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KAYGI, KARAR VERME VE HESAPLAMALI MODELLER

KARAR VERME ÇALIŞMALARI VE KAYGI 2 KARAR VERME

2.4. KAYGI, KARAR VERME VE HESAPLAMALI MODELLER

Descobrir que estava grávida afetou de diferentes maneiras a vida das mulheres entrevistadas. Para algumas, esse evento ocorreu em um momento de dificuldades pessoais, provocou adiamento ou cancelamento de outros planos de vida, chegando a repercutir nas condições físicas e emocionais da gravidez. Para outras, no entanto, a gravidez foi motivo de comemoração e alegria, de desejo realizado, mesmo em condição financeira adversa. O momento da gravidez na vida das mulheres também influenciou na busca pelos cuidados pré- natais, repercutindo no tempo de iniciar as consultas, no acompanhamento e na realização dos exames necessários.

Milena havia conseguido um emprego, recentemente, depois de algum tempo

desempregada e passando por dificuldades financeiras. No entanto, fora demitida ao comunicar a gravidez a sua chefa. Seu marido também se encontrava desempregado. As dificuldades que envolveram o momento da gravidez fizeram com que Milena pensasse em fazer um aborto. Ela conta que não desejava e não se sentia preparada para engravidar naquele momento.

Quando eu engravidei eu tive um susto, né? Em nenhum momento na minha cabeça eu pensava mais em ter filho. Eu já com um de 15 e uma de oito, já. Aí eu nunca imaginava ter filho mais. Assim... Eu descobri que eu estava grávida de M*** já ia fazer quatro meses. Na minha cabeça, assim, se eu tivesse descoberto antes – hoje em dia não me arrependo do meu filho – mas eu teria tomado alguma coisa pra poder abortar. [MILENA]

Nem preparada fisicamente, nem psicologicamente, nem financeiramente. De maneira nenhuma eu imaginava ter filho. Inclusive... Foi como eu acho que eu falei um pouquinho a você [no primeiro encontro, na maternidade], eu estava desempregada, não imaginava que estava grávida, quando eu tinha acabado de conseguir um emprego, eu descubro que estou grávida. [...] Aí foi um susto, foi um susto... Aí foi quando eu cheguei na empresa, falei que estava grávida... No outro dia ela me demitiu. E, assim, financeiramente, a gente está passando por uma situação muito difícil! [MILENA]

Lidar com limitações financeiras e problemas no relacionamento com o marido implicou numa gravidez com tensões e dificuldades para Milena, repercutindo no seu bem- estar físico e emocional e provocando idas recorrentes aos serviços de urgência obstétrica.

Então, assim, também eu não tenho um relacionamento muito bom não, entendeu [fala baixando a voz e fazendo um gesto apontando para o seu marido, que se encontrava em outro cômodo da casa]. Então, em nenhum momento eu pensava em ter filho, não pensava. [...] Aí, assim, foi uma gravidez super complicada. Assim, psicologicamente... Eu tive vários problemas: a gente brigava, eu me preocupava com as dívidas, com as contas, as coisas pra dentro de casa. [...] Então, assim, era muita coisa, muita coisa. Eu vivia indo pra maternidade, com sangramento. Eu já estava conhecida nas maternidades... [MILENA]

A fala de Milena expõe também a limitação do olhar dos profissionais dos serviços de urgência obstétrica sobre tais intercorrências, resultando na adoção de conduta técnica restrita aos sinais e sintomas clínicos, sem escuta para um cuidado mais integral do seu estado de saúde.

[...] Aí a médica passava o remédio. Assim que eu descobri, passei os quatro meses tomando cefa... como é? Cefalexina, né? [MILENA]

Também para Glória, o momento da gravidez não foi oportuno. Mãe de outros três filhos e viúva do primeiro marido, sustentando a família com menos de um salário mínimo,

Glória diz que não queria engravidar.

Mas, eu ainda não acreditava que era uma gravidez! Porque eu com os três meninos, né? Eu sou viúva e... Com esse pai dele, né, desse daqui... Aconteceu... E no começo era uma coisa que eu não queria. Não aceitava. [GLÓRIA]

Sofia tinha 19 anos e ainda não tinha filhos, mas engravidar naquele momento

implicou em adiar seus planos em função das demandas que a gravidez requeria.

Eu não gostei muito não [risos]. [...] Porque, sei lá... [fica alguns segundos em silêncio]. Foi um aperreio! Porque, antes, a gente ia se casar, né? Aí, depois que eu fiquei grávida, a gente teve que adiar. Assim, porque tinha que fazer exames... [SOFIA]

Ter outros filhos e estar em situação financeira ruim, no entanto, não foram determinantes para que Bruna não desejasse engravidar. Tinha uma filha do seu primeiro casamento, mas com seu segundo marido, casada há seis anos, ainda não tinha e ambos queriam ter filhos. Recentemente incluídos em um programa público de reprodução humana

assistida, Bruna e seu esposo descobriram a gravidez antes de iniciar o tratamento, o que foi motivo de alegria para ambos. Bruna relata uma gravidez tranquila.

A minha gravidez, assim, foi sem esperar. Porque meu marido fez exame, porque ele não engravidava, né? Aí a gente começou a ir pra Januário [Maternidade Escola Januário Cicco], que tinha aquele projeto lá... [...] Aí ele fez exame de novo lá. Aí na semana de amostrar, de apresentar ao médico lá, eu comecei um enjoo, um enjoo que eu comecei a enjoar ele. [...] Aí eu disse assim: ‘eu tô grávida!’ Aí ele disse: ‘que história é essa!’ Ele não acreditava de jeito nenhum. Aí eu comecei a enjoar. E quando eu comecei a enjoar ele mesmo, aí ele foi na farmácia e comprou o teste da farmácia. [...] e disse assim: ‘amor, você vai fazer esse exame!’ Quando foi no outro dia logo cedo eu fiz, pronto, deu positivo. Aí eu não acreditei! [...] Aí eu fiquei assim, parecia que estava sonhando! Que aquilo não era real, não, o que estava acontecendo! Aí a minha gravidez foi tranquila, a gravidez todinha. [BRUNA]

Situação semelhante foi relatada por Patrícia. Casada, com 29 anos e sem filhos ela conta que estava há dois anos sem usar contraceptivos e não conseguia engravidar. Tinham decidido investigar os motivos quando descobriu que estava grávida. Na sua narrativa,

Patrícia fala de alguns acontecimentos que parecem ter marcado o momento da descoberta de

sua gravidez: a morte da avó materna, de quem gostava muito e que sempre apoiou seu núcleo familiar, a mudança para um emprego melhor e o emagrecimento do seu marido. A gravidez foi motivo de felicidade para os dois.

Assim, minha avó morreu... Eu vinha tentando engravidar, eu e meu marido, a gente tentando. [...] Aí a gente tava até planejando fazer uns testes pra ver se era eu ou se era ele que tava errado, sabe? [...] Aí depois minha avó morreu... Eu cuidava de um menino... Eu ganhava pouco. Eu sempre queria arrumar um emprego que... Aí minha avó morreu... Aí com uns três dias, por aí, eu comecei a trabalhar [em um bufê de recreações e recepções, como monitora]. [...] Aí eu tinha até desistido de engravidar. Eu não tava nem pensando nisso mais. Aí quando foi uns dias depois eu tava sentindo uns enjoo, os peito crescendo... [...] Aí eu pensava que era alguma coisa! [...] Fui com meu marido fazer a transvaginal, aí eu descobri que tava grávida. [...] Vixe Maria! Foi uma felicidade! Fora isso, o meu marido ele é gordo, sabe? Eu só engravidei porque ele emagreceu! [...] Porque eu acho que foi. Eu senti. Eu acho que foi isso, entendeu? [...] Porque passa também na televisão, estavam falando. Dizendo que homem muito gordo, não tem esperma muito... Entendeu? [PATRÍCIA]

Mesmo com quatro filhos, Laíze disse que deixou de usar métodos contraceptivos porque queria engravidar. Queria fazer ligadura de trompas, mas desejava também ter mais

um filho. Sua família vive com um salário mínimo e meio, advindo do trabalho do marido, mas isso parece não ter sido empecilho para concretizar o desejo de ser mãe mais vez.

Eu tava evitando, mas é porque eu quis engravidar. Que era pra poder fazer a ligação. Ai eu disse: ‘vai que faço a ligação só com quatro [filhos] eu vou fazer, completar os cinco.’ [...] Mas, como foi um parto normal, não teve como. [LAÍZE]

Na narrativa das mulheres que não desejavam engravidar há em comum o fato de suas gravidezes resultarem de falhas no método contraceptivo, da falta de conhecimento sobre o uso correto do método adotado ou sobre o funcionamento do próprio corpo.

Aí pagava pra aplicar. Que ela é daquelas que já vêm toda completinha... Que é a ‘Messegina’ [Mesigyna]. Que eu engravidei tomando ela. De M*** [gravidez atual]. [...] Foi! Engravidei tomando ela. Eu tava tomando a injeção, bem correto mesmo, tomando todo dia 15. [...] Engravidei! Que eu não quero nem saber dessa injeção, mais! [MILENA]

Quando eu engravidei dele, na verdade eu nem sabia que estava grávida. Porque eu estava me prevenindo, usando preservativo. Aí, só que, se aconteceu de estourar, né? [GLÓRIA]

A minha médica, no caso, era nesses posto normal. [...] Procurei antes, quando tinha relação. Ela disse que, aí eu não entendo isso, que ela disse que eu tinha anemia, e se a minha menstruação não viesse seria por causa da anemia. E olhe o que nasceu! [aponta para o berço onde estava o filho]. [...] Eu ia começar a tomar. A injeção. [...] Só que, quando eu fui tomar... [ri, e aponta mais uma vez para o filho] [...] Ele falou que era pra mim tomar a injeção. Aí passou três meses e eu não tomei... [...] É porque, olhe, eu tinha relação já fazia um ano e eu nunca engravidei. [...] Porque, assim, minha tia ela não tem filhos. Dizem que ela é, e meu tio também, que não tem... [...] Aí eu tinha esse negócio na minha cabeça. Achava que não engravidava não. [SOFIA]

Desejar ou não engravidar também interferiu na busca das mulheres pelo acompanhamento pré-natal. Nas narrativas de Milena e Glória, que não desejavam ter filhos naquele momento por já ter outros filhos e estarem num segundo relacionamento conjugal, percebe-se que o início das consultas foi retardado e que houve dificuldades para a realização de procedimentos de rotina do pré-natal.

Assim... Eu descobri que eu estava grávida de M*** já ia fazer quatro meses. [...] Fiz [pré-natal]. Mas eu fiz o quê? Só fiz quatro consultas, eu acho. Não! Três consultas! [...] Na semana que eu ia pra quarta consulta, no caso, que era a de oito meses, foi quando eu tive ele. [MILENA]

[...] E no começo era uma coisa que eu não queria. Não aceitava. Pra mim, mesmo, exatamente, foi isso: eu já mãe de três... Entendeu? A ficha não tinha caído. Eu não aceitava! Então eu vim fazer o pré-natal depois de seis meses. [...] E... Passaram os exames. Só que eu que não fiz! [...] Aí, na maternidade, foi feito tudo na hora. [...] Porque, primeiro, que eu estava trabalhando nesse tempo, e, segundo, porque, como eu disse, eu não aceitava. E muita coisa foi passando... [GLÓRIA]

Fernanda e Sofia, por outro lado, que estavam no primeiro relacionamento e ainda

não tinham filhos, mesmo não desejando tê-los naquele momento iniciaram o pré-natal com três meses de gestação e procuraram realizar os procedimentos necessários. Do mesmo modo, as mulheres que desejavam ter filhos, como é o caso de Bruna, Patrícia e Laíze, iniciaram o acompanhamento precocemente e realizaram os procedimentos necessários ao pré-natal, apesar de relatarem problemas quanto ao acesso e à resolubilidade dos serviços.

Eu comecei o pré-natal com três meses. Foi aqui no posto mesmo, de saúde. [...] Aí fiz até os oito [meses]. Aí com nove eu parei, porque eu tava já sentindo as contrações pra ir pra maternidade. [...] Eu fiz todos os exames, tava tudo bem, tudo normal. [FERNANDA]

Eu tive... Acho que eu tive umas seis. Umas seis consultas. [BRUNA] [...] Nas minhas contas eu tava de três meses. [LAÍZE]

As falas das mulheres sobre suas experiências mostram que a noção glamourosa da gravidez como um acontecimento, necessariamente, especial e sublime na vida da mulher exige ser rediscutida na atenção à saúde, quando se dá o acompanhamento no período gravídico-puerperal. Uma gravidez não desejada pode ser um transtorno para a mulher, interferir na construção do vínculo entre ela e seu filho e repercutir no ambiente familiar como

um todo. Por outro lado, se a mulher decide não levar adiante a gestação, ‘optando’ pelo

aborto, transtornos de outra ordem vão estar presentes. Ela terá que recorrer a métodos abortivos inseguros, enfrentar discriminação social e ultrapassar barreiras de acesso aos serviços de saúde para realizar os procedimentos assistenciais necessários, dificultados pela própria natureza da ilegalidade da provocação de ato abortivo.

Milena conta que, caso não tivesse descoberto a gravidez quando já estava com quatro meses de gestação, “teria tomado alguma coisa pra poder abortar”. Sabemos que é o

que fazem muitas mulheres que engravidam sem desejar. O aborto está entre as principais causas de mortalidade materna no Brasil e o aborto provocado é responsável pela maioria desses óbitos, permanecendo um grave problema de saúde pública, a despeito de estar na

agenda de organismos internacionais e dos governos brasileiros há algumas décadas (DOMINGOS; MERIGHI, 2010).

O Brasil é líder mundial em abortos provocados, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mas não se tem uma dimensão mais precisa do problema devido aos baixos registros, em virtude de ser considerada uma prática ilegal (COSTA, 1999). A criminalização do aborto leva as mulheres mais pobres a recorrerem a práticas inseguras, com profissionais despreparados. Ao passo que mulheres com maior poder aquisitivo lançam mão de clínicas especializadas e atenção qualificada (DOMINGOS; MERIGHI, 2010), refletindo as desigualdades sociais ainda existentes no país.

A prática do abortamento inseguro, no entanto, é favorecida pelo conhecimento limitado das mulheres com relação aos métodos contraceptivos e a ausência de programas nacionais de atenção à contracepção, tendo como consequência o uso inadequado do método, abandono e falhas (RAMOS; FERREIRA; SOUZA, 2010), que também favorecem a gravidez não planejada ou indesejada.

Estudos de abrangência nacional mostram que, aproximadamente, metade dos nascimentos ocorridos nos últimos anos no Brasil não foi planejada e boa parte das gravidezes não foi desejada (BRASIL, 2009a; VIELLAS et al., 2014).

Os serviços de atenção primária, em sua maioria, não conseguem estruturar as ações de planejamento reprodutivo de modo que não haja descontinuidade no seu funcionamento e o organizam, muitas vezes, impondo uma série de normas e critérios que se tornam barreiras ao atendimento (MOURA; SILVA; GALVÃO, 2007). Limitar o planejamento reprodutivo à distribuição de contraceptivos tem se mostrado insuficiente para dar segurança à mulher e garantir que a gravidez ocorra em um momento oportuno de sua vida.

As gravidezes indesejadas de Milena e de Glória repercutiram no cuidado pré-natal. Ambas relataram ter iniciado tardiamente o acompanhamento e Glória não realizou os exames necessários. O estudo Nascer no Brasil (VIELLAS et al., 2014) identificou que mulheres que não queriam engravidar, que ficaram insatisfeitas com a gestação atual e que tentaram interromper a gravidez apresentaram coberturas mais baixas de assistência pré-natal e iniciaram tardiamente o acompanhamento. Entre as principais razões para o início tardio do pré-natal, as mulheres da pesquisa Nascer no Brasil mencionaram problemas pessoais, como também foi identificado no relato das experiências das mulheres entrevistadas do nosso estudo.

O início tardio do acompanhamento pré-natal e a não realização, ou realização tardia, de determinados exames podem afetar de maneira importante a saúde de mulheres e crianças, interferindo na classificação do risco gestacional, que necessita de um acompanhamento diferenciado, e na identificação oportuna do risco de infecções por doenças que podem ser tratadas durante a gestação. O acompanhamento pré-natal, com início precoce e continuidade, é reconhecidamente relevante para a saúde da gestante e do bebê (FIGUEIREDO; ROSSONI, 2008), com impacto também sobre a mortalidade de ambos.

As diferentes vivências apresentadas em nosso estudo com relação ao momento da gestação reforçam a constatação da complexidade que envolve as razões que levam as mulheres a realizar ou não o acompanhamento pré-natal, ou a iniciar precocemente as consultas e realizar os procedimentos requeridos para esse período, não havendo apenas uma causa entre as usuárias entrevistadas. Além do mais, cada gravidez está marcada pelo contexto existencial, familiar e social das mulheres. Dessa forma, os serviços e, especialmente, os profissionais de saúde, são convocados a realizar uma escuta sensível às mulheres que procuram os serviços para realização do planejamento reprodutivo, de forma singularizada, e disponibilizar meios para que a mulher engravide quando assim o desejar.

Benzer Belgeler