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Pelas ruas esburacadas de Modelo II circulam vinte bicicletas. Quatro são os moradores que têm carro. Mesmo assim, os veículos, velhos, vivem parados, quebrados. Vê- los circular pelo assentamento ou saindo para comunidades próximas é uma raridade, dado o seu estado imprestável e o custo que representa para seus proprietários, tanto de manutenção como de combustível. O fato da distância entre a agrovila e a rodovia ser de pouco mais de um quilômetro é um atenuante para quem precisa ir à João Câmara – o que revela o acerto da escolha do grupo em construir a agrovila naquele local53 - mas a problemática quanto a transporte se revela especialmente quando os sujeitos refletem sobre a assistência em termos de saúde. Há o temor de que não se disponha de transporte para casos eventuais de uma emergência médica, dada a fragilidade do serviço de saúde prestado à comunidade.

Maria Rosineide da Silva, ou Rosa, como é chamada por todos da agrovila Santa Luzia, é a agente comunitária de saúde do lugar. Estudou até a sexta série, quando teve que sair de São Tomé, onde residia, recém-casada com “Pitiu” (ou Francisco de Assis da Silva), irmão de Dona Rita Francisca da Silva, presidente da Associação de Mulheres Girassol.

Por vezes, Rosa acompanhou-me em minhas caminhadas de reconhecimento do lugar, de facilitação para uma primeira abordagem a algum morador, ou simplesmente, nossos trajetos se encontraram pelas poucas ruas do lugar.

Solitariamente, Rosa desenvolve seu trabalho de orientação e controle sanitário, dando atenção especial ao acompanhamento das gestantes e dos recém-nascidos. Em nossas primeiras conversas informais, reclamava que há mais de cinco anos não aparecia qualquer profissional da saúde pública para fazer orientações preventivas, palestras e outras atividades de atendimento à comunidade.54 Por sorte, segundo ela, não se tem na agrovila casos de doenças graves que demandem um posto de saúde no lugar, apesar de muitos moradores verem na existência de uma unidade de saúde no local a certeza da proteção frente a quaisquer problemas de saúde.

53 Quando da discussão sobre a construção da agrovila, uma parte do grupo que ocupou a fazenda optou em se

instalar no espaço onde hoje está Modelo II, pela proximidade da rodovia. Uma outra parte da comunidade resolveu construir outra agrovila numa região mais distante da rodovia, mas mais perto dos lotes de terra, sendo identificada como Modelo I. Segundo os depoimentos colhidos essa separação em duas agrovilas não refletiu uma discórdia interna, mas apenas conveniências quanto à localização das agrovilas.

54 Somente após 2004, por ocasião da mudança de governante do município de João Câmara, é que a

Pelas informações sistematizadas no Quadro apresentado anteriormente, neste capítulo, percebe-se que a comunidade teme o desamparo a que está submetida pelo sistema de saúde pública municipal e deseja ter um posto de saúde no assentamento. Tal desejo se expressa pelas 14 indicações para a palavra “posto de saúde” e é reforçado pelas 05 indicações em torno da palavra “ambulância”. Mesmo a única indicação referente à “transporte” foi feita à luz da preocupação de que no assentamento não se dispunha de um veículo que pudesse auxiliar o transporte de vítimas de alguma urgência médica.

Como já comentei anteriormente, trata-se da manifestação de um sentimento de prevenção, muito mais do que resultado de situações vivenciadas pela comunidade onde a carência de tal ou qual equipamento/serviço público de saúde tivesse concorrido para o agravamento do estado de saúde de alguém ou a perda de alguma vida. As pessoas projetam e representam no Posto de Saúde a instância que lhes garante e assegura o não adoecer. Como me informou Rosa – e pude constatar nas visitas que realizei – os tipos de adoecimento entre os assentados não carecem de um posto de saúde no lugar. Ainda assim, somente a partir de 2005 é que a comunidade veio conhecer algo parecido com um atendimento em termos de saúde preventiva (com algumas visitas periódicas de profissionais ou atividades de esclarecimento acerca de possíveis enfermidades) para além do trabalho desenvolvido pela agente comunitária de saúde.

Para a prática de esportes, os moradores da Agrovila Santa Luzia se valem de um campo de futebol desenhado na entrada do assentamento e de um espaço (de dimensões menores) contíguo ao Salão Comunitário, defronte à escola. O time de futebol masculino do lugar é coordenado pelo Seo Antônio Rosa, Vice-presidente da Associação Comunitária do Assentamento Agrovila Santa Luzia e os jogos acontecem, normalmente, aos domingos à tarde, quando o time local recebe equipes de outras comunidades vizinhas ou quando viaja até elas.

O trabalho no lote ou em outras atividades fora do assentamento, durante o dia, esvazia a presença adulta (especialmente a masculina) no lugar. Deixa-o com um aspecto de semideserto na medida em que as mulheres ficam realizando atividades domésticas dentro de suas casas, enquanto algumas crianças e jovens ou estão na escola (seja a do assentamento, seja a que fica na comunidade vizinha de Queimadas) ou estão com os pais, ajudando-os com o trabalho na roça.

À noite, a televisão, presente em 38 residências, constitui-se, na prática, na principal forma de “passar o tempo”, de descanso e informação. Ao mesmo tempo, ela – a televisão –

assume o papel de uma das vilãs responsáveis pelas constantes desistências de parte significativa dos jovens e adultos do lugar das aulas nos projetos de alfabetização e Educação de Jovens e Adultos, de alfabetização, segundo as professoras que assumem a responsabilidade de coordenar as atividades dos projetos no assentamento.

Na verdade, a televisão é o único equipamento de lazer, desaguadouro da dimensão lúdica dos indivíduos, alívio para o cansaço físico que os consome após suas caminhadas de quase uma légua de casa para o lote, onde passam o dia inteiro trabalhando. Ao cansaço físico unem-se os problemas oftalmológicos (que se aguçam dentro de uma sala de aula com iluminação precária); uma baixa motivação para o aprendizado, cifrada pela referência à velha alegoria de que “papagaio velho que não aprende a falar”; a falta de perspectiva de um futuro de mobilidade social decorrente da freqüência na escola; e um cotidiano onde praticamente inexistem os chamados eventos de letramento, atividades que integram um conjunto diversificado de práticas sociais em que a escrita atua como sistema simbólico e tecnológico principal para o processo de intercomunicação. (KLEIMAN, 2000 e 2003)

O espaço do lazer cotidiano ocupado quase que exclusivamente pela televisão revela que a agrovila Santa Luzia não é um lugar festivo. Não ocorrem muitas festas onde a comunidade se congratule ou comemore suas memórias ou sua cultura. Não vivenciei ou tomei conhecimento de eventos festivos envolvendo a maioria da comunidade, fossem eles religiosos ou pagãos. O período em que freqüentei mais constantemente o lugar coincidia com os dez anos da ocupação (agosto de 2004) e os dez anos da imissão de posse (julho de 2005) e não se realizou nenhuma celebração em memória desses eventos presumivelmente importantes para a vida daquelas pessoas.

E os poucos eventos festivos que pude registrar ou se relacionaram a algumas datas comemorativas como dia dos pais, das mães ou das crianças, organizadas pela Associação das Mulheres Girassol, ou celebrações religiosas nas casas de alguns assentados, coordenadas pela Ir. Hildegardes Correia. Mesmo no caso dessas celebrações religiosas, não se pode falar deles como eventos massivos, que reúnam a maioria dos assentados, apesar da presença constante da referida missionária, que é quem exerce a função de evangelização no lugar, articulando grupos de catecismo para crianças, grupo de jovens e projetos com o aval da Igreja Católica.

Essa abstenção de significativa parte dos membros da comunidade em termos de participação em atividades de cunho religioso se revelou também em entrevistas e na aplicação do questionário que é base do Quadro apresentada anteriormente. Na sistematização

de dados a necessidade de se ter uma Igreja na comunidade não se manifestou de maneira enfática. Até pelo contrário, a única citação aparece em segundo lugar na ordem de evocação.

A tranqüila ausência de festividades – especialmente as de caráter religioso – se revela como uma das expressões da itinerância que atravessa a trajetória dos assentados, esgarçando sociabilidades e territorialidades de um mundo rural ancestral e incorporando elementos comportamentais típicos da fragmentação da vida urbana. Um fenômeno em que o sujeito condensa num mesmo momento dois mundos aparentemente distintos (o moderno e o tradicional, o rural e o urbano), temporalidades aparentemente desconexas (o passado e o presente), plasmado sobre um intenso processo de desenraizamento.

Trata-se de uma realidade também captada por Silva (2003), que analisando a constituição do assentamento Bela Vista, em Araraquara-SP, registra o desaparecimento das festas de cunho religioso cuja presença sobrevive somente nas lembranças dos mais velhos.

Nesse estudo, a autora nota que no assentamento se gesta uma sociabilidade totalmente diferente da sociabilidade existente no mundo rural de antes, pautada nas relações pessoais de parentesco, compadrio e vizinhança, assentada em valores tradicionais e em festas ligadas à produção agrícola, mutirão e outros eventos. As diferenças que emergem são a traduzem a passagem e diálogo realizado por esses sujeitos nos diferentes espaços sociais, desnudando antigas territorialidades, assumindo outras novas, perdendo antigas e incorporando novas referências culturais.

Trata-se muito mais de um hibridismo, de uma bricolagem, em que se misturam diferentes universos culturais, diferentes formas de comportamento social. No entanto, não se trata de uma anomalia e sim de uma realidade que reflete as andanças desses caminhantes por diferentes espaços sociais (SILVA, 2003, p. 133).

Sobre esse silêncio da religiosidade dos assentados, Adriana (cujo nome de batismo é Rita de Cássia da Silva Nunes), uma jovem assentada que veio morar no assentamento logo após os pais terem conseguido a imissão de posse, é taxativa: “o povo daqui nem quer saber de reza nem de escola, só de televisão...”

Contudo, não é possível entender essa “ausência de religiosidade” culpabilizando a televisão55 ou uma abstrata “falta de interesse” como faz Adriana. Sua solução talvez resida na sua condição de ex-educadora de projetos de Educação de Jovens e Adultos e, portanto, trazer o olhar de quem se coloca mais para o lado de dentro da mesa que a separa dos alunos. Também incide nessa sua opinião o fato de ser filha de Dona Rita, presidente da Associação de Mulheres Girassol e, portanto, estar muito ligada (até afetivamente) ao trabalho desenvolvido pela mãe, pela Irmã Hildegardes e pela Associação de Mulheres. Seus olhos me mostram um problema e uma resposta. Entre os dois, prefiro ficar com o problema, pois sua resposta não me satisfaz.

Na verdade, ela me oferece pistas de um outro elemento presente nessa relação dos assentados com a religiosidade que expressa, também, o complexo processo de fratura interna na comunidade que opõe, de um lado, o trabalho desenvolvido pela Ir. Hildegardis e pela Associação de Mulheres Girassol; e, de outro lado, um grupo de assentados que dirigem a Associação Comunitária da Agrovila Santa Luzia.

Entender essa fratura, seus conteúdos mais pronunciados, sua natureza e sua origem não é objetivo desse trabalho, mas tecer sua configuração geral é fundamental para que se entenda quais atores polarizam as territorialidades e os projetos de territorialização em disputa dentro do assentamento, e como essas disputas afetam a construção de um consenso mínimo em torno de projetos de futuro a serem encampados pela comunidade.