Por meio deste trabalho, a partir de uma observação participante, procurei desenvolver uma análise sobre o processo de identificação étnico-urbana da Comunidade Maloca a partir do reconhecimento e legitimidade territorial envolvidos num processo judicial que se desencadeava há mais de 14 anos. Foi contextualizado o processo judicial, a formação das redes sociais da comunidade, assim como a fomentação de práticas e histórias vividas nas narrativas interiorizadas na memória coletiva do grupo.
A partir de 1970, com o fortalecimento da sociedade civil, em que os movimentos sociais puderam se (re)articular, a conjuntura de processos políticos de reconhecimento a comunidades tradicionais passam a se mostrar favoráveis. Assim, partindo da variedade de diversos outros enfoques de luta de direitos, adentramos a especificidade no que tange o direito às comunidades remanescentes de quilombo. Tentamos, no decorrer do trabalho, interpretar como a efetivação do direito a uma comunidade quilombola urbana passa por um processo de reconhecimento de identidade(s), suas manifestações simbólicas e a sua representatividade quanto ao poder público.
Incluo a comunidade como um grupo étnico, assim como proposto por Barth (1998), onde se enfatiza a organização da comunidade e os limites que a mesma estabelece entre um “nós” e o “outro”. Na Maloca é perceptível que a organização se dá não apenas pelas relações de parentesco, nem mesmo pelo componente racial de se considerar negro, mesmo esses elementos tendo uma importância no processo de reconhecimento do grupo. Adentramos no universo do conhecimento dos de “dentro” e dos “de fora”, conforme expressões do próprio grupo, onde são estabelecidas as fronteiras sociais. A análise das práticas e representações sociais nos permite identificar como se construíram os elementos presentes na identidade étnica do grupo. A chegada ao território da comunidade, o percurso dos primeiros migrantes do interior do Estado para a capital e a categoria de pertencimento étnico efetua-se como mobilização para o reconhecimento do território da Maloca como lugar identitário. O empenho dos moradores na transmissão, de geração em geração, no reforço de aspectos identitários ao grupo, passa a ser uma construção social permanente conquistada a partir de constantes negociações de forma a ultrapassar conflitos existentes no próprio grupo. Como na
118 estrutura de muitas outras comunidades, as ações de mobilização não são passivamente aceitas, provocando por vezes descontentamentos familiares e pessoais, e por vezes causam tensões na coesão social dos moradores.
Discernir sobre as comunidades remanescentes de quilombo no contexto urbano baseia-se sobretudo nos aspectos peculiares de tais grupos, assim como na dinâmica espacial da cidade em que se encontram geograficamente. Destoante das características e conceitos empregados a comunidades quilombolas rurais, faz sentido uma reflexão acerca do ambiente urbano, que por sua vez reflete noções de complexidade estrutural, pluralidades de identificação cultural, assim como um ininterrupto procedimento de variações nos processos de habitação e conquista de renda. O “pensar” sobre um grupo étnico urbano perpassa por um entendimento da cidade como palco de transformações concernentes às (re)configurações de valores simbólicos do grupo, assim como a ações contra a desigualdade, fortificando as mobilizações sociais e tensões quanto a legitimação de um espaço em comum ao grupo. Sobretudo as políticas que englobam os remanescentes de quilombo garantem o direito de permanência das comunidades negras urbanas em disputas fundiárias no espaço urbano. As ações que asseguram a permanência desses grupos previnem a desconstrução de seus valores e aspectos ligados ao presente processo de estratificação social brasileiro, em que seus integrantes convivem em cenários desiguais no que tange a segregação em que estão inseridas as populações pobres.
Porém, o que engloba o sentido da Maloca como comunidade étnica urbana é também o fator de suas características urbanas a colocarem num processo dinâmico em que o fator tempo prevalece nos seus símbolos e na manutenção do seu espaço. As mobilizações sobre a conquista dos territórios incluem no “entender” da cidade a confirmação da presença dessas populações nas próprias características de ocupação destas. Compreender a Maloca e a sua fronteira com o Bairro Getúlio Vargas – que tem em geral uma população de classe média – valida as características do grupo no seu espaço de comunhão social e numa região próxima ao centro da cidade, conforme o processo de ocupação de Aracaju desde sua criação, ou seja, no centro e próximo ao porto, o comércio e as casas dos antigos proprietários de antigas fazendas-engenhos do interior; e na linha subsequente, onde se encontra a Maloca, uma região de morro, de habitação irregular, onde se concentram até hoje trabalhadores com atividades diversas e de renda inferior.
119 Os atores sociais da comunidade Maloca têm entre outras atividades: a presença e trabalhos em ONG´S, no movimento negro do Estado de Sergipe, partidos políticos e membros de instituições governamentais. Porém, assim como tratamos em alguns pontos do nosso trabalho, o discurso dos moradores emerge sob a materialização da Maloca como patrimônio cultural de valores, onde as redes de socialização e a sua ancestralidade servem como símbolo de resistência negra em Aracaju. A memória coletiva e as ligações que atores sociais mantêm com suas próprias redes sociais, com os espaços da cidade, bem como com a vizinhança do bairro Getúlio Vargas, serão sempre conflitantes no entender da sua etnicidade urbana. Deste modo, existiram conflitos inflexíveis, bem como novas emergências no que diz respeito ao discurso de identidade. A territorialidade se fortaleceu na regulamentação das comunidades quilombolas, determinando a compreensão de um território de sentido comum ao grupo. Mais do que isso, a percepção da vida comunitária no espaço urbano alude as várias formas de experiência identitária, não se traduzindo especificamente a um território estável, mas para uma experimentação de mobilizações étnicas de identidade a partir dos caminhos conquistados pelo grupo, acerca de seu reconhecimento político e territorial.
Interpretando a oralidade dos homens e mulheres da Maloca, sentimos a transformação do espaço da comunidade em um território étnico onde são recuperadas e praticadas ações próprias e específicas de identificação e expressão de sua identidade étnica. Utilizam-se da recriação de um passado comum para delinear os posicionamentos e decisões coletivas, assim como a troca de experiências a partir do convívio entre os moradores. Isso nos permite colocá-los dentro de seu próprio processo histórico como atores principais na dinâmica da formação da identidade étnica local. Vozes como a de Dona Caçula, Dona Creuza, Luiz Bomfim e Rosália, por exemplo, ecoam no subsídio da fase de reconhecimento étnico e territorialização, ao tempo que referir-se como negros desperta a liberdade de ações no que tange algum receio de utilização da sua negritude como identificação grupal. Compreender a tradição oral dos moradores da Maloca nos serviu para a produção de uma linguagem de conhecimento do lugar, onde concepções da valores mútuos, ou ainda uma oralidade secundária (dos de fora), dá sentido à necessidade do reconhecimento como grupo e pela conquista de ações de cunho político em favor da Maloca.
Portadores de uma sabedoria sobre a comunidade, os discursos contribuíram, conforme definiu Zumthor (1993), na alimentação do imaginário dos moradores da Maloca. As imagens que esses atores constroem sobre o grupo nem sempre são imagens
120 que revelam a distinção, as tensões como grupo ou as contradições dos que não se consideram remanescentes de quilombo. Logo, o trabalho nos exigiu um raciocínio inerente as estruturas e configurações socioespaciais das comunidades negras urbanas do Brasil. Creio que os diversos enfoques analíticos e as especulações à cerca das comunidades étnico-urbanas não se esgotem tão facilmente. Partindo disso, lançamos algumas considerações que achamos salutares.
O pensar aspectos de uma identidade étnico-urbana, oriunda de um pertencimento territorial, está densamente influenciado pela ancestralidade negra e carrega, consequentemente, a etnicidade do grupo. A ideia de identidade negra no espaço urbano, por estabelecer-se através de valores com os povos de origem, configura-se em seu território específico, através de redes de solidariedade e símbolos próprios que geram uma diferenciação de território em dimensões diversas de formação estrutural em relação a outras comunidades quilombolas urbanas e, sobretudo, as de cunho étnico-rural. A formação da Maloca, a partir do seu processo de origem, é baseada na absorção do seu passado histórico comum da comunidade e do passado particular de seus atores, que se colocam como marco inicial do processo de identificação territorial. A analogia entre a Maloca frente ao restante dos moradores do Bairro Getúlio Vargas está no comprometimento e contemplação de uma africanidade peculiar. A área remanescente de quilombo Maloca mostra-se como exceção de uma resistência negra na cidade de Aracaju, pois geograficamente não se encontra num processo de expulsão histórica que caracteriza grande parte dos territórios negros urbanos no Brasil. A Maloca, em sua morfologia social, representa uma estratificação da vida urbana e constrói uma estrutura lógica. A manutenção da etnicidade espacial está enraizada na coletividade e ancestralidade e o direito ao reconhecimento pessoal ou político, seja como comunidade, seja como movimento social, depende constantemente da mobilização frente ao poder público.
Os moradores da Maloca, em suas narrativas, em nosso entendimento, mostram- se preparados para combaterem o desafio da autoafirmação como remanescentes de quilombo através do seu processo de identificação territorial, possibilitado a partir da resistência do grupo à construção de um patrimônio cultural e histórico, que contempla a pluralidade da gente brasileira.
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