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No Brasil, o acesso tardio dos Surdos à escola ainda é a conseqüência do processo social, de saúde pública e de políticas de acessibilidades das pessoas com necessidades especiais, que construiu um procedimento velado9 dos profissionais da área da saúde no qual. As crianças com surdez diagnosticada precocemente são encaminhadas para a adaptação de aparelhos auditivos e treinamento de fala, mesmo que não haja a mínima perspectiva de ser oralizada.

Apenas quando todas as possibilidades dos procedimentos de oralização forem esgotadas, as crianças e suas famílias serão encaminhadas ao ensino para surdos, em escolas para surdos ou classes especiais. No entanto não existe um protocolo de procedimentos sistematizados que determine quem ou quando a criança deve ser encaminhada a uma escola para surdos.

O encaminhamento fica a cargo da percepção pessoal e subjetiva dos profissionais que acompanham o caso, ou seja, estarão aptas ao acesso à língua de sinais, as crianças que não obtiverem sucesso na oralização e por conseqüência, sejam consideradas incapazes de acompanhar o ensino comum, sobre o ponto de vista das visões reabilitadoras de trabalho com surdos.

Essa prática rotineira na relação que se estabelece entre o sistema de saúde e educação acaba por criar entre crianças surdas e seus pais a sensação de fracasso ou insucesso. Isso ocorre a partir do momento em que a continuidade do trabalho de oralização e o processo educacional em escolas comuns colocam a criança no lugar dos bem sucedidos, deixando aos que não obtêm sucesso da oralização o rótulo da incapacidade. A elas caberá a escola especial ou a escola para surdos, ou seja, elas começam suas vidas escolares, pela impossibilidade e pelo fracasso, assim como já havia ocorrido em outros setores da vida.

Por não haver qualquer relação formal entre o sistema de saúde e educação, a relação entre o diagnóstico da surdez e o processo educacional do sujeito surdo é cindida, podendo uma família ouvinte, ter acesso a informações dispares e incompatíveis, que geralmente a deixará em conflito e tendo de tomar todas as decisões solitariamente.

Para melhor compreendermos os processos educativos bilíngües para os surdos brasileiros é crucial que estes sejam contextualizados na realidade mundial por nós compartilhada.

9 A discussão acima descrita não está registrada em qualquer documento, podendo apenas ser constatada na prática dos

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Conforme já dito, os primeiros trabalhos realizados dentro de uma proposta educacional bilíngüe para surdos têm sua origem nos países nórdicos da Europa.

A década de 80 foi importante, principalmente na Suécia, que pôde colocar em prática, de forma oficial, uma licença de seis meses aos professores de surdos, para que eles pudessem ser formados como professores bilíngües para surdos, não apenas aprendendo a língua de sinais sueca, mas estudando as diferentes formas de letramento possíveis num trabalho bilíngüe. Após esses seis meses, eles retornaram à sala de aula, agora já com um forte embasamento teórico (Mashie,1994).

As condições sociais, culturais e econômicas da Suécia são tidas como fatores facilitadores da implantação de uma educação bilíngüe duradoura para surdos. Esse país reconheceu oficialmente a língua de sinais sueca no ano de 1981, o que foi o primeiro passo para a implementação do projeto bilíngüe para surdos. Para Moura (2000 p. 73)

“... não foi um mero reconhecimento de uma entidade abstrata como uma língua, mas o reconhecimento desta língua como pertencente a uma comunidade que deveria ter direito de ter acesso a mesma. Não foi, portanto, somente o reconhecimento da Língua de Sinais, mas dos surdos como representantes de um grupo minoritário com direitos educativos na sua própria língua...”

O respeito à criança como prioridade em relação a tudo e em todos os aspectos, é um dos princípios da cultura sueca que oferece condições sociais, culturais e educacionais favoráveis a todos. Isso pode ser visto como o principal aspecto que faz da educação sueca bilíngüe para o Surdo apenas mais um aspecto a ser tratado para que os cidadãos suecos possam usufruir de seus direitos em igualdade de condições.

Na Suécia não existe uma língua oficial, o Sueco é a língua nacional utilizada e conhecida por todos os suecos, incluindo os cidadãos surdos, que aprendem também o inglês e outras línguas modernas, como forma de estar em constante contato com todas as culturas do mundo, integrando-se desta forma à comunidade mundial.

Para Ahlgreen (1990) a educação especial para surdo do país sustenta sua eficácia no suporte da área da saúde, em que o governo sueco disponibiliza o diagnóstico de surdez

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precocemente. Por esse sistema, os primeiros exames estão disponíveis em todos os hospitais do país e são realizados nos primeiros dias de vida.

Imediatamente após o diagnóstico, os pais são orientados sobre a condição de grupo minoritário de seu filho e são colocados em contato com a comunidade de surdos local, onde poderão, inclusive, aprender a língua de sinais, que será a língua materna da criança. Dessa forma eles terão contato com a cultura surda, conhecendo o universo da surdez, identificando seus filhos como pertencentes a esta comunidade e podendo filiar-se a comunidade surda.

No projeto educacional sueco, a criança surda que tem como língua materna a língua de sinais sueca, tem direito a dez anos de educação na escola especial obrigatória e direito a intérprete de língua de sinais até o ensino superior. Condições específicas também são garantidas aos integrantes da comunidade Sami10, às pessoas com distúrbios de aprendizagem e aos imigrantes. Fica claro que as condições oferecidas aos surdos, são condições oferecidas a todos que precisem de atenção específica para garantir uma condição equânime na atuação social.

O projeto de educação bilíngüe para surdos na Suécia é uma realidade que perdura até hoje, em todo o país existe um projeto nacional a ser seguido, diferentemente de outros países da Europa, América do Norte e do Sul, onde existem movimentos isolados de educação bilíngüe para surdos que não se sustentam em políticas nacionais, o que faz com que vários trabalhos surjam, mas não se tornem movimentos perenes na realidade nacional.

O projeto suéco das Specialskola – escola para crianças com deficiência auditiva, elaborado no ano de 1995 prevê metas de ensino/ aprendizagem para as crianças surdas na escola especial nas disciplinas de Inglês que é ensinado em disciplina a parte das Línguas Modernas, Língua Materna, Movimento e Teatro, Língua de Sinais e Sueco. O documento explicita o papel do educador em cada uma das disciplinas, as metas a serem alcançadas no prazo de seis anos e outras para a permanência de dez anos na escola.

Este tipo de organização nos mostra a importância dada ao projeto que é concebido para colocar o aluno surdo em condições de igualdade com todos os estudantes do país, respeitando suas condições lingüístico-culturais e deste modo, segundo o documento recebido em 02/2007:

“... As metas que os alunos na escola obrigatória devem ter alcançado no final de cinco anos na escola, devem ser alcançadas na Specialskola no

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final de seis anos. As metas que os alunos na escola obrigatória devem ter alcançado no final do nono ano de escola na Specialskola, deve ser alcançada, no final do décimo ano...” 11

Percebe-se a preocupação de que a criança surda alcance metas educacionais compatíveis com suas características, sem que esteja a parte das metas do sistema educacional geral.

A Suécia vem sendo o modelo nas questões mais nucleares, seguido pela maioria dos projetos bilíngües do Brasil e do mundo. No entanto, repetimos, as condições sociais, culturais e econômicas que compõem o projeto educacional não são passíveis de duplicação, o que impõe aos outros projetos desafios nem sempre transponíveis. O principal desafio é conseguir que a comunidade surda seja vista como um grupo composto por sujeitos pertencentes a um grupo lingüístico minoritário que não necessariamente seja um ônus social permanente, o que acontece quando esta comunidade é vista como formada por deficientes.

11 Tradução da pesquisadora

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Benzer Belgeler