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4. ARAŞTIRMA BULGULARI

4.2 Biyolojisi

4.2.4 Karyoloji

Estamos no século V a. C., Platão deve ter mais ou menos cinquenta anos quando elabora o seu programa de estudos que, no transcurso dos séculos, acaba por se tornar uma das maiores teorias da educação. Não podemos entender a obra A República como um projeto tal qual entedemos hoje, longe disso, afirma Finley, era “[…] um conjunto de normas infáliveis, para as quais o homem bom devia tender e pelas quais se deveriam testar as situações políticas e sociais existentes.” 406 Seu plano é idealmente político, isso significa dizer que é um plano ou uma estrátégia de cidade e para a cidade. Como um arquiteto, projeta e estrutura a base do lócus urbano – a territorização desse espaço é escopo da política, da educação e da lei; a primeira e a segunda são mantidas essencialmente pela terceira – sem leis não existe a cidade de Platão. A educação que ele projeta não se esgarça nem desloca para o mundo de um idealismo sem sentido, ao contrário, ela é fundamentada para e na cidade. O território de Atenas é um território essencialmente político.

A palavra política, na etimologia grega, deriva de pólis, ou cidade- Estado. Posteriormente, no quarto capítulo voltaremos a refletir sobre o sentido específico de política, por hora, cumpre-se apenas ressaltar, a política é uma arte, uma técnica, - know-how, uma ciência, uma forma de como se portar na cidade. Seria também uma forma de ali bem viver. Aristóteles no terceiro capítulo dessa tese, como

405

PLATÃO. O Político. 283 a.

veremos posteriormente, definiu o homem como um ser da cidade, é o zoo-politikon - único capaz do “[...] dom da fala [...].” 407 O homem é aquele que fala e comunica na cidade. A sociedade de Platão é a cidade da comunicação oral. Não há internet, tabletes,

smartfhones, portanto, a comunicação e a informação acontecem no plano da oralidade. Sabemos muito bem que Platão, ao expor seu plano educativo, não fala para a massa excluída e oprimida da pólis de seu tempo, e nem poderia; ele sempre esteve alheio e avesso a essas questões, mesmo porque a sociedade da qual faz parte é uma sociedade escravagista e dividida por classes antagônicas. A lógica social que perpassa toda a civilização grega antiga deriva da relação entre aqueles que oprimem – dominam – e aqueles que são oprimidos – dominados. Esse programa de estudos pertence somente àqueles que dominam – para uns poucos afortunados, filhos de uma elite – homens livres da pólis, “[...] que não chegavam a 500 representantes na cidade, detentores da fortuna, praticantes da demagogia e defensores dos interesses dos senhores de bens e escravos, homens de honra da cidade.” 408 O ciclo do seu programa educativo começa propriamente no segundo capítulo e se estende até o oitavo, no livro

A República. Essa obra de Platão aparecerá na Academia provavelmente entre os anos 375 a. C., e 374 a. C.; e o seu programa de estudos surge como instrumento formativo para a vida do cidadão da pólis. Como modelo único e preciso, tem a intenção de regenerar e salvar a cidade da corrupção. Longe de um pensar idealista e distante da realidade de sua cidade, Platão, mais do que nunca, está com os pés enterrados no chão da pólis. Sua proposta educativa ilumina o itinerário do seu pupilo – o rei-filósofo ou

filósofo-rei; cada vez mais esse é chamado a se desfazer de suas amarras e cadeias e, ao mesmo tempo, sair da caverna que ali habita desde pequeno. E, se quiser verdadeiramente emergir dali, deverá olhar para a luz e ir em direção ao bem.

Nas primeiras páginas do segundo livro, A República, Sócrates, na qualidade de narrador e personagem principal, fala de algumas disposições preliminares. “Pensei que depois dessas palavras eu estivesse dispensado de prosseguir; mas tudo aquilo, pelo que se viu, não passara de um simples proêmio.” 409 A justiça é o tema do proêmio de que fala Sócrates; assim, o primeiro livro tem como propósito argumentar e definir os conceitos de uma virtude na tentativa de compreender outras. Portanto, o tema fundante é o tema da justiça e três são os conceitos que fazem o argumento prosseguir.

407

ARISTÓTELES. Política I, 1, 1253 a. 408 NUNES, Cesar Aparecido. op. cit. p.60. 409 PLATÃO. A República 357 a.

Os três conceitos são apresentados na figura de três personagens são: o primeiro, Céfalo; o segundo, Polemarco; e o terceiro, Trasímaco. A partir dessa introdução no capítulo primeiro do livro, Sócrates e seus interlocutores vão direcionar os diálogos para construir a cidade perfeita, tendo como base a política e a educação.

A questão da justiça é colocada logo nas primeiras páginas do primeiro capítulo. Antes de adentrar propriamente no debate sobre a justiça, retrocederemos alguns fundamentos históricos da época de Platão. Sabemos que a vida de Platão está ancorada entre a filosofia e a política.

Platão deve ter tido um primeiro contato direto com a vida política em 404 - 403, quando a aristocracia tomou o poder e dois de seus parentes, Cármides e Crítias, participaram como personagens de destaque do governo oligárquico: mas deve ter sido, indubitavelmente, uma experiência amarga e decepcionante, por contados métodos facciosos e violentos que Platão viu serem postos em ação, justamente por aqueles nos quais confiara. Mas o desgosto com os métodos da política praticada em Atenas deve ter chegado ao cume em 339, quando Sócrates foi condenado à morte. 410

Platão olha para a realidade da pólis com vista penetrante; ele conhece sua Atenas, sua família; seus parentes descendem de pessoas advindas do meio político. Sua realidade é uma realidade estritamente política, portanto ele conhece muito bem a tirania daqueles que governam a pólis; seu desejo é restabelecer, pelos caminhos da justiça, sua cidade. Na última fase da Guerra do Peloponeso, iniciada no ano de 404 a. C., cuja consequência resulta na invasão e domínio de Esparta sobre Atenas, Platão desentende-se com seus familiares políticos, que na verdade compunham o grupo dos Trinta tiranos, “[...] – hoje diríamos: Ditadores – cujos excessos levariam à queda da oligarquia e à subida, mais uma vez do partido democrático.” 411 Podemos dizer que o pavor oligárquico de Crítias e de Cármides, bem como a restauração da democracia e sobretudo, o processo e condenação de Sócrates tenham levado a Platão a uma profunda reflexão, além de uma contínua tristeza. De acordo com os estudos de Bernard Piettre, filosofia e política são incompatíveis para Platão. Muitos acontecimentos fizeram o filóloso de Atenas a desviar-se de primeiro projeto – o político. Expressa Bernard Piettre: “[...] em primeiro lugar a amizade por Sócrates, [...] em segundo lugar o

410 REALE, Giovanni. op. cit. 1994. p. 7.

411 NUNES, Carlos Alberto. Marginalia platônica. Pará: Universidade Federal do Pará, 1973. (Coleção Amazônica / Serie Farias Brito). p.17.

fracasso do Governo dos Trinta, [...] consubstanciado no depotismo [...] (responsável por mais de 1500 execuções sumárias em menos de um ano) [...].” 412

Sabemos que a democracia ateniense nasceu justamente desses conflitos políticos. A democracia nasce não a partir da luta de classes, mas, da luta e do confronte de grupos políticos. Quando, finalmente, Atenas é derrotada por Esparta em 404 a. C., Crítias regressa do exílio que os democratas havia a ele imputado. Junto com Cármides, ele volta para chefiar o governo dos Trinta. Sobre as ações desse governo Xenofonte (430 – 355 a. C.) escreve: “Haviam os Trinta feito morrer grande número de cidadãos dos mais ilustres e desgarrado outros tantos da trilha da justiça”. 413 Os dois tios de Platão, Cármides e Crítias estão intensamente ligados a este conflito político. Disso, resultou seu profundo desgosto e desprezo pela democracia, podemos dizer que Platão não tem grandes amores pelas multidões como anunciamos nas palavras de Durant Will no primeiro capítulo dessa tese. Sem dúvida, o desencantamento com estas questões públicas da pólis, sobretudo com a morte de seu mestre, conduziu Platão por um caminho árduo que quase lhe custou a vida.

Esse grupo lutava contra os partidos democráticos com o qual Platão estava envolvido; assim, ele está inteiramente envolvido com questões dessa natureza. Ele mesmo afirma isso em uma carta endereçada a um amigo, a já conhecida Carta VII: “Quando eu era jovem, senti o mesmo que muitos: pensei, mal me tornasse senhor de mim mesmo, ir direto à política.” 414 Ele acreditava que os dirigentes da pólis pudessem, até então, restabelecer os caminhos da injustiça para os da justiça. A Atenas desse período vive uma verdadeira turbulência política. Aqueles que apoderaram do governo são gananciosos e mesquinhos. Historicamente pode se afirmar que o transcurso da vida desse filósofo está praticamente circunscrito entre o auge da democracia grega até o período helenístico. Tendo em vista a carreira filosófica e a carreira política, o acontecimento Sócrates, na vida de Platão é sem dúvida o maior acontecimento, na verdade, o impacto deste fato provocou causas profundas e duradouras na vida do filósofo.

Por intermédio de Sócrates e de sua incessante ação como perquiridor de consciência e de crítico de idéias vagas ou preconcebidas, o primado da política torna-se para Platão, o primado da verdade, da ciência. Se o interesse de Platão foi inicialmente dirigido para a

412

N.T. In: PLATÃO. A República livro VII. p.13.

413 XENOFONTE. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. (Os Pensadores). II, 32 414 PLATÃO. Carta VII. 324 5c.

política, através da influencia de Sócrates ele reconhece que o importante não era fazer política, qualquer política, mas a política. 415 Em termos de corrupção, descrétito político e usurpação de poderes, as

pólis contemporâneas identificam em grau, e gênero, com as poleis do tempo Platão e Aristóteles. Platão não podia mais suportar a democracia ateniense, ele sabia que os homens públicos de seu tempo não faziam política. Mais ou menos há quase quarenta anos atrás desses acontecimentos, Tucídides, ao registrar a Guerra do Peloponeso, conta-nos sobre a personalidade de homens tirânicos que já governavam as cidades da Hélade.

Além disso, os tiranos usurpadores do poder em cidades helênicas, preocupados apenas com seus próprios interesses tanto em relação à imunidade de suas pessoas quanto à prosperidade de suas famílias, na medida do possível fizeram da segurança pessoal o seu principal objetivo na administração das cidades, de tal forma que nenhum empreendimento digno de menção foi realizado por eles, exceto talvez por algum isoladamente em conflito com seus vizinhos. 416

A corrupção política parecia perpetuar-se no tempo também de Platão. Por isso, ele presta atenção no jogo político da pólis, e, com máxima precaução, observava os dirigentes. Tirar proveito e angariar vantagens para satisfazer interesses pessoais ou de pequenos grupos era, sem dúvida, o objetivo dos maiores dirigentes da

pólis. O projeto educativo de regeneração e salvação da pólis, que Platão propõe está fortemente relacionado a tais questões e, também a morte de Sócrates. Os conflitos e posteriormente a revolução contra o governo dos Trinta nascem justamente porque muitos cidadãos de Atenas detestavam o modo destes fazerem política. Com vista penetrante e atenta, ele está com os olhos fixos no chão da pólis; assim, ele escreve:

E logo vi que esses homens em pouco tempo mostraram que a antiga constituição era como de ouro. – Além disso, um amigo meu, mais velho, Sócrates, que eu certamente não me envergonharia de dizer ser então o mais justo de todos, mandaram-no com outros contra um dos cidadãos, conduzindo-o à força para a morte, afim de que fosse cúmplice dos negócios deles querendo ou não. Mas ele não se deixou se persuadir e arriscou-se a suportar tudo, em vez de se tornar cúmplice deles em atos ímpios. 417

415

N.T. Vida e Obra de Platão. In: PLATÃO. Diálogos: (Os Pensadores). p. X. 416

TUCÍDIDES. História da guerra do Peloponeso. Tradução e notas de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982. p.111.

Platão lembra com saudades da constituição antiga, pois os dirigentes de sua época governavam mal a cidade; por isso, ao elaborar seu projeto educativo, ele pensa em restabelecer os caminhos da justiça. Assim, é possível afirmar que o perfil educativo de seu programa de estudos é também essencialmente ético e exige conversão.

Retomando nossa reflexão teórica, portanto, existe um problema a ser resolvido por Platão. Recordando as palavras introdutórias, a morte de Sócrates é, sem dúvida, para Platão, uma questão de justiça, pois, seu mestre morre por uma causa pública. Embora Sócrates não tenha exercido estritamente as atividades políticas em Atenas, ele, contudo, é talvez o mais expressivo orador de Atenas. Ele sabe falar, aliás, sabe muito bem as tarefas do falar ou, mais precisamente, do dizer, e essa é a maior atividade política da pólis. De alguma forma, é possível dizer que os atenienses matam, então, aquele que sabe falar. Em suma, vão matar a Sócrates, que com ardor e ironia questionava a justiça. Atenas vai tirar a vida de quem mais louvava a justiça. A justiça de Atenas condena à morte Sócrates.

A cidade vivia a turbulência da impostura, da violência e da mentira. A acusação estava relacionada com as tarefas do dizer. Acusavam-o de corromper os jovens! A „ordem‟ legal condenara Sócrates à cicuta, a democracia corrompera-se pela demagogia, a própria Lei não representava mais justiça [...]. 418

Por isso, Platão coloca a questão da justiça como eixo central, como a origem e o fim de sua intencionalidade educativa. Ao projetar seu programa, mais precisamente, sua filosofia da educação, ele a envolve, a condensa, a amarra, e prende nos laços da justiça, da ética e da ordem. Nesse entrelaçar está a sua mais profunda concepção educativa.

No primeiro capítulo da obra República é apresentada a cena do diálogo entre Sócrates e Céfalo, dois velhos conhecidos, para não dizer amigos, há tempos não se viam; assim, dão início a uma conversa simples, amiga e íntima. Esse diálogo acontece na casa de Polemarco, filho de Céfalo, além dos personagens: Trasímaco, os irmãos Glauco e Adimanto, Líside e Eutidemo, irmãos de Polemarco, Carmantides e Clitofonte, todos interlocutores de Sócrates. Referindo-se ao seu antigo e conhecido

amigo, Sócrates fez uma ponderação: “Pareceu-me bastante envelhecido, pois fazia muito tempo que o não via. Ainda ostentava a coroa, [...] Por isso, sentamo-nos perto dele, nas cadeiras que ali havia, dispostas em círculo.” 419 Sócrates parece se comprazer em dialogar com pessoas de idade avançada; sempre trazia consigo a ideia de que tais pessoas podem nos dizer sobre a trajetória da existência da vida humana. Inicialmente os dois amigos, numa conversa intima sem grandes pretensões dialogam sobre a experiência da velhice, a reflexão gira em torno das condições, consequências e finalidade do envelhecer. “No teu modo de pensar, qual foi a maior vantagem que te proporcionou tua fortuna?” 420 Essa é a pergunta que Sócrates faz a Céfalo. Consciente de que sua resposta não agradaria aos demais interlocutores, replicou Céfalo: “A quem a consciência nada acusa, esse tem sempre por companheira a doce Esperança, como bondosa guardiã da velhice, no dizer de Píndaro.” 421 Nesse ínterim, parece que Céfalo estava tranquilo no diálogo; replicou-se como aquele que não deve nada a alguém, confiante também estava por ter a convicção de ter estado do lado da verdade, ou seja, parece que a verdade estava ao seu lado, e mais uma vez, relembra o poeta Píndaro. Seu argumento traduz a satisfação dos justos, ou seja, de alguém que durante a trajetória terrestre parece tê-la atravessado com tranquilidade.

Dessa conversa, Sócrates entende que ali nasce um primeiro conceito da justiça: o de Céfalo – que consiste em dizer a verdade e restituir o que se deve, isto é, em alguma medida, também ser justo. Da mesma forma, é justo aquele que diz a verdade e não fica em débito com alguém. Tendo inicialmente feito essa prévia, o diálogo toma nova direção, porém, o tema é o mesmo, a velhice.

Sócrates, em sua reflexão, procura relacionar o tema da velhice com a questão da justiça. Tanto para Sócrates, como para Céfalo, a velhice só tem sentido enquanto propósito e significado de vida. Os partícipes do diálogo não sabem como definir concretamente a justiça; Sócrates indaga a todos se a justiça deve ser somente uma questão de dizer a verdade e restituir os bens a quem se deve. Mais uma vez, outro poeta é lembrado no debate. “Não, Sócrates! Está muito certo, interferiu Polemarco, se tivermos de dar crédito a Simônides.” 422 Para cumprir seus sacrifícios religiosos, Céfalo, concordando com argumento de seu filho, retira-se do diálogo, deixando-o em seu lugar. Mais que dizer a verdade, Polemarco entende que o conceito de justiça é uma

419 PLATÃO. A República. 328 c.

420 ibid. 330 d. 421 ibid. 331 a.

questão de direito, o significado poético dado nessa segunda definição de justiça, significa “[...] dar a cada um, o que lhe é devido [...].” 423

Finalmente, o terceiro conceito de justiça é configurado por Trasímaco. Este, até então ausente do diálogo, irrompe intempestivamente o colóquio. Não aceitando o método de Sócrates, Trasímaco insiste que não se devem formular perguntas, e sim dizer com clareza e distinção o que realmente deve ser dito. Sócrates responde a Trasímaco:

Acreditas, mesmo, que se estivéssemos à procura de ouro, ficaríamos por gosto a fazer mesuras um para o outro, deixando, assim, passar a oportunidade de apanhá-lo no chão? E agora, que estamos empenhados a encontrar a justiça, coisa de muito valor do que montões de peças de ouro, haveríamos de ser tão insensatos que empregássemos o nosso tempo com cortesias de parte a parte, e assim deixássemos passar a oportunidade de descobri-la? 424

Após ter entrado no debate, Trasímaco fala da justiça a partir da ideia de força e de inteligência. Trasímaco está investigando e defendendo a vantagem do mais forte a partir da política da pólis, ele não está apenas teorizando sem um chão seguro, ao contrário seu argumento está fundamentado na vida administrativa e política da cidade. Os estudos de Giovanni Reale revelam três momentos da sofística,425 ou seja, existiram três grupos diferentes; três tipos de mestres da retórica. O primeiro: é o da geração dos grandes mestres como Protágoras. O segundo é o da geração dos “[...] „eristas‟, isto é, aqueles que explorando o método sofístico [...] transformam a dialética sofísitica numa estéril arte de contendas [...], enfim, os políticos sofistas, homens políticos [...].” 426 Este último, talvez Trasímaco possa fazer parte, o da geração dos políticos sofistas, ou seja, homens que aspiram ao poder político. Na verdade Trasímaco da Calcedônia subverte e critica toda a visão política tradicional da pólis, sobretudo os fundamentos religiosos e mitológicos. A possibilidade da definição de justiça consiste em pensar no interesse do mais forte, explica Trasímaco a Sócrates. “Então, ouve, me falou; o que afirmo é que o justo não é nem mais nem menos do que a vantagem do mais forte.” 427 Nessas circunstâncias, o debate ganha maiores amplitudes, se torna um tema, contudo, político, explica mais uma vez Trasímaco. “Ignoras, porventura, continuou, que as cidades ora

423 PLATÃO. A República. 332 a.

424 ibid. 336 e.

425 REALE. Giovanni. op. cit. 2009. p.33. 426

ibid. p.33.

são governadas por tiranos, ora pelo povo, ora por aristocratas?” 428 Na concepção de Trasímaco, cada governo deve gerir suas leis e normas, tendo em vista o próprio benefício. Trasímaco tem razão de assim o afirmar, ele, assim como Sócrates, também conhece o governo das poleis, de acordo com sua em visão política, os dirigentes da

pólis não têm feito outra coisa senão promulgar leis com vista à vantagem própria, por isso, calculadamente, insiste que os governantes devem sim promulgar leis e normas que visem o sucesso, a fama e os interesses de quem governa. Essa é a realidade que ali se vê. “Atenas era um burburinho de ideias e um fervilhar de debates e proposições.” 429 Sobretudo a partir do século V a. C., os acontecimentos políticos, sociais e econômicos de Atenas ganham nova dimensão. Na perspectiva educativa um novo horizonte começa a surgir. Uma intensa agitação se esboça contra a educação antiga.

A nobreza tradicional, os eupátridas – que fundava a sua hegemonia na posse da terra – viu crescer e afirmar-se outra classe social até então desprezada, a dos metecos ou comerciantes, cuja riqueza estava de tal modo ligada aos negócios da navegação, que mais de uma vez foi denominada „a gente das costas. ‟.430

Trasímaco conhece as leis de Atenas, e diferentemente de Sócrates, enxerga o quadro social e moral de Atenas completamente ao avesso da visão do