C. Öneriler
VI. KAYNAKÇA
O jornal revela dado intrigante em sua relação com o leitor. Uma urdidura voltada para a manipulação de sentimentos com o objetivo de garantir público e lucro. Trata-se de inusitado recurso, que contrasta conscientemente com todos os princípios do jornalismo liberal14 e põe em relevo a política editorial do amor/ódio como estratagema de cativação mercadológica e influenciação política.
Uma [...] observação sobre as perspectivas do futuro do projeto deve ser feita. É sobre a relação amor/ódio que o jornal tem cultivado com o seu leitor. Em todos os sentidos, trata-se de uma postura que só pode ser positiva em termos tanto de mercado como de influência política. Um veículo de comunicação que seja apenas benquisto pela sua audiência, acaba se tornando desinteressante, monótono, previsível. A relação amor/ódio é muito mais provocante, recompensadora e condizente com um público sofisticado e crítico. [...] O fundamental é que o leitor não sinta indiferença diante do jornal (SILVA, 2005, p. 143).
O autor assume a atitude de estabelecer uma relação lúdica, um jogo ludibrioso, ao qual o leitor é concitado a ingressar sem perceber. Isso apenas satisfaz às determinações e propósitos do jogador coletivo FOLHA. Estimulado a odiar/amar o jornal, já que as mensagens são elaboradas de maneira a estabelecer essa dubiedade, o leitor passa a compactuar e integra-se inconscientemente ao jogo, edição após edição. A finalidade de informar/opinar torna-se uma trama, um falseamento do que seria o próprio jornal na forma como é entendido cotidianamente.
[...] a maior qualidade [da FOLHA] possivelmente é a agressividade editorial que lhe propicia um papel inegável de liderança. Mas essa liderança [que] resvala para a provocação ao leitor muitas vezes intencional, pode acabar passando dos limites. O leitor deve amar/odiar o jornal. Mas não pode só odiar. A Folha tem arrostado a opinião pública seguidamente. Não há melhores exemplos que a cobertura da morte de Tancredo Neves e da Copa do Mundo de 1986.
14 A cultura das Redações do jornalismo liberal tem a crença de que um jornal deve ser lido por estar
supostamente pari passu com o leitor. Torna-se de alguma maneira seu aliado e instituto de reivindicações e visões de mundo. Seria uma forma de lealdade ao leitor. Comportamento segundo
fair play tácito, que dignifica o jornal e o faz confiável. Esse fair play seria indiciador de que a
publicação deve interessar porque tem conteúdo que atenderá a alguma forma de interesse daquele, jamais como decorrência de iniciativa escusa ou truque de fidelização.
Tudo indica que em nenhum dos dois casos os limites tenham sido ultrapassados. Mas as decisões de cada dia são sempre muito arriscadas. No se pode cair na vala comum do jornalismo previsível, bem-comportado, linear e conciliador. Mas não se pode atirar o jornal na agressividade excessiva contra o leitor. [...] dar ou não a manchete “Médicos esfriam Tancredo”, denunciar ou não as artimanhas dos dirigentes da seleção brasileira para ganhar as simpatias dos juízes dos seus jogos, afrontar ou não os leitores conservadores e católicos na defesa do filme Ave Maria de Godard, molestar ou não os leitores que se consideram progressistas dando a Maluf ou Jânio Quadros o direito de ter seus pontos-de-vista divulgados no jornal. São decisões que diariamente devem ser tomadas e que podem fazer com que, dependendo da palavra escolhida, da foto selecionada, do tom do texto, do destaque dado ao título, se desequilibre a tênue relação amor/ódio que o jornal precisa manter com o leitor para ser ao mesmo tempo respeitado e desafiante15 (SILVA, 2005, p. 144).
A ação lúdica estabelece um par antitético, aplicado como argumento de mercado. Em função disso, o ato histórico de compra/venda do exemplar provoca um descolamento da realidade simbólica nele impressa: estamos em situação em que se faz um jogo; o jornal passa a ser uma impostura, um quebra-cabeça discursivo, vez que centrado em processo que se volta para atender à manipulação do amor/ódio que sua equipe de comando instila sempre que o momento o permite. Quer ser também “respeitado e desafiante”. Em qualquer das duas faces estará sempre em altiplano. Respeitado porque temível; desafiante porque autárquico. E assim prossegue. A aquisição do exemplar, em função disso, seria para ver qual a última provocação, não qual o assunto ou assuntos de real valor informativo. Como Chacrinha, o jornal não vem para explicar; chega para confundir. Orwell explica:
15 A relação amor/ódio se faz a partir de entendimento maniqueístico, que o jornalista deixa claro
existir como prática. Trabalhando o duo opositivo bem/mal, caro ao senso comum, o jornal interfere em momentos dramáticos. Perpetra a ação de suscitar ódio quando a sensibilidade pública está mais agudizada e ofende o leitorado. Isso se deu com Tancredo Neves. Ungido herói pelo senso comum em sua condição de primeiro presidente civil após o longo período ditatorial, foi a seguir levado à condição de mártir, quando hospitalizado. O imaginário social, a partir de tais fatos, o tinha nessa conta, mas a FOLHA veio em contramão, reduzindo-o agressivamente à condição deplorável de
doente terminal; causou choque. Mas era esse o intuito. A seleção brasileira de futebol, patrimônio
imaterial do povo brasileiro, foi desclassificada e a FOLHA fazia críticas a seus dirigentes. O autor usa o verbo “afrontar” católicos conservadores, quando estes se indignavam com o filme do cineasta francês (Je vous salue, Marie), tido como sacrílego. Da mesma forma “molesta” setores progressistas ao abrir espaços a políticos de imagem pública controversa e tidos como representantes do atraso. O trabalho maniqueísta, fica bem demonstrado, é parte do processo de formulação simbólica; é intencional e direcionado. E, tanto quanto nos jornais populares, é utilizado o sensacionalismo. Todavia, a FOLHA se apresenta como jornal equilibrado, dotado de serenidade editorial: assim, ao colocar-se em oposto a essa pregação que seu marketing exalta, agride leitores. Em processo que reconverte seu pretenso olhar de serenidade sobre a realidade do mundo, admite – para quem puder perceber –, que em suas páginas não há equilíbrio, mas apenas busca de mercado.
Essas contradições não são acidentais, nem resultam de hipocrisia ordinária: são exercícios conscientes [...] Pois é só reconciliando contradições que se pode reter indefinidamente o poder. De nenhuma maneira seria possível quebrar o antigo ciclo. Se é preciso impedir para sempre a igualdade humana – se, como a chamamos a [classe] Alta deve conservar permanentemente sua posição – então a condição mental deve ser a de insânia controlada (ORWELL, 1975, p. 202).
O chamamento ao jogo amor/ódio é a imersão na insânia controlada. As palavrasde Silva dão bem a dimensão do trabalho, que viola de forma programada valores e crenças, conjunturas e circunstâncias socialmente relevantes ou momentaneamente relevadas. É tudo parte de esquema de vulto, atitude de grande política: assegurar que a classe Alta conserve a sua posição. Como veículo conservador o diário hegemônico assegura que levará adiante conjunto simbólico que favorece a manutenção do estado de coisas dominante. O amor/ódio integra processo de fidelização que coloca o jornal, quando em sua faceta “amada”, como representante social lícito.
As massas [mesmo o público A/B da FOLHA] são manipuladas por força de seus próprios interesses. Por isso, os fenômenos manipulativos falam sempre a língua de interesses reais, ainda que como língua estrangeira de interesses alienados e desfigurados, portanto, irreconhecíveis [...] (HAUG, 1997, p. 14).
A Folha é hoje o nosso jornal mais lido e menos amado. Completa-se assim a hegemonia desse diário, que passou a substituir o Estadão16
também no campo das relações afetivas entre a imprensa e seus leitores. Pois não era o Estadão nos anos 50 o jornal mais lido, e o mais odiado? (KUCINSKI, 1989).
Em 1984 o Partido também se utilizava do ódio como meio de cativação das massas. Exibia midiaticamente a figura de Goldstein17 como catalisador da fúria popular, capitalizando antiteticamente esse ódio a favor do Grande Irmão e do próprio Partido como seu representante (ORWELL, 1975). Do mesmo modo, uma espécie de “efeito-Goldstein” é utilizado pelo jornal: notícia ou noticiário pontuais podem ser odiados pelo leitor que, todavia, continuará a “amar” a FOLHA como um
16 Referência ao Estado de S. Paulo.
todo na seqüência do processo. Usa-se a notícia-goldstein como risco calculado para manter público fidelizado.
A utilização de estratagemas de manipulação de assuntos e temas como forma de provocar irritação social para atrair e manter leitores demonstra como a empresa atua: como usina simbólica, equiparando-se ao noticiário sensacionalista – que choca, mas vende. Tais atitudes reafirmam condição de autoridade e estabelecem relação com o leitorado, que não tem como apurar os fatos veiculados, reage negativamente, mas volta ao ato de compra. A FOLHA passa a ser detentora do poder de transformar em suas páginas a realidade em realidade portátil, tratada como algo maleável e que lhe pertence privadamente. Algo usado como insumo social para o cultivo da relação amor/ódio. Sendo propriedade privada, portanto mercadoria, o fato-notícia passa a ser um fato-FOLHA. E o jornal, arrogando-se o direito de falar em nome dos leitores, utiliza essa situação presuntiva para agir contra os valores desse mesmo leitorado, sobre qual reafirma alguma forma de direção.