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Para analisar as representações construídas no cotidiano das pessoas, é mister compreender como essas classificam e categorizam o que é apreendido da realidade. Conforme Roazzi (1995), compreender como o sujeito classifica e categoriza a realidade é

fundamental para entender comportamentos, formas de visão e múltiplas facetas humanos. Assim, tomou-se um procedimento que levou em consideração o respeito às formas como o sujeito pensa e constrói o mundo.

O senso comum, sendo uma das formas de conhecimento, torna inevitável que o estudo das representações sociais esteja fortemente ancorado à esfera cognitiva; porém, além de ser entendido apenas no nível individual, deve o conhecimento ser remetido às condições sociais que o elaborara e compartilhara (SPINK, 2004). Ou seja, só pode ser analisado tendo como contraponto o contexto social em que emerge, circula e transforma (SPINK, 2004, p. 93). Nesse sentido, a autora afirma que o contexto de produção e circulação das representações sociais está presente nos estudos empíricos tanto em estudos de situações sociais complexas, como em instituições, comunidades e eventos, quanto focalizando sujeitos, agentes e atores com papéis sociais definidos, como é o caso dos gestores sociais desta pesquisa.

A intervenção empírica se deu por meio da aplicação de entrevista semi- estruturada. Na entrevista, segundo Cruz Neto (1994), o pesquisador busca obter informes contidos na fala dos atores sociais. A escolha da entrevista como método é corroborada por Spink (2004), que afirma que as técnicas verbais são a forma mais comum de acessar as representações sociais. A autora complementa que:

Há, sem dúvida, uma nítida preferência pelo emprego de entrevistas abertas conduzidas a partir de um roteiro mínimo. Dar voz ao entrevistado, evitando impor preconcepções e categorias do pesquisador, permite eliciar um rico material especificamente quando este é referido às práticas sociais relevantes ao objeto da investigação e às condições de produção das representações em pauta (SPINK, 2004, p. 100).

A coleta de dados foi, pois, efetuada através de entrevistas, com gravação magnética e transcrição literal das falas. Esse método permite, através do discurso dos atores, o acesso a dados da realidade, como idéias, crenças, maneiras de pensar, opiniões, sentimentos, condutas e comportamentos, ao tempo em que valoriza a presença do investigador e oferece oportunidade para que o informante alcance toda a liberdade e espontaneidade necessária para a investigação (LEFEVRE, 2000).

Por se tratar de um estudo em que se pretendeu conhecer motivações e atitudes de gestores sociais, optou-se por elaborar um roteiro de entrevista com 05 (cinco) perguntas abertas, formuladas a partir da abordagem societal de Doise, quais sejam: interacionais, posicionais ou de valores e de representações e crenças gerais. As entrevistas foram realizadas

durante os meses de fevereiro e março de 2007 e aconteceram na sede das organizações pesquisadas. A entrevista na própria organização foi de grande valia, pois permitiu observar o gestor dentro do seu ambiente de trabalho, bem como relacionamentos com os pares. Por motivos compreensíveis, à exceção das organizações que trabalham com alcoolistas e drogadictos, foi de interesse dos gestores entrevistados, a apresentação das instalações da organização, do grupo de trabalho, dos beneficiários e do próprio trabalho sendo executado. 3.4 Análise e discussão dos resultados

Tendo como base as informações obtidas nas entrevistas com os gestores sociais, para análise dos dados se utilizou o procedimento metodológico proposto por Bardin (1997), em uma das técnicas de análise de conteúdo, denominada análise categorial. Este modelo de análise funciona por operações de desmembramento do texto em unidades, em categorias de acordo com reagrupamentos analógicos.

Antes de analisar o conteúdo das falas dos entrevistados, vale descrever alguns pontos peculiares da amostra pesquisada. Dos oito gestores entrevistados, sete possuem formação superior. Nenhum dos gestores possui formação na área administrativa. As gestoras das ONGs, que trabalham com integração social através da arte e educação, são bailarinas, ambas com experiência internacional e uma delas possui mestrado na área. Dos dois que trabalham com prevenção e tratamento de álcool e dependência química, um é médico e outro psicólogo e psicopedagogo. As ONGs que prestam assistência à saúde infantil são geridas por uma pedagoga e uma psicóloga. Dos gestores de ONGs que militam com ação comunitária, um é sociólogo com mestrado em educação popular e o outro tem formação em mecânica de automóveis. Sem exceção, os gestores dizem possuir formação empírica em administração ou em assistência social, e ressaltam que, pela militância, se tornam mais capacitados para a gestão que um administrador ou um assistente social. Nenhum deles associou o trabalho da organização à pertença de uma crença ou vinculação religiosa. Três dos entrevistados são, além de gestores, fundadores da organização. Os demais foram convidados, em algum momento, a assumir a gerência.

Para efeitos da análise dos resultados, optou-se por separar as ONGs por área de atuação, agrupando pares de gestores. Dada à heterogeneidade das organizações, essa estratégia permitiu inferir que representações, desafios e empecilhos dos gestores, por grupo de ONG, são semelhantes. Foram entrevistados os gestores das seguintes organizações não- governamentais: EDISCA – Escola de Dança e Integração Social para Criança e Adolescente

e Grupo Bailarinos de Cristo Amor e Doações, na área de integração social através da arte e educação; Desafio Jovem do Ceará e Instituto Volta Vida, na prevenção e tratamento do álcool e dependência química; IPREDE – Instituto de Prevenção à Desnutrição e à Excepcionalidade e Associação Peter Pan, na assistência à saúde infantil, e, na ação comunitária, a Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza e o Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos.

Contemplando os quatro níveis de análise propostos pela abordagem societal de Willen Doise, este trabalho mapeou a forma como os gestores representam o papel que desempenham na gestão de organizações sociais. O primeiro nível de análise focaliza os processos intra-individuais e trata do modo como os sujeitos organizam experiências frente ao ambiente, procurando saber como os gestores se sentiam em relação à própria capacitação para a gestão. Todos se sentem aptos a gerir, porém, ressaltam dificuldades que enfrentam para alcançar as competências necessárias. A fala dos gestores permitiu inferir uma ênfase em habilidades técnicas para a gestão da organização. A maioria relatou que, por não possuir formação em administração, procurou algum tipo de treinamento na área administrativa, ressaltando, porém, que a capacitação se deu, realmente, na prática cotidiana:

Eu comecei a dar uns mergulhos grandes, para lidar com esse tipo de coisa, para falar a linguagem dos gestores, como assim, abrangência, área social, situação de risco, impacto. Você vai aprendendo dentro desses cursos que você vai fazendo com pessoas capacitadas (gestora do Grupo Bailarinos de Cristo Amor e Doações). Então eu fui ler tudo o que eu podia a respeito do assunto. Posso dizer que a minha capacidade se fez de maneira empírica, vendo se o que eu fazia tava dando certo (gestor do Desafio Jovem do Ceará).

Nesses cinco anos fiz de tudo aqui. Trabalhei na recepção, na triagem, no ambulatório, no administrativo. Eu conheço de tudo um pouco do trabalho que a gente faz aqui (gestora do IPREDE).

Depois, ao longo da minha permanência na Instituição, nós fomos recebendo capacitação, participamos de oficinas de férias, participamos de eventos de capacitação, de fóruns, que vão nos potencializando, vão complementando, vamos dizer assim, nosso conhecimento, nossa formação para atuar na coordenação ou na gestão desses projetos (gestor do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos).

A aquisição de habilidades técnicas envolve, assim, a apropriação da linguagem, a leitura de conteúdos especializados, a prática adquirida pela via do trabalho cotidiano e a capacitação a partir de eventos de curta duração.

A ênfase em habilidades sociais para a gestão da organização foi exposta apenas por um dos gestores que trabalha com ação comunitária. Saliente-se que, à exceção deste

gestor, nenhum outro pertence à mesma classe social para a qual presta serviço, ou enfrenta as mesmas dificuldades dos beneficiários da organização em que atua. Na fala do gestor da Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza, pode-se perceber que, devido à atuação da organização ser próxima do cotidiano do gestor, estando ele na condição de líder e de parte interessada, há razão para a exposição de habilidade social.

Eu gosto de dizer que as lideranças comunitárias normalmente são pessoas que têm uma grande virtude: elas não conseguem ver um amigo, um vizinho, um parente, uma pessoa sofrendo, e ele fazer de conta que eles não têm nada a ver. Ele vai lá olhar, ver o que é que pode fazer. Às vezes ele não tem nada a ver. Mas pelo menos eu tou aqui com você, cheguei junto, eu tou oferecendo meu ombro pra você chorar (gestor da Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza).

Ainda na análise dos processos intra-individuais dos gestores sociais, procurou-se compreender que tipo de experiências de vida ou de trabalho, anteriores e exteriores à organização, foram relevantes à prática de gestão. Tal perspectiva permitiu analisar a importância dos valores que motivam os gestores das organizações não-governamentais pesquisadas. Foi possível, assim, observar que, conforme Carvalho (2000), nas ONGs, as motivações sociais revelam forte relação dos indivíduos com a comunidade e as motivações pessoais se traduzem em compromisso comum que conduz os membros a compartilhar objetivos e normas carregados de um simbolismo que as mantém unidas. Os dados aqui evidenciam que a metade dos gestores atribui às experiências de vida relevância para a prática da gestão. A influência da experiência familiar com práticas solidárias e agravos próprios de saúde, demonstrando ação auto-interessada, foram citados como fatores relevantes e/ou desencadeantes para o surgimento da organização ou o engajamento em trabalhos sociais. Durante as entrevistas, a maioria dos gestores deixou fluir emoção ao lembrar acontecimentos passados:

Bem, na medida em que a culpada é sempre a mãe, eu acho que a minha mãe teve uma parcela muito grande, obviamente, nós estamos falando uma coisa totalmente óbvia, no que eu sou. Minha mãe é a mulher mais generosa que eu conheci na vida. Na minha casa era impossível você ter um dia, um único dia na semana, tá entendendo, que não tivesse alguém em qualquer das refeições, ou no café da manhã, ou no almoço, ou no jantar. A minha casa foi sempre muito cheia. E cheia de todo tipo de pessoas, assim, pessoas doentes que ela encontrava na praia ou no sertão, ela levava pra nossa casa (gestora da EDISCA).

A próxima fala é de uma gestora que perdeu a mãe aos 10 anos de idade. A entrevistada relatou que a mãe ajudava pobres na cidade do interior do Ceará onde a família morava, chegando a vender objetos da própria casa para ajudar aos necessitados do lugar. A

gestora deixou claro que isso levou minha mãe a ter problema de nervos muito sério. Ela não soube conviver com a desigualdade social. Em 1973 ela morreu. Acerca da experiência de vida como fator relevante para a sua prática de gestão, complementa:

Então isso, pra mim, se deu pelo meu dom e pela grande coisa que a minha mãe deixou pra mim, esse amor, essa responsabilidade social, que, como é que ela podia ter isso há tantos anos atrás, como que ela pode ser aquela pessoa. Então eu me sinto feliz de poder continuar (gestora do Grupo Bailarinos de Cristo Amor e Doações). Problemas graves de saúde, durante os quais os sujeitos, segundo os relatos, se confrontaram com restrições sociais e questionaram o valor e a razão da própria vida, foram citadas como experiências relevantes para o início do trabalho em organizações sociais:

Aí eu tive um AVC e entrei em coma. Lá na UTI, nos momentos que eu tinha um pouco de lucidez, eu ficava pensando, eu não fiz nada para ajudar o mundo, as pessoas, pra diminuir o sofrimento de alguém. Quando eu saí da UTI, resolvi colocar o que eu pensava pra frente e acabei vindo parar aqui (gestora do IPREDE).

Aconteceu comigo um fato interessante: sofri um infarto fulminante e fui para São Paulo me tratar. O médico lá mandou minha mulher me trazer de volta e me deu 3 meses de vida. Quando se passaram os 4 meses e eu não morria, minha mulher me disse que eu tinha que viver para continuar esse trabalho. Me aposentei, e hoje tenho 83 anos e estou aqui, trabalhando todos os dias, de manhã e de tarde. Acho que está dando certo (gestor do Desafio Jovem do Ceará).

Há outras motivações, além da ação auto-interessada, por parte dos gestores. Porém, vale aclarar, nenhum deles atribui a militância a fatores econômicos ou à busca por ganhos financeiros:

Bom, a minha facilitação por ser psicólogo, por exemplo, é esse lado humano, porque a gente tem que lidar com as pessoas (gestor do Instituto Volta Vida).

Antes de eu ser diretor da Federação de Bairros e Favelas eu fui, ainda sou, diretor do Sindicato dos Comerciários de Fortaleza. Como diretor do sindicato eu fui secretário de formação sindical, fui tesoureiro, secretário de organização, e depois fiquei três mandatos lá na executiva do sindicato. Então isso me deu um aprendizado muito grande do ponto de vista da gestão do movimento social (gestor da Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza).

Desse modo, pode-se perceber a importância da racionalidade substantiva na proposta de um modelo de gestão para as organizações sociais. Os motivos que levaram os gestores entrevistados à ação social, sejam de vida ou de trabalho, não se ancoram nos pressupostos da racionalidade instrumental. Contemplar essa dimensão, com critério, é mister aos teóricos em gestão social. Partindo da formação dos gestores, estes poderiam, por razões

instrumentais, perceber maior remuneração se buscassem o desenvolvimento profissional. O segundo nível de análise da abordagem societal de Doise examina os processos inter-individuais e situacionais e busca, nos sistemas de integração, os princípios explicativos típicos das dinâmicas sociais. Nesse ponto, buscou-se saber dos gestores que fatores eles consideram relevantes em suas relações com os demais integrantes da organização. Foi possível, assim, trazer à luz aspectos importantes da gestão das organizações pesquisadas, tais como: habilidades utilizadas pelo gestor nos relacionamentos interpessoais, tipo de liderança, importância do domínio da linguagem no trabalho da organização, capacidade de mobilização, importância da vocação e envolvimento emocional. Das falas dos gestores pode- se perceber que, de modo inverso à ênfase em habilidades técnicas usadas na gestão da organização, as habilidades sociais foram, unanimemente, relatadas como as utilizadas nos relacionamentos internos:

Eu trabalho com seres humanos, e para trabalhar com seres humanos, subjetividades, não é tão simples (gestor do Instituto Volta Vida).

Todas as ações são planejadas de maneira coletiva, são periodicamente também avaliadas de maneira coletiva (gestor do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos).

Nas áreas que eu não entendo, que eu não tenho muita facilidade, eu tenho pessoas de confiança absoluta que estão à frente, que me repassam tudo, transcodificando pro meu entendimento (gestora da EDISCA).

Os relatos vão ao encontro da afirmação de Fischer (2003) quando diz que, embora todas as organizações necessitem ter fortes vínculos das pessoas com suas estratégias, nas organizações do terceiro setor é preciso que essa identidade organizacional seja ainda mais profunda, estimulando o compartilhamento da visão comum, o que é aqui manifesto pela relação intersubjetiva, pelo trabalho coletivo e pela confiança mútua.

A liderança descentralizada, tipo característico das organizações sociais, desde o surgimento das Comunidades Eclesiais de Base, é a prática da maior parte das organizações pesquisadas. A fala dos gestores encontra eco na afirmação de Ramos (1989), ao afirmar que, nas isonomias, a tomada de decisões e a fixação de objetivos são feitas de forma consensual. Ainda, para Ramos (1989), a isonomia é concebida como uma verdadeira comunidade, onde a autoridade é atribuída por deliberação de todos os membros. No caso das organizações pesquisadas, os gestores expõem a importância do consenso entre os membros da organização para que o trabalho seja efetivado. Dito isso, pode-se reportar à importância do universo consensual na gênese das representações sociais. No caso desta pesquisa, nenhum dos

gestores possui a qualificação profissional e, conseqüentemente, a competência adquirida que dá ao indivíduo a possibilidade de se expressar, características do universo reificado. Assim, pode-se indagar qual pertinência os gestores sociais atribuem às ferramentas administrativas utilizadas pela gestão das organizações públicas e privadas. Das falas, infere-se que os gestores constroem um estilo próprio de gestão, modelando-o conforme o consenso entre os colaboradores e às contingências da organização.

Eu escuto desde o meu serviços gerais até meu contador, meus outros psicólogos que tem dentro da instituição, que eles me ajudam a tomar decisões (gestor do Instituto Volta Vida).

A idéia é uma relação mais horizontal ... (gestor do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos).

Carvalho (2000) afirma que a conjuntura social se transformou e o terceiro setor igualmente, sob aumento na demanda por organizações voluntárias. Pelos relatos, o foco, no entanto, não se detém apenas a uma visão romântica de um grupo de pessoas trabalhando sob estrutura hierárquica horizontal, baseada na igualdade e na fraternidade, mas, na efetividade do trabalho, apesar da forte presença de critérios substantivos na condução da organização. Tal fato fica nítido pela importância dada ao domínio da linguagem para o trabalho da organização, pois, no atual contexto, afirma Carvalho (2000), a proposta é um modelo de gestão para o terceiro setor que considere relevantes critérios de competência, produtividade e eficiência. Derruba-se, de certa forma, a idéia recorrente nas organizações sociais de que as pessoas envolvidas na gestão social, por acreditar que estão fazendo a coisa certa e comprometidas com a causa, alcançam bom desempenho organizacional (PACE et alii, 2004). Não foi declarada a importância no domínio da linguagem por parte dos gestores das ONGs de ação comunitária. Este traço pode estar relacionado à não necessidade de uma formação profissional específica para o trabalho comunitário. Os gestores das demais organizações demonstram, nas falas, tal relevância:

A gente tem uma exigência muito grande no que é ligado à competência profissional das pessoas que fazem a EDISCA junto conosco (gestora da EDISCA).

Eu tenho que contratar pessoas pelo que elas são, como pedagoga, como professor de computação, como professor de línguas (gestora do Grupo Bailarinos de Cristo Amor e Doações).

Aqui eu tenho psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, coordenadores, professores de música, educadores que fazem o acompanhamento aos internos 24 horas por dia (gestor do Desafio Jovem do Ceará).

Porém, mesmo com a ênfase na relevância do domínio da linguagem, habilidade essencialmente vinculada à formação profissional, a importância à vocação foi uma característica distintiva na fala dos gestores, à exceção, mais uma vez, das ONGs de ação comunitária, que privilegiam o esforço e o comprometimento com a comunidade em detrimento da vocação para o trabalho. Essa característica corrobora com Ramos (1989), ao afirmar que, nas organizações em que as pessoas buscam estilos de vida que vão além dos impostos pelo mercado, dominador da sociedade como um todo, as atividades são promovidas como vocações e não como empregos:

A EDISCA não dá emprego, dá causa (gestora da EDISCA).

Tem mais do que saber dançar. Tem que amar isso aqui (gestora do Grupo Bailarinos de Cristo Amor e Doações).

Eu digo que a gente não trabalha no IPREDE, a gente faz o IPREDE (gestora do IPREDE).

Eu vejo a dedicação deles aqui. E, olha, não é fácil trabalhar com drogados (gestor do Desafio Jovem do Ceará).

E as pessoas que estão envolvidas dentro do Instituto comigo, me dando suporte, só continuam aqui na instituição nos ajudando por conta dessa boa vontade (gestor do Instituto Volta Vida).

As organizações sociais, freqüentemente, carregam forte apelo emocional vivenciado pelo líder e compartilhado com outros membros, segundo Carvalho (2000). Essa característica foi marcante na fala de sete dos oito entrevistados. Eles evidenciam a necessidade de vínculo emocional próprio e dos colaboradores para o andamento efetivo do trabalho. Isso mostra, ainda conforme Carvalho (2000), que o tom emocional atrelado à causa social mobiliza ações significativas e fundamentais para a sociedade.

Porque quem não tem amor pela causa, quem não tem garra por isso não fica (gestora da EDISCA).

É importante saber se a pessoa tem um equilíbrio emocional para ter vínculo com essas crianças e esses adolescentes (gestora da Associação Peter Pan).

Eu vejo como eles são carinhosos com as crianças, com as mãezinhas. O que a gente

Benzer Belgeler