Em uma clínica escola como a do Centro Universitário Newton Paiva, os estagiários desenvolvem uma prática clínica supervisionada. O professor supervisor
orienta, acompanha e avalia as atividades de estágio em conformidade com o currículo, programa e calendário escolar.
Mesmo reconhecendo que uma supervisão em uma clínica-escola se diferencia da supervisão proposta na formação de um analista28, tenta-se aplicar os fundamentos dessa prática no trabalho de supervisão nesse estágio.
De acordo com Recalca ti (2001), a supervisão para a psicanálise de orientação lacaniana segue uma lógica. O supervisor ajuda o praticante a destilar o caso, ou seja, reduzi-lo aos seus elementos constantes e fundamentais. Desse modo, isola os elementos nodais do caso. Entretanto, ao fazer isso, ao dar uma lógica ao caso, não pretende-se eliminar o real, o particular daquele caso. Trata-se então de uma operação que vai do universal ao particular, preservando o elemento particular do caso, irredutível ao esquematismo.
O “bom” supervisor não é aquele que oferece esquemas teóricos “prêt- à-porter” para dar ao praticante a ilusão (nefasta) de dominar a matéria clínica (desvio universitário da prática da supervisão), mas sim aquele que busca operar uma renovação contínua da teoria, a partir da irredutibilidade particular do caso (Recalcati, 2001, p.155).
A supervisão é um lugar de produção de saber. O supervisor, com sua posição de suposição de saber, faz surgir o desejo de saber daquele que pratica a psicanálise. Assim, o supervisor, no lugar de uma terceira pessoa, escuta não somente o caso em questão, mas a subjetividade do supervisionando permitindo localizar as vacilações daquele que atende. A supervisão, desse modo, operaria uma espécie de retificação subjetiva na medida em que pode balançar as identificações imaginárias, os preconceitos produzidos pela fantasia do supervisionando e suas posições sintomáticas em relação ao desejo de saber (Barros, 2001; Recalcati , 2001; Santiago 2002).
Durante a supervisão, tenta-se operar algumas retificações, se não subjetivas ao menos teóricas, junto aos alunos. Consideram-se duas retificações as mais importantes: a primeira refere-se à concepção trazida pelos alunos de que o sintoma não é do sujeito criança e sim de sua família. Essa concepção expressa-se por meio das frequentes falas dos estagiários: Quem precisa de atendimento é a mãe e não a criança; A criança não
tem nada, o problema é a família dela; Falta limite a essa criança, ou expressa-se na
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Principalmente no que diz respeito à inexistência, na maioria das vezes, da análise pessoal por parte dos estagiários e à impossibilidade de tocar naquilo que a psicanálise nomeia como o Real do caso, ou seja, no modo de gozo daquele sujeito. A supervisão nessa situação visa levar o estagiário a apostar na lógica do inconsciente e reconhecer a singularidade de cada caso, rompendo assim com a tendência a fazer leituras padronizadas da relação do fracasso escolar e a família.
precipitação em encaminhar o Outro da criança, geralmente a mãe, para atendimento psicoterápico. Busca-se retificar essas leituras discutindo com os alunos o modo como Lacan articula o sintoma da criança à família em Nota sobre a criança (1969), reconhecendo o sintoma como uma resposta ao Outro que implica a responsabilidade do sujeito em sua produção. Além disso, discute-se a contra indicação em encaminhar de modo muito rápido o Outro da criança para psicoterapia, o que poderia impedir tanto o tratamento da criança como um possível tratamento para esse Outro. Discute-se desse modo que um manejo precisa ser feito a fim de produzir uma demanda de tratamento por parte do sujeito em questão. Isso só é possível quando esse Outro, do lugar de sujeito, faz do sintoma da criança com qual ele está de algum modo implicado um enigma que dê acesso ao seu próprio inconsciente. A segunda retificação diz respeito a não conduzir o tratamento visando somente à realidade objetiva, material, factual da criança. Muitas vezes os alunos ficam angustiados com as falas das crianças que parecem, a princípio, desconectadas da queixa que a trouxe ao tratamento, a queixa escolar. Nesse momento é fundamental discutir o princípio psicanalítico que dá primazia à realidade fantasmática em relação à outra realidade dita objetiva. Convida-se o aluno a escutar e reconhecer a Outra cena, a cena do inconsciente que se presentifica no discurso e nos atos da criança. Desse modo, segue-se o princípio de que a criança é
um analisante em plenos direitos, conforme Robert e Rosine Lefort ao supor, para além
dos traços do desenvolvimento, uma lógica do inconsciente.
Assim, para além da exigência legal da formação do psicólogo, a supervisão do estágio Diagnóstico e Tratamento das Queixas Escolares busca permitir a construção do caso, ordenando seus elementos e circunscrevendo o que há de mais singular. Desse modo, pretende-se desconstruir o discurso corrente que mistura o sintoma da criança com sua família possibilitando a construção de uma clínica do sujeito criança na tentativa de romper com a psicologização presente nos discursos sobre o fracasso escolar
5.4.5 A análise dos casos
Os casos serão descritos buscando demonstrar o que foi dito pelos sujeitos, tanto a criança como o responsável por ela, a intervenção da estagiária e os efeitos produzidos pelo tratamento.
Com o objetivo de formalização, foi construído um quadro para melhor visualização dos elementos essenciais de cada caso. Em cada quadro o leitor encontrará primeiramente: os dados pessoais da criança, a queixa inicial, o modo como foi associada sua dificuldade escolar aos problemas familiares e a entrevista com o responsável, extraindo dessa entrevista os elementos que sobressaem da história familiar e o discurso depreciativo sobre o pai. Depois o quadro apresentará, a partir de um recorte já operado e que segue uma lógica da construção do caso, os assuntos abordados em cada sessão, a intervenção realizada pela estagiária, a posição subjetiva da criança e os efeitos do tratamento na vida escolar e familiar.
A análise dos dados terá como objetivo demarcar três pontos-chave que se constituíram como questões que orientaram essa investigação:
1. Localizar os efeitos do tratamento tanto para a relação com a escola (relação com o saber e os laços sociais) como a relação com a família.
2. Depreender desses efeitos a relação do sintoma do fracasso escolar com a estrutura familiar desse sujeito.
3. Verificar como o caso nos fornece argumentos que nos auxiliem na desconstrução dos discursos cristalizados e do processo de psicologização do fracasso escolar.
CAPÍTULO 6: A CLÍNICA DO FRACASSO ESCOLAR: DOS CONFLITOS