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I. BÖLÜM

1. Kavram

Muitos clérigos goianos que viveram em estado de concubinato foram exímios sacerdotes e cooperadores dos bispos que governaram esta diocese entre o período de 1824 a 18.6. Contudo, o exercício do sacerdócio e o conhecimento de suas regras e normativos não implicou necessariamente na observância total das regras instituídas pelo Concílio de Trento, regras estas ratificadas pelas primeiras constituições eclesiásticas brasileiras. Ademais, é visível nos testamentos deixados por eclesiásticos e por alguns de seus descendentes, a dificuldade que teve o clero de se manter obediente a certas exigências canônicas, quanto ao quesito castidade. Certo é que nem todos os padres foram fiéis ao celibato exigido pela Igreja, pois a grande maioria, ou tinha família constituída ou uma numerosa prole convivendo muito próximo de seu progenitor.

Os testamentos de padres trazem à tona, além da oficialização jurídica de seus filhos, a revelação da vida privada do indivíduo, revelada em documentos de cunho jurídico e eclesiástico. Revelam ainda uma profunda imbricação entre vida sacerdotal e constituição familiar. Este modo de vida familiar era aceito ou reconhecido pela sociedade em que vivia o sacerdote. “Como se vê, o concubinato assume característica de instituição pacificamente aceita, a que todos, grandes e pequenos, se dão sem constrangimento algum” (CARRATO, 1.63, p. 157). Os testamentos apenas atestaram tardia e legalmente esta forma de vivência

familiar presente na sociedade goiana. A sociedade goiana conhecia e convivia naturalmente com famílias compostas por padres. O Jornal Provinsia de noyaz, datado nove de julho de 1870, em sua seção de óbitos, repassou juntamente com uma notícia fúnebre a informação da existência de uma filha de um clérigo goiano sob a titularidade de filha legítima.

FALLECERÃO – durante a semana finda: - o major reformado Joaquim Manuel de Oliveira, quatro ou cinco dias depois de haver-se casado; e D. Maria Xavier Serradourada, filha legítima do Revd. Vigário David Francisco Povoa, e mulher do Capitão Joaquim Martins Xavier Serradourada.

Recebão os parentes de ambos os finados as manifestações de nossos pesos. (PROVINCIA DE GOYAZ, 1870, p. 2)

Tal notícia ocupou-se em fornecer a informação dos falecimentos do Senhor Joaquim e da Senhora Maria Xavier e, ao mesmo tempo, em dar os pêsames aos familiares destes moribundos. Ambos, aparentemente, eram pessoas conhecidas socialmente. Ao que parece, pelo sobrenome, esta mulher tinha algum grau de parentesco, próximo ou não, com o Padre José Iria Xavier Serradourada, que assumiu via testamento-cerrado, ser pai de dois filhos (18..). O jornal não se furtou em noticiar que Maria Xavier Serradourada era filha de um clérigo. Como meio de divulgação de notícias, este periódico trouxe à tona de modo explícito o rompimento do celibato pelo Reverendo Vigário David Francisco Povoa. Como várias pessoas, famílias e grupos sociais tiveram acesso a este jornal, pode-se supor que parte do corpo social e eclesial da época tinha conhecimento desta situação. Ademais, seja pela brevidade da notícia, aparentemente este tipo de situação ou de comportamento não parecia causar nenhuma estranheza nos habitantes de Goiás (ALMEIDA, [?], 38-3.; 1.35), incluindo neste aspecto inúmeros clérigos que assumiram serem esposos, padres e pais.

Eni de Mesquita Samara, ao trabalhar a relação familiar paulistana no século XIX, sob o prisma das relações de poder que envolveram mulheres, afirmou que a conduta do clero paulista não representava nenhum constrangimento a pessoa ou ao cargo que ocupava o sacerdote, dada a freqüência de relações concubinárias e da prole oriunda desta tipicidade de relacionamento. Afirma ainda esta historiadora, que os testamentos indicam “a existência reconhecida de filhos naturais, frutos destas uniões”, sendo este ato legal freqüentemente utilizado pelos padres que requeriam a legitimação de seus filhos (1.8., p. 128). Os testamentos descreveram ainda todo um roteiro que deveria ser obedecido pelo testamenteiro, que assumiria post-mortem, a responsabilidade sobre o ritual fúnebre, a destinação dos bens do moribundo, além de vários outros encargos expressos como vontade última do falecido.

Para tanto, era estabelecido um prazo determinado para que todas as disposições registradas nos testamentos fossem cumpridas a regra pelo testamenteiro: “Declaro que deixo a meu testamenteiro o prazo de seis annos para prestar contas desta minha testamenteria” (CARDOSO, 1831, p. .5).

Durante o governo episcopal de Dom Francisco Ferreira de Azevedo, primeiro bispo de Goiás, entre os anos de 1824 a 1854, vários padres realizaram através da confecção de testamentos a legitimação de uma prole numerosa. Alguns destes documentos descreveram, além do reconhecimento dos filhos, uma gama de outros dados que podem possibilitar a montagem histórica da família sacrílega em Goiás. O Padre João Pereira Cardoso, aos dias vinte de julho de 1831, legitimou cinco filhos, sem, no entanto, nomear o nome das mulheres genitoras desta prole.

Achandome atacado de molestia grave, porem em meu perfeito juizo e senhor das minhas faculdades mentaes, intento fazer este meu testamento da maneira seguinte. Declaro que sou Cidadão Brasileiro, Natural da Freguesia de Nossa Senhora do Pillar deste Bispado, filho legitimo de Bernardo Pereira Cardoso, e de sua Mulher Maria de Campos de Almeida, já falecidos. Declaro que nunca fui cazado e que neste estado de solteiro tive cinco filhos de nomes Fidencio Graciano de Campos, Delfino Pereira de Campos, Emilia Barbosa de Campos, Damaro Cardoso de Campos, Manoel Pereira de Campos, havidos de mulheres solteiras, e já se achão com idade maior de vinte e um annos, aos quaes instituo por meus herdeiros universais pagas as minhas dividas, os meus filhos forão havidos ante Ordines Sacras. (IDEM, 1831, p. .4)

Padre Cardoso disse textualmente, que o motivo que o levara a confeccionar o seu testamento foi o agravamento de seu estado de saúde, por “molestia grave”. Apesar desta situação, ele afirmou ter condições mentais de fazer este documento. Para tanto, descreveu com afinco, o lugar de onde ele era natural, afirmando em seguida, que ele era filho de legítimo matrimônio como reza a legislação canônica (matrimonial) da Igreja. Como sacerdote, ele estava impedido pelas leis da Igreja em assumir um matrimônio “legítimo”. Contudo, ele relatou nunca ter sido casado antes de assumir o estado de vida sacerdotal, sendo portanto, “apto” a adquirir Ordens Sacras. Todavia, este testamento revelou que ele, em “estado de solteiro”, teve cinco filhos havidos de mulheres diferentes. Ao que sugeriu esta descrição, esta quantidade de filhos não se constituiu como um empecilho para que ele se tornasse padre. Outra questão suscitada, a quantidade de filhos. O declarante não informou em nenhum momento quais eram os nomes das mulheres com que ele se relacionou. Se este

relacionamento foi duradouro ou não, pois, este fato pode ser constatado na quantidade de filhos tipos com uma única mulher. Certo é que estes filhos originaram-se duas ou mais genitoras. Para Eni de Mesquista Samara, “a omissão de nomes também tinha como finalidade evitar o escândalo e as penalidades previstas nos casos de adultério. Por isso, os filhos ilegítimos apareciam sempre entre indivíduos solteiros, separados ou viúvos e apenas ocasionalmente entre casados” (1.8., p. 12.). Dizer que as mães desta filiação eram solteiras correspondia numa forma de “aliviar” o agravamento da revelação, pois como sacerdote, Padre João Pereira Cardoso não cumpriu a exigência do celibato, determinado pela lei canônica da Igreja. Ambos os filhos foram declarados maiores de idade, isto é, todos tinham idade acima de vinte e um anos.

Foi nomeado como testamenteiro do Padre Cardoso, o seu filho mais velho, Fidencio Graciano de Campos, ao qual foi transmitida a herança de seu pai, localizada na Cidade de Goiás, entre bens imóveis e móveis, dentre eles um escravo. A ele também ficou a incumbência de saldar todas as dívidas deste testador.

Declaro que os poucos bens que possuo nesta Cidade, como sabem meus testamenteiros, e que a Quinta de São João com todas as suas benfeitorias, bens moveis, submoventes, pertencem a meu filho Fidencio Graciano de Campos por ser tudo feito com annos de seu [?]. Declaro que o meu escravo Roque Cabra fica contado na quantia de cento e cincoenta mil reis com a obrigação de viver em companhia de meu filho Fidencio para que com o produto de seus [?] vá satisfazendo as minhas dividas, e depois que disto meu escravo Roque houver satisfeito com a mencionada quantia de cento e cincoenta reis meu testamenteiro lhe passará Carta de Liberdade. (CARDOSO, 1831, p. .4-.4v)

Em compensação à Igreja, na pessoa de Dom Francisco Ferreira de Azevedo, foi destinado pelo Padre João Pereira Cardoso apenas livros e um epítome religioso. “Declaro que deixo lutuoza a Sua Excellencia Reverendissima os meus Breviarios, dois livros de Conduta de Confessores, e hum Epitome de Moral, cujos livros deixo por não possuir coisas de maior valor que possa offerecer” (IDEM, 1831, p. .4v-.5). Contraditoriamente, a quinta dada ao filho detinha um valor muito mais elevado e suntuoso do que o aglomerado de livros religiosos dados ao representante maior desta unidade eclesiástica. pode-se ainda justificar que tudo quanto pertencia a Igreja, principalmente ao culto sagrado, não poderia ser repassado a herdeiros de padres. Sobre a herança de clérigos, narra as Constituições Primeiras do

Arsebispado da Bahia (1707), que a vontade destes em relação aos seus herdeiros deveria ser

segundo estas determinações, não deveria ter direito sucessório a qualquer pertence da Igreja, principalmente os relacionados ao culto divino, além de:

Vestimentas, calices, Missaes, e outras quaesquer cousas pertencentes á Igrejá, como casas, senzalas, que elles, ou seus antecessores fizerão para uso das mesmas Igrejas, e bemfeitorias, que nellas fizessem, porque todas estas, nem os clerigos, e Beneficiados podem testar, nem os herdeiros ab intestado nellas succeder, mas ficarão perpetuamente ás Igrejas, porque se presume, que para o tal serviço as fizerão. (VIDE, 2007, p. 278)

Recomendou este compêndio de leis que os beneficiados.3, ao fazerem o seu testamento, devem mostrar-se agradecidos à Igreja em que serviram, deixando parte de seus bens para serem gastos nas necessidades imediatas de igrejas e filiais e, principalmente, para a manutenção do culto divino. Agir de modo oposto a esta orientação, incorreria numa “especie de ingratidão” por “não deixarem em suas ultimas vontades cousa alguma ás Igrejas, de cujo dote, e renda se sustentarão” (IDEM, 2007, p. 278). Jorge Ribeiro alegou que a exigência do celibato teve por um de seus objetivos, a necessidade de garantir à Igreja a herança direta e exclusiva dos benefícios imóveis e móveis construídos pelos sacerdotes (1..0, p. 35). Apesar disto, o Padre João Pereira Cardoso deixou para seu filho Fidencio toda a sua herança, restando a Igreja apenas o contentamento e a obseqüidade de todos respeitassem a sua decisão ajuizada em cartório público.

Este testamento trouxe a Igreja a duas encruzilhadas. A primeira, segundo a narrativa do Padre Cardoso, seus filhos foram tidos antes da ordenação sacerdotal ou ele utilizou-se desta expressão para justificar o não cumprimento do celibato por ele. Se for levada em conta a primeira proposição, sendo pai, ele emitiu votos solenes de castidade e de obediência à Igreja, tendo possivelmente ao seu redor alguma(s) criança(s)-filhos em estado de crescimento. Para Dom Claudio José Ponce de Leão, os clérigos não podiam a partir do ato de sua ordenação alegar desconhecimento sobre as regras gerais da Igreja, sobretudo as concernentes a castidade, muito menos poder-se-ia usar de qualquer outra desculpa para justificar a sua negação, pois, na profissão sacerdotal todos assumiram conscientemente a adesão à vida celibatária (LEÃO, 1885, p. 15-16). Neste caso, permitiu-se com ciência ou não desta paternidade pelo bispo da Prelazia de Goiás, que um homem-pai fosse ordenado.

Pode até ser que o Padre Cardoso tenha conseguido esconder esta paternidade da Igreja na época de seu recebimento de ordens sacras, porém, ao que transparece o testamento,

.3

Pessoa que tem benefício eclesiástico: padres, bispos, diáconos, dentre outros.

pelo menos o seu filho Fidencio residia com ele ou próximo a ele, pois a propriedade repassada como herança estava localizada na Cidade de Goiás, afirmando que tal herdeiro foi o responsável pelas benfeitorias que foram feitas nesta propriedade. Quanto aos outros filhos nada foi descrito além do reconhecimento da paternidade sacrílega. Neste aspecto, pode-se dizer que a Igreja ou os seus representantes tinham conhecimento deste tipo de situação, embora tenham combatido constantemente este tipo de paternidade, seus esforços foram vãos.

Segundo, não foi respeitada pelo Padre Cardoso as orientações sobre a sucessão dos bens imóveis e móveis de clérigos. Conseqüentemente, pelo direcionamento de uma propriedade e de um escravo a um de seus herdeiros, ocorreu a desobediência à regra sucessória sugerida pela Igreja, ainda que esta venha acompanhada pelo título de recomendação, ou seja, houve uma quebra de conduta em relação a uma hierarquia de valores e de comando. Da parte deste sacerdote, privilegiou-se acudir as necessidades de seu filho e não da Igreja a que ele serviu. Grande parte dos clérigos preocupou-se em subsidiar sua família ou a sua prole pela transmissão da herança. Como a decisão expressa em testamento era irrevogável, cabia a Igreja acatar as decisões dadas pelos seus representantes. O morto não podia ser questionado, ainda que a instituição eclesiástica discordasse.

3.3. MULDERES E FILDOS(AS) DE PADRES NA DESCRIÇÃO DAS DISPOSIÇÕES

Benzer Belgeler