A depoente Cinthia relatou:
Silêncio! É a ausência de som, não necessariamente, porque às vezes tô no parque e tem passarinho, se percebe, mas é silêncio, é um ambiente mais silencioso, mas mesmo assim ainda tem alguns ruídos.237
Percebemos uma repetição da palavra “silêncio”. Ela foi citada primeiramente como “ausência de som”, mas ao Diferente, o silêncio torna-se “sonorizado” em: “não necessariamente, porque às vezes tô no parque e tem passarinho, se percebe”.
Nesse caso, o paradoxo entre o silêncio absoluto com o silêncio em “ambiente mais silencioso, mas mesmo assim ainda tem alguns ruídos”, aponta-nos traços da mentalidade de nossa contemporaneidade: desejar sonoridades e evitar o silêncio totalizante.
Ao explicar sobre o silêncio, a depoente ainda necessitou utilizar um lugar geográfico (estar em um parque), produzindo, assim, a repetição da Diferença (entre o silêncio em seu estado bruto e o silêncio com sons e ruídos).
Deleuze (2006) elucida: quando há a repetição da Diferença (a junção silêncio-som- ruído no relato), pode ser gerado um código que cria um meio de se estar e contém seus infindáveis processos rítmicos.
Em contrapartida, a depoente também relatou sobre um silêncio absoluto. A pesquisa o considerou como sendo o continuum dentro do Mesmo:
O silêncio total é negativo, dá um sentido de solidão, imagino, sozinha, porque... (risos) porque não tem nenhum, nenhum ruído, ééé como se não tivesse nada existente, né! (Cinthia, 29 anos)
O silêncio em continuum é um tipo específico de território. Nesse estado pode-se causar uma crise de existência na subjetividade humana. Ele também diminui a rítmica do meio. A admissão de ruídos para atenuar a sensação negativa: “o silêncio total é negativo, dá
237 Depoente Cinthia Vilela Rodrigues da Silva, 29 anos, solteira, nascida na cidade de São Paulo e residente na
cidade de Santana de Parnaíba-SP. É professora de Educação Física do Ensino Fundamental e Médio. Ela declarou-se cristã protestante. Entrevista realizada em frente ao mosteiro de São Bento, no dia 20 dez. 2013, no período da tarde. No dia da entrevista, estava visitando o mosteiro como turista.
um sentimento de solidão” reforça a necessidade de pertencer a um lugar sonorizante: “ééé como se não tivesse nada existente né”. Schafer (2001) explana:
O homem gosta de produzir sons para se lembrar de que não está só. Desse ponto de vista, o silêncio total é a rejeição da personalidade humana. O homem teme a ausência de som do mesmo modo que teme a ausência de vida. Como o derradeiro silêncio é a morte, ele adquire sua dignidade maior no serviço funerário.238
Paradoxalmente, no próximo relato do monge depoente Dom Alexandre, o silêncio aparece em parceria com a solidão da vida monástica e da necessidade de uma inflexão interiorizada.239
Então, seria o meio acústico essencial para veicular as memórias intersubjetivas do viver em meio aos sons, ao silêncio e aos ruídos? O Diferente no silêncio da depoente Cinthia com carga negativa, conforme vimos, agora no relato de Dom Alexandre, surge como um Mesmo positivo:
O silêncio é essencial para a vida num mosteiro, pois é um dos aspectos que o definem. As raízes semânticas da palavra Mosteiro são: Mosteiro< monastério< monge< monachos< monos – um único, sozinho. O monge é a pessoa que se sente confortável com a vida de solidão espiritual, com a vida silenciosa.240
A necessidade de inserir sons ou ruídos dentro do silêncio não apareceu em seu relato. O silêncio é colocado como “essencial para a vida num mosteiro”. Portanto, ele é admitido próximo ao seu estado bruto.
Não houve um sentimento de confusão, pois a depuração da palavra “mosteiro” até chegar em “monos – um único, sozinho” remete-se à escolha em se viver em um ambiente sagrado. E mais: a mesma depuração o conforta para se viver em estado de solitude na vida monástica.
238 SCHAFER, R. Murray. A afinação do mundo. São Paulo: UNESP, 2001, p.354.
239 O significado do silêncio na religiosidade de Dom Alexandre difere substancialmente dos demais depoentes,
por indicar, conforme argúcia, a experiência da escolha da vida religiosa no monasticismo beneditino.
240 Depoente Dom Alexandre de Andrade OSB, 44 anos, solteiro e nascido na cidade de São Paulo-SP e
residente do mosteiro de São Bento. Exerce a atividade de professor de canto-coral para o coro oficial dos monges da abadia e é responsável pelas aulas de teoria musical, história da música e de canto para os leigos. Está na vida religiosa há 24 anos. A sigla OSB é uma titulação pertencente à ordem beneditina advinda do latim Ordo Sancti Benedicti (ordem de São Bento). Entrevista concedida via e-mal, em 10 jan. 2014. Preferiu-se manter a titulação “Dom” em seu nome em respeito à sua identidade religiosa.
O silêncio continuum no Mesmo, para o depoente, tem caráter positivo e assume uma posição de meio da contemplação, condição esta, contida no habitus da vida monástica. Para Schafer (2001), os espaços sagrados silenciosos reconquistam o direito de vivenciar o silêncio em seu estado mais bruto:
A reconquista da contemplação nos ensinaria a ver o silêncio como um estado positivo e feliz em si mesmo, como a grande e magnífica tela de fundo sobre a qual se esboça as nossas ações, sem o que permaneceriam incompreensíveis ou não poderiam existir.241
Podemos repensar e coligir uma possível permanência medievalizante em sua memória religiosa. Como vimos, o mosteiro preserva muitos traços arquitetônicos, sonoros e ritualísticos de tal temporalidade. (Ver prelúdio e interlúdio).
Fora do espaço do sagrado do mosteiro, a depoente Naiáddy desejou alcançar o silêncio sem a presença de ruídos ou sons. O silêncio nesse caso está em seu estado mais estacionário.
Eu acredito que o silêncio... é a busca incansável, sabe? Principalmente no mundo de hoje, acredito que dentro do mosteiro você pode alcançar esse silêncio... é quase que... um... uma utopia, assim... sabe?(Naiáddy, 21 anos)
Sendo a depoente de religião católica, o espaço do mosteiro tornou-se um local de encontro com “esse silêncio”. Ao contrário do depoente Dom Alexandre, que vivificou constantemente a presença da solidão e do silêncio, ela necessitou se encontrar ainda no espaço do silêncio. Portanto, sua busca tornou-se: “quase que... um... uma utopia, assim... sabe?”.
Os panoramas da temporalidade ruidosa do contemporâneo vivenciados por ela (enquanto discurso indireto em: “o silêncio... é a busca incansável”) podem ter feito do espaço do mosteiro um local próprio do silêncio e resistente diante da sonoridade ruidosa da sociedade contemporânea. Ela relatou ainda em sua memória ruídos considerados como sinônimos de barulhos dentro do mesmo espaço:
Acredito que... barulhos externos, os barulhos das pessoas... é... tudo o que não é projetado para aquele ambiente. (Naiáddy, 21 anos)
Segundo sua prática religiosa, o que não é “projetado para aquele ambiente” não faz parte dos sons comunitários. Nesse aspecto, a sonoridade produzida no mosteiro também ganha, em seu depoimento, uma ação identitária.
Para o monge Dom Alexandre, os ruídos têm uma conotação apegada ao elemento gerador da vida como um todo, e pode-se por meio deles chegar ao “silêncio verdadeiro, que é interior”.
O ruído lembra-nos da vida em si, que estamos vivos, que tudo está vivo e de alguma forma se manifesta. O ruído pode ser um meio para que encontremos o silêncio verdadeiro, que é interior. (Dom Alexandre, 44 anos)
O “silêncio verdadeiro”, conforme depoimento, não tangeu de fatores físicos. Possivelmente, ocorreu um entrelaçamento de experiências subjetivas apegadas à sua vivência religiosa. Os ruídos o lembram da importância do silêncio ligado à experiência religiosa. Talvez, o silêncio, nesse relato, adquiriu um lugar específico no rastro de sua memória adentro da prática beneditina.
Seria possível por meio desse depoimento encontrar certa estabilização entre o Mesmo, personificando o silêncio interiorizado em estado mais estacionário e o Diferente, nesse caso, personificando o ruído, como fruto da manifestação da vida em sua memória religiosa? Talvez, a pergunta não encontre uma resposta concreta, mas ela pode evidenciar a inferência de uma temporalidade histórica própria do sagrado e ainda resistente a alguns fatores oriundos da (de)sacralização do silêncio, em relação ao espaço profano, não mais interiorizado.242 Mircea Elíade aponta:
Por consequência, o homem religioso vive em duas espécies de tempo, a mais importante das quais, o Tempo sagrado, se apresenta sob o aspecto paradoxal de um Tempo circular, reversível e recuperável, espécie de eterno presente mítico que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos. Este comportamento para com o tempo basta para distinguir o homem religioso do homem não-
242 Busca-se reconhecer, por meio da pergunta, os caminhos da subjetividade e os traços de sacralidade nos
depoimentos coletados, sob influência no breve excerto: “A História é uma ciência e arte do indivíduo [...].” PORTELLI, Alexandro. Tentando aprender um pouquinho. Algumas reflexões sobre a ética na História Oral.
Projeto História. São Paulo, Programa de Estudos Pós-Graduados em História, Departamento de História da
religioso: o primeiro recusa-se a viver unicamente no que, em termos modernos, se chama “o presente histórico”; esforça-se por tornar a unir-se a um tempo sagrado que, de um certo ponto de vista, pode ser homologado à “Eternidade”.243
Acompanhando o rastro temporal ao espaço sagrado na memória de Dom Alexandre, a presença dos ruídos foi relatada de forma pormenorizada:
Ruídos de pessoas que andam na Igreja, com seus mais variados sapatos, ruídos de bancos e madeira rangendo, ruído de tosse, de estômago vazio, de ventiladores, de um bêbado sem noção que entra na Igreja, de um destempero emocional/espiritual, de lágrimas de remorso e arrependimento, enfim, ruídos de encontro com Deus. (Dom Alexandre, 44 anos)
Embora alguns ruídos sejam oriundos da ação dos corpos das pessoas, outros adquiriram perspectiva subjetiva de alcance ao sagrado: “de um destempero emocional/espiritual, de lágrimas de remorso e arrependimento, enfim, ruídos de encontro com Deus”.
Pensemos, então, se esses ruídos humanos com apego a fatores religiosos pudessem ser uma espécie de antimatéria do silêncio em estado mais estacionário. Eles provocariam alguma impulsão geradora de forças do inconsciente humano para a veneração da divindade?
Assim, quando o depoente relata em seu cotidiano a presença de ruídos de “encontro com Deus”, podemos pensar também em uma troca de código-som entre a metafísica do silêncio e do ruído, contidos na própria sacralidade do espaço do mosteiro. A mesma, “poderia” embeber-se do tempo caótico humano que visa o eterno retorno em equilibrar muitas forças cósmicas interiores e suas relações com o silêncio e os ruídos.244 Nessa dinâmica, provavelmente o próprio ritmo temporal da sacralidade apega-se aos fatores sonoros sacralizantes e categoriza os ruídos que serão expurgados.
O silêncio é uma obrigatoriedade para você se aproximar do objetivo maior de estar ali, eu acredito que ninguém entra no mosteiro, sei lá, pra ficar conversando e falar de contas245, não. Você entra no mosteiro
243 ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p.83.
244 Nietzsche de forma metafórica utiliza o movimento dos oceanos para figurar o eterno jogo entre ordem e
caos, girando sobre si mesmo: “como forças por toda parte, como jogo de forças e ondas de forças ao mesmo tempo um e múltiplo, aqui se acumulando e ao mesmo tempo ali minguando, um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias”. NIETZSCHE, Friedrich. O eterno retorno. In: LEBRUN, Gerard (Org.). Obras
Incompletas. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p.449-450. 245 A depoente refere-se a “contas” com o significado de “contas a pagar”.
pra ter uma paz... uma quietude, e... ter um encontro íntimo com o sobrenatural. Em casa teria que ser a mesma coisa, eu acho que com todos os barulhos que a gente tem indo pro trabalho, indo pra faculdade... sabe... o lar.. ele teria que ser... esse lugar do encontro... sabe, você retira tudo que você projetou durante o dia e ali você tem esse encontro com o silêncio... uma reconstrução. O silêncio é sempre uma reconstrução... e... eu acredito que, a sensação de bem-estar no mosteiro é muito melhor... assim... eu consigo identificar essa diferença. (Naiáddy, 21 anos)
O silêncio no território da sacralidade fortificou-se por “não aceitar” as memórias do tempo do trabalho, expressado como “ninguém entra no mosteiro, sei lá, pra ficar conversando e falar de contas”. Ele detém, ainda, uma dimensão territorial física e outra subjetiva dentro de sua vivência religiosa: “O silêncio é sempre uma reconstrução... e... eu acredito que a sensação de bem-estar no mosteiro é muito melhor...”
Na subjetividade da depoente, os “barulhos” obtiveram carga negativa e distanciamento do sagrado, pois eles pertencem aos lugares da cidade246, “indo pro trabalho, indo pra faculdade...”.
Uma vez que o som não pode ser representado em todos os lugares de uma só vez, o espaço auditivo deve ser visto como simples potencial. Nesse âmbito se estabelecem as tensões de opostos. Assim à medida que a intensidade da moderna paisagem sonora ou da música moderna aumenta, a tranquilidade diminui.247
Como local de tranquilidade, repouso ou de oração, o espaço do mosteiro não vivifica, conforme notamos nos relatos dos depoentes, intensa potência audiofônica para considerá-lo um local de tensão ruidosa na memória deles. O silêncio, enquanto colaborador para o momento de repouso, oração ou simples admiração pelo local, fortificou sua acústica interior. Ela pareceu adquirir um efeito (des)territorializante diante das rítmicas urbanas ruidosas e aceleradas.
246 “Os estudos históricos também entendem as cidades como territórios que condicionam múltiplas experiências
pessoais e coletivas. Sob a cidade fisicamente tangível, descortinam-se cidades análogas invisíveis”. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz/ Edusp, 1987. Apud: MATOS, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e cultura: história, cidade e trabalho. Bauru - SP: Edusc, 2005, p.35.
Outras perspectivas sobrevindas da elucidação acima perpassaram ao encontrar algumas pistas para refletirmos certo anseio a uma “economia da escuta”, 248 diante da
constante produção sonora e ruidosa do espaço-tempo da urbanidade.
Essa economia dos sons apegada a uma musicalidade sacralizante (o cantochão), com estrutura musical medieval e desejando o silêncio, poderia propiciar aos frequentadores a experiência ao transcendente, conforme vimos nos relatos de Dom Alexandre e da jovem Naiáddy. A esse respeito, os sons tornaram protagonistas ocupantes dos diferentes espaços da memória, ao serem relatados e conscientizados por todos os depoentes.249
Seria oportuno diante dos muitos caminhos que os sons percorreram, repensar ainda certo tipo de “excedente” imaterial de si mesmos, ao atingir seu grau máximo de instabilidade ruidosa e, assim, por meio das transduções entres os espaços da cidade e o espaço silencioso do mosteiro, transformarem-se em um desejo de encontro com o silêncio sacralizado, ou em estado não sacramental, sugerindo apenas um reencontro com o conforto acústico? O silêncio poderia gerar uma “economia sonora” no espaço da memória das pessoas?