• Sonuç bulunamadı

II. Rol Oynama ve Pandomim Aşaması

2. KAYNAK ARAŞTIRMAS

Iris Rezende Machado se considera político por vocação. Ele conta que percebeu essa aptidão para a política aos 22 anos de idade. A militância estudantil entrou em sua vida antes disso, em 1950, seu primeiro ano escolar em Goiânia. No primeiro dia de aula na Escola Técnica de Goiânia, um rapaz entrou em sua sala para convidar os novatos a escolher um representante da classe para o grêmio da escola. Informou que voltaria no dia seguinte, para a escolha. Iris cursava o ginásio e, no dia seguinte, ainda sem saber bem o que fazia um representante de classe e muito menos um grêmio, candidatou-se. E ganhou.

Como representante de classe, participou de reuniões e de congressos dos estudantes secundaristas. Fazia discursos, mas ainda não tinha consciência sobre o que essas atividades representariam em sua vida. Quatro anos mais tarde, ele já sabia o que era o movimento estudantil. Estudava em dois colégios: Liceu de Goiânia onde cursava o preparatório para o vestibular, e na Escola Técnica de Comércio de Campinas, onde fazia contabilidade. Já era uma liderança estudantil e se elegeu presidente dos grêmios dos dois colégios, o Literário Castro Alves, da Escola Técnica, e o Félix de Bulhões, do Liceu.

Recém-chegado do interior, ele tinha complexo de ser um rapaz da roça. A mudança para Campinas, em 1949, um bairro que mantinha características de cidade interiorana, e a escolha da Escola Técnica de Goiânia para cursar o ginásio, composta majoritariamente por estudantes que, como ele, também vieram do interior do Estado, ajudaram em sua adaptação da vida rural para a vida urbana. Iris acredita que se tivesse chegado em Goiânia e fosse direto para o Colégio Liceu, sem a fase de transição na escola em que fez o ginásio, “teria sucumbido.” Campinas e a Escola Técnica de Goiânia representaram um rito de passagem em sua vida.

Ainda sem pensar na política como profissão, Iris pediu ajuda ao amigo Domiciano de Faria, interiorano como ele, para ajudá-lo em sua transformação em um cidadão urbano. Iris discursava nas reuniões do grêmio, ainda como representante de

classe, e nos congressos de estudantes secundaristas, enquanto Domiciano o acompanhava, com caneta e papel na mão. Anotava os erros de gramática e de linguagem do orador. Depois repassava suas anotações com Iris e indicava o melhor jeito de falar.

Sua linguagem estava impregnada de expressões e do vocabulário do homem do campo, que aprendeu em Cristianópolis, em especial dos 7 anos aos 16 anos de idade, quando ele morou na Fazenda Canastra. “A minha preocupação com a correção da linguagem era em função de uma responsabilidade que instintivamente eu assumi como representante de classe, junto ao grêmio, [eu] tinha de falar.”15 Aos 22 anos, Iris já se sentia mais maduro e aí suas decisões eram menos instintivas. “Quando me elegi presidente dos dois grêmios, eu falei: minha vocação não é medicina, minha vocação é política. No terceiro ano do científico e do técnico é que eu decidi fazer Direito e fui aprender latim.”16 Escolheu o curso de Direito porque o considerava mais apropriado a um político profissional.

O que é vocação, para Iris Rezende? É um dom divino, uma graça que determinada pessoa recebe na vida. Dá como exemplo o talento de artistas, escritores, pintores, cantores que, como ele, não saberão explicar onde e como aprenderam suas artes.

É o caso de d. Belkiss [Carneiro]. Ela podia dizer: “foi minha avó [ela era neta da pianista Nhanhá do Couto] que era pianista e cuidou de mim.” E se a Belkiss não fosse a Belkiss, a avó dela daria conta? Não daria. Eu acho que é uma questão de dom. É uma questão de vocação. Eu entendo isso como uma perfeição da natureza.17

Se a pessoa não tem dom e não gosta de determinada atividade, não vai se destacar no que faz nem será feliz, acredita. “Você pode notar: se a pessoa não gosta de música, não adianta o pai querer forçar o filho, e assim na vida de um modo geral.”18 Como o dom é, para ele, uma graça divina, Iris acredita que a sua vida política só tem explicação no aspecto espiritual. “Eu nasci com esse dom, eu nasci para gostar de gente, conseqüentemente, para gostar de política, e gostar de administrar.”19

15 Entrevista em 28/1/2008. 16 Entrevista em 18/6/2008. 17 Entrevista em 26/6/2008. 18 Entrevista em 2/12/202006. 19 Entrevista em 16/7/2008.

Iris Rezende age e fala sobre sua vocação para a política colocando-se entre os que vivem “para” a política, no sentido weberiano.20 No começo de sua carreira, ele dependia do salário para sobreviver. A renda era uma conseqüência de sua escolha, não o que o motivou a fazer política.

Eu não pratico a política por interesse; eu não usufruto do poder que Deus e o povo me colocaram nas mãos, nunca usufruí. Nunca. Eu pratico a política por vocação, por ideal. A minha realização é o que eu faço de bem na política. E tanto que o seguinte: eu perdi a eleição [1998 e 2002] e o que mudou na minha vida pessoal, na vida da minha família? Nada, mudou nada. Chegou a ter um governo que eu fiquei morando em minha casa. Eu nunca tive vaidade. Você nunca viu batedor na frente de carro meu para me conduzir para algum lugar. A minha determinação é mudar a vida dos outros. É transformar e eu consegui isso.21

Ele tem plena convicção de que sua vocação para a política é para cumprir uma missão:

Eu [...] entendo que eu nasci em uma comunidade, cuja sustentação era a Bíblia, para eu ter um sentimento mais profundo de Cristo, para eu ter um respeito maior pelas coisas e pelas pessoas, mais responsabilidade no comportamento, no trato de vida. Eu vivi aquele sofrimento na vida rural para eu conhecer um lado da vida que há bem pouco tempo era o de quase toda a população de Goiás, a dureza do rurícola, do lavrador, aquele que fica em contato com a chuva, o sol, os espinhos, os insetos. Então, eu comecei assim e depois venho para uma cidade maior, conhecendo o drama de milhares e milhares de goianos, que é o de sair da roça para a capital, a fase de adaptação.22

O pai de Iris, Filostro Carneiro Machado, apoiou a primeira eleição do filho para vereador, em 1958. Em 1962, na disputa para deputado estadual, foi contra. Chamou o filho e ordenou que ele não disputasse a eleição. Iris era solteiro, morava com os pais e fora educado para obedecer às ordens paternas. Filostro argumentou que seus irmãos estavam encaminhados na vida, estavam trabalhando e ganhando dinheiro, e reclamou que Iris não se envolvia com o trabalho, “era só política, política.” “Aí eu lhe desobedeci.”23 Três anos mais tarde, Iris começava a campanha para prefeito e, novamente, o pai o chamou para uma conversa. Acompanhado do filho Orlando, Filostro tentou convencê-lo a desistir da carreira política. Nesse dia, o pai revelou que doara para Iris 5% de sua cota no Frigorífico Vera Cruz, a empresa familiar comprada por Orlando. Novamente, Filostro deu uma ordem ao filho: ele devia abandonar a política e assumir uma diretoria no frigorífico.

20

De acordo com Weber, há dois modos pelos quais um político pode fazer da política sua principal vocação: “viver ‘para’ a política ou viver ‘da’ política” (1982, p. 105).

21 Entrevista em 27/8/2008. 22 Entrevista em 2/12/202006. 23 Entrevista em 18/6/2007.

Aí eu disse: “Pai, não tem outra explicação a minha presença na política, senão uma coisa de Deus. Olha, eu já desobedeci ao senhor uma vez e vou desobedecer uma segunda vez. Eu não vou deixar não.” “Mas você não vai ganhar nunca do Juca [Ludovico].”24 “Mas eu pelo menos estou me candidatando e posso ganhar também.” Nesse dia, eu falei: “Olha, pai, eu estou pensando em me casar e se o senhor quiser me ajudar, arrumando uma casa para mim.” Ele não me falou nada, mas depois o meu irmão me levou para ver uma casa lá na [Rua] São Paulo para ver se servia. Era uma casa novinha, mas pequenininha. Eu falei “serve” e fiquei feliz. Bom, ganhei a eleição. Aí ele não conversou mais comigo desde que eu lhe desobedeci. Fui candidato a deputado e ele não tinha assunto comigo. Eu chegava, falava “bênção, pai”, e ele “Deus te abençoe.”25

Seu pai cortou as relações com ele por quase quatro anos, nos três anos em que foi deputado – ele se elegeu prefeito no terceiro ano do mandato – e nos dez primeiros meses de prefeito.

Tínhamos o costume de ir à igreja todos os domingos de manhã. Todos os filhos tinham de passar na casa dele. Quem quisesse almoçar, almoçava, quem quisesse almoçar em outro lugar tinha de passar lá antes, na Vila Coimbra. Um domingo, eu fui o primeiro a chegar e ele disse: “Você não está gastando mais do que a prefeitura pode?” Eu falei “não pai, estou sendo até muito cuidadoso.” [...] “É, mas tome cuidado, tome cuidado.” Eu disse: “o senhor não quer dar uma saidinha comigo? O senhor não tem idéia do que eu estou fazendo.” [...] Saímos e eu mostrei o barracão lá da prefeitura que eu estava fazendo, já estava asfaltando o Setor Oeste. “Aqui, pai, nós estamos asfaltando uma rua por dia. Antes asfaltavam uma rua por ano, agora fazemos uma por dia.” Na quarta-feira, a minha mãe me liga e diz: “Iris, seu pai está te chamando para você ir com ele na fazenda de Guapó, agora à tarde para você descansar um pouquinho.” Eu não podia ir. Mandei cancelar as audiências, isso era mais ou menos meio-dia, e fui. Passamos a tarde. Aí acabou.26

A opção de desobedecer ao pai e seguir a carreira política deixou Iris dependente do salário de agente político. Ele sobreviveu da política durante 11 anos: três anos com o salário de vereador; três anos com o salário de deputado estadual, e quatro anos com o salário de prefeito de Goiânia.

Benzer Belgeler