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O mundo é tudo o que é o caso. De saída, esta proposição de abertura do Tractatus de Wittgenstein sugere uma premissa bastante interessante: mundo não é uma entidade real. Mundo é tudo o que pode ser declinado. A cadeia infinita de eventos que chamamos de

mundo seria o conjunto finito dos modos de decliná-lo. Em outros termos, a totalidade dos

estados de coisa apreendidos na linguagem seria a totalidade dos mundos declináveis possíveis. O mundo não é uma dimensão cosmológica e nem espiritual, mas tudo o que, no interior de algum regime de sentido, constitui o caso. Nessa concepção, aflora um aspecto

851 EM. 852 EM. 853

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dos mais valiosos do pensamento de Wittgenstein. O mundo é uma cadeia infinita de eventos que, enquanto eventos, não são totalizáveis. É impossível acessar as coisas tal como se processam no real. Natureza e linguagem são duas lâminas sutilíssimas que se espelham e se desdobram ao infinito, sem nunca se tocar. Porém, ao pensar o mundo como caso, declino-o no interior de um sistema de sentido que engloba, em si, todos os eventos do mundo. Ou seja: todos os mundos do mundo.

Sloterdijk cita a premissa de Wittgenstein reiteradamente, não apenas em Crítica da

Razão Cínica854, mas também a utiliza como leitmotiv nos diversos capítulos de

Estranhamento do Mundo855. E é nesta concepção de mundo como ente declinável que se encontra o que acredito ser a chave de acesso a uma boa parte de seu pensamento no que concerne as zonas-limite da transferência esferológica: uma reflexão dêitica. Uso os pronomes dêiticos: ali, aqui, lá, além, aquém, isto, aquilo. Quando o faço, não emito juízos. Tampouco descrevo coisas. Não ajo por meio da linguagem. Não comunico. Não poetizo. Sequer me encontro no nível exclusivamente fático. E tampouco enuncio valores ou objetos do mundo. Para dizer com Austin e Searle em sua teoria dos atos de fala, produzo “atos elocutórios”856. Desempenho a linguagem em seu sentido performativo. Não falo de

conteúdos ou expressões: indico paisagens mentais vazias e sugiro situações concretas, existências e espaços vivenciais a serem preenchidos. Essa filosofia indicativa ou filosofia dêitica ganha destaque na obra de Sloterdijk especialmente em dois momentos: em

Estranhamento do Mundo e na abertura do segundo volume de Esferas. E se articula

mediante um simples gesto: a posição do dedo indicador. Chamemo-lo de gesto indicativo. E, por conseguinte, os conceitos que ele agencia, de filosofia indicativa.

Os misteriosos indicadores de Leonardo não teriam outra pretensão, senão nos alertar para a gravidade da pergunta dêitica fundamental, que escapa tanto à teologia quanto à ontologia. Podemos pensar também nas representações acheiropoieticas dos ícones ortodoxos, com suas mãos delgadas, sempre indicativas. Para baixo, para cima. A filosofia indicativa, centrada em um pensamento dêitico, abre-nos a possibilidade de somarmos às

854 CRC. 855 EM.

856 SEARLE, J. R. Expressão e Significado: Estudos sobre a teoria do atos de fala. São Paulo: Martins Fontes,

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diversas figurações do cristianismo uma nova hermenêutica e, portanto, uma nova natureza cristológica e uma nova iconologia: o Cristo indicativo. Entre a teologia da cruz e o

pantokrator, com o dedo médio formando um círculo e o indicador sempre levemente

tencionado, seu gesto se lança ao Reino. Sugere um estado suspensivo que mimetiza a própria essência da Encarnação: o locus divino não está necessariamente acima ou abaixo. Mas ao redor: aqui, ali, além, lá. Tal hermenêutica pode abrir uma vasta possibilidade teológica, pois ao redefinir o conceito de mundo, redefiniria, por conseguinte, o fundamento de quase todas as religiões soteriológicas universais.

É com essa fenomenologia do gesto que Sloterdijk abre o segundo volume de Esferas, ao tratar de Os Sete Sábios da Grécia, conhecido como mosaico dos filósofos, em Torre Annunziata, do século I a.C., no qual os seus personagens meditam ao redor de um globo terrestre, posicionado no nível do chão857. Sentido semelhante ao afresco de Pompeia, na casa dos Vetti, no qual a deusa Urania assinala o globo terrestre com uma varinha858. De acordo com a brilhante exegese do filósofo, temos aqui, não exatamente em uma obra filosófica, mas em uma figuração artística, pela primeira vez no pensamento ocidental uma hipótese suspensiva do mundo. O mundo, posto entre parêntese, torna-se passível de ser pensado, não como entidade cosmológica, mas como esfera objetivável, imagem reativada com toda a força muitos séculos depois, tanto no detalhe quanto no cerne da Escola de

Atenas de Rafael, ela mesma outra obra-prima da filosofia indicativa. Por outro lado, não é

outra a filosofia cínica de Diógenes, senão uma filosofia indicativa. O filósofo cínico é aquele que aponta para a nudez do rei, desvela o caroço podre do real, raiz da civilização. O dedo indicador de Diógenes se dirige a cada um de nós. Porém, não descobre um homem sequer em toda a humanidade.

Também não só no sentido teorético a filosofia indicativa se constrói. No interior do círculo de fogo, como rei dançarino (nataraja), Shiva executa sua performance destrutivo- gerativa. Dualidade fundamental, os movimentos são dinâmicos, mas os olhos estão fixos. Ele não se envolve com a dança, embora ela seja o coração do universo em movimento. Em

857 E-II, 14.

858 I, 10. E-II, 14. Esta imagem é tão importante ara PS que há duas variantes dos setes sábios em torno do

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uma das quatro mãos, o damaru, tambor em forma de ampulheta com o qual marca o ritmo cósmico. Na outra, uma chama, símbolo da transformação e da destruição de tudo que é ilusório. As outras duas mãos produzem gestos específicos. A direita, com a palma à mostra, representa um gesto de proteção e bênção (abhaya mudrá). A esquerda forma a tromba de um elefante, simbolizando aquele que destrói os obstáculos. Porém, esta também perfaz um arco, e indica o pequeno ser que se encontra esmagado sob os pés em dança do deus. Esse ser é a ignorância. Mas também é o próprio mundo.

Seria o mundo negável? Para onde vamos quando saímos do mundo? Para onde vão os monges em ascese?859

É a partir dessas indagações que Sloterdijk desenvolve sua fenomenologia do estranhamento. A filosofia indicativa postula o mundo como caso à medida que o concebe como fenômeno passível de suspensão. Se para Hegel a verdade é a totalidade, esta verdade é a plenificação do Espírito na história como Estado, refletido na pureza de uma autoconsciência que se realiza enquanto ideia e absoluto. Porém, em Sloterdijk, esse movimento ainda tem um novo salto. Não necessariamente um salto na fé pascaliano ou kierkegaardiano, mas uma ruptura ontológica na qual o próprio mundo, entendido como totalidade realizável, se suspende, sob o leve toque do dedo indicador. Não se trata de uma redução eidética ou de uma époche fenomenológica, embora elas estejam implícitas em sua hermenêutica, colhida sobretudo em Heidegger e Bachelard. Estamos aqui muito mais próximos do veneno de uma époche pirrônica diante da qual qualquer resíduo noético se aniquila.

Porém, dada a importância da dimensão vivencial de todas as esferas, qual seria propriamente o espaço político dessa renúncia? O que distinguiria uma mera negação de uma recusa mundana que nos conduz à clareira do real? Qual seria a forma histórica dessa negatividade radical? Até que ponto uma filosofia indicativa nos salva das boutades do cinismo moderno, cujas armadilhas se espalham por todos os lados? O título da obra

859 Estas são algumas perguntas que abrem alguns capítulos de EM. Cf. Também: ROCCA, Adolfo Vásquez.

Peter Sloterdijk: Dónde van los Monjes? Sobre la Huída del Mundo desde la Perspectiva Antropológica.

Nómadas. Revista Crítica de Ciencias Sociales y Jurídicas, 21, 2009: 1. Profesor de la Universidad Andrés Bello

2 – Universidad Complutense de Madrid Publicación Electrónica de la Universidad Complutense, ISSN 1578- 6730. Disponível em: http://www.ucm.es/info/nomadas/21/avrocca3.pdf

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seminal escrita a quatro mãos com Thomas Macho pode indicar um caminho: revolução global da alma.

Benzer Belgeler