• Sonuç bulunamadı

Logo nos primeiros dias de junho de 2010 pude ouvir da brasileira Marta algumas palavras acerca dos nomes das crianças brasileiras no Japão. Nissei com 49 anos na época e mãe de 2 filhas, ela já pôde me contar alguns dos dilemas enfrentados pelos nikkeis que hoje vivem no Japão.

O que não esperava foi um comentário ou pensamento alto, em que Marta desabafa sobre a relação de suas filhas com o pai e avós, causando extremo desconforto para Marta saber que suas filhas não querem mais retornar ao seu país de origem.

Prestes a se tornar avó, e com um genro japonês que “morre de vontade de conhecer o Brasil”, Marta diz com tristeza que ainda quer voltar, pois sente falta dos pais e da vivência no Brasil. “Eu sou brasileira, eu quero voltar, mas fico muito triste porque minhas filhas não [querem]”.

Nascidas no Brasil, as filhas de Marta têm nomes brasileiros como primeiro nome, nomes japoneses como nome do meio e sobrenomes japoneses, tendo sido levadas para o Japão logo no começo do Fenômeno Decasségui. Marta me explicou que a recusa das filhas em retornar é refletida até mesmo nos nomes, já que as filhas não querem e nem usam mais os nomes brasileiros. Hoje elas são “japonesas” tanto fenotipicamente quanto burocraticamente, não havendo necessidade de um vínculo com um país tão distante como o Brasil.

Indagada sobre a questão, ela diz que hoje pode ser encarada como uma questão “de identidade”, mas que quando eram crianças e em tempo de escola, a não adoção do nome brasileiro era um recurso para evitar estranhamentos entre os colegas de sala de aula e professores, estigma bastante forte no início da imigração para o Japão. Não usar nomes

brasileiros ou estrangeiros acaba sendo uma “estratégia” que, apesar de não ser incomum nos fenômenos migratórios ao redor do mundo, deixam marcas profundas nas maneiras como estes imigrantes enxergam a própria imigração.

Como me disseram informantes, no Japão as crianças assumem o nome do pai/família, garantindo não só a ela uma série de direitos, como também direitos para a própria família. Em contextos de divórcio e novos casamentos, tanto a esposa quanto as crianças acabam trocando o sobrenome e adotando o do novo marido/padrasto como forma de mantê-las dentro do Koseki.

Entre os brasileiros no Japão a orientação para a garantia de direitos mediante o Koseki é a mesma. Quando ocorre o divórcio dos pais, se a mãe não for descendente a criança pode perder seus direitos, pois fora do Koseki, ela e a mãe ficam irregulares aos olhos da lei. O mesmo problema é sentido com casos de mães solteiras.

Para regularizar a situação da criança, Marta me informou que a mãe rapidamente procura casar com outro descendente ou japonês, de modo artificial ou não, ocorrendo a subseqüente troca do sobrenome da criança.

Como me disse outra informante, em casos de mães solteiras descendentes é possível assegurar o visto legalmente com o Koseki e a comprovação de um fiador que indique residência. Já em casos de mães solteiras não-descendentes, como o consulado brasileiro não exige documentos do pai para a certidão de nascimento (justamente por conta da diferente lógica de nomeação), tais mães “arrumam um pai” artificial para assegurar os direitos da criança.

A troca de sobrenomes passa a ser uma constante para dar conta da plasticidade dentro da família que muitos dos meus informantes atribuem como resultado da imigração. Em outro país, longe da fiscalização familiar e em contato com outras pessoas, os novos namoros, casamentos e divórcios são extremamente atraentes.

Seja na fábrica em que se conhece uma pessoa diferente em algum ponto da linha em oposição às longas jornadas de trabalho alternadas que separam marido e mulher dentro de casa, passa a ser corriqueiro a troca de esposas, esposos, namoradas, namorados e subsequentemente, os sobrenomes.

Para vários informantes a troca de sobrenomes é constante, gerando uma série de problemas sob os olhos das leis japonesa e brasileira. Pelos sobrenomes das crianças notamos indiretamente a fluidez dos divórcios e arranjos familiares que desestabilizam a lógica do ie e o Koseki como forma de garantir a permanência no Japão.

Segundo Marta, a troca de sobrenomes é percebida pelos “coleguinhas e pelos professores” na escola, “aí o povo estranha; é estranho né, uma criança que tem o sobrenome mudando toda hora”. O desconforto pode, em casos extremos, ser percebido como bullying ou mesmo “preconceito” com aquela criança, pois em seu nome todos podem observar a instabilidade ou plasticidade dos arranjos de sua família.

Marcela já trabalhou na prefeitura de Hamamatsu no passado para lidar com os problemas enfrentados pelos brasileiros na cidade, sendo a questão dos nomes um ponto a ser observado. Em determinado momento ela sugere que o Koseki não consegue apreender efetivamente todos os nikkeis, o que, de certa forma, nos mostra como estes imigrantes com os seus próprios nomes desestabilizam e subvertem o modelo:

Victor Hugo – Como é o “sistema japonês” de nomeação?

Marcela - Os japoneses não compreendem o sistema que usamos, nomes duplos, vários nomes ou sobrenomes. Então, por exemplo, tem sobrenome “Lima”, “de Lima”, “Mata Lima”. Para eles são todos “Lima”. No Japão é nome e sobrenome. Victor Hugo - Primeiro nome e Sobrenome, mas existe a possibilidade de "nome do meio" também, certo? Raro, mas tem, não é?

Marcela - Se você casa, troca o sobrenome de todos [na família]. Se for separada e tem filhos, os filhos também trocam de sobrenome. [São] raríssimos [os casos de nome do meio]. Até kanji57, em geral são 2 e raros 3.

Victor Hugo - Então se você casa com um japonês, a mulher e todos os filhos dela devem assumir o sobrenome do marido, certo?

Marcela - Correto. Você literalmente assume tudo!

Victor Hugo - Mas isso é lei ou é possível não seguir esse sistema?

Marcela - Já é possível não seguir, mas acabam seguindo, pois a "sociedade" ainda estranha... Para você ter idéia, na escola de meus filhos, sempre me chamam pelo sobrenome de meu marido...

Victor Hugo - Como assim a "sociedade estranha"?

Marcela - Se a mulher engravidar e não casar, a criança não pega o sobrenome do pai e no Registro constará “pai desconhecido”. Isso é ruim para a criança.

Victor Hugo – Por que ruim?

Marcela - Uma família com membros que tenham sobrenomes diferentes é anormal Victor Hugo – Por quê?

Marcela - Filho do pecado...

Victor Hugo - Anormal visto pela sociedade japonesa, você diz? Mas e nos casos de famílias japonesas mesmo, que separam e se casam posteriormente? Todo mundo prefere simplesmente adotar o sobrenome e está resolvido?

Marcela - Sim, pelos japoneses e crianças. Hoje já não é tão pesado como antes, mas há o estigma...

Victor Hugo - Você já lidou ou viu algum caso desses?

Marcela - Sim, [já lidei]. Sim, se engravidar, melhor casar e separar. A criança fica com sobrenome.

Victor Hugo - Com o sobrenome do pai... Se ela fica sem o sobrenome do pai, fica fora do Koseki, isso?

Marcela – Isso. Trocar o sobrenome não é algo tão difícil para eles.

Victor Hugo - Porque eu entrevistei o João [da Associação Brasileira de Hamamatsu] e ele comentou justamente isso, que como tem muitos divórcios entre os brasileiros, esse tipo de problema aparece eventualmente.

Marcela - Já peguei crianças que o sobrenome dentro da família é uma bagunça. A mãe tem um sobrenome, o marido outro e as crianças idem...

Victor Hugo - No caso das crianças em si, quais os problemas que enfrentam, efetivamente?

Marcela - Algumas pessoas mais ignorantes passam a ter certo preconceito. E inclua certos professores nisso.

Victor Hugo - Em uma entrevista me disseram que as outras crianças na escola japonesas acabam achando “estranho”. Você acha que isso é algum tipo de ijime? Marcela - É como no Brasil, a criança sem pai, acaba tendo certa vergonha, problema... O ser diferente por vezes incomoda.

Victor Hugo – Entendi. O sobrenome então é um problema por causa do Koseki. Uma criança "sem sobrenome" ou com sobrenome fora do Koseki, como fica a situação dela com a Imigração?

Marcela - Nem sempre, depende muito de como cada criança vê e compreende isso. Tem um caso de gêmeos que o padrasto os cria desde bebês. Isso nunca os afetou. O padrasto é o pai deles! No caso de estrangeiro, entra a lei do país [de origem]. Assim, ao nascer e quando registrar na Prefeitura fica só o sobrenome da mãe. No consulado eles acrescentam o sobrenome do pai e o incluem no protocolo da certidão. Depois retornam na Prefeitura e fazem a alteração. E depois vão na Imigração. É um problema mais para japonês do que para brasileiro.

Victor Hugo – Assim, depois que a criança adquire o sobrenome do pai ela "está dentro do Koseki", isso?

Marcela - Só entra no Koseki [quem é] japonês mesmo. Victor Hugo - Mas e os nikkei?

Marcela - Para nós, o Koseki só comprova a genealogia. Nada mais58. Apenas para

comprovar descendência. Meu pai tem Koseki, mas no Koseki dele, diz que é um casal sem filhos...

Victor Hugo - Para os japoneses é o quê?

Marcela - Para os japoneses é o documento que conta tudo, sobre pais, avós, irmãos, etc.

Victor Hugo - Aí assim, as crianças em si, nikkei, que estão nessa situação de nomes bagunçados, já reclamaram alguma vez pra você?

Marcela - As crianças não compreendem o sistema, mas muitos reclamaram quando eu trabalhei na prefeitura.

Victor Hugo - Para os nikkei o Koseki não pegaria tudo quanto os japoneses? Marcela - Não, não pega.

Victor Hugo - Não pega tudo por quê?

58 Grifo do autor.

Marcela - Veja só, peguei uma família em que todos os membros tinham como Primeiro nome Maria ou José. O sobrenome igual... Então no gaikokujin tōroku e no computador colocaram o primeiro nome e o sobrenome... seis membros, a esposa, filha, marido e filhos. Acho que a filha era nova, estudava. Então o pai e os filhos trabalhavam... O maior rolo com imposto, kokumin59... Nome e endereço igual...

Quem é quem, onde trabalha... Fora quando bagunçam tanto que nem sabem se é nome ou sobrenome...

Victor Hugo – Entendi. Aí ficam pessoas de fora... Isso parece um problema para a Imigração. Porque pelo que você está me falando, no limite pode haver mais estrangeiros aí do que dizem as estatísticas, não é?

Marcela - Sim! Principalmente porque ainda60 não sabem como farão com as

informações que estão espalhadas por todas as Prefeituras do Japão...

Desde o final de 2011 o governo japonês indicou a implementação de um novo sistema de registro para os imigrantes, visando justamente unificar o sistema de registros e com isso contornar estes dilemas que o sistema de Koseki oferece quanto aos nikkeis vivendo no Japão.

Tais “brechas” se dão não só pela incompatibilidade dos sistemas de nomeação e registro civil entre Brasil e Japão, mas também pelas diferenças de organização/orientação dos arranjos familiares. Esse ponto é crucial para que não fixemos a percepção de que apenas os agentes em questão manipulam e subvertem o lógica hierarquizante do Koseki, mas que o próprio modelo é constantemente pensado e repensado de modo orgânico.

Como tentativa para hierarquizar os estrangeiros dentro de um sistema cujas orientações são as mais diversas que não as japonesas, surge a necessidade de um novo sistema de registro complementar ao próprio Koseki. Este novo registro deve ser capaz de dar conta das diferenças de sistema de Registro Civil entre Japão e outros países – agora mais vinculado aos dados do Passaporte que ao sangue unicamente:

Governo japonês publica em português site sobre o ‘Zairyu Card’, o novo cartão de residência para estrangeiros

59 De Kokumin Kenko Hoken, plano nacional de saúde. 60 Destaque da entrevistada.

Documento contém um chip de segurança contra falsificação e registra informações como mudanças de endereço e permissão de permanência

Em julho de 2012, entrará em vigor uma nova lei de imigração no Japão, que obriga a entrega de um novo cartão de residência aos estrangeiros que vivem no país. O documento contém um chip de segurança contra falsificação e registra informações como mudanças de endereço e permissão de permanência. O Departamento de Imigração do Ministério da Justiça criou um site em seis idiomas para informar os estrangeiros sobre o novo cartão

As permissões de permanência, que atualmente são de três anos, serão estendidas para cinco, segundo a nova lei. Esta categoria inclui, por exemplo, os cônjuges de cidadãos japoneses.

Por outro lado, com a nova lei, o estrangeiros que possuem passaporte válido e cartão de permanência, em princípio, não precisarão solicitar a autorização de reentrada (re-entry) caso retornem dentro do período de 1 ano após a saída do Japão. Além disso, o prazo máximo de permissão para reingresso será ampliado de três para cinco anos.

Sob a nova lei, serão anulados os vistos de residência aos estrangeiros que: -Tenha obtido permissão de residência de maneira ilegal.

-Permanecem no país como cônjuge com a qualificação de residência de “Cônjuge ou filho de japonês” ou “Cônjuge de residente permanente”, quando ficar sem atividades de cônjuge por mais de 6 meses sem motivo adequado.

-Quando não avisar a residência sem motivo adequado ou fizer algum motivo falso. A deportação será procedida aos que:

-Falsificarem ou alterarem o cartão de permanência. Haverá penalização nos casos de:

-Declarações falsas para realizar trâmites para residência de longo ou médio prazo ou não portar o novo cartão de residência.

-Será considerado crime o ato de ajudar a encontrar serviço de maneira ilegal.” (International Press, Disponível em <http://www.ipcdigital.com/br/Vida-no- Japao/Leis/Imigracao/Governo-japones-publica-em-portugues-site-sobre-o-Zairyu- Card-o-novo-cartao-de-residencia-para-estrangeiros_26122011>, Acesso em 26 de dezembro de 2011)

O Zairyu card é uma forma mais eficiente de registro de imigrantes, contornando não só as “brechas” de catalogação como também a identificação dos casos com vistos de múltiplas entradas (re-entry). Nestes últimos casos, temos nikkeis entrando e saindo do Japão a todo momento que nem sempre podem identificados pelo sistema como “residentes”.

Dentre aqueles decasséguis que estão encapsulados pelo Koseki, notamos então a subversão ou alteração de sua lógica pelos atores. Como para vários dos entrevistados nikkeis o Koseki não retém a mesma importância que teria para um japonês, sendo “apenas um

documento que comprova a descendência61”, arranjos alternativos são mais do que possíveis,

cujas lógicas de funcionamento eventualmente escapam à hierarquização.

Marcela comentou que com o Zairyu Card a proposta é não só registrar de modo mais eficiente os dados estatísticos, mas registrar também todos os imigrantes com vistos de re- entry (o de múltiplas entradas no Japão. Como sugere Marcela, existiria assim a possibilidade lógica da existência de mais imigrantes no Japão do que dizem as estatísticas oficiais (dando margem para a existência de imigrantes invisíveis, overstayers, etc.).

Vemos aqui que a mudança de contexto entre Brasil e Japão vai muito além da discussão sobre possibilidades de escolha dentro de um estoque de nomes, mas sim apontam para diferenças fundamentais nos sistemas de Registro Civil que afetam no limite todos os nikkeis que estão dentro do fenômeno migratório.

Muito diferente do modo como “grafar” o nome e sobrenome dentro do sistema japonês, os nikkeis e subseqüentemente os decasséguis que virtualmente seriam invisíveis dentro da lógica japonesa acabam sendo justamente mais visíveis pela troca constante de sobrenomes. Desta forma, a lógica de nomeação é causa e/ou efeito da própria maneira em que é pensado o modelo ou lógica familiar do ie.

61 Expressão nativa.

Benzer Belgeler