O filme Deus e o Diabo na Terra do Sol 6 (Brasil, 1964, 110 minutos.
Direção: Glauber Rocha), inicia com a paisagem seca do sertão e com Manuel observando cabeças de gado secas, ao mesmo tempo em que ele observa um grupo de religiosos cantando e seguindo Sebastião (Lidio Silva). Destaca-se
6Sinopse: O filme conta a história de Manuel (Geraldo Del Rey), um vaqueiro que se revolta
contra a exploração imposta pelo coronel Moraes (Mílton Roda) e acaba matando-o numa briga. Ele passa a ser perseguido por jagunços, o que faz com que fuja com sua esposa Rosa (Yoná Magalhães). O casal se junta aos seguidores do beato Sebastião (Lídio Silva), que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritual. Porém ao presenciar a morte de uma criança Rosa mata o beato. Simultaneamente Antônio das Mortes (Maurício do Valle), um matador de aluguel a serviço da Igreja Católica e dos latifundiários da região, extermina os seguidores do beato. O que faz com que Rosa e Manuel juntem ao grupo cangaceiro de Corisco (Othon Bastos) e sua esposa Dadá (Sonia dos Humildes) sobreviventes do grupo de Lampião. Novamente, Antônio das Mortes vai ao encontro dos cangaceiros e os extermina, porém, Manuel e Rosa fogem mais uma vez.
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que o canto e a expressão das personagens que seguem o religioso são de angústia e tristeza. Ao chegar à casa entusiasmado com a procisão que viu, relata o fato a sua esposa Rosa (Yoná Magalhães), que com um olhar triste e cansado não responde e nem compartilha do mesmo entusiamo do marido.
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Em relação à geograficidade desta sequência, observa-se que a relação entre os elementos (como: o solo seco, os corpos desfalecidos do gado e a vegetação), e a imagem da casa de Manuel com sua esposa preparando a farinha de mandioca no pilão, representam o cotidiano de uma família sertaneja (Sertão Nordestino).
No plano seguinte, Manuel vai à cidade, onde ocorre uma feira livre, típica das cidades do sertão nordestino dos anos 60, e encontra o coronel Morais (Milton Rosa), para fazer a partilha do gado que tomava conta. Porém, o coronel alega que a partilha não será feita, pois as vacas mortas faziam parte do gado de Manuel, no mesmo instante, Manuel discute com o coronel falando que não é justo que a culpa da morte do gado era a seca e o gado morto era do coronel, o coronel tenta açoita-lo quando Manuel o esfaqueia no coração. Após o assassinato Manuel foge para sua casa onde é perseguido pelos jagunços do coronel, durante a briga sua mãe é baleada. Na sequência da narrativa, Manuel enterra sua mãe, pega sua esposa Rosa e foge para Monte Santo (lugar onde fica a comunidade do beato Sebastião).
Ao chegarem a Monte Santo, o rosto das pessoas da comunidade é enquadrado e seus semblantes são de tristeza e angústia, além da música ser
Magnificat Aleluia de Villa-Lobos, uma música calma "que confere uma aura de
êxtase à cena" (SOUZA, 2011:4), ou seja, representa a esperança de Manuel ter em Monte Santo uma vida melhor. Obcecado pelas promessas do beato que segue pregando "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão", "o que para Manuel, representa o anúncio de uma nova ordem das coisas, de modo que os ricos deixarão de ser ricos e os pobres deixarão de ser pobres, invertendo-se assim a lógica da exploração vigente" (SOUZA, 2011:5).
Ressalta-se que a ordenação tópica desta sequência, reforça a esperança de Manuel, através do posicionamento do povoado de Monte Santo no topo do morro, próximo ao céu, o que relacionado com a música e a movimentação da câmera (que filma a igreja de baixo para cima até terminar a filmagem no céu), transmite ao espectador a sensação de esperança e paz.
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Ao mesmo tempo, o distancimaneto entre as personagens e o povoado, e o caminho a ser feito é construído de pedra, representando as dificuldades para alcançar os desejos de Manuel de ter uma vida melhor.
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Figura 17: Cenas do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964.
Observa-se ainda que a distribuição da população ao longo das vertentes do morro, em relação ao beato que encontra-se no topo representa o poder do beato sobre as estas pessoas e que as mesmas estão dispostas a segui-lo. Esta sequencia é uma representação de Canudos7 (do misticismo e o
poder de manipulação do religioso de Antônio Conselheiro com a população sertaneja), afinal Canudos foi uma das principais tentativas do povo sertanejo contra o Coronelismo(domínio dos coronéis). Como em Canudos, Monte Santo era considerado pela Igreja Católica e pelos coronéis, como uma ameça a seus poderes e contratam o matador de aluguel Antônio das Mortes (Maurício do Valle) conhecido como "matador de cangaceiro" para exterminar a comunidade de Monte Santo.
Manuel e Rosa estão na capela juntamente com Sebastião, que irá fazer um ritual (sacrificando um bebê) para exorcisar Rosa (que é julga por todos da comunidade inclusive seu marido de estar com o demônio no corpo, pois não acredita no beato). Durante o ritual Rosa e Manuel ficam horrorizados com o sacríficio, e Rosa pega um punhal e esfaqueia o beato no peito. No mesmo instante, ocorre o extermínio de Monte Santo.
7 "A Guerra de Canudos deu-se em virtude da situação precária em que vivia a população
sertaneja, sem terra e obrigada a se submeter aos arroubos dos coronéis. As terras pertenciam aos grandes proprietários rurais – os conhecidos coronéis – que as transformaram em territórios improdutivos. Essa situação revoltou os sertanejos, que se uniram em torno de Antônio Conselheiro, o qual pregava ser um emissário de Deus vindo para abolir as desigualdades sociais e as perversidades da República, como a exigência de se pagar impostos, por exemplo." (SANTANA, 2015)
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Manuel e Rosa são os únicos sobreviventes de Monte Santo e mais uma vez fogem, sendo conduzidos até o bando do cangaceiro Corisco (Othon Bastos) e sua esposa Dadá (Sonia dos Humildes) sobreviventes do grupo de Lampião. Mais uma vez Manuel vê a esperança de uma vida melhor em Corisco, que luta pela liberdade do povo e a justiça social, com a mesma profecia do beato Sebastião, "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão". Esta sequência representa outra corrente que lutou pelos sertanejos, o Cangaço, movimento do Sertão Nordestino contra o domínio dos coronéis e a liberdade da população nordestina, o cangaceiro mais famoso é Lampião (conhecido no Sertão por Senhor do Sertão ou Rei do Cangaço).
Manuel torna-se cangaceiro, chamado Satanás. Ele, porém, nao consegue acreditar na luta social através da violência e resolve deixar o grupo. Neste instante, Antônio das Mortes que
"acredita ter a missão de redimir a terra de todas as forças que se opõem à verdadeira libertação do sertanejo: 'Um dia vai ter uma guerra maior nesse sertão. Uma guerra grande, sem a cegueira de Deus e do Diabo. Pra que essa guerra comece logo, eu que já matei Sebastião vou matar Corisco'." (SOUZA, 2011:6)
Antônio das Mortes mata Corisco que luta até o fim, e morre gritando "mais fortes são os poderes do povo”.
Ao final da narrativa, Manuel e Rosa fogem do bando cangaceiro, e correm em meio à paisagem seca do Sertão, com a música O Sertão vai virar Mar e o Mar vai virar Sertão, orquestrada por Villa-Lobos, e assim, a última imagem do filme é o mar com a música de fundo.
Em relação à Geografia Fílmica, destaca-se que a filmagem é feita com muitas sombras e músicas lentas, além de sempre ter um distanciamento entre as personagens (Rosa e Manuel) e destas com os locais almejados, onde Manuel acredita que irá melhorar de vida. Por exemplo: na sequencia inicial do
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filme é apresentado às imagens do sertão árido, com a presença de cactos e ossos de animais, além da música de fundo "Canção de Sertão" do Villa-Lobos que "estabelece um 'crescendo' que tem seu clímax na introdução emblemática do drama da seca na região: os dois primeiros planos da queixada e do olho em decomposição de um boi morto" (XAVIER, 1983: 95). Esta ordenação locacional entre os elementos da imagem e a música transmite uma sensação de angústia e sofrimento ao espectador.
Além das personagens terem poucas falas durante a narrativa, e com enquadramento em seus rostos, cujos olhares sempre sofridos e angústiados. Verifica-se também a representação de dois movimentos importantes da História Brasileira referentes à libertação no Sertão Nordestino, Canudos e o Movimento Cangaceiro, o que faz com que o espectador não crie uma imagem do sertão como um lugar sem esperança.
Destaca-se ainda que no decorrer da narrativa Glauber Rocha transmite ao espectador o sentimento de esperança do sertanejo, a medida, que a música símbolo do Sertão (o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão) é tocada diversas vezes durante as cenas e comentada pelas personagens, além, da parte final do filme quando o cangaceiro Corisco morre gritando" mais fortes são os poderes do povo", e ao término do filme é filmado o mar, com novamente a música (o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão) e a personagem principal Manuel correndo em direção ao mar, o que estímula o espectador a acreditar que Manuel não perdeu a esperança, e em Manuel é representado o povo sertanejo, que embora sofrido nunca perde a esperança de uma vida melhor.
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CONCLUSÃO
A localização é condição de existência dos elementos, pois ela esta relacionada à forma, a extensão, o ritmo e a duração dos elementos no mundo, ou seja, ela é resultado da relação espaço-temporal.
Neste sentido, a Geografia enquanto a Ciência que estuda a ordenação tópica dos elementos no mundo tem como principal objetivo analisar o “Como” e o “Por que” desta localização, e os significados que esta ordenação locacional cria. Por isso, a análise geográfica é feita a partir de uma escala de observação, que possibilita o sujeito identificar e relacionar a distribuição e o distanciamento entre os elementos e destes com o mundo.
Com base nessas premissas, esta dissertação buscou compreender a importância do Cinema enquanto ferramenta para a análise geográfica, analisando a geograficidade do cinema, ou seja, a Geografia Fílmica.
Esta Geografia Fílmica é o ordenamento tópico do cinema a partir do lugar fílmico (a imagem), construido através das técnicas de filmagem, como: a iluminação, as cores, o enquadramento e a velocidade da câmera, e as técnicas de montagem. Estas técnicas então constrõem a distribuição e o distanciamento dos elementos na imagem, a partir da escala de observação que estabelece com o espectador, e assim, o diretor guia o olhar pela cena induzindo-o a ter determinadas sensações e compreensões do filme.
A fim de constatar estas afirmações analisamos alguns filmes (Janela Indiscreta, A Greve, Rastros de Ódio, O Pagador de Promessas e Deus e o Diabo na Terra do Sol). Observou-se que em todos os filmes as técnicas de filmagem estabeleceram uma estrutura espaço-temporal (estabeleceram a extensão, a forma, o ritmo e sucessão das cenas) ao mesmo tempo em que, estabeleceram a relação distributiva e o distanciamento dos elementos entre si e com o espectador, a partir da escala de obsevação. Este ordenamento locacional criado em cada filme, estimulou o espectador a ter determinadas
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reações e sensações a respeito da imagem apresentada. Além de muitas vezes fazer com que o observador refletisse e cria-se uma representação a partir da imagem apresentada no filme. Ressalta-se que a representação criada pelo espectador é resultado da interação entre a imagem observada e sua vivência (relacionada a seu contexto sócio-cultural, suas memórias e experiências).
Por fim, esta pesquisa buscou mostrar a importância da Geografia na compreensão do mundo. A partir da análise realizada, observou-se a importância da Geografia enquanto responsável pela análise do ordenamento tópico do munodo, ou seja, responsável por explicar o “Como” e o “Por que” da localização das coisas, através da relação entre os elementos e destes com o mundo. Como a exemplo da análise geográfica sobre o lugar fílmico, a compreensão da ordenação tópica das coisas possibilita ao sujeito reconhecer- se no mundo.
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