DÖRDÜNCÜ BÖLÜM: MALİ BÜNYEYE VE RİSK YÖNETİMİNE İLİŞKİN BİLGİLER
XI. Risk Yönetimine İlişkin Açıklama ve Dipnotlar
1. Katılım Bankası’nın Risk Yönetimi Yaklaşımı ve Risk Ağırlıklı Tutarlara İlişkin Bilgiler
1.1 Katılım Bankası’nın Risk Yönetimi Yaklaşımı
Nesse momento de crise, 1990 foi certamente o ano de “amadurecimento” dos trabalhadores rurais na sua relação com a ação direta e também das formas de mobilização que conjugaram a mediação das pastorais nos movimentos que deram origem aos saques. A força destes movimentos pode ser medida também pela quantidade. Se no saque de 1988 contaram-se poucas centenas, o jornal O Povo falava da participação de mais de mil pessoas no saque noticiado em 17 de abril de 1990. De fato, nesta ação podemos verdadeiramente falar de uma multidão, no sentido costumeiro do termo, de aglomeração volumosa. E se considerarmos que a cidade possuía em torno de 2.500 habitantes naquele ano, teremos idéia do volume proporcionalmente estrondoso que essa multidão provocou sobre sua população naquele dia.
Porém, ainda mais relevante foi a intensidade das ações naquele saque. Três lugares arrombados: um depósito de merenda escolar, um depósito de alimentos de uma ONG de assistência aos atingidos pela seca e uma fábrica comunitária de redes. Três pontos distintos, cada qual com relativa distância um do outro. Nenhuma loja, comércio ou qualquer propriedade reconhecida como particular foi atacada, revelando uma “seletividade calculada” na definição dos alvos, exatamente aqueles considerados parte da exploração sofrida ou dos direitos negados. Essa organização elementar do “motim” demonstra uma perfeita definição moral dos limites que o saque poderia e deveria ter. É exatamente essa percepção que se nota na fala de Seu Alberto: “primeiramente o trabalhador se reúne para vê onde tem alguma coisa
que pertence ao governo, porque se você tem um comércio, é seu[...] Vamos atrás do que tem o governo porque o que é do governo é nosso”411.
Os conflitos se tornaram muito intensos em 1990, a partir de uma ampla mobilização dos camponeses. Auxiliadora Bezerra escreveu sobre esse momento, quase meia década depois, dizendo:
mais um ano de seca, o trabalho de conscientização continua. Os dois acampamentos [Touro e Massapê] são fortes, as outras comunidades também lutam. O povo vem às ruas mais de 06 vezes. Na assessoria que presto ao STR nasce a reflexão de levantar a bandeira contra a fome. O povo saqueia a cidade durante 04 vezes em um só dia. Depois ocupam a prefeitura. Aliás, a prefeitura aqui já foi ocupada duas vezes, em massa412.
Nesse sentido, os saques se mostravam como “adensamento de conflitos latentes”, num momento de impasses e contradições sociais, que não puderam mais ser contidas pela formalidade das negociações políticas com a prefeitura e os agentes do governo estadual, responsável pela garantia das “frentes de trabalho”. Assim como no ataque à CODAGRO em 1988, eles mostravam o antagonismo e o conflito político que lhe serviram de combustível, exprimindo um consenso acerca da justeza da ação diante da percepção de que o Estado deveria atuar como um agente da justiça social e de “proteção” aos pobres, uma vez que tais princípios eram obrigações que autoridades públicas deveriam cumprir como retribuição ao voto recebido.
É exatamente esse percurso de negociação e conflito, marcado pela expectativa de retribuição ao voto e de cumprimento das obrigações inerentes ao cargo, que vemos nesta fala de Manoel: “os políticos só querem o voto, mas na hora que o trabalhador estar passando por momentos difíceis, ele não está nem aí, e aí foi preciso nesse momento o cabra se fortalecer e partir para cima”413. Ou ainda neste trecho de Seu Alberto:
a gente levava os abaixo-assinados e entregava. Eles passavam um visto ali e devolviam, a raiva era essa. Nunca resolviam nada! E por isso o pessoal ia ficando com raiva[...] Mas a gente se reunia duas, três vezes para poder falar com o prefeito, reivindicando os direitos dos trabalhadores, pedindo a frente de emergência, e ele se negava, aí o pessoal ficava com aquela crítica ia bater lá e saqueava[...]Porque não tinha nada, não tinha por quem está esperando, não tinha onde comprasse[...] Não botou ele lá no poder, ele tem que ir atrás de alguma coisa para seu município414.
411 Entrevista com Seu Alberto. Da mesma forma, Auxiliadora declarou: “se a gente saqueasse comerciantes naquele momento seria um desgaste grande. Iríamos adquirir a antipatia nata da sociedade”.
412 “Dossiê de Auxiliadora Bezerra”, sem data.
413 Entrevista com Seu Manoel, em 23 de outubro de 2004. 414 Entrevista com Seu Alberto, em 16 de outubro de 2004.
Assim, um conflito de amplas dimensões e assentado em antagonismos que se produziram e se acumularam desde meados da década de 1980 tornaram o ano de 1990 potencialmente explosivo. E sem dúvida esse processo possuía um fio de continuidade com o saque à CODAGRO e seus desdobramentos.
Em dezembro de 1988, quando a investigação policial foi deixada de lado, a PJMP, a CPT e a Equipe de Catequese da paróquia lançaram a “Carta Aberta ao Povo em Geral de Itapiúna”, fazendo um apanhado das lutas daquele ano e criticando o prefeito Joaquim Clementino. Dizia: “nunca tivemos políticos comprometidos com a luta de classe desse povo sufocado, necessitado, faminto e oprimido, pois uma boa administração não é feita somente de prédios”, mas “também de um compromisso e incentivo a organização e luta do povo, apóia a transformação social e não somente[...] paliativos”. Continuava afirmando que ano de 88 “foi cheio de sofrimento, mas também de passos dados por algumas comunidades que tentam se libertar”. E questionava: “onde ficou a presença dos candidatos que hoje foram eleitos e que na campanha usaram slogans de apoio e incentivo aos trabalhadores? Quando nos momentos mais difíceis não aparecem e criticam a Igreja por apoiar e ajudar a luta dos trabalhadores,[...] chamando-os de insufladores e agitadores”. A carta encerrava afirmando que “a luta e organização de classes é a única saída para a transformação social, mas o voto é também uma saída”415.
Em julho de 1989, a assembléia geral das CEBs de Itapiúna, apoiada pelo SRT, Igreja, PJMP e PT, lançaram a “Carta Aberta ao Senhor Prefeito Municipal” Zé Nilton416, vencedor da eleição de 1988. Nela diziam:
decidimos tomar uma atitude diante da calamidade em que nos encontramos. Ao fim de um inverno que nos deixou de panela seca, pois plantamos e não colhemos, não sabemos como vamos nos sustentar e as novas famílias durante o verão, sem trabalho[...] Além da fome, estamos lutando com epidemias, sem recursos.
O objetivo da “carta” era “relembrar” ao prefeito as promessas feitas em campanha, quando havia realizado um levantamento das carências de cada comunidade e prometido soluções. Passados seis meses, as CEBs denunciavam: “o senhor mostra, até hoje, um total descompromisso com as nossas necessidades”. E então, prosseguiam apresentando um conjunto de reivindicações específicas para várias comunidades rurais:
415 “Carta Aberta ao Povo em Geral de Itapiúna”. Assinaram: PJMP, CPT e Equipe de Catequese da paróquia de Itapiúna, 1º de dezembro de 1988. Cedida por Valdízia e Auxiliadora.
416 “Carta Aberta ao Senhor Prefeito Municipal”. Assinaram: CEBs, STR, PT, Serviço de Paz e Justiça, PJMP, 10 de julho de 1989.
em sua campanha o senhor disse muitas vezes que não iria governar sozinho mas fazia questão da participação de todo o povo. Pois estamos aqui para ajudá-lo. Talvez as muitas preocupações o tenham feito esquecer-se das promessas feitas. Mas nós não esquecemos e queremos refrescar sua memória.
Em seguida lembravam outras promessas, inclusive a de assentar trabalhadores sem terra, e cobravam solução imediata para a falta de trabalho por causa da quebra da safra. Impunham uma condição: “precisamos trabalhar mas que esse trabalho seja diferente dos anos passados. Somos pessoas humanas e queremos ser tratados com dignidade e respeito”417.
Em 1990, provavelmente após os saques daquele ano, Zé Nilton contra-atacou por meio de uma carta-circular. Nela reconhecia os “bolsões de miséria, com trabalhadores rurais revelando sinais de fome aguda”, destacava os programas assistenciais de seu mandato e, principalmente, denunciava que “agitadores costumazes poderão se aproveitar do estado que se encontram muitos trabalhadores rurais sem emprego para promover badernas”418.
A acusação de Zé Nilton não era falsa. Se nos utilizarmos da perspectiva dos movimentos sociais, de fato eles se “aproveitaram” daquele estado de coisas para “promover” protestos e mobilizações. Então, após a primeira experiência com o saque em 1988, os militantes perceberam que seria extremamente eficaz, mesmo que perigoso, envolver o saque em sua prática política. Na entrevista Auxiliadora descreveu suas lembranças acerca dos episódios que conduziram ao(s) saque(s) em 1990.
Esse ano, a gente poderia ter esperado pelo momento mais crucial, de fome, de não ter mais o que fazer, mas reconheço que a gente antecipou a hora; esse foi bastante articulado e organizado. Nós chegamos a ir para comunidades para articular, exatamente porque as pessoas não estavam sentindo a necessidade, não era o final, ainda existia uma esperança. A gente percebeu que era a hora[...] e nós chegamos a ir para às comunidades fazer uma reunião relâmpago, rapidinha, 8:00, 9:00 horas da noite, com pessoas escolhidas a dedo – porque não podia vazar. Então a gente escolhia um grupo X em cada comunidade, de alta confiança, e aquelas pessoas era uma espécie de sementinha que iriam ficar fazendo a articulação na comunidade. Só aquelas pessoas sabiam o dia, sabiam a hora[...] O objetivo era realmente fazer em dois locais419.
Assim, de acordo com seus relatos e também os de Tim, esses “representantes comunitários” repassariam a notícia do saque. Na cidade, no dia marcado, eles seriam os responsáveis em estimular a multidão, com palavras de ordem, gritos e outros gestos
417 Ibidem. Uma sugestão apontada foi de que ele desse mais atenção à administração municipal, entre as muitas atividades que realizava, entre elas a presidência da Aprece.
418 Prefeitura Municipal de Itapiúna, portaria nº_/90, “Dossiê Auxiliadora Bezerra”. 419 Entrevista com Auxiliadora Bezerra, em 13 de outubro de 2004.
simbólicos de desafio à autoridade que atenuassem o medo e o receio. Além disso, assumiriam a dianteira do protesto, dirigindo a marcha ao local pré-estabelecido e tomando a iniciativa para invadi-lo420.
É provável que o papel destas lideranças temporárias tenha sido relevante para o sucesso da ação, da mesma forma que a tentativa de planejamento do saque tenha estimulado positivamente seu sucesso. Sou tentado a acreditar que a ocorrência de três saques simultâneos, em 17 de abril de 1990, tenha contado com um mínimo de planejamento prévio, vindo dos movimentos sociais. Mas obviamente, por mais que os militantes estivessem engajados na tentativa de concretizar a ação, esse processo escapava ao seu controle. Dada a dimensão dos conflitos naquele ano, e do consenso criado entre os trabalhadores rurais acerca da necessidade de uma ação direta para pressionar pela garantia dos “direitos”, essa tentativa de organizar e planejar foi, de alguma forma, crível.