista não só como alguém que deve ser, mas como alguém que procura por algo, possuidor de algumas necessidades que também lhe são próprias, e que, independente de ser identificado ou não como um “ecoturista”, traz referências, representações que talvez devam ser consideradas e evidenciadas nas representações do grupo relacionadas à proposta de desenvolvimento do turismo no Município.
Admite-se que o grupo pensa nesta etapa, de preparação dos interessados para entrar em contato com diferentes pessoas, turistas, durante o processo de capacitação, contudo, pode ser interessante já começar a discutir essas questões, já que todo o processo tende a ser uma construção, uma busca contínua, não uma conjunção de “tempos” específicos. O desafio do
grupo é ter de lidar com o “ecoturista” potencial e não o “ecoturista” enquanto grupo específico, já constituído. Dessa forma, abrir espaço para essa discussão no âmbito das comunidades, durante a capacitação, irá colaborar para envolvê-los no processo não como receptores de potenciais “ecoturistas”, mas como agentes transformadores. Não para estarem preparados para lidar com a diferença, mas para estimular uma percepção dessas diferenças no âmbito de suas próprias questões, de seus próprios desafios.
4 SOBRE A DÁDIVA: RUPTURAS E ALIANÇAS
O trabalho de levantamento e divulgação das belezas naturais e dos atrativos culturais presentes no Município de São João d’Aliança não é voltado exclusivamente para um público externo, para a atração de turistas. Ao contrário, a divulgação tem essencialmente o objetivo de promover um reconhecimento e valorização local das características sertanejas das comunidades e de seus belos atrativos naturais, procurando fortalecer o sentimento de estima por esse ambiente natural e social. O material utilizado é basicamente composto por fotos, apresentadas em filme fotográfico ou em data-show, por vezes acompanhado de músicas da região. O representante da UnB, Acauã, é o responsável pelas fotografias, ele fala sobre seu trabalho e o contato com as pessoas das comunidades:
É muito legal você captá o espírito das pessoas nas fotos, tem fotos que você num se vê. As pessoas se vêem nas fotos, é muito legal, porque eu procuro fotografa elas no dia a dia mesmo. Essa semana, eu escutei uma história do Sebastião Salgado que num dá um retorno pras pessoas, num tem essa coisa da vivência, num volta lá e num dá foto pra ninguém, nem nada. [...] Sei lá porque eu quero tanto da essa resposta pra eles. Das quatro exposições que eu fiz, três foram aqui em São João, são exposições grandes. Poxa, Seu Cancã de muleta, setenta anos, ficou quase uma hora lá olhando. Ele disse: Isso revigora a gente. Eu me emocionei. Teve uma hora que tavam os mais velhos, de cara, vieram me abraçar, me agradecer. Pô, “Muito obrigado!” digo eu, por vocês serem tão bonitos, e as minhas fotos estarem tão bonitas. O pessoal sempre me agradece muito. Eu vejo que eu valorizo eles nas fotos e o ambiente deles também. Mas o retorno deles é muito maior.
As fotos não são somente observadas nas exposições, fotos com pessoas das comunidades são entregues aos que participaram, independente de suas fotos estarem ou não expostas. Há uma troca, uma necessidade e uma vontade de retribuir, para além do trabalho de divulgação. Nessas trocas as pessoas se aproximam, revivem suas memórias, servem café, estreitam laços e criam espaços de reconhecimento e vínculos.
Ao trabalhar com representações sociais, as questões relevantes para o tema, meio ambiente, sociedade e desafios para a sustentabilidade foram se mostrando conforme as situações inerentes à vivência e, à vontade de pactuar com a presença e a forma como o universo do outro pode ser pensado, o que desencadeou algumas outras revelações e reflexões, que aqui se cristalizam. Essas reflexões focalizam a forma como os sujeitos lidam com valores voltados para suas relações sociais, com as necessidades de criar ou dissolver vínculos, no âmbito de seus grupos de convivência, uma preocupação preponderante, marcando as representações sociais relacionadas ao ambiente, ao turismo e as demais expectativas. Identificamos esses aspectos como representações da dádiva, em referência ao trabalho de Marcell Mauss (1974) e dos temores em relação ao dinheiro e o capitalismo,
componentes de nossa sociedade moderna. A discussão cronológica se confunde com a sobreposição de representações, mas justifica-se para expor o caminho percorrido, afinando-o com o amadurecimento teórico e a busca pelo entendimento das questões sociais envolvidas..