Distribuídos nos turnos manhã e noite, as quatro turmas de 3º ano da Escola Paróquia da Paz totalizam 75 estudantes matriculados (informação da Escola), mas só tive contato regular com 54 deles, os que me deram retorno do material. Foi difícil encontrar as salas cheias, por pequenas que fossem as turmas. Utilizo estes dados numéricos a serviço de reflexões que considero importantes para conhecermos aspectos gerais do grupo de jovens pesquisado.
O questionário inicia com uma ficha em que os alunos se identificam e dizem sua naturalidade. Eu precisava saber quem já nasceu na capital, quem migrou e, se migrou, de onde veio (foi dito que muitos alunos são filhos e netos de estudantes pioneiros, e de famílias que migraram para cá nas últimas décadas). Segundo informaram, 26 deles são nascidos no município de Fortaleza, e 14 nascidos e vindos dos municípios de Acaraú, Aratuba, Aquiraz, Beberibe, Caucaia, Guaraciaba do Norte, Guaiuba, Itapajé, Itatira, Morada Nova, Nova Russas, Redenção e Viçosa do Ceará. E nove alunos de outros Estados: Bahia, Pará, Piauí (6) e São Paulo. Cinco alunos não informaram.
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Gráfico 20 – Naturalidade dos alunos
Fonte: elaborado pela autora.
Percebemos que há uma nova geração já nascida em Fortaleza, mas ainda há um fluxo do interior para a capital. De forma inversa, há um contra fluxo de pessoas vindas de outros estados. E veremos no gráfico seguinte onde essas pessoas se localizam.
Esta instituição escolar informou que recebe alunos de regiões que margeiam o entorno, mas também de outros lugares da cidade: Dragão do Mar, Edson Queiroz, Caça e Pesca, Serviluz, e alguns mais distantes, como os bairros Siqueira, Pici e São Cristóvão, como veremos abaixo.
Todos informaram seus nomes e seus endereços, com exceção de apenas um aluno, que depois veio a ser meu interlocutor no estudo de caso e é morador da Comunidade dos Trilhos. Conforme informaram, 27,8% dos alunos residem nos bairros: Aerolândia (1), Autran Nunes (2), Bom Jardim (2), Castelo Encantado (1), Edson Queiroz (2), Jurema [Caucaia] (1), Henrique Jorge (1), Monte Castelo (1), Parangaba (2) e Vicente Pinzon (2) - (total de 15 alunos). Os números entre parênteses referem-se às quantidades de estudantes residindo nos respectivos bairros. Todos informaram os endereços oficiais, inclusive como se vê no gráfico, a maioria deles (total de 39 alunos, ou 72,2%), diz residir nos endereços que, conforme o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE) 2013, são considerados nobres e ricos da cidade: Meireles, Varjota, Aldeota e Dionísio Torres.
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Gráfico 21 – Endereço dos alunos por eles informados
Fonte: elaborado pela autora.
Observei que nos questionários ninguém mencionou morar nas comunidades supracitadas. Expus que, como eu vinha do interior e estava morando em Fortaleza havia pouco tempo, não conhecia muita coisa. Eu disse que gostaria de ajuda para conhecer melhor a cidade, então, perguntei sutilmente se não havia alguém da Comunidade dos Trilhos, da Comunidade das Quadras, do Campo do América, por exemplo, já que eram locais próximos da Escola. Eles se entreolharam, pigarrearam, e um ou outro disse ser, mas de maneira bem reticente. Argumentei que, como ninguém mencionou, entendia que não havia ninguém. Responderam, em tom de ironia, que são lugares muito “pacatos”. Alguns apontaram colegas que residiriam nas comunidades mencionadas, mas estes negaram chateados, dizendo que não moravam nos lugares referidos, apenas perto. Noutros momentos, nas conversas informais no pátio, alguns estudantes falaram dos problemas com tráfico de drogas e violência nas comunidades, e que muita gente da Escola mora nas regiões. Naquele momento percebi que aquela não era a oportunidade para falar sobre tais questões, e achei melhor mudar de assunto.
Segundo a diretora em exercício em 2013, muitos alunos são filhos e netos de famílias do interior do Ceará e de alguns Estados vizinhos, que vieram trabalhar, especialmente, como empregados domésticos nas casas de família da região mais nobre da cidade, onde antes eram localizados sítios. Como a cidade foi sendo ocupada do centro para a zona oeste, estabeleceram-se nas áreas livres que havia nas regiões descritas. Na falta de políticas públicas que os acolhessem na cidade, esses trabalhadores foram se instalando e construindo suas moradias em vielas no entorno dos bairros mais nobres.
Mas Fortaleza foi crescendo, verticalizando-se, foram subindo os espigões cada vez maiores, criando uma especulação imobiliária acirrada. O mercado predial expandiu,
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precipitou transformações urbanas, passando a invadir os terrenos ocupados por essas comunidades, disputando os espaços antes ignorados pelos poderes públicos. A solução proposta pelo governo, inicialmente, foi retirar essas famílias e afastá-las para áreas distantes. Ocorreu, e ocorre, na maioria dos casos, uma grande resistência por parte das comunidades, pois ao longo dos anos os moradores destes lugares foram se instruindo e se organizando em favor de seus direitos. A relação que estes têm com os espaços que lhes circundam é sempre de conflito, efetivo ou simbolicamente, expresso nas negociações de desapropriação ou remoção de suas comunidades para outras regiões distantes das áreas com as quais já estabeleceram um vínculo e uma história.
A convivência com a tensão é constante pelo risco de invasão de seus espaços, ameaçando o sentimento de territorialidade e a garantia mesmo de moradia. Os moradores não se sentem seguros com relação às promessas de indenização e às propostas dos programas de habitação, que eles apontam como inadequadas às suas necessidades quanto a localização, área construída, carência de equipamentos públicos de saúde, escola, transporte, serviços de saneamento e outros bens coletivos elementares.
Quando pergunto sobre os motivos para frequentar a Escola Paróquia da Paz, a primeira justificativa é a da proximidade de suas moradias. Mas há outras escolas públicas que também oferecem ensino médio, que ficam próximas aos endereços de moradia de muitos deles. Alguns disseram que consideram esta uma boa Escola. Parecem ter a sensação de que o colégio pesquisado é melhor que outros em termos de qualidade de ensino, mas percebo que essa avaliação é muito subjetiva, já que, por exemplo, a nota do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB)12 nunca alcançou bons resultados, ficando, inclusive, entre os resultados insatisfatórios de Fortaleza.
Achei curioso, no depoimento de um dos interlocutores, M.A.N. (17 anos), que mora no Bairro Planalto Pici, como ele classificou a Escola Paróquia da Paz: uma “escola diferenciada”. M.A.N. afirmou já ter estudado em “escola de periferia”. Ele acredita que a diferença é grande, “é outro nível”. J.R.R. (18 anos) mora no bairro Aerolândia. Durante um ano trabalhou e morou próximo a Aldeota, período em que começou a frequentar a Escola Paróquia da Paz. Quando voltou a morar na Aerolândia, não quis mais estudar lá, pois disse que se acostumou com a referida Escola. O estudante M.P.C.R. (17 anos) disse: “é perto de casa, tem bom ensino, seguro e tenho amigos aqui”. Aos poucos, tenho impressão de que, muito sutilmente, há para alguns estudantes uma suposta distinção, acepção de classe ao
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frequentar aquela Escola, que aparentemente só se diferencia das demais pela localização “privilegiada”.
Observei que estes sujeitos lidam com certo mal-estar em relação às contradições sociais nas quais estão inseridos. Esta contradição não está expressa apenas no entorno da escola, no sentido espacial, mas em tudo o que atravessa seus cotidianos, no sentido efetivo da busca por “um lugar ao sol”, quando se imaginam ou planejam suas existências para além da escola. Não foi fácil abordar este assunto nos diferentes momentos da pesquisa, nas conversas informais, na aplicação dos questionários, na escrita e na entrevista. A aproximação foi difícil: as conversas informais fluíam, mas quando o diálogo se encaminhava para as diferenças sociais, muitos eram reticentes.
Os alunos pesquisados dialogam espinhosamente com este espaço porque as representações de pertencimento social são fortes dependendo de onde estão situados. Quando evitam falar ou negam seus endereços domiciliares localizados nas comunidades periféricas, fica evidente como concebem ser contraditório o território mais amplo em que eles também estão inseridos, já que estão nas proximidades, ou mesmo dentro desse mesmo território que é invisibilizado pelas demarcações classificatórias, cujas arbitrariedades não lhes incluem e nem os reconhecem como moradores legítimos, mas como ocupantes das comunidades ainda anônimas, na sua integração com os mapas oficiais da cidade. São espaços “paralelos” ou “postiços”, que não constam na cartografia fortalezense. É como se, de alguma forma, suas existências também fossem negadas ou indesejadas.