O grupo definido por Rüdiger (2013) como populistas tecnófilos tem como marca de seu pensamento a perspectiva positiva e otimista em relação aos efeitos das tecnologias e da internet na vida cotidiana. De acordo com o autor, são pensadores que interpretam a tecnologia enquanto promotora do progresso não apenas científico, mas que teria como positivas consequências o progresso social e econômico.
O pensamento que interpreta a tecnologia como promotora do progresso tem, de acordo com Rüdiger (2013), nas origens do próprio pensamento moderno, que teria como uma de suas marcas a divisão entre o otimismo societário e o pessimismo cultural. O próprio desenvolvimento tecnológico seria a origem da vertente otimista.
Seguidores de uma linhagem de pensamento que se articula pela primeira vez em Francis Bacon e que se contextualiza materialmente com a ascensão do capitalismo e a eclosão da Revolução Industrial, os prometeicos ou tecnófilos são estes que precedem ao elogio da técnica moderna, com base na identificação de sua capacidade emancipatória e beneficente. A tecnologia merece, segundo eles ser vista como um fator de progresso, uma força de caráter positivo, que nos promete o melhor mundo possível. (RÜDIGER, 2013, p. 51)
Dentro dos estudos em cibercultura, essa perspectiva é utilizada por Marshall McLuhan ao refletir a respeito de como o desenvolvimento de redes de comunicação contribuíram com o processo de integração social dentro de seu
conceito de Aldeia Global (MCLUHAN, 2007). Para o autor, as tecnologias de informação, que atuam como extensões de nossa consciência, traduzem o homem também em informação. Isso favoreceria a origem de uma consciência humana universal, capaz de ser um fator de união.
Se a obra da cidade é o refazimento ou a tradução do homem numa forma mais adequada do que aquela que seus ancestrais nômades realizaram, por que não poderia a tradução, ora em curso, de nossas vidas sob a forma de informação, resultar numa só consciência do globo inteiro e da família humana? (MCLUHAN, 2007, p. 81)
Assim, os autores destacados por Rüdiger (2013) como pertencentes ao grupo dos tecnófilos defendem, em linhas gerais, a visão de que a internet e as tecnologias de comunicação seriam promotoras do progresso social por reduzirem, ou eliminarem, a lacuna existente entre as instâncias produtoras e difusoras de conteúdo e o nível de recepção e consumo. Segundo o autor, tais estudos ressaltam que o desenvolvimento das mídias digitais compreende uma revolução cultural capaz de reduzir o poder e a influência dos meios de comunicação tradicionais e colocar o público também como definidor dos conteúdos difundidos pelos meios. De acordo com os autores destacados por Rüdiger (2013), tais como Nicholas Negroponte, Dan Gilmor, Howard Rheingold e Henry Jenkins, essas características também são responsáveis pela promoção de novas formas de sociabilidade e de desenvolvimento democrático.
A internet criou uma rede mundial de computadores, e a popularização dos equipamentos de informática está permitindo a milhões de pessoas interagirem livremente e se tornarem sujeitos engajados ativamente no processo de comunicação. O conhecimento passou a se disseminar horizontalmente, conferindo maior poder ao indivíduo, relativamente às organizações verticais e centralizadas dos tempos da velha mídia e das indústrias da cultura. (RÜDIGER, 2013, p. 35-36)
É possível também observar que, por serem autores cujas ideias tomam como herança o pensamento de McLuhan (2007) sobre a integração social agenciada pelas tecnologias, vários dos nomes alinhados à vertente tecnófila têm seus estudos considerados como basilares nas próprias definições do fenômeno cibercultural, como é o caso de Pierre Lévy. Outro fator considerado por Rüdiger
(2013) que justificaria a visibilidade conquistada pelos autores seria sua ligação com os grandes grupos empresariais de informática e de comunicação - o que também expõe o próprio viés crítico dado por Rüdiger (2013) em sua análise, como se verá mais detalhadamente a seguir.
A partir então dessas observações, é possível verificar que mesmo as análises desses autores terem em comum o ponto de vista de que a tecnologia é promotora do progresso e integração social, existem variações entre o que seria a prioridade desses autores na verificação do progresso nesse novo cenário social. Na visão de Pierre Lévy, por exemplo, o grande motor do fenômeno cibercultural reside na possibilidade de que seja promovida uma interconexão social capaz de gerar uma nova forma de ecologia do conhecimento. Conforme Rüdiger (2013) analisa a respeito do autor,
A cibercultura expressa antes de mais nada uma suposta vontade coletiva de construir laços sociais baseados na partilha de conhecimentos. (RÜDIGER, 2013, p. 167)
Para Lévy (2010; 2015), o ciberespaço, caracterizado por seus aspectos de universalidade e de não-totalidade a respeito das culturas transmitidas por meio dele, torna-se o local por excelência em que se estabeleceriam relações de colaboração e compartilhamento que dariam origem ao que denomina como “inteligência coletiva”. Na visão do autor, o fenômeno mostra-se como o conhecimento pertencente a toda sociedade, construído de forma colaborativa e compartilhado com todos. A base para tal fenômeno, promotor da integração social por meio do saber compartilhado, seria a conexão social em rede.
A coordenação das inteligências em tempo real provoca a intervenção de agenciamento de comunicação que, além de certo limiar quantitativo, só podem basear-se nas tecnologias digitais da informação. Os novos sistemas de comunicação deveriam oferecer aos membros de uma comunidade os meios de coordenar suas interações no mesmo universo virtual de conhecimentos. Não seria tanto o caso de modelar o mundo físico comum, mas de permitir aos membros de coletivos mal situados interagir em uma paisagem móvel de significações. Acontecimentos, decisões, ações e pessoas estariam situados nos mapas dinâmicos de um contexto comum e transformariam continuamente o universo virtual em que adquirem sentido. Nessa perspectiva, o ciberespaço tornar-se-ia o espaço
móvel das interações entre conhecimentos e conhecedores de coletivos inteligentes desterritorializados. (LÉVY, 2015, p. 27)
Por meio então do estabelecimento de um estado de inteligência coletiva viabilizado pelas tecnologias, Lévy (2010) analisa que seriam consolidadas novas relações com o saber e de acesso ao conhecimento. O autor também analisa que, com as formas de participação possibilitadas pelas novas mídias, a sociabilidade agenciada pela tecnologia não teria seus efeitos restritos apenas à dinâmica da transmissão de conhecimentos. O campo das artes também contaria com novas dinâmicas de criação artística - o que, ao mesmo tempo em que abriria espaço para o público também criar obras de arte, ou participar de processos de criação, colocaria em xeque o status consolidado da autoria -, assim como o campo da política, com a possibilidade de se promover a participação social pelos recursos da democracia eletrônica (LÉVY, 2010).
A respeito dessa possibilidade de o ciberespaço ser um local de troca de conhecimentos e de as tecnologias promoverem o engajamento social, Shirky (2011) sustenta que a participação agenciada pelas mídias e o compartilhamento de conteúdos, valores e culturas situa-se em um espectro que vai da esfera pessoal de relacionamentos sociais, passando pelo âmbito comum e chegando ao público e ao cívico. Shirky (2011) interpreta que a participação social em instâncias e esferas digitais, como os blogs e as redes sociais, podem ser motivados por valores que não se restringem apenas aos desejos de satisfação pessoal. Segundo o autor, ao incorporar às práticas digitais de comunicação e compartilhamento o desejo de agir em prol de comunidades e instituições, de forma com que os efeitos dessas ações atinjam mais pessoas além do próprio sujeito comunicativo, atingem-se valores que seriam capazes de promover mudanças em sociedades e governos.
O espectro que vai do pessoal ao comum e ao público e ao cívico descreve o degrau de valor criado para participantes versus não participantes. Com o compartilhamento pessoal, a maior parte ou a totalidade do valor vai para os participantes, enquanto do outro lado do espectro, tentativas de compartilhamento cívico são especificamente construídas para gerar mudança real na sociedade a que pertencem os participantes. (SHIRKY, 2011, p. 154)
Ainda sobre a avaliação feita pelos teóricos a respeito dos benefícios que os recursos de participação que as mídias digitais trazem à sociedade, Tapscott e
Williams (2007) aplicam essa visão positiva aos efeitos econômicos. Na perspectiva dos autores, a produção criativa e o compartilhamento de tais conteúdos em rede podem ser revertidos em ganhos econômicos.
A escolha que está diante das empresas não é se elas interagirão e colaborarão com comunidades de peering, mas determinar quando e como isso acontecerá. Agora que as pessoas têm acesso a ferramentas para criação e distribuição, elas as usarão - para seus próprios fins e do seu próprio jeito. (TAPSCOTT; WILLIAMS, 2007, p. 333)
Já Jenkins (2009) remete os ganhos possibilitados pelo fenômeno cibercultural ao cenário cultural e comunicativo do campo midiático. O autor verificar que a multiplicidade de maneiras de se consumir conteúdos aliado `s novas formas de produzi-lo e difundi-lo conferem à cibercultura uma diversidade maior. Isso, aliado aos recursos de compartilhamento, além de gerarem novas formas de sociabilidade, não responsáveis pela renovação nas formas de as empresas de mídia se sustentarem no ambiente cibercultural (JENKINS; FORD; GREEN, 2014).
O poder da mídia alternativa é que ela diversifica; o poder da mídia de radiodifusão é que ela amplifica. É por isso que devemos nos preocupar com o fluxo entre a duas: expandir os potenciais para a participação representa a maior oportunidade para a diversidade cultural. Jogue fora os poderes da radiodifusão e o que se tem é apenas a fragmentação cultural. O poder da participação vem não de destruir a cultura comercial, mas de reescrevê-la, modificá-la, corrigi- la, expandi-la, adicionando maior diversidade de pontos de vista, e então circulando-a novamente, de volta às mídias comerciais. (JENKINS, 2009, p. 341)
Assim sendo, o que se verifica em relação à vertente de autores tecnófilos, como é colocado por Rüdiger (2013), é uma confiança em relação à potencialidade oferecida pelos meios digitais em romper com o polo emissor (LEMOS, 2006), em integrar o público que antes era receptor nas dinâmicas de produção e difusão de conteúdos. Para esses autores, essa característica é capaz de conduzir a sociedade que tem sua cultura digitalmente mediada à integração e ao progresso. A essa visão, opõem-se os considerados por Rüdiger (2013) os conservadores midiáticos, que veem nessa possibilidade a degradação cultural.