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As plantas das 21 moradias autoconstruídas, a planta do projeto original da moradia construída pela Prefeitura, e as plantas das 24 moradias novas- transformadas, tiveram seu espaço interior decomposto levando-se em conta os elementos que os constituíam, ou seja: a delimitação dos ambientes definidos por partições e/ou pela maneira como são distribuídos os móveis e utensílios nestes ambientes. Para isso, utilizou-se duas formas distintas de separação dos espaços, como é possível na Sintaxe do Espaço. Os espaços aqui definidos foram decompostos através de espaços convexos e espaços delimitados, cujas definições já foram observadas anteriormente.

A escolha de qual forma de partição de espaços pode ser utilizada para obter o resultado esperado em uma pesquisa dependerá dos elementos disponíveis em seu objeto de estudo – neste caso, os móveis e utensílios que indicam as atividades que ocorrem nos espaços da casa.

Procedimentos de partição de espaços segundo critérios distintos têm sido usados em outros estudos de configuração espacial doméstica (i.e. Trigueiro, 1994). Foi utilizado no trabalho de Trigueiro como forma de separação dos espaços: “espaços delimitados” – “bounded space”, no original (Hanson, 1998) - para definir, no estudo de Trigueiro, cômodos de uso prolongado, e o de “espaços convexos” – “convex space”, no original (idem, ibidem) - para definir espaços de transição os quais apresentavam caminhos tortuosos parecendo associar-se a distanciamentos intencionais de percurso entre cômodos, sendo necessário considerar essa intenção. Nestes casos, recomenda-se dividir esses espaços de transição em seus espaços convexos componentes.

Foram, escolhidos neste estudo os meios de partição que Trigueiro usou – espaços delimitados e espaços convexos. Sendo que aqui as atividades praticadas em cada cômodo foi o que estabeleceu o uso das duas opções de partição de espaços. Esta maneira de partição de espaços, com base nas atividades realizadas neles, foi também utilizada na pesquisa sobre moradias de baixa e média renda no Recife (Monteiro, 1997).

Consideram-se espaços fundamentalmente distintos áreas cuja observação - fundamentada na presença de mobiliário, equipamentos e relatos – revelou

determinados usos. Os espaços de permanência, especificamente enfocados a partir de seus usos, foram: espaços de dormir; de cozinhar (ou cozinhar e comer); de estar (e/ou receber); de higiene pessoal e de serviço (lavagem de roupa, etc). Os elementos básicos definidores desses usos foram, respectivamente: cama(s), fogão, TV/sofá/poltrona, mesa e cadeiras, bacia sanitária e tanque de lavar roupa. Foram considerados, ainda, os espaços de transitar – áreas internas bem definidas onde não se observou a presença de qualquer peça de mobília ou equipamento que determinasse a permanência de pessoas; somente em alguns casos armários e geladeiras, porém na maioria não havia mobília e os respondentes (moradores) não lhes atribuíram qualquer tipo de uso.

Como já mencionado, em algumas situações eram realizadas diversas atividades em um único cômodo, e também foi observado que alguns tipos de atividades se agrupavam. Havia sempre nestes agrupamentos de atividades uma que era predominante, que foi chamada aqui de atividade principal.

Por exemplo: as atividades cozinhar e lavar louças ocorrem em um mesmo cômodo em 16 das 21 moradias autoconstruídas e em 22 das 24 moradias atuais, sendo que a atividade lavar louças é uma atividade secundária à atividade cozinhar – uma só ocorre em decorrência da outra portanto, lavar louça não foi uma atividade definidora de espaço nesta pesquisa.

Outra atividade estabelecida como principal é a atividade dormir. Esta atividade aparece em todas as moradias, em diversos cômodos de cada moradia. Em muitos casos aparece como atividade isolada e/ou juntamente com a atividade assistir TV.

A atividade lavar roupas também está presente na maioria das moradias e aparece em muitos casos como atividade isolada das demais; assim como a atividade higiene pessoal que aparece de forma isolada em praticamente todos os casos, portanto são consideradas nesta pesquisa como atividades principais.

Receber, comer e transitar são atividades que aparecem em uma quantidade mais reduzida que as demais atividades, porém estão presentes como atividades isoladas, sendo isto significativo dentro da amostra. Assim são consideradas atividades principais.

Percebe-se que a atividade assistir TV também aparece como atividade isolada, porém neste caso os espaços considerados como apenas de assistir TV são espaços convexos de quartos ou salas de estar, onde existem móveis que

estabelecem mais de uma atividade principal. E para a atividade assistir TV são utilizados estes móveis, como: cama, sofás e cadeiras, que estão definidos como atividades de dormir, receber, etc.

Somente aparecem 02 espaços comerciais nas casas autoconstruídas e 01 espaço para este fim nas casas atuais, assim, não foi considerada esta uma atividade principal.

A atividade lavar louça, apesar de estar presente em praticamente todas as casas, quando não está agrupada à atividade cozinhar, está agrupada à atividade lavar roupas; portanto, foi considerada uma atividade secundária nos dois casos.

Em alguns casos, onde foram verificadas mais de uma atividade realizada em um mesmo cômodo, mesmo não existindo paredes ou outros tipos de divisórias, tais atividades determinaram a definição de espaços distintos – espaços convexos - como já explicado. Isto pode ser percebido nos exemplos a seguir.

As casas autoconstruídas são aqui chamadas de ca, seguidas do número de ordem: ca01, ca02, etc. As casas novas-transformadas são aqui chamadas de cn, seguidas do número de ordem: cn01, cn02, etc. E a casa projetada é chamada de cp.

Como já foi mencionado, foram construídas duas casas nos lotes das casas (cn 01 e cn19) para filhos, e para diferenciá-las, as casas principais passaram a ser chamadas cn01a e cn19a, enquanto as casas anexas a estas, de cn01b e c019b respectivamente.

Na casa autoconstruída ca02, por exemplo, em um único espaço físico não delimitado por divisórias, seus moradores criaram ambientes utilizando os móveis para dividir o espaço de dormir, dos espaços de cozinhar e estar. A separação do espaço de dormir foi feita de modo que o guarda-roupa foi utilizado como uma barreira para os demais ambientes, enquanto o estar e cozinhar foram apenas definidos por seus utensílios, sem barreiras visuais (ver planta no anexo 05).

A casa cn01a do novo conjunto, por exemplo, foi alterada com acréscimo de um espaço na parte dos fundos que serve de dois ambientes, quarto da dona da casa e cozinha. Estes ambientes foram separados por uma cortina de tecido, criando-se assim a barreira necessária para dividir o cômodo em dois ambientes.

A planta da casa autoconstruída ca01a no anexo 05.1 mostra um esquema de planta baixa de uma das moradias com os equipamentos que foram registrados in

para grafos de acesso, depois “enraizados” a partir do espaço público para representar o percurso que uma pessoa pode desenvolver ao percorrer todos os espaços da moradia. Os círculos numerados representam os espaços encontrados e estes estão ligados por uma linha que representa o acesso existente entre eles. Ao lado da planta pode-se ver dois grafos de acesso iguais que correspondem ao sistema configuracional encontrado – um dos grafos traz as abreviaturas das atividades correspondentes a cada espaço e o outro traz as médias de integração de cada espaço.

Explica-se, a seguir, o desenvolvimento desse grafo.

Uma pessoa que estivesse na via pública estaria teoricamente no espaço (+), raiz do grafo, e poderia avançar para o espaço (1), área livre do lote; daí para os espaços (5) de transitar, (2) de cozinhar, lavar louça e comer, (11) de serviço (lavanderia) ou (10), higiene pessoal – banheiro. Os dois últimos, “espaços terminais” no grafo, por não levarem a outros espaços. A partir dos espaços (2) e (5) a pessoa poderia prosseguir para os espaços (3) de estar, (6) e (7) de dormir; dos espaços (3) e (7) se poderia prosseguir para os espaços (4), (8) e (9) de dormir e todo o complexo teria sido percorrido.

Em sintaxe do espaço, a cada vez que se passa de um nível de acesso para o próximo - neste caso, de (+) para (1); de (1) para (5), (2), (3), (11) e (10); de (2) e (5) para (3), (6) e (7), e assim por diante - diz-se que se avançou um nível de

profundidade. O exemplo em curso tem, assim, quatro níveis de profundidade,

considerando-se a raiz (+) como nível zero (ver planta no anexo 05).

Os grafos são também úteis para permitir uma rápida visualização da existência de múltiplas possibilidades de acesso a determinados espaços. Quando isso ocorre formam-se anéis de acesso/circulação, como os que interligam os espaços (1), (2), (3) e (5) do grafo da casa ca01 em questão; indicando que se pode ir, por exemplo, para a sala de estar (3), pela cozinha (2), ou pelo corredor (5).

A forma resultante do grafo, mais ou menos “linear - árvore” ou “anelar - circular”, é também um bom indício da presença de determinados padrões nas relações espaço/usos.

Buscou-se, assim, investigar a existência de propriedades espaciais observáveis, de naturezas geométrica e topológica, como já se disse, visando-se aprofundar o entendimento sobre a moradia de baixo custo em Parnamirim/RN e delinear um possível panorama de prioridades espaciais desse grupo de moradores.

Após a aplicação dos métodos de estudo procurou-se correlacionar os resultados a fim de buscar as congruências e/ou distinções entre os mesmos e responder às questões iniciais sobre a ocupação, expansão e remoção das casas autoconstruídas; a concepção do projeto arquitetônico das casas populares e a apropriação do espaço destas casas pelos moradores transferidos.

As informações obtidas através das entrevistas, assim como a análise morfológica das plantas das residências autoconstruídas, novas-transformadas e projetada, permitirão uma leitura do modo de vida nas casas e respostas às questões iniciais deste trabalho sobre a forma de morar de pessoas de baixa renda; e espera-se que venha contribuir para fortalecer instrumentos e recursos para a projetação de casas populares.xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Benzer Belgeler