Uma das contribuições impressionantes das análises MSA e SSA é a compreensão da natureza social da classificação e categorização realizada pelos licenciandos, como evidencia seus processos psicossociológicos com o intuito de reduzir a complexidade circundante (SEMIN, 2005, p. 205), sobre o “objeto” representado.
No transcurso das análises, ficou notório que a RS de “Física” é esquematizada a partir de conceitos, enunciados e explicações sobre o que os licenciandos pensam sobre ciência racionalista e o trânsito simbólico por eles estruturado entre as categorias da “Física Ciência” e da “Física Conteúdo Escolar” pelo viés da “Imaginação”. Tal segmentação simbólica caracterizada e preestabelecida sobre ciência racionalista permite aos licenciandos definir e classificar especificamente a transposição didática da Física, afirmando a necessidade de seus alunos imaginarem os conteúdos, como também instituírem práticas pedagógicas, no sentido de relacionarem a Física ao cotidiano do aluno, minimizando a sua complexidade. Por isso, apelam para a “Vontade” de empreender exercícios práticos repetitivos.
Esse tipo de interpretação subjacente à forma de como os licenciandos categorizam e classificam seu “objeto” possibilitou conhecermos os sentidos por eles atribuídos quanto à significação funcional da categoria “Física Ciência” e “Física Conteúdo Escolar” na transposição didática por eles mencionada. Nas palavras de Semin (2005), a funcionalidade de tais classificações e dos processos de categorizações depende das atividades e objetivos designados pelos sujeitos individuais e coletivos, e, sendo desta maneira, caracterizam-se por serem essencialmente sociais, funcionais e por repousarem sobre bases discursivas.
Dois registros psicológicos fundamentais da RS, segundo Moscovici (2003), é o lógico e o figurativo, expositores de sua gênese, correspondentes aos mecanismos de Ancoragem e Objetivação. Especificamente no caso deste estudo, encontramos que os licenciandos ancoram a RS de Física no misto das Físicas de Galileu e de Newton e objetivam na visão popular que têm de conhecimento científico.
A Física construída em Galileu passa a estudar o movimento dos corpos que nos rodeiam, a queda livre e o arremesso, fundindo a física celeste e a física terrestre em uma só física, ambas explicadas pelas mesmas leis fundamentais (ROSA, 2005, p.130). No entanto, o movimento dos corpos terrestres tenha sido o mais referido em seus discursos, do que propriamente o movimento da Terra e do sistema planetário. Implicitamente, expressam o reposicionamento diante da natureza não mais de forma contemplativa, como em Aristóteles, mas com o objetivo de explicá-la, descrevê-la, a partir da matematicidade das experiências. Quando assim mencionada, evocam a combinação galileana da experimentação e teorizações
matemáticas, sem, contudo, contraporem-se à concepção racionalista de ciência, em que a atitude de observar e descrever os fenômenos naturais pressupõe hipóteses anteriormente elaboradas a partir de questões, no intuito de confirmá-las ou refutá-las mediante a manipulação da natureza. A Física de Newton, sucessora do advento do método científico matemático-experimental em Galileu, contemporâneo de Descartes, notificou-se também por estudar os movimentos dos corpos, contrapondo-se às ideias aristotélicas 46.
A RS dos licenciandos acerca de Física ancora-se na Física newtoniana quando em seus discursos, referindo-se à transposição didática da “Física Ciência”, ou mesmo sobre a visão que têm dos cientistas, enunciam sobre as leis de Newton. Exemplificando através de situações cotidianas, fazem alusão a comportamentos de sistemas, como equilíbrio e movimento dos corpos submetidos à ação de uma ou mais forças. Newton representa em sua Física uma síntese entre a concepção matemática de Galileu e Descartes sobre a natureza e a concepção corpuscular de origem grega, pois abandona a visão do cosmo hierarquizado, geometrizado em seu espaço físico, como um continuum dimensional homogêneo e abstrato
(ROSA, 2005, p. 132). Em sua mecânica, as considerações de valor e harmonia, designando conceitos subjetivos, são substituídas por grandezas quantitativas e objetivas. O movimento representado por uma curva indicativa de uma mudança de posição do corpo continuamente, a cada instante, notificará para Newton um mundo feito não de extensão e movimento, como era para Descartes, mas de matéria, de movimento, de espaço, no qual se movem os corpúsculos no vazio. Uma de suas reconhecidas características diz respeito ao determinismo. Segundo Rosa:
Associado à capacidade de – conhecidas as forças que agem sobre um sistema e as condições iniciais, isto é, as posições e velocidades das partículas a um tempo determinado – determinar suas posições e velocidades a qualquer tempo, tanto no passado como futuro. Desde que fosse do sistema, o determinismo implica em previsibilidade, mas sem sempre isso ocorre (ROSA, 2005, p. 133).
A constatação da Ancoragem da RS dos licenciandos em Física também na Física de Newton se deve à presença em alguns discursos do sentido híbrido de uma combinação de empirismo experimental e de determinismo matemático associada à capacidade científica de previsão e controle. Característica fundamental no pensamento de Newton, quando ratificado pelo autor, declara sobre o determinismo matemático da mecânica newtoniana, mas também a
46 As características da construção da Física de Aristóteles podem ser encontradas em Rosa (2005, p. 64). Segundo o autor, a Física aristotélica se aproxima do senso comum, pois demonstra resultados qualitativos aparentemente corretos.
presença do empirismo newtoniano em sua Física. Para Newton não havia certezas a priori sobre a natureza, e ele não acreditava que os seus segredos pudessem ser desvendados apenas pela Matemática, como acreditavam Galileu, Kepler e Descartes.
Outra consideração importante que atesta a ancoragem desta RS nas Físicas aqui citadas diz respeito ao ponto nevrálgico dessa representação que é a “Imaginação”. Quando afirmam sobre a sua imprescindibilidade, tanto no que diz respeito à “Física Ciência” quanto à “Física Conteúdo Escolar”, implicitamente ancora na explicação do princípio de inércia incorporado na primeira lei de Newton. Este estabelece a possibilidade de haver movimento com velocidade constante sem haver força aplicada. Por não ser simplesmente verificado nas experiências triviais que fazemos, pela presença da resistência do atrito e do ar, logo elas exigem que se aplique uma força para que o corpo não seja freado por elas e pare. Nas palavras de Rosa (2005), a confirmação do princípio da inércia demanda imaginação de experiências, em que estas resistências sejam eliminadas. No caso, deveria haver uma superfície ideal, sem atrito, ou um corpo movendo-se no vácuo.
A objetivação constituinte da RS de Física veicula um caráter figurativo do conhecimento científico advindo da revolução científica ocorrida no início do século XVII, levada a cabo por cientistas como Galileu e Newton, conforme Chalmers (1993). As imagens pelos cientistas Newton e Einstein personificadas nas RS, como vimos anteriormente, aludem concepções de que conhecimento científico enquanto conhecimento provado, derivado de maneira rigorosa da obtenção de dados provindos de experiências e comprovados matematicamente. A ciência, portanto, abandona quaisquer tentativas de especulações, opiniões e preferências pessoais, denotando sua objetividade.