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I. BÖLÜM

2. Delil

As mulheres raramente aparecem de modo explícito nos testamentos deixados pelos sacerdotes. Com raras exceções se descreve, às vezes, o nome das genitoras dos filhos sacrílegos. Como forma de justificar ou de amenizar perante a Igreja o tipo de relacionamento assumido como “fragilidade humana”, coloca-se que os inúmeros filhos sacrílegos foram todos tidos de “mulher solteira”. Se carne humana retrata a fraqueza de espírito por não ter sido capaz de manter-se casto, segundo as determinações eclesiásticas, ter filhos de mulher solteira era uma forma de dizer que não havia nenhum outro impedimento que agravasse mais esta quebra de conduta por parte dos clérigos. Apesar da existência destes estigmas sócio- religiosos, muitos padres assumiram ao confeccionarem o seu testamento terem tido mulheres e filhos. Outros emudeceram ainda mais a voz de sua companheira, preferindo por motivos diversos, deixá-las no anonimato pela não indicação de seus respectivos nomes.

O testamento do Padre Martinho Pereira Pedroso é sem dúvida um dos inúmeros casos em que se denota a ausência do nome da mulher ou das mulheres com quem teve filhos. Ele legitimou em cartório público ser pai de quatro filhos, tendo assumido o encaminhamento matrimonial de duas de seus quatro filhos. Falecido aos vinte cinco dias do mês de março de 1834, em decorrência de uma retenção urinar, Padre Martinho solicitou previamente que fosse confeccionado o seu testamento. De antemão declarou ser natural da Cidade de Goiás, tendo na época da formulação de seu testamento a idade de setenta e dois anos. Foram nomeados por seus pais, em legítimo matrimônio, Francisco Pereira Pedroso e Dona Joana Ignacia de Jesus, ambos já falecidos. Após expressar a sua fé na Santa Madre Igreja Católica e dar as justificativas que o levaram a pedir a produção deste documento, Padre Martinho declarou o seu estado civil e, seguidamente, legitimou a sua prole.

Declaro que nunca fui Cazado, porem tenho quatro Filhos a saber, Joanna Neponocena Pereira, Bibianna Pereira de Assumpção, Maria Candida Pereira e Lino José Pereira, dos quaes a Joanna e a Bibianna, eu as cazei e lhes dei a cada huma trez Escravos, a Maria Candida dei huma Escrava de nome Maria Crioula, cujo Titulo consta do Baptisterio da mesma. (PEDROSO, 1834, p. 151v-152).

Normativamente a Igreja proibiu que os clérigos tivessem família e filhos, pois o celibato sempre foi visto por esta instituição como um modo de vida superior ao do laicato. Porém, esta proposição se tornou nula quando juridicamente foi relatada neste testamento a existência de um padre com uma prole significativa. Outro dado. Em nenhum momento este documento revelou o nome da mulher ou das mulheres que geraram esta prole sacrílega. Muito menos foi apresentada alguma ponderação sobre o estado civil de tal(is) genitora(s). Apesar de ter afirmado que nunca foi casado, Padre Martinho declarou ser pai de quatro filhos tendo, ao mesmo tempo, transferido a ambos o direito sucessório de sua herança: “Declaro por meus Legítimos herdeiros aos referidos meus Filhos Joanna, Bibianna, Maria e Lino” (IDEM, 1834, p. 152). Não obstante, ele ainda assumiu ter acompanhado pelo menos uma das diversas etapas sacramentais da Igreja de dois de seus quatro filhos, tendo declarado ter sido ele o celebrante do enlace matrimonial de Joanna e de Bibianna.

Segundo a Igreja, toda celebração matrimonial deveria contar com a presença de um sacerdote e de pelo menos duas testemunhas (VIDE, 2007, p. 11.; THE COUNCIL OF TRENT, 1..5, p. 1.6). A celebração de um casamento, de acordo com o Concílio de Trento e as primeiras constituições eclesiásticas brasileiras, deveria ser um ato público, pois deste

modo se coibiria as heterodoxias matrimoniais envolvendo padres ou leigos. Neste caso, o celebrante era ao mesmo tempo pai e padre. Na pior das hipóteses, parte (ou totalidade) dos presentes nesta celebração conhecia este fato (paternidade sacrílega), pois alguns clérigos, parentes, amigos, vizinhos e outros cidadãos da Cidade de Goiás deveriam ter uma vivência muito próxima deste sacerdote (pai), tendo ciência desta filiação sacrílega. Possivelmente, os filhos deste sacerdote nasceram em decorrência de um relacionamento esporádico ou permanente entre este padre e uma ou mais mulheres. Sobre a(s) mulher(es) ou sobre a maternidade dos filhos legitimados, este documento se ausentou intencionalmente de apresentá-la. Em nenhum momento Padre Martinho utilizou-se da expressão “fragilidade humana”, como é comum em muitos outros testamentos feitos por clérigos, para justificar o surgimento desta prole em face da Igreja ou da sociedade em que ele viveu.

Como presente de casamento ou como dote.4, este pai (padre) deu a suas duas filhas a quantia de três escravos. Preocupado com a partilha de seus bens após sua morte, sobrtudo em igualar distributivamente todos os seus pertences entre os seus herdeiros, Padre Marinho solicitou que na sua falta, os filhos que não receberam algo dele em vida deveriam ser recompensados pelos demais irmãos, que haviam sido contemplados anteriormente por ele. “O Lino José Pereira se acha cazado com Josefa Gomes, o qual por não ter mais Escravos nada dei, e por esta cauza deve ser igualado por minha morte nos Bens que eu deixar” (IBIDEM, 1834, p. 152). Pode-se ainda aventar que, sistematicamente houve da parte deste pai-padre o acompanhamento e a preocupação em se responsabilizar pelas etapas da vida de seus filhos, mesmo depois de sua morte. Para tanto ele nomeou como sua testamenteira a sua filha Bibianna Pereira da Assunção. Legalmente ela foi instituída de poder jurídico para responder nas esferas civis e religiosas pela execução das vontades últimas de seu pai, vontades expressas em testamento. A ela caberiam todos os encaminhamentos fúnebres, a responsabilidade de repartir a herança, em saldar dívidas e em cumprir todas as demais orientações testamentárias de seu pai.

Como pai ele orientou todos os seus herdeiros a agir com equidade em relação ao filho Lino, filho este que não havia sido contemplado com a doação de bens quando ele ainda era vivo. Logo em seguida, pediu que os mesmos filhos e herdeiros não entrassem em contenda entre si pela posse de seus bens, logo após a sua morte.

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Dote: Conjunto de bens que a mulher recebe de ascendentes ou de terceiros quando se casa. Estes bens são transferidos ao marido, para que este com os frutos e os rendimentos produzidos possam ajudar na satisfação dos encargos econômicos do matrimônio, sob a cláusula de restituição de tais bens se houver dissolução da sociedade conjugal.

Declaro que todos os meus Bens que possuo meus Herdeiros sabem e espero dos mesmos que repartão entre si com igualdade sem contendas judiciaes; para que o que os hey por perfilhados e Habilitados independente de Habillitaçoêns Judiciais, pois os reconheço por meus filhos e como taes meus legitimos Herdeiros. (IBIDEM, 1834, p. 152v)

Pela resolução testamentária encaminhava-se a repartição dos bens do moribundo entre os seus herdeiros diretos. Pode-se ainda assinalar que, aqueles que por motivo de impedimentos canônicos, não conseguiram dar o seu sobrenome a sua prole através do Sacramento do Batismo, conseguiam perfilhar juridicamente os seus descendentes pelo ato solene do testamento. Por fim, Padre Martinho deixou ao encargo de seus testamenteiros, por ordem de escolha, Bibianna Pereira de Assunção, Maria Candida Pereira e Lino José Pereira, ambos os seus filhos, o destino de seu funeral, porém, orientando como deveria ocorrer determinadas cerimônias.

Declaro que deixo a Eleição dos meus testamenteiros o meu Funeral, sufragios de minha Alma, porem sempre declaro, que quero, que meu Corpo seja involto em hum Lençol, pois não hé bom que sendo o Filho de Deos involto em hum Lençol, queira eu ter pompas de Vaidade, e Sepultado no Corredor da Senhora do Rosario de cuja Irmandade sou Irmão, e acompanhado pela minha Irmandade do Rosario, e seu Capellão. E por esta forma findo o meu testamento, derradeira, e ultima Vontade que mandei escrever, por João Caetano Vieira da Fonseca, o qual depois de escripto sendo por mim lido, e achando-o a meu gosto e conforme lho ditei; o assignei junto com o dito como testemunha. (IBIDEM, 1834, p. 152v-153)

Este mesmo sacerdote, devido ao seu estado de saúde, pediu a João Caetano Vieira da Fonseca que escrevesse por ele o seu testamento. Todas as descrições redigidas pelo tabelião foram confirmadas, pois o requerente após ter lido este documento certificou como expressão de sua vontade o que havia sido escrito.

Em outro testamento, o reverendo Padre Felipe Luiz de Carvalho, falecido aos vinte sete dias do mês de abril de 1840, legitimou na Diocese de Goiás, um total de nove filhos. Quase todos eles residiam na Cidade de Goiás, junto a seu pai. Foi revelada por este documento a existência de duas genitoras: Ludovica Teixeira de Carvalho, mãe de oito filhos e Florencia de Tal, moradora do Arraial de Couros.5, mãe de um filho.

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Não identificado.

Declaro que sou Clerigo de Ordens Sacras, e que neste Estado por fragilidade humana tenho os filhos seguintes. Felipe, Ezequiel, Caetano, [Iliodato?], Constancia, que se acha casada com José Joaquim Xavier, Maria, Umbelina, Aquilina, todos estes havidos de Ludovica Teixeira de Carvalho, mulher solteira, Ildefonso, havido de Florença de Tal, moradora do Arraial de Couros os quaes todos reconheço por meus filhos sem a menor suspeita e por isso os hey todos por Legitimados, independente de mais habilitação alguma, e por consequencia os instituo por meus Legitimos herdeiros. (CARVALHO, 1840, p. 146v)

Luciano Figueiredo ao trabalhar o cotidiano das famílias mineiras, surgidas à margem do Sacramento do Matrimônio, no qual os padrões da Igreja pouco participavam, assegura que “a presença de filhos ilegítimos – ainda mais publicamente assumidos – evidenciava a estabilidade do relacionamento entre os casais” (1..7, p. 120). O relacionamento deste casal, Padre Felipe e Ludovica Teixeira, teve sem sombra de dúvidas uma extensa durabilidade, pois ambos procriaram nada menos do que oito filhos. Se for levado em conta o tempo de intervalo entre um nascimento e outro ter-se-á um quantitativo de tempo significativo para esta modalidade conjugal. Pode ser que o último filho citado, Ildefonso, nascido de Florença de Tal, tenha sido procriado antes do relacionamento do Padre Felipe ou tenha se originado de uma relação esporádica quando este padre ainda se relacionava com a senhora Ludovica. São apenas suposições. Outro fato significativo neste testamento foi a declaração da filiação deste sacerdote. “Declaro que sou natural do Arraial do Carmo da Comarca do Norte desta Provincia filho natural de Caetano Luiz de Carvalho e de Josefa Maria de Carvalho ambos falecidos” (IDEM, 1840, p. 146v). Talvez, a condição de filho natural, tenha feito com que Padre Felipe olhasse com naturalidade para o seu relacionamento e para a sua prole.

Salta aos olhos a convicção com que este sacerdote reconheceu os seus filhos, pois, segundo ele, não existiu a menor suspeita de que eles não fossem seus filhos. Diferentemente de outros testamentos, a testamentária do Padre Felipe recaiu a seu pedido sobre a sua companheira, Dona Ludovica Teixeira, por ser ela “a May dos meus ditos filhos” (IBIDEM, 1840, p. 146v). Esta mulher recebeu a incumbência de administrar livremente os bens herdados de seu companheiro, por ser “May dos herdeiros” e “por ter a preciza suficiencia e capacidade para isso” (IBIDEM, 1840, p. 146v). Ludovica recebeu a tutoria de seus filhos menores, por não existir “nenhuma outra pessoa será capaz de zellar e conservar os bens dos menores mais do que ella” (IBIDEM, 1840, p. 147v). Em geral, os testamentos de padres mantêm certo silêncio em relação as suas companheiras. Padre Felipe, ao contrário,

qualificou sua mulher como pessoa capaz e competente para assumir a sua testamentária. A proximidade de seus filhos é tanta que o próprio padre se habilitou em realizar cerimônia de casamento de sua filha Constância com José Joaquim Xavier.

Declaro que minha filha Constancia que cazei com José Joaquim Xavier adotei com os bens que consta de uma Escriptura manual que lhe entreguei ficando de fora Gados e Egoas que lhe dei, e por isso querendo entrar na minha herança trará a Colação a que recebeo para não prejudicar aos demais herdeiros seus Irmaons. (IBIDEM, 1840, p. 147).

Uma das preocupações centrais do Padre Felipe, consistiu em bem repartir a sua herança entre os seus filhos, para que não houvesse contendas ulteriores. Como dote matrimonial foi oferecido a sua filha Constancia um conjunto de casas. Contudo, ela somente poderia tomar posse destas propriedades depois do falecimento de seu pai-padre, como descreveu este testamento. De acordo com o Padre Felipe, os seus filhos estavam a par de todos os seus bens para que pudesse repartir com igualdade entre si esta herança, sendo a sua mulher (esposa), Ludovica Teixeira de Carvalho, responsável em representar-lhe neste legado (IBIDEM, 1840, p. 147v).

O adro e O altar da Igreja foram espaços que testemunharam encontros e celebrações destas conjugalidades sacrílegas sob os olhares de familiares, amigos e pessoas próximas e residentes neste sertão, nesta cidade. Apesar de assumir oficialmente, via testamento, a “transgressão” de seu celibato, este padre desejou ser enterrado com o hábito clerical, ainda que tenha assumido uma conjugalidade e uma paternidade sob o pretexto “por fragilidade humana”. Para Alessandra Silveira, este modelo familiar “representa a família possível, ou seja, aquela que as pessoas puderam viver, tendo vista as limitações que aquele mundo lhes impunha” (2005, p. 206-207). Estes limites não impediram a constituição de uma família estável, ainda que esta seja constituída por padres.

Declaro e quero que o meu interro seja feito sem parcamente sem pompa alguma, conduzido em hum Esquife a Igreja Matriz para ser Sepultado, vestido com Habito Clerical, e pelos meus Irmaons que me acompanhar mandará dizer Missas de Corpo prezente. (CARVALHO, 1840, p. 147)

Uma das testemunhas da aprovação deste testamento, ou da abertura pública deste documento, foi o Padre José Militão Xavier de Barros. Ele tomou ciência deste fato – possivelmente tendo conhecimento prévio da conjugalidade e paternidade do Padre Felipe na

Cidade de Goiás, através deste ato jurídico solene (IDEM, 1840, p. 148). Para a Igreja, na pessoa dos padres, tal fato não causava constrangimento algum, pois ambos usufruíram deste tipo de relacionamento, muitos tendo inúmeros filhos com uma ou mais mulheres como é o caso do Padre Antonio Mariano de Castro, falecido aos dias quatorze de fevereiro de 1841. Depois de encomendar a sua alma a Deus Pai, Filho e Espírito Santo, pela intercessão da Virgem Maria, tendo confessado em tudo quanto crê e ensina a Santa Igreja Católica, em cuja fé professou viver e morrer, ele narrou ter nascido na Vila do Senhor Bom Jesus, arraial do Bispado de São Paulo, sendo neste território eclesiástico ordenado como presbítero secular. Surpreende após esta profissão de fé, a descrição do número de filhos tidos por este sacerdote e a quantidade de mulheres com quem ele se relacionou.

Declaro que por fragilidade humana tive os seguintes filhos, Antonio Rafael havido de Dona Francisca das Chagas, mulher solteira, moradora na Cidade de Sam Paulo, Joaquim e José havidos de Antonia Lopes, mulher solteira, Francisco havido de Simplicia Barbosa, mulher solteira, Lourenço havido de Dona Felisberta da Neiva Solteira, Joaquim havido de Anna mulher solteira filha de Anastacia Crioula; Maria havida de Joana Baptista, Maria havida de Constancia ja fallecida, irmaa do soldado José Vicente, os quaes meus filhos instituo meus universaes herdeiros de todos os meus bens, depois de pagas as minhas dividas e cumpridos os meus legados. (CASTRO, 1841, p. 180v)

Foram um total de oito filhos havidos com sete mulheres diferentes. Trata-se de um documento fabuloso se for levada em conta a riqueza das descrições que ele traz. Primeiramente, ele é uma raridade, pois este sacerdote nomeou todas as mulheres com quem ele se relacionou, tendo inclusive anotado dados referentes à localidade ou a condição social de suas companheiras. Praticamente a descrição da geração de filhos pelo Padre Antonio Mariano de Castro obedeceu à seguinte regra: nome dos filho(s), nome da mulher (mãe), estado civil, em alguns casos, lugar em que residia e foram gerados os filhos, além da condição social de uma mulher. Como dito anteriormente, a utilização do termo “havido(s) de mulher solteira” tem por finalidade amenizar a quebra de um normativo do celibato, estabelecido pelo direito canônico da Igreja como regra obrigatória para o clero latino, assim como, justificar que toda esta prole foi oriunda da “fragilidade humana”.

Sobre as mulheres, algumas peculiaridades. Padre Mariano, ao que parece, manteve os vários relacionamentos que assumiu com as mulheres que apresentou sendo sacerdote secular. Uma delas inclusive pertencia ao Bispado de São Paulo. Em outra localidade ou na Província de Goiás, este sacerdote engendrou vários filhos de mulheres

diferentes. Quase todas as mulheres tiveram os seus sobrenomes revelados, o que faz deste documento um diferencial em relação aos demais. Uma destas mulheres era filha de escravo(s), pois a sua genitora foi designada pelo nome de Anastacia Crioula. Vistos pelo prisma da Igreja estes relacionamentos e paternidades se configuraram como um atentado contra os Sacramentos da Ordem e do Matrimônio, ainda mais pela heterodoxia sexual vivida pelo Padre Antonio Mariano. O modo de vida deste clérigo constituiu-se pela negação do modelo normatizador de sacerdócio e de matrimônio pela Igreja.

Foram definidos como testamenteiros do Padre Antonio Mariano “em primeiro lugar Margarida Pereira adjunta a seu Pay Manoel Joaquim Pimenta, em segundo lugar o Capitão Joaquim da Cunha Bastos, e em terceiro, o Alferes Antonio Gonçalves Dias” (IDEM, 1841, p. 180v). Opostamente a outros testamentos sacrílegos, o(a) responsável pela execução das disposições do moribundo não recaiu sobre um dos herdeiros ou sobre uma das mulheres que geraram tais filhos. Porém, foi nomeado como primeira testamenteira outra mulher, ficando ao encargo desta a responsabilidade de cumprir dos desejos póstumos do falecido. Os demais escolhidos, eram pessoas conhecidas pelo requerente, sendo boa parte destes representantes dignitários da sociedade goiana.

Curioso neste testamento foi à destinação pecuniária destinada à testamenteira e a uma menina, cujo grau de parentesco ou de relacionamento não foi citado. “Declaro que deixo de legado para minha primeira testamenteira Margarida Pereira a quantia de quatrocentos mil reis liquidos; assim como deixo tambem de legado para huma Menina de nome Maria da Conceição que tenho na minha companhia a quantia de duzentos mil reis” (IBIDEM, 1841, p. 181). A responsável pelo cumprimento das descrições testamentárias era uma mulher analfabeta, que não sabia ler nem escrever. Devido a este fato, no termo de aceitação da testamentária do Padre Antonio Mariano, assinou a rogo da requerida o Padre José Militão Xavier de Barros (IBIDEM, 1841, p. 182).

Os padres goianos tinham conhecimento da heterodoxia conjugal que envolvia os seus pares, sendo em determinados casos “cúmplices” por possuírem comportamentos semelhantes. O testamento do Padre Antonio Mariano foi redigido pelo Padre Joaquim Vicente de Azevedo, vigário geral do Bispado de Goiás. Este mesmo clérigo assinou o documento das disposições últimas do Padre Mariano como uma de suas testemunhas (IBIDEM, 1841, p. 180v). Diante do exposto, Padre Joaquim conhecia, pelo menos em testamento, a gama de relacionamento e de filhos de seu companheiro de sacerdócio. Um

atestado de óbito datado aos dias vinte seis de dezembro do ano de 18.., revelou que este mesmo vigário geral foi pai de pelo menos um filho.

Attesto que faleceu hontem a noite as . ¾ horas Antonio Candido de Azevedo, com 34 anos de idade, filho legítimo do falecido Monsenhor Joaquim Vicente de Azevedo sendo sua mãe Messias Xavier de Barros, de enfermidade, com febres, rheumatismo, e outras. Goyaz, 26 de dezembro de 18... (AZEVEDO, 18..)

Tal documento evidenciou que Antonio Candido de Azevedo, filho do Monsenhor Joaquim Vicente de Azevedo, foi legitimado por seu pai, pois o atestado de óbito denomina-o pelo termo de “filho legítimo”. Antonio foi fruto de um relacionamento deste clérigo com a senhora Messias Xavier de Barros, cujo sobrenome a aproxima da família do Padre José Militão Xavier de Barros. Em outro documento, datado em nove de março de 1871, este

Benzer Belgeler