Em 2004, o Ministério Público Estadual, através do DECON de Maracanaú, instaurou o Processo Nº1540, contra a empresa de produtos Químicos – Agripec, tendo como motivo os depoimentos de moradores do entorno da empresa com queixas de doenças causadas por poluição ambiental.
Nestes depoimentos, os relatos de poluição atmosférica aqui chamada de “mau cheiro” estão presentes na vida dos moradores há algum tempo e a forma como tentaram solucionar o problema é revelada por alguns depoentes:
“Que desde que a empresa agripec foi instalada no distrito Industrial, esta emite um cheiro insuportável e desagradável, que é impossível de conviver com ele. Que todos moradores da região reclamam... Que procurou a SEMACE e afirmaram que iria mandar um técnico para averiguar o problema... mas não tomamos conhecimento dessa visita. Que foi instaurado um processo na SEMACE de Nº 99157953-4 em 06/05/1999. Que procurou a Prefeitura, a Secretaria de Obras e a Secretaria de Saúde, porém nenhum órgão tomou providência e afirmavam que não era de competência deles a solução desse problema. Que acha um grande descaso do governo, e da SEMACE, pois o mau cheiro ainda continua até os dias de hoje, por isso procurei esta Promotoria...” (Cardoso, morador da Rua 20 no Conj. Novo Maracanaú).
“Ao entrar em processo de produção, a fábrica exala um cheiro insuportável... fazendo com que o ar se torne irrespirável, causando ainda queimação nos olhos e narinas, o que resultou em problemas respiratórios para sua filha de três meses... tenho conhecimento de outros casos de
empresa] que disse ser esse um problema muito antigo e que um projeto de correção do passado não resolveu, mas que estavam empenhados em encontrar uma solução. E ao ser indagado sobre o que era que estava sendo fabricado e dava aquele odor insuportável, respondeu que eram os inseticidas chamados STRON e AGRITOATO.” (Manoel, morador da Rua 20 no Conj. Novo Maracanaú).
Várias ações foram desencadeadas para o enfrentamento do problema pelo Ministério Público, não ocorrendo o mesmo com outros órgãos públicos também com responsabilidades no caso.
Ainda em 2004 foi solicitado à Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará – SEMACE a constatação da possível prática de crime ambiental efetuada pela agripec, além do Relatório Técnico de Inspeção, a solicitação de Alvará de Funcionamento da Empresa ao município, como também foi solicitado uma Perícia Técnica para o Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará-UFC.
A SEMACE respondeu apresentando laudo e informando a existência de problemas a serem sanados, inclusive com recomendações de ajustes que deveriam ser feitos pela empresa Agripec. Já em 2006, quase dois anos depois, a SEMACE encaminha um segundo relatório técnico informando que a agripec encontrava-se em situação regular não mais promovendo poluição ambiental. Entretanto, ao ser analisado o documento, o que se têm é o relato de um projeto para a redução das emissões atmosféricas, a ser desenvolvido posteriormente com o objetivo de captação e tratamento dos gases por meio de lavagem.
Contrapondo-se a estas conclusões da SEMACE, os moradores continuaram reclamando de problemas de saúde causados pelos agrotóxicos produzidos na Agripec. Nesse período, novos depoimentos foram feitos por moradores afetados:
“A fábrica lança no ar um odor muito forte de veneno,... sinto cansaço e tenho problemas de respiração” (Corina, moradora do Conj. Novo Maracanaú).
“... instauraram processo administrativo de Nº 99157953-4 de 06/05/1999. Jamais foi prestada a população qualquer resultado ou informação. Que as árvores que ficam próximas a Agripec estão morrendo, o ar exalado na atmosfera vem causando a comunidade sérios problemas de saúde, como irritação nos olhos, sequidão na garganta, alergias, falta de ar. Temos conhecimento de pessoas com câncer na comunidade e outros tipos de doenças!” (José João, morador da Rua 20, no Conj. Novo Maracanaú).
Em 2005 a SEMACE fez a Renovação de Licença de Operação da Agripec, assim como o Certificado de Licença de Funcionamento foi expedido pela Polícia Federal.
A Secretaria de Saúde de Maracanaú concedeu o Registro Sanitário para a empresa. A Secretaria de Meio Ambiente e Controle Urbano esclareceu ao Ministério Público que a Agripec estava instalada em Zona Industrial, portanto, encontrava-se totalmente adequada conforme o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Maracanaú-PDDU. Entretanto, segundo o artigo 44 do PDDU, é de responsabilidade do município monitorar periodicamente a qualidade da água, dos solos e da atmosfera, bem como as emissões de poluição e inclui o Conjunto Novo Maracanaú como ponto prioritário para o monitoramento do ar. Tal documento deixa muito claro o papel e a responsabilidade do município no controle e adequação do uso e ocupação do solo. No entanto, o Secretário do Meio Ambiente, em entrevista para este estudo, ao ser indagado sobre o monitoramento ambiental da Agripec por sua pasta, declarou:
“... com relação à Agripec, o que tem é o seguinte... quem licenciou foi a SEMACE. Ela é responsabilidade do licenciamento da SEMACE. Evidentemente, que nós não estamos querendo nos omitir e nos abster da responsabilidade. [..] Porque a gente não está preparado ainda, nem autorizado pela SEMACE para fazer isso. Eu posso fazer uma auditoria pelo município, mas, como até agora a população não reclamou, nós estamos aguardando”. (Secretário do Meio Ambiente de Maracanaú).
Vale salientar que, de acordo com a direção da Associação de moradores, antes do depoente ser secretário, foi eleito vereador do município pelo Partido Verde e participava ativamente do movimento de moradores contra a poluição causada pela
conflito, como também surpreende sua visão cartorial da responsabilidade do Estado, ao tempo em se antecipa à crítica e coloca que não quer se omitir. Vale ressaltar que a instalação do DIF em Maracanaú tem 24 anos. Assim, fica incompreensível que o órgão responsável pelo meio ambiente diga não estar preparado para atuar no controle ambiental do Pólo Industrial, como preconizado no PDDU.
Ainda na época, foi solicitado pela promotoria à Faculdade de Medicina da UFC, uma avaliação ou diagnóstico médico, a respeito das queixas da população na área do Novo Maracanaú e adjacências, mas tal pedido não obteve resposta.
Em 2006, a comunidade voltou a pressionar o poder público para a resolução do caso, realizando manifestações públicas, passeatas e ato em frente ao Ministério Público pedindo respostas e cobrando o papel do Estado. Novos depoimentos foram colhidos e anexados ao processo, nos quais os depoentes reclamavam com revolta o descaso do poder público e da empresa para com a questão. Por conta disso, foram renovadas as solicitações a SEMACE, a prefeitura de Maracanaú e à universidade.
Foto 03 - Manifestação realizada em 2006, por moradores do Conjunto Novo