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São inúmeras as formas de observação feitas pelo ser humano. Observar é um processo inerente à condição humana. A observação casual, para se transformar em observação com valor científico, deve ser feita de acordo com os princípios teóricos e metodológicos definidos pelo pesquisador no processo de investigação.

No entanto, para planejar e implementar uma observação que assegure os requisitos da cientificidade, é preciso usar metodologias adequadas que a transforme em atividade científica. Assim, utilizada com essa perspectiva, a observação tem contribuído para o desenvolvimento do conhecimento. Por ser uma técnica metodológica valiosa para a interpretação da realidade, “[...] a observação é um processo empírico por intermédio do qual usamos a totalidade dos nossos sentidos para reconhecer e registrar eventos factuais”.

(GRAZIANO; RAULIN, 2000 apud VIANNA, 2007, p. 14). Desse modo, a observação registra fatos da realidade empírica para a produção do conhecimento.

Vianna (2007, p. 20), baseando-se em Selltiz et al. (1967), sugere no processo de observação quatros questões, quais sejam: “O que deve ser efetivamente observado? Como proceder para efetuar o registro dessas observações? Quais os procedimentos a utilizar para garantir a validade das observações? Que tipo de relação estabelecer entre o observador e o observado?” Assim, a observação, para ter valor científico, exige do observador critérios e uma formação que o qualifique para o exercício dessa atividade.

No contexto desta investigação, a observação será mediada pela Observação Colaborativa, “que se constitui na observação realizada por meio de processos cíclicos e sistemáticos de reflexão na e sobre a ação”. (IBIAPINA, 2008, p. 89).

A Observação Colaborativa, como procedimento de pesquisa nos cursos de formação de professores, insere-se na defesa de que é necessário ao professor fazer a articulação entre a teoria e a prática, “[...] bem como possibilita o pensar com os professores em formação sobre a prática pedagógica no próprio contexto da aula”. (IBIAPINA, 2008, p. 90).

Segundo a referida autora, esse procedimento metodológico permite aos professores a formação e o desenvolvimento de uma prática mais autônoma, pois se constitui em um momento de reflexão crítica sobre o seu fazer docente, além de valorizar a participação e a colaboração enquanto princípios formativos.

Optamos pela Observação Colaborativa por ela apresentar elementos que respondem por meio de ação intencional e planejada os dilemas da prática docente, haja vista que o observador, além de descrever o contexto observado, interpreta os resultados descritos com os pares observados em um ambiente propício, no qual estes refletem e retomam os momentos do contexto da aula com o olhar do observador. (IBIAPINA, 2008). O olhar do observador está centrado na observação reflexiva, uma vez que oportuniza ao observado retomar os momentos de sua aula a partir desse olhar em manifestação distanciada e reflexiva da prática observada.

Para que ocorra a observação no contexto escolar da sala de aula, é preciso que se proceda uma redefinição de papéis e práticas observacionais, o que exige dos que dela, e através dela, participam novas atitudes de colaboração e coconstrução do conhecimento sobre a prática docente. (PAIVA, 2002).

Sendo a sala de aula o centro motor da ação e da observação em que observador e observados interagem dialeticamente na procura de caminhos direcionados para objetivos e

práticas que defendem, o saber pedagógico não é qualquer “saber”, trata-se de um saber revestido de certa particularidade:

[...] advém desta observação colaborativa, nasce de um saber partilhado, coconstruído e reconstruído. Dessa forma, a teoria nasce da prática e não apenas o contrário. Dessa forma, supervisão, investigação-ação e pedagogia escolar confluem numa mesma perspectiva partilhada da ação. (PAIVA, 2002, p. 523-524).

Dessa forma, o desenvolvimento da Observação Colaborativa com princípios e processos formativos foi compartilhado a partir dos estudos de Paiva (2002), Guedes (2006) e Ibiapina (2008) como procedimento metodológico capaz de desencadear um processo reflexivo que culmine na participação, colaboração, rumo à prática docente transformadora.

Segundo Paiva (2002), o desenvolvimento de pesquisas que têm a Observação Colaborativa como objetivo deve potencializar as ações de descrição, interpretação, confronto e reconstrução de teorias e práticas relativas à observação e inerentes ao processo de ensino e aprendizagem.

A Observação Colaborativa foi construída em ciclos constituídos de três momentos: pré-observação, observação e pós-observação. Esses ciclos serão explorados em um plano de ação estabelecido nas fases pré-intervenção, intervenção e pós-intervenção. Essas fases, quando colocadas em prática, são capazes de desestabilizar as “velhas” práticas docentes, provocando a emancipação profissional dos professores, considerando-os não como consumidores passivos e reprodutores do saber pedagógico dos “outros”, mas sim construtores reflexivos de um saber partilhado “com” e para os “outros”. Na realidade, é como reitera Paiva (2002, p. 527):

Continuar a “olhar” a observação de aulas com finalidades eminentemente avaliativas é retirar-lhe o potencial que pode adquirir na (re)construção do saber pedagógico. Só com a participação activa e colaborativa por parte dos que têm a seu cargo a formação/supervisão de professores poderemos caminhar na renovação de práticas educativas.

De outra forma, a observação realizada não é apenas avaliativa, mas colaborativa, participativa e geradora de novos conhecimentos.

A metodologia da Observação Colaborativa foi operacionalizada conforme os ciclos de observação e as fases descritas anteriormente. (PAIVA, 2002). A fase de pré-intervenção se baseia nas ações de descrever, informar, confrontar e reconstruir. É o momento inicial da

investigação em que as partícipes (observador e observados) se reúnem para discutir o roteiro de observação, negociar a natureza do estudo, objetivos e finalidades da observação.

Na fase de intervenção, o registro dos dados foi feito conforme o roteiro previamente elaborado pelo observador, negociado e apresentado às partícipes na fase anterior. A fase seguinte, a da pós-intervenção, constituiu espaço em que observador e observados tiveram a oportunidade de rever suas práticas por meio do exercício de reflexão crítica, tendo como suporte as ações de descrever, informar, confrontar, reconstruir, esperar e escutar.

O papel colaborativo das partícipes na observação, entendido, sobretudo, como corresponsabilização na ação, manifesta-se de forma efetiva na intervenção e na pós- intervenção. (PAIVA, 2002; GUEDES, 2006).

A figura a seguir explicita as ações que nortearam a Observação Colaborativa:

FIGURA 1 – Ações referentes às Sessões Reflexivas

Fonte: Elaborada pela autora.

A descrição tem o propósito de explicitar a atividade prática da forma como se efetiva. Liberali (2008, p. 49) afirma:

INFORMAR

RECONSTRUIR DESCREVER

Temos uma visualização do que foi feito em sala de aula, de como os alunos e professor atuaram. Essa visualização é fundamental como primeira compreensão para permitir chegar a conclusões sobre essas ações; e, para poder apresentar um ponto de vista, o educador terá que compreender o significado histórico de suas ações.

Responde a questão: o que foi feito? Dessa forma, compreendendo:

 Contextualização, isto é, a síntese do contexto, abrangendo os itens: quem, onde, quando, o que (tema, assunto, conteúdo), para que (objetivos, finalidade), como (situações de aprendizagem, recursos pedagógicos, formas de organização da sala de aula), qual(is) característica(s) específica(s) da escola.

 Relato, ou seja, a descrição minuciosa do processo de forma clara, com distanciamento ou isenção, isto é, sem opinar, julgar, valorar, avaliar, utilizando verbos de ação na 1ª ou 3ª pessoa.

A informação é a ação de explicitar e generalizar práticas complementadas pelos princípios, valores, motivos, ideias, juízos, razões, representações, concepções, conceitos que as fundamentam. Responde a questão: Qual o significado das ações?

De acordo com Liberali (2008, p. 61), “uma vez que o informar tem como objetivo explicitar/generalizar as ações através de teorias, seu foco temático recai sobre a discussão e explicação de conceitos presentes nas ações”.

A confrontação é a ação de avaliar as práticas em relação com o contexto, explicitando as causas de determinadas formas de agir, destacando sua relevância, pertinência e consistência, apresentando pontos de vista fundamentados empírica e teoricamente. (FERREIRA, 2002).

Responde a questão: Por quê? Além de nos remeter a questões políticas, como: Quem tem poder em minha sala de aula? A que interesses minha prática está servindo? Acredito nesses interesses ou apenas os reproduzo? Ao fazer esses questionamentos, os praticantes estarão se submetendo as teorias formais que embasam suas ações, assim como suas ações, na busca de compreender os valores que servem de base para seu agir e pensar. (LIBERALI, 2008).

A reconstrução é a ação de relatar ou descrever propostas de novas formas de agir com justificativas teóricas e contextuais. Considera pedagogicamente importante buscar alternativas para novas ações e proposições, bem como o que foi feito nesse sentido para introduzir mudanças na prática docente.

Liberali (2008, p. 80) acrescenta:

Transformação sem ação não é transformação. Reconstruir baseia-se neste pressuposto. Ao reconstruir a prática, os educadores estão planejando a mudança. Quando pensamos em reconstruir, imaginamos imediatamente novas possibilidades de fazer. Essa imagem gera uma tentativa de fazer sugestões, indicar novos caminhos, propor outras atividades.

Além das ações citadas, Ferreira (2002) acrescenta as de esperar e escutar. O esperar é a ação de reconhecer e respeitar o tempo do outro com tolerância e paciência, organizar-se e responsabilizar-se pelo uso adequado do tempo disponível. O escutar é a ação de estar atento para perceber, compreender as ações, as ideias, os pontos de vista do outro, e contribuir para o aperfeiçoamento de sua prática profissional.

Conforme as ações descritas anteriormente e de acordo com a metodologia da Observação Colaborativa apresentada e discutida com as partícipes, entregamos o roteiro com questões relativas à fase de pós-intervenção.

A fase de intervenção efetivou-se nas salas de aula das três partícipes, nas escolas em que elas atuam. Foram realizadas três Observações Colaborativas em cada sala de aula.

As primeiras observações efetivaram-se antes dos Ciclos de Estudos Reflexivos, com a duração média de duas horas.

Em seguida, realizamos mais duas observações depois dos Ciclos de Estudos Reflexivos. Essas observações ocorreram em 2009 e as duas últimas em 2010.

Após o término das observações, passamos à fase de pós-intervenção, que culminou com as Sessões Reflexivas, as quais descrevemos a seguir.

Benzer Belgeler