Um caso clínico não existe a priori, mas como efeito da construção que inclui o analista. O relato clínico que se apresenta rico em detalhes, cenas e conteúdos é a história. A partir dele, temos um texto que já traz o recorte do analista, com as passagens escolhidas e privilegiadas em determinado momento. O caso é produto do que se extrai da história, das intervenções do analista na condução do tratamento e do que é decantado de seu relato. A história pode ser fatigante se muito detalhada, e o caso estará morto se tornar-se apenas uma fórmula. Há uma formalização necessária do relato, mas essa não se reduz à teorização formal nem à elaboração de saber sobre os problemas do paciente. Trata-se de pôr em jogo o ato analítico e seus efeitos, ou seja, recolher, dos inúmeros detalhes de uma história, a direção de um caso. Trata-se de produzir uma história que se faça caso (Figueiredo e Vieira, 2002).
Entretanto, nesse trabalho de sistematização da clínica, há uma dimensão de precariedade, uma vez que essa sistematização não é definitiva. Esse exercício de definir, conceituar e teorizar apresenta seu limite, e cada novo acontecimento na clínica, provoca ativa instabilidade que provoca novas construções.
A construção do caso, que nos fornece a direção do tratamento, é uma espécie de cálculo, não totalmente exato e previsível. De acordo com Freud, em Construções em
análise (1937), a construção liga os pedaços, os fragmentos. Construção é a palavra
utilizada por Freud para designar a relação do analista com o que permanece recalcado, com o que o trabalho analítico não consegue restituir, uma vez que nem tudo pode ser rememorado. Visa-se, com a construção, um ponto no inconsciente que não reaparece. Freud utiliza a metáfora do arqueólogo para explicar o trabalho de construção do analista. O trabalho da análise implica uma reconstrução a partir dos fragmentos, restos e vestígios.
Miller (1996) nos lembra que, para Lacan, o analisante também realiza uma construção. A análise é como que a construção de uma narrativa, de uma epopeia, da parte do sujeito, fazendo das peças e dos pedaços um conto. A tarefa do analista seria,
portanto, permitir ao paciente, em seu trabalho de decifração do inconsciente, construir a ligação entre esses pedaços. A construção tem como efeito tornar possível a escuta do valor de mensagem, de linguagem dos atos dos pacientes, fazendo acreditar que isso quer dizer alguma coisa. Ao tocar em algo da verdade do sujeito, essa construção pode permitir a abertura do inconsciente e novos elementos surgirem para novas construções. Freud não deixa de se interrogar sobre o problema da garantia dessas construções, ou seja, a garantia da verdade dessas construções. Lembra-nos que a construção não visa a exatidão da lembrança, uma vez que a lembrança não é um traço bruto, é sempre uma lembrança reparada, ou, como nos diz Lacan, trata-se sempre de uma estrutura de ficção, algo inventado, mas com efeitos de verdade na vida do sujeito. É a partir do futuro, do a posteriori que uma lembrança ganha seu sentido. A concordância ou não do paciente com a construção não é suficiente para validá-las. O
sim ou a concordância do paciente com a construção do analista pode ser efeito da
transferência amorosa e o não pode representar uma negativa/denegação. De acordo com Viganó (1999), o que vai nos interessar é o que pode surgir ao lado, ao modo de um semi dizer, de modo torcido. A construção então é correta quando pode abrir o inconsciente, fazendo surgir novos elementos. O efeito da operação de construção é, portanto, sempre a produção de um resto que permanecerá à procura de novas construções. Esse resto apresenta o limite da operação de construção, operação ligada ao trabalho do significante, ao mesmo tempo que, indica o mais singular de cada caso.
Partindo da história à lógica, de acordo com Laurent (2003, p.71), Lacan faz
pender o relato de caso psicanalítico em direção à iluminação do envelope formal do sintoma, concebido como um tipo de matriz lógica. Essa extração da lógica do
inconsciente, entretanto, não será suficiente para a produção de um caso. É preciso ainda que essa construção siga em direção ao tratamento de um problema real, pulsional e de gozo.
Berenguer (2009) pergunta quais seriam as consequências de se pensar a construção de um caso como orientada para o real. Para ele, uma primeira consequência disso seria pensar que a lógica significante não é uma bússola suficiente e indiscutível para essa direção uma vez que se constitui como semblante, véu e aparência. Desse modo, a própria neurose ou a psicose seriam construções, arranjos do sujeito diante do real que resiste ao saber. Outra consequência é o reconhecimento do sintoma como uma das construções, uma defesa que inclui o real. Assim, entre as construções do sujeito a referência mais segura seria o sintoma, já que ele mesmo inclui um elemento real. E, por
fim, reconhecer o fator transferencial como um recurso fundamental na própria construção do caso. Ao contrário da ciência que busca neutralizar a figura do médico e/ou pesquisador, a psicanálise busca determinar a função, a eficácia e os limites impostos por essa presença. Portanto, a construção do caso deverá incluir a transferência. Trata-se assim de reconhecer que a clínica psicanalítica é uma clínica sob transferência e, como consequência disso, uma clínica do caso a caso.
Enfim, como nos diz Barroso (2003), a construção visa circunscrever o real do caso, o que ele tem de mais singular, o que seria da ordem do inclassificável, que se deixa apreender somente por meio da contingência.
5.3 Do tipo clínico ao caso único
Onde se busca a quantificação e a classificação dos tipos válida para todos, a psicanálise introduz a dimensão do caso único, ou seja, a solução particular para o problema enfrentado pelo sujeito. Passar do tipo clínico ao caso único não é dispensar as grandes categorias nosológicas, mas mostrar como um caso jamais realiza seu tipo. Por outro lado, trata-se de extrair de um caso único um novo paradigma, um novo tipo clínico.
De acordo com Arenas (2007), a concepção do tipo clínico surge da necessidade de estabelecer descrições para as perturbações psicopatológicas. Entretanto, essa tentativa de objetivação dos transtornos mentais visando afinar e situar as diferenças não é sem consequências, uma vez que qualquer marco de referência tem como tendência reduzir os fenômenos.
Lacan na Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos (1973), afirma que o que deriva da estrutura, ou seja, dos tipos clínicos, não tem forçosamente o mesmo sentido. Tipos de sintomas equivalentes podem ter sentidos radicalmente distintos, o que justifica que a psicanálise se apresente como uma ciência do particular e que se interesse pela formalização do caso único.
Trata-se, portanto, de extrair o sujeito das classificações padronizadas para permitir-lhe encontrar, a partir da contingência, um sintoma como solução única.
Como nos diz Jésus Santiago (2006, p.1):
O ensino de Lacan nos fornece incontáveis indícios quanto à possibilidade e, mesmo, a necessidade da prática analítica tomar o caso clínico como único e, mais do que isto, retirar do que, nele, se mostra como típico, aquilo que lhe é próprio.
Nesta pesquisa pretendeu-se, portanto, extrair do particular de uma clínica, elementos estruturais para a elucidação das relações entre o fracasso escolar e a estrutura familiar. Por outro lado, parte do tipo clínico do fracasso escolar em direção ao único do caso, buscando investigar e cernir o modo particular como o sujeito faz uso desse sintoma.
Quando temos um caso, o que chamamos um caso em análise, ele nos recomenda não colocá-lo antecipadamente numa categoria. Ele gostaria [Freud] que escutássemos, se me permitem a expressão, com total independência em relação a todos os conhecimentos adquiridos por nós, que sentíssemos aquilo com que temos que nos haver, a saber, a particularidade do caso. É muito difícil porque o próprio da experiência é, evidentemente, preparar categorias. É muito difícil, para nós analistas, homens ou mulheres, com experiência, não julgar um caso que está começando a funcionar e elaborar sua análise, sem lembrar, a propósito dele, de outros casos (Lacan [1975]1998, p.8).