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6. SONUÇLAR VE ÖNERĠLER

6.2. Öneriler

A representação da casa moderna no Brasil, desde a metade do século XX, dificilmente poderia ser evocada sem a imagem dos aparelhos elétricos que, atuando na limpeza dos cômodos e das roupas, no preparo das refeições, na conservação dos alimentos, foram massivamente divulgados nos meios de comunicação como recursos que prometiam abreviar as tarefas domésticas e prolongar a fruição do tempo livre na esfera privada. Mas, além da imagem, o som produzido com o funcionamento dessas máquinas constituiu uma marca perceptiva somente aos poucos integrada ao convívio de diversas famílias. Na Fortaleza da década de 1930, esses artefatos eram ainda raros e, entre os segmentos médios, as atividades diárias requeriam procedimentos mais árduos que o apertar de botões:

Não havia sons elétricos nas casas, não zumbia o refrigerador, e pelo menos nos anos trinta, nem ao menos girava zunindo o liquidificador, pois tudo praticava-se ao muque, entenda-se, pelo esforço braçal das domésticas, as mais espertas empregadas do mundo, migradas do interior (leia-se sertão) para, inseridas na vida das famílias, dar-lhes mil préstimos (Campos, 2003, p. 16).

Vinte anos depois, quando essa mão-de-obra doméstica já não parecia tão abundante quanto no passado, embora ainda estivesse longe da escassez experimentada nos países industrializados, nota-se um interesse em registrar mais detalhadamente a execução dos serviços da casa. Em julho de 1958 o suplemento tablóide do diário fortalezense O Jornal divulgou matéria sobre o dispêndio de energia a que diariamente eram submetidas as mulheres, na realização das tarefas domésticas – problema que, se diretamente afeto ao gênero feminino, não deixava de ter desdobramentos sobre os homens, como esclareceu o articulista, num tom singularmente desprovido de dissimulação:

Refugio-me junto aos técnicos, junto aos homens que pensam “cozinha”. Sabe-se que esses benfeitores imaginaram dividir a cozinha em grupos, ou em blocos, dos quais cada um centraliza um conjunto de gestos e de utensílios. Assim, o grupo louça, o grupo panelar, o grupo preparação são estudados em função da economia de movimentação, porque os pequenos movimentos fazem as grandes fadigas.

Três passos num sentido, três passos em outro para transportar um prato do enxugador ao armário mal colocado, nunca são apenas seis passos, mas alguns erros semelhantes obrigam a fazer um nadinha de três quilômetros por semana. O drama da dona de casa é que cada dia ela repete os gestos do dia anterior. Eles não se vêem, mas se multiplicam.

Economizemos a mulher, a mulher que se gasta não é de um bom rendimento sentimental (O Jornal, 6-7 set. 1958).

Embora o comentário final pareça distante do que hoje seria considerado uma manifestação de altruísmo, merece destaque essa preocupação com reduzir o desperdício de esforço, corrigir movimentos desnecessários, disciplinar os gestos, assegurar um rendimento mais eficiente das mulheres na labuta doméstica (e, conseqüentemente, extrair daí melhores perspectivas masculinas na seara dos afetos conjugais). Isso não significa, todavia, que por essa época o processo de racionalização do espaço privado e das atividades ali desempenhadas tenha sido esboçado, planejado e implementado uniformemente no contexto brasileiro. As elites e as classes médias das principais metrópoles – São Paulo e Rio de Janeiro – apresentavam condições favoráveis de acesso e incorporação das tecnologias, dos bens de consumo e equipamentos domésticos modernos, que não se estendiam aos estratos pobres, nem aos contingentes que residiam noutras regiões do país, em cidades pequenas ou na zona rural.

No fim dos anos 1950, dados elaborados pelo Instituto Nacional de Estudos Demográficos, a partir de uma enquete com 1.795 mulheres, informavam que aquelas sem filhos trabalhavam em média 45 horas semanais, ao passo que mães com três filhos acumulavam 74 horas; destas, quem possuía uma atividade externa ao lar alcançava a marca de 84 horas por semana ou 12 horas por dia, cifra portanto bem superior ao regime formal que prescrevia no máximo oito horas diárias de trabalho. O mesmo estudo indicava que, entre as atividades domésticas, a que em média mais tempo consumia era cozinhar (34,8 horas semanais), seguida da lavagem de roupa (8,9), dos serviços de remendo da indumentária (7,2), do preparo dos legumes (4) e da limpeza do chão (3,8), afora outras funções menores (arrumar, tirar o pó, passar a ferro). Esse conjunto de atribuições, que nas residências abastadas era executado por empregados domésticos ou contratado em serviços fora do domicílio, recaía, no quadro das famílias de renda modesta, sobre as próprias donas de casa. Investimentos

destinados a melhorar as condições de trabalho no lar não deixaram, contudo, de encontrar resistências pontuais, desde a limitação pecuniária da maioria da população, que tornava inviável o usufruto de determinadas melhorias (cozinhas funcionais, pisos impermeáveis, eletrodomésticos), até a prevalência de noções arraigadas, como a que interpretava o desgaste na faina doméstica enquanto algo natural. Às vezes a fadiga contraída com a superposição de tarefas, a administração da casa e o cuidado dos filhos ainda poderia receber, no discurso publicitário, conotações de uma perda de vitalidade individual a ser reparada com tônicos e elixires, ao invés de ser percebida como sinal de uma rotina penosa.

Figura 9. Anúncio do vinho reconstituinte Silva Araújo. “Até o simples varrer, parecia-me trabalho pesado...” (O Povo, 25 mar. 1946).

Um artigo veiculado na página feminina d’O Jornal, ecoando a opinião cultivada em círculos favoráveis à conservação de papéis sociais estáveis para homens e mulheres, se batia pela necessidade imperiosa de que essas, a despeito de

sua presença ascendente no mercado de trabalho, se mantivessem firmemente vinculadas aos deveres domésticos, guardando a família e o lar:

Na contingência da vida moderna, mesmo com tarefas externas, pode a mulher aproveitar inteiramente as horas que passar em seu lar. O desequilíbrio social, que já se começa a sentir, acentua-se com a atitude da mulher abandonando os serviços caseiros. Vivendo em qualquer posição social, quer possuindo fortuna ou trabalhando fora, tem a mulher papel indeclinável no lar. Para esse fim ela foi destinada e somente ali poderá encontrar a verdadeira felicidade, longe das ilusões que o mundo possa oferecer-lhe (O Jornal, 2 set. 1958).

É interessante observar que, mesmo quando se tratava de agilizar e simplificar o trabalho doméstico, fosse pela aplicação de métodos de racionalização do espaço e do corpo, fosse pela disseminação de utilitários elétricos, esse propósito não coincidia necessariamente com uma série de reivindicações das mulheres, centradas na busca por maior autonomia individual, inserção crescente no mundo do trabalho e combate a representações normativas que enquadravam o comportamento feminino ideal à tríade esposa-mãe-dona de casa. Tem-se a impressão de que o discurso de modernização do espaço residencial – poupando tempo e otimizando esforço nas tarefas diárias, o que torna factível o exercício de uma atividade profissional exterior ao lar – poderia, conforme as circunstâncias, servir à remodelação de prescrições conservadoras que reputavam uma vocação inata da mulher à gestão da casa e aos cuidados com a prole e o marido.

Outro aspecto do cotidiano residencial que, nas décadas de 1950 e 1960, costumava ser abordado por matérias de jornais e revistas preferencialmente redigidas para o público feminino, consistia nas instruções sobre a decoração dos interiores. Assim aconselhava o texto de um periódico: “Vivemos hoje sob o signo das pequenas habitações. No entanto, alegria de conjunto, hoje em dia, não se separa do espaço. [...] mesmo que você não possa fazer recuar as paredes de seu pequeno apartamento, compreenda que é necessário tudo fazer para aumentar o espaço” (O

Jornal, 6-7 set. 1958). Percebe-se que, para fazer face à gradativa exigüidade dos espaços de morada nas maiores capitais brasileiras, a engenhosidade feminina era instada a reconhecer a incompatibilidade da casa com ornamentos em profusão: eliminar almofadas, molduras, bibelôs implicava tanto a recusa de padrões estéticos

doravante ultrapassados quanto o esforço sistemático para reduzir excessos, afinal, nas novas unidades habitacionais, a reprodução de modelos praticados em moradias antigas se tornara não apenas inadequada, como ainda impraticável.45 Um dos artifícios utilizados por decoradores e arquitetos para adaptar a casa a essa compressão (que decretava o fim dos amplos salões e dos grandes quintais) foi a interiorização do jardim, numa escala bem menor, e o desenvolvimento de ambientes caracterizados pela multifuncionalidade dos cômodos e da mobília: “Uma cômoda estante, que [é] a um tempo bar, jardineira, buffet e biblioteca, divide a peça em duas sem quebrar a harmonia do conjunto e sem roubar a amplidão do espaço. [...] Outra solução para a falta de espaço está neste quarto de casal onde a cabeceira da cama foi transformada em estante” (O Jornal, 15 jul. 1958). É razoável supor que arranjos similares não gozaram de aceitação unânime entre o público leitor, quer pelas diferenças de gosto, quer pela falta de um mobiliário mais leve e esguio que fosse capaz de agregar serventias simultâneas. Havia ainda a possibilidade de que essa recusa ou indiferença aos preceitos decorativos em voga fosse reforçada pela sedimentação de esquemas de morar alheios à compactação verificada nos grandes centros urbanos. Uma cena descrita no romance Sua Majestade, o juiz, de Jáder de Carvalho, retrata a estranheza de uma personagem, oriunda de abastada família do interior, que com o marido veio residir em Fortaleza:

Finalmente, saiu a desejada nomeação. Doutor José [juiz de direito] arrumou a bagagem e, num dia de sol, mudou-se para Fortaleza [início da década de 1950]. Alugou pequeno chalé na Gentilândia. Gracinha, nascida e criada em casarões do interior, com muito mais de trinta metros entre a sala de visita e o quintal, – Gracinha não ocultou o seu desagrado:

- Casa pra pombo. A cozinha fica em cima da sala. E este banheiro e esta privada dentro de casa!

O marido achou graça:

45 “Como já lhe dissemos uma vez, querida leitora, o tempo dos grandes e velhos casarões já passou.

Não dispomos mais dos amplos e acolhedores jardins nem, muito menos, dos imensos quintais, quase pomares. Hoje nas pequeninas casas modernas, você, dona de casa, tem a obrigação de dar aos seus a sensação de espaço amplo e livre que repousa o corpo e descansa o espírito. Tem que fazer os seus sentirem nos dois metros quadrados da sala o mesmo que o seu vovô sentia nos vinte do seu jardim. Isto é conseguido ‘trazendo o jardim para dentro de casa’ [mediante a aposição de jarros de planta] – um dos básicos preceitos da arquitetura moderna” (O Jornal, 18 jul. 1958).

- Ora, minha matuta, as casas aqui ocupam terreno caríssimo. Têm de ser pequenas, como casa de boneca. Os antigos casarões da cidade são hoje colégios, repartições públicas, hospitais.

A mulher retrucou:

- O que se diz na cozinha ouve-se aqui na sala. O que se diz na sala é ouvido pelos vizinhos. Gosto é de casa com um corredor ligando a sala da frente à sala de trás e passando pelos dois ou três quartos. Aqui, não se pode dizer “está lá dentro”. Quererá dizer que pode? (Carvalho, [1961], p. 162).

Essa tipologia da casa-corredor, com um longo vão interno articulando a rua e o quintal, não era exclusiva das cidades interioranas. Em Fortaleza boa parte dos imóveis erguidos nas três primeiras décadas do século XX obedecia a esse mesmo arranjo arquitetônico, que remonta a tradições construtivas do período colonial. Somente com a elaboração de um novo Código de posturas em 1932, a capital conheceria paulatinamente a implantação de outros esquemas de ocupação domiciliar, pois a legislação municipal doravante proibia o aparecimento de edificações pautadas por aquele modelo tradicional, julgado insalubre e carente de sofisticação estética, determinando ainda recuos frontais e laterais como também a existência de janelas em todos os compartimentos, de maneira a assegurar o permanente arejamento e a iluminação natural da moradia.46 O dispositivo regulador, atento a normas urbanas então observadas pelas grandes capitais brasileiras, poderia, malgrado seu intuito modernizador, tornar-se alvo de descontentamento por parte de

46 O historiador Raimundo Girão comentou, no seu livro de memórias, as alterações arquitetônicas

trazidas com o novo instrumento de regulação municipal, posto em vigência na administração do prefeito Tibúrcio Cavalcanti: “Reformulou, modernizando-o, o Código das Posturas, dentro deste o das Construções. Rejuvenesceu a legislação municipal em linhas novas, lógicas, tirando-a de avelhantados dispositivos, geradores do atraso da cidade em vários de seus aspectos. Proibiram-se as construções de casas unidinhas umas às outras, compridas, com lá dentro interminável, sem aeração, sem luz franca, sem qualquer conforto sanitário, as privadas lá no fim do quintal, em casinholas imundas. Obrigaram-se as construções isoladas e recuadas; e as áreas laterais livres, quando muito conjugadas as casas duas a duas. Bastava essa medida para demonstrar a clarividência do novo gestor; e os resultados dela transformaram a fisionomia da cidade, até então de ruas com as casas paredes- meias numa sucessão de caixas de fósforos ou caixa de calçados em prateleiras da sapataria” (Girão, 1972, p. 168). Outra descrição dessas residências que predominavam na paisagem urbana foi feita por Yaco Fernandes, ao reportar à capital cearense em torno de 1910: “As casas são, no geral, de um só pavimento, cobertas de telha vã, pavimentadas a tijolos vermelhos; de porta e uma ou duas janelas, possuem sala de visitas, um ou dois quartos, sala de jantar e cozinha; da sala da frente para a de refeições vai um longo corredor, para o qual dão as portas das camarinhas. Muitas vezes a inclinação do telhado é pequena e este se agacha sobre os cômodos, sendo preciso instalar telhas de vidro, que vêm dar alguma luz às sombrias alcovas. Construídas quase sempre em terrenos com cinqüenta metros de fundos – meio quarteirão – as casas possuem nos quintais árvores de fruta, fossa sanitária, banheiro e cozinha; a felicidade é que ninguém acredita em contaminação, e a possível existência de micróbios apenas perturba aos mais cultos” (Fernandes, 1977, p. 240).

quem convivera com outro padrão ordenador do recesso doméstico, segundo o qual a casa de banho e a latrina destacadas do espaço arquitetônico, situadas no quintal, eram sinais de alinhamento aos preceitos de higiene. A insatisfação provavelmente também se voltava contra a fusão, num mesmo cômodo, de duas atividades até então dissociadas – a higiene corporal e as necessidades fisiológicas – que a influência de programas estrangeiros e o advento da rede de água tornariam daí por diante uma tendência predominante (Lemos, 1989, p. 56-57).

Com o aumento demográfico dos grandes centros urbanos e a crescente pressão por moradia que, dos anos 1930 em diante, ensejaria habitações mais compactas e com menor divisão de recintos, seria necessário encorajar os indivíduos a projetar nos limites desse espaço interior a sensação de aconchego e bem-estar corporal que já não podia resultar de residências mais amplas. Nos anos seguintes ao término da Segunda Grande Guerra parecia claro que, conforme o discurso formulado em jornais e revistas, a comodidade não mais poderia ser encarada simplesmente como capricho ostensivo dos mais ricos ou como uma propriedade epidérmica de que resultavam sensações agradáveis; sua ausência ou parcimônia indicava desde então uma falha a merecer reparo contínuo. Afinal, não se tratava apenas de imprimir ao lar uma ambiência de deleite, beleza e relaxamento; doravante o desleixo na observância aos apelos da comodidade assumiria conotação mais grave, pois comprometia a própria realização do sentimento de intimidade naquele que se tornara seu nicho por excelência – o espaço doméstico.

Recairiam justamente sobre a mobília alguns dos mais persistentes anseios votados a fazer do que é cômodo uma espécie de segunda natureza da casa. Novas exigências, outrora ignoradas ou pouco notórias, passam a reger os modos de intervenção no recesso privado, e dos móveis se demandará uma série de qualidades progressivamente indeclináveis. À linha externa deles, sempre consentânea com o estilo em voga, deverá agora juntar-se sua apropriada compartimentação interna, como se o móvel quase assumisse a condição de uma casa em miniatura, dividido conforme os objetos que nele são guardados e atento ao mandamento da praticidade. Sua limpeza terá igualmente importância nessa avaliação: o excesso de ornamentos, dificultando a varredura do olhar e a rapidez do asseio, será condenado em favor de superfícies lisas e solícitas ao menor esforço. A um móvel também convirá ser de fácil remoção, propiciando rearranjos freqüentes: leveza, tamanho reduzido ou mesmo desmontagem simplificada se tornam assim atributos relevantes na hora de

escolher a mobília – opção cuja contrapartida estaria na paulatina recusa daqueles exemplares que, outrora guarnecendo o interior de antigos palacetes e mansões, agora se mostravam demasiado grandes, pesados e sedentários, portanto inadequados à realidade de habitações cada vez mais compactas e avessas aos amplos volumes. É toda uma engenharia dos pormenores que se põe em marcha para tentar racionalizar concomitantemente o espaço reduzido e o tempo escasso.

“A incomodidade de alguma coisa não é fácil de suportar; muitas vezes pode constituir um fator negativo para a atmosfera do lar. Só o que é cômodo pode permitir a conservação da intimidade entre você, os seus e a sua casa. [...] Comodidade numa casa é ainda, em última análise, economizar o tempo, que pode ser empregado em outras coisas”, assevera uma matéria (Unitário, 29 jan. 1950). O primado da comodidade ganha, portanto, o aspecto de uma insígnia que atesta a sintonia com o contemporâneo; no seu reverso viceja um latente receio de dissipação do espaço e do tempo, percebidos crescentemente como dimensões da vida a serem organizadas segundo esquemas de gestão a cargo dos próprios indivíduos.

Nesse contexto as poltronas e os sofás-cama despontam com a promessa de versatilidade para moradias assinaladas por recintos diminutos, onde móveis e pessoas protagonizam uma acirrada disputa cotidiana. O desafio de promover o tão acalentado conforto entra em consonância com a multiplicidade de funções que passam a articular objetos e partes da casa, em especial a zona de estar, rapidamente convertida em dormitório: “De dia, o sofá e as poltronas formam belo conjunto da sala de estar. E, à noite, as três peças facilmente se transformam em outras tantas camas amplas e confortáveis, nas quais os nossos hóspedes encontrarão comodidade para um repouso completo e um sono reparador” – afirma um fabricante daqueles móveis (O Cruzeiro, 27 ago. 1949). Equilíbrio precário, muitas vezes ao largo das injunções ditadas pela alternância de noite e dia, pois é necessário lidar com dimensões mais estreitas sem atulhar a circulação nas diversas peças da habitação nem permitir o desperdício de recantos, ordinariamente pouco investidos dessa preocupação por preencher mesmo a borda dos cômodos. E daí se desencadeiam receituários em profusão: recomenda-se o emprego de prateleiras; as paredes já não se limitam a separar compartimentos e se tornam suportes de gravuras e quadros; poltrona e abajur se associam compondo um mobiliário mínimo para ocupar uma pequena franja sem uso da sala ou do escritório. Dessa maneira o vazio ganha ares ambíguos, oscilando entre a evidência de uma deficiente arrumação doméstica e um

arremedo de vida luxuosa, pois a manutenção de trechos ociosos na casa doravante sugere quase um privilégio. As questões de ornamentação emergem como problemas a demandar o tirocínio feminino: “Há situações penosas para a dona de casa. Exigüidade de espaço e necessidade de ornar... sem atravancar, ou – ao contrário – paredes vazias e ‘cantos’ sobrando lamentavelmente” (Eu Sei Tudo, ago. 1953).

À diferença de fotografias concernentes ao estilo de vida das estrelas de cinema – que pululavam nas revistas de variedades e influenciavam o gosto de milhões de anônimos leitores, retratando salas, cozinhas e quartos amplos, amiúde decorados sem fausto mas com apuro e elegância, dotados de equipamentos modernos, liberados da embaraçosa concorrência por espaço entre corpos e móveis, casas enfim para cujos moradores o conforto era um fato consumado e um traço permanente da vida de todos os dias –, a imensa maioria das pessoas vislumbrava essas experiências de bem-estar físico nos termos de uma conquista, algo que não estava disponível de antemão e somente obtido ao custo do empenho individual, sob a fundamental ressalva de que, em contraste com um passado recente, agora lhes era assegurado o direito a essa aspiração; mesmo quando ainda distante de suas posses, o conforto se integrava profundamente no horizonte do desejo desses contingentes de homens e mulheres.

É razoável imaginar que tais aspirações variavam consideravelmente de uma pessoa para outra, e que a obtenção de um determinado padrão de conforto nem sempre gerava a satisfação esperada. Uma personagem do romance Aldeota, de Jáder de Carvalho, deixou registrada sua impressão sobre a nova casa onde foi morar com o esposo, que atuava no alto comércio de Fortaleza:

A casa fica no trecho alto do bairro. De lá se descortina boa parte da praia. É

Benzer Belgeler