Ao analisar o construto da auto-regulação da aprendizagem, entende-se que o pedagogo tem consciência dos emergentes problemas que o trabalhador e os espaços não- escolares enfrentam. Isto remete a pensar que o pedagogo, em relação ao contexto, está também atrelado a questões emergentes manifestas pelos trabalhadores e pela espaço educativo. A auto-regulação inclui questões cognitivas, motivacionais e contextuais. A questão contextual é vista por teóricos como Veiga Simão (2002, 2003, 2004), Lopes da Silva (2004), Rosário (2006), como a responsável pelo gerenciamento do espaço e do tempo em que as ações de aprendizagem acontecem. Neles estão implícitas as diferenças individuais e culturais, a diversidade humana e territorial. Perceber estas diferenças ajuda a organizar estratégias e espaços de atuação que podem facilitar a articulação dos conhecimentos prévios que os educandos-trabalhadores trazem de suas experiências pessoais, como também permite que corroborem a organização do planejamento individual e do grupo, numa proposta coletiva.
Através do planejamento, é feita, portanto, a seleção de estratégias e de metodologias específicas, levando-se em consideração o contexto real de trabalho e as possibilidades de desenvolvimento de cursos de treinamento, formação e qualificação. O planejamento precisa articular estrategicamente formas de perceber as condições que estimulam e fazem os educandos-trabalhadores se envolverem, produzirem, construírem.
Na pesquisa realizada, verifica-se a predominância de cursos realizados de forma presencial. Alguns dos pedagogos entrevistados falaram na possibilidade de realizarem cursos
on-line, denominados cursos e-learning. Nenhum dos entrevistados, porém, implementou esta
modalidade de formação, no seu local de trabalho, devido às dificuldades encontradas para investimento nesta área, como os poucos recursos disponibilizados para esta finalidade. A maioria dos entrevistados refere utilizar a internet para descobrir ofertas de cursos ou novidades existentes no mercado que possam ser adotadas pela empresa, mas sua implementação depende da aprovação do custo. O E2 especifica: “inicio o trabalho mostrando aos trabalhadores alternativas para que eles possam se envolver e participar; disponho de uma verba para os cursos, dentro desta margem, procuro encontrar alternativas que vão ao encontro das necessidades indicadas pelo grupo”. Existe, nas empresas, a preocupação com a formação, mas sua efetivação está atrelada às disponibilidades econômicas, o que, muitas vezes, engessa as tentativas inovadoras do pedagogo. O E2 diz: “a formação acontece dentro e fora do local de trabalho” – a empresa percebe, portanto, a necessidade de o trabalhador ter
oportunidades de conhecer contextos diferentes que lhe permitam uma leitura mais contextualizada da realidade.
Nesta dimensão, na realização do planejamento, o pedagogo prevê, dentro das condições da empresa, ações e atividades, a serem implementadas pelos trabalhadores. O trabalhador também participa do planejamento apresentando sugestões sobre as estratégias escolhidas, como mostram algumas afirmações dos entrevistados: “ouço os trabalhadores para depois propor alternativas, para iniciar o trabalho realmente” (E1); “incentivo que pensem na realidade contextual para argumentar a defesa do projeto” (E5); “organizamos programas para que os trabalhadores possam aprender no ambiente de trabalho” (E12).
Em relação a esta fase do planejamento, que considera as questões contextuais, muito ainda precisa ser feito, apesar de já existirem pedagogos atuando no planejamento de propostas e de práticas que objetivam envolver os educandos-trabalhadores. Pela análise dos dados coletados com os pedagogos em espaços não-escolares, percebe-se que o planejamento está mais voltado para “o que fazer” do que “onde e quando fazer”. As questões contextuais passam a ser, muitas vezes, improvisadas, o que dificulta bastante o desenvolvimento das propostas de aprendizagem definidas pela organização. As condições do ambiente influenciam a aprendizagem e muitas dificuldades são encontradas na hora de organizar um planejamento, principalmente, quando as questões dizem respeito ao tempo e ao espaço necessários para envolver o aprendiz na proposta de formação. Algumas vezes, o curso é oferecido porque faz parte das metas a serem atingidas pela organização, acabam implementando o que ela definiu como importante ou essencial, mesmo que nem sempre coincida com as necessidades desveladas pelo grupo de educandos-trabalhadores.
Há também forte preocupação com as questões econômicas, o que reduz as possibilidades de o pedagogo fazer algo diferente ou inovador e o deixa sem muitas alternativas. Um dos entrevistados (E2) revela que organiza e planeja os cursos de formação de acordo com o valor estabelecido para tal atividade. Apesar de fazer vários orçamentos, só pode gastar o que ficou estabelecido. Neste depoimento, está explícito que o planejamento acaba sendo moldado não por fatores correspondentes ao interesse e às necessidades do grupo, mas pela determinação econômica. Mesmo assim, alguns pedagogos dizem que atingem excelentes resultados de aprendizagem e que atendem aos objetivos traçados com esta finalidade. Estas afirmativas conferem relevância ao processo formativo realizado nos espaços não-escolares – o que fortalece a necessidade da participação do educando- trabalhador no planejamento das propostas de formação, para que sejam atendidas as demandas e as necessidades de aprendizagens percebidas por eles.
A dimensão do contexto se revela, embora com limitações, no ambiente onde acontece a ação, e, especialmente, nos agentes da ação. Este entendimento é expresso em alguns depoimentos dos entrevistados: “estamos tentando montar uma matriz de capacitação, verificando as necessidades existentes no grupo” (E1); “discuto com o profissional contratado que vai trabalhar o conteúdo, qual sua dinâmica, se reflete sobre o que faz, se respeita as necessidades que lhe foram solicitadas” (E9). O contexto define muitas coisas, porque ninguém faz nada sozinho, porque um pode ajudar e controlar a ação do outro, como mostra, por exemplo, a fala do E11: “identifico os principais problemas existentes no grupo de trabalho, distingo aqueles que são passíveis de treinamento e aqueles que são resultados de condicionamentos organizacionais”.
Segundo Veiga Simão (200, p. 195), “é necessário propor as condições pessoais, sociais e ambientais que levem os alunos [trabalhadores] a tornarem-se auto-regulados e competentes na sua aprendizagem” [grifo meu]. Esta ação, mesmo que seja uma necessidade pessoal, individual, está atrelada ao outro e, portanto, depende também do outro, da experiência social e cultural. Assim, autonomia/dependência estão muito próximas, uma atrelada à outra, configurando-se como um fator importante para a auto-regulação. Esta dimensão evidencia que as pessoas precisam ter autonomia para criar, decidir, optar, fazer por si, ainda que atreladas a normas, costumes, regras, imposições da organização, que as colocam em condição também de dependência. A auto-regulação contribui para as aprendizagens através de experiências vividas, contextos, práticas realizadas com outras pessoas, busca de autonomia na tomada de decisões.
4.3.2 Fase realização: relacionada às dimensões cognitiva/metacognitiva, motivacional e