Em abalizada avaliação histórico-evolutiva do contexto regional das relações de trabalho, a auditora fiscal Míriam T. V. da Silveira147 destaca aspecto cultural de significativa
importância para a compreensão das tensas relações entre as instituições do trabalho e as entidades de representação empresarial, apoiadas por outros segmentos da sociedade local. Os proprietários rurais tomadores de serviço daqueles trabalhadores sazonais, àquela época desprovidos de uma estrutura mínima para o recebimento de grande contigente dessa mão-de- obra, não se sentiam, definitivamente, responsáveis pelas condições de trabalho, de vida, de proteção e de saúde destes trabalhadores pelo fato não estarem diretamente vinculados às suas propriedades, mas aos gatos.
Tratava-se de uma situação socialmente aceita e de acordo com uma concepção civilista da contratação do trabalho. Por isso, a concessão de áreas “residenciais”
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Na visão do STRP, os agenciadores de mão-de-obra comercializam “a força de trabalho alheia como se dela fosse dono”, além de terem completa ascendência sobre a vida privada de tais trabalhadores, possuem controle absoluto sobre suas ações e interesses contratuais na frente de trabalho.
(alojamentos) à beira de rios ou riachos contíguos às lavouras de café já significava um ato de boa-vontade para quem não se compreende responsável por este “estado de coisas”.
A persistência de fortes traços culturais nos quais está enraizada a mentalidade civilista nos contratos de prestação de serviços firmados com intermediários de mão-de-obra e nas suas relações com os trabalhadores contratados nessas condições explica a indignação e a forte reação dos setores empresariais rurais da região contra a atuação das instituições do trabalho, com exigências decorrentes da concepção tutelar do trabalhador, característica da legislação trabalhista.
Embora a maioria dos trabalhadores ocupados na região seja constituída de trabalhadores temporários vindos de outras regiões, a questão trabalhista local não se resume às relações temporárias de trabalho.148
A questão trabalhista na agropecuária foi percebida pelos setores empresariais rurais com vezo de dramaticidade, porém com conseqüências reais em detrimento das atividades produtivas e da ampliação das possibilidades de desenvolvimento da atividade rural e da ocupação.
Em seu diagnóstico acerca das relações de trabalho e do modo de produção rural na região (agricultura e pecuária), o Sindicato Rural de Patrocínio anota que, ao lado de grandes empresas rurais, reúnem-se pequenos e médios produtores rurais dedicados à atividade rural de subsistência.
A insuportabilidade dos custos sociais e econômicos do modelo de organização do trabalho, bom como da sua regulamentação e solução de conflitos, tem gerado o desemprego e o desestímulo ao produtor rural. O temor das conseqüências decorrentes da manutenção de contratos de longo prazo na pecuária reduziu consideravelmente as relações de trabalho de maior duração, o que vem estimulando uma maior rotatividade das contratações.
O contrato de emprego foi sendo substituído, paulatinamente, por contratos de prestação de serviços sob regime de pequena empreitada para a realização de tarefas antes realizadas por empregados permanentes. Mesmo as atividades principais, como a exploração da produção leiteira, tem sido transferida para arrendatários, parceiros ou meeiros, com o fito de se preservar a natureza não trabalhista das relações de prestação de serviços.
A despeito de tais alterações na forma de contratação, a ação das instituições do trabalho vinha ignorando a autonomia do trabalhador na prestação dos serviços, a ausência de interferência do proprietário no desenvolvimento das atividades produtivas, a participação
societária do prestador dos serviços nos resultados da produção do leite, a regra do arrendamento permissiva do cultivo sob regime de meia de parte da propriedade sob direção exclusiva do parceiro-meeiro-arrendatário, a cláusula de moradia desse trabalhador como integrante do contrato societário, o recebimento de rendimentos societários em razão da associação produtiva pretendida pelos contratantes, a possibilidade e efetiva contratação de terceiros ou a participação de familiares do sócio prestador de serviços no cumprimento do contrato, de tal modo a compreender cada um desses itens como cláusulas de contrato de emprego.
Nessa situação, agravada pelas formalidades processuais concernentes à presunção de existência de vínculo de emprego149, com transferência da responsabilidade da
prova em contrato pelo sócio-arrendante-meeiro, cresceram as preocupações dos proprietários rurais, em especial dos pequenos e médios empresários.
O sistema de relações de trabalho inspirou na categoria produtora local um sentimento de “acuamento” em relação à ação das instituições do trabalho. Os setores da cafeicultura e da pecuária passaram a se sentir extremamente penalizados ante as “dificuldades advindas da área trabalhista”.
Muitos foram os empregadores que deixaram de potencializar a capacidade produtiva de seus empreendimentos, preferindo deixar de reinvestir em suas propriedades e, aos poucos, ir migrando para setores não produtivos ou “menos arriscados”.150
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A compreensão da sociedade local acerca de tais presunções pode muito bem ser traduzida em máxima reiterada popularmente no cotidiano da vida no sentido de que: “uma mentira afirmada em juízo pelo trabalhador-reclamante vale por dez verdades afirmadas pelo tomador de mão-de-obra rural”. Cf. VASCONCELOS, Sindicatos na administração da justiça, 1995b, p. 38 (Diagnóstico acerca das relações de trabalho e modo de produção rural na região de Patrocínio - § Sob a ótica do Sindicato Rural de Patrocínio).
150 Em conversações preparatórias da constituição do Núcleo Intersindical de Conciliação Trabalhista de
Patrocínio/MG registraram-se depoimentos espontâneos de proprietários rurais cuja eloqüência revela o paroxismo da crise do sistema de relações de trabalho local: a) O primeiro refere-se ao proprietário rural que procedeu à destruição de 20 casas destinadas à residência de trabalhadores rurais em sua propriedade. Não queria ele deixar-se tomar do sentimento humanitário que sempre lhe traía na hora da contratação no sentido de conceder moradia ao trabalhador contratado, ainda que esta circunstância lhe significasse maior ônus em eventuais demandas trabalhistas. Desta sorte estaria libertado desta revoltante situação, que, a seu ver, significa a desagregação das relações sociais no campo, vez que não havia mais a relação quase familiar entre trabalhadores e proprietários rurais como lembra ocorrer no caso de seus ancestrais, os quais eram “padrinhos de casamento e dos filhos dos proprietários”; b) O segundo retrata o caso do proprietário que, desiludido, mandou destruir suas lavouras de café em plena produção para em seu lugar lançar “sementes de capim braquiara” para, então, dedicar-se à criação de “gado de corte”, uma vez que nesta atividade com apenas um ou dois “retireiros para olhar-lhe o gado, tocaria o negócio”, ao passo que “na lavoura de café, todo ano era obrigado a contratar centenas de trabalhadores, o que fatalmente lhe custaria muita ansiedade, vergonha e dores de cabeça” (Cf. VASCONCELOS, Sindicatos na administração da justiça, 1995b, p. 38. OS.: a riqueza de detalhes decorre de reminiscências posteriores deste pesquisador, que presenciou pessoalmente os depoimentos referidos e aqui complementa o relato retro citado).
Os que permaneceram optaram pela supressão de vantagens contratuais espontâneas enraizadas na cultura das relações de trabalho, o que não se verificou sem conseqüências sociais e econômicas. Dentre elas, exemplifica-se a supressão de moradias rurais gratuitas aos trabalhadores.
No campo das relações sociais, tais medidas passaram a compor um conjunto de fatores determinantes do “afrouxamento” dos vínculos sociais baseados na consideração e confiança ínsitas à tradição das relações laborais duradouras. Nesse sentido, transcreve-se que
Se, antes, fornecia-se “gratuitamente” ao trabalhador casa para morar, leite, terreno para plantio, e outras vantagens acessórias, hoje o proprietário se vê ‘obrigado’ a cancelar todos estes benefícios. Se um membro da família ajuda ao trabalhador a realizar suas tarefas corre-se o risco também de se ter que arcar com todas as obrigações trabalhistas em relação a este, como se contratado como empregado fosse. Trabalhadores mais antigos de propriedades rurais da região agem como se fossem verdadeiros donos, eis que, cientes das conseqüências de uma reclamação trabalhista, passam a agir de forma irreverente a fim de provocarem resilição contratual, mediante dispensa injusta e conseqüente recebimento de seu ‘direitos’.151
Ao lado de outros fatores significativos das transformações econômico-laborais, concorre indubitavelmente para o agravamento da crise local da organização do trabalho a desfuncionalidade normativa, organizacional e operacional do sistema de organização do trabalho.
Na cafeicultura, os proprietários agrícolas, organizados em torno da Associação dos Cafeicultores de Patrocínio, apresentavam argumentos no sentido da impossibilidade de cumprimento da legislação trabalhista, além do argumento meramente operacional no sentido da inexistência de número de carteiras de trabalho fornecidas pelo Ministério do Trabalho para a efetivação do registro do contrato de trabalho.152
Relativamente a auto de infração lavrado pelo Ministério do Trabalho, em 1993, que apontava como infrações: falta de registro do trabalhador em livro, ficha ou sistema eletrônico competente, falta de exames médicos periódicos, ausência de paredes de alvenaria em alojamentos e falta de apresentação de outros documentos trabalhistas solicitados pela auditoria fiscal, o proprietário rural apresentou defesa, protocolada em 20.08.93, em que se queixa de intensa movimentação dos trabalhadores vindos de diversas regiões do País com suas famílias, em busca de “pão” para seus filhos, que vagueiam de uma propriedade a outra, desertando-se das fazendas que os contrataram em busca de outras com oferta de melhores salários.
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VASCONCELOS, Sindicatos na administração da justiça, 1995b, p. 38 (Diagnóstico acerca das relações de trabalho e modo de produção rural na região de Patrocínio – Sob a ótica do Sindicato Rural de Patrocínio).
Além disso, muitas pessoas se juntam a um grupo de trabalhadores e adentram em suas propriedades sem que ninguém possa dar conta de sua existência na propriedade e, muito menos, solicitar documentos.153
Como se denota do texto acima, cujo estilo e gramática carregam, inusitadamente, um realismo expressivo de uma visão de mundo e de uma consciência dividida entre o impossível e o devido, o uso da paráfrase descaracterizaria por completo a mensagem subliminar que dele se extrai e a riqueza de seus detalhes. Cabe apenas focalizar aspectos irreleváveis do contexto, que envolvem a organização do trabalho em tais circunstâncias: a
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Sacrifica-se o método, pela extensão do arrazoado, para se atentar ao conteúdo do documento de cuja espontaneidade e realismo não se pode privar o leitor: “A) Nesta época do ano, considerada especial, visto a colheita de café, que se considera como uma frente de trabalho em toda região, é sabida, em vários lugares do país, especialmente nos arredores do norte do Paraná, Norte de Minas, Sul da Bahia, Pernambuco, e demais regiões, que se predomina a miséria. Muitas são as famílias, que saem aqui acolá, a procura de pelo menos um pedaço de pão para matar a fome de seus filhos. Estas mesmas famílias, quase sempre viajam em grupos, mantendo como condução, as diversas caronas, daqueles que tem coragem de da-la-ás (sic). Assim eles migram de locais em locais, onde possuem trabalho, e ali se instalam. Assim acontece com a maioria dos bóias-fria. Parte deles, às vezes são trazidos (sic) em especial de algum lugar, mas em grande parte se desertam da fazenda que os trouxeram (sic) e vão para as outras que estão oferecendo melhores salários. Isto é a realidade. Nesta época, entra (sic) em cena, os homens que fazem o trabalho de contactar as pessoas para realizar a colheita, e a eles são atribuídos o chamatório, ou apelido de GATO. Este Gato, quase sempre trabalha com diversas pessoas. Pessoas, que às vezes trabalham aqui hoje, no vizinho amanhã, depois no outro vizinho e assim por diante. A essas pessoas, é impossível mantê-las sequer exigir documentos (sic). Muitas das vezes, famílias inteiras chegam em determinadas propriedades, e ali se instalam, se aumenos (sic) [sem ao menos] ter sido contratadas. Pessoas, que se junta (sic) aos grupos de Bóias-frias, e se adentram na panha, vindo a chegar ao conhecimento do Gato, somente ao final do dia, e do patrão só meses depois, pois nem sempre têm condições de verificar a relação de turmas se continua a mesma. Exigir documentos destas pessoas, e até mesmo das pessoas, que vieram normalmente para a panha é tarefa impossível. Se tal fato fosse exigido a rigor, não chegaríamos a colher 10% da produção total. E piôr (sic), do que es (sic), digo, não estarem registrados, e ve-las (sic) morrendo de fome, assim como também, causando um caos ao país. A questão dos barracos de alojamentos, não são (sic) exatamente por nossa vontade que se encontraram em situações indevidas, mas por impossibilidade de se medir a quantia de pessoas, que ali se instalaram em época (sic) imediata, impossível de construção em melhoramentos (sic) do dia para a noite. Além do mais, muitas barracas, são montadas até mesmo pelos Bóias-fria, que entram, e se instalam, sem nosso conhecimento. Quanto ao fator documentos, o Governo pouco tem oferecido, A CONSIDERAR A FALTA DE CARTEIRA DE TRABALHO EM DIVERSAS REGIÕES DO BRASIL, o que impossibilita sua assinatura, O CAOS INCLUI A REGIÃO EM QUESTÃO. Os demais documentos solicitados, foram apresentados, na parte que nos foi possível socorrer a tempo, sabendo-se que os demais estavam vinculados a carteira, a qual não existia. Cumpre-me informá-lo, senhor Delegado, que do pessoal fixo de minhas propriedades Estão (sic) devidamente registrados, conforme prova que faço da xerox de recolhimento do FGTS, em anexo, fato que pode averiguar a V. sa. (sic) , que nas atuais condições, para o empregador, E MELHOR REGISTRAR O EMPREGADO, DO QUE TE-LO EM CONDIÇÕES IRREGULARES?(sic), pois uma vez registrado tudo que acrescenta à folha são 2.7% da GRPS, porém, livrando do empregador do futura punição do Seguro desemprego, ou até mesmo uma indenização pelo resto da vida do empregado, até completar aos 65 anos de idade, em casos de acidentes de trabalho, ou até mesmo a morte. Pois sabes bem, que não haverá forma futura de provar ao INSS a sua vinculação. NOS DIAS DE HOJE, NÃO QUER A MAIORIA DOS EMPREGADOS SEREM REGISTRADOS, POIS O DESCONTO DE 8%, DE SUA FOLHA DE SALÁRIOS E PARA ELE UM VALOR NECESSÁRIO, NO MOMENTO (sic). Além dos problemas, de não estar disponíveis a carteira em sí (sic). TUDO QUE ESTOU RELATANDO PODERÁ SER COMPROVADO ATRAVES DE TESTEMUNHAS IDONEAS, SE NECESSÁRIO FOR, E AUMENTAR A EXPRESSÃO DESTA DEFESA. MEDIANTE ao exposto pede-se a V. Sa., que reconsidere os autos, e os torne sem efeitos, considerando ainda, que foram praticados os acertos de todos os direitos, conforme apresentado, ao prezado senhor, em ocasião oportuna anterior. Consideramos que não estamos ao todo certo, porém estamos caminhando conforme a condição do país, que exige, porém deixa a desejar, inclusive no fornecimento do maior documento do trabalhador, que é a carteira. Nestes termos p. e espera deferimento ao caso.” [Cf. MINAS GERAIS. Relatório da operação ‘bóia-fria’..., 1993, p. 02-03].
movimentação dos trabalhadores em grupos familiares, inclusivamente filhos de qualquer idade; o sentimento de liberdade e o desprendimento desses trabalhadores em relação a vínculos contratuais que não lhes impedem de transitar segundo lhe aprouver e as oportunidades que se lhes apresentam; ao lado da liberdade de retirar-se a qualquer momento da frente de trabalho, verifica-se a situação inversa, em que trabalhadores ingressam nas propriedades para irmanar-se aos demais trabalhadores nessas frentes de trabalho, sem qualquer possibilidade de controle; a inexistência de carteiras de trabalho em número suficiente nos órgãos públicos para o atendimento à demanda; a recusa ou o desinteresse dos trabalhadores pela anotação da carteira, em face da possibilidade do desconto da parcela de contribuição previdenciária que lhe incumbe; e a imprevisibilidade do número de trabalhadores atuantes numa frente de trabalho.
Tal circunstância exigiria do tomador de serviços a edificação de uma estrutura extraordinária para a manutenção do controle da situação e para o atendimento às exigências burocráticas da legislação trabalhista, inadequada para o tratamento normativo de uma situação como essa.
Não custa concluir que a preponderância da ação estatal repressiva pouco ou nada contribui para uma mudança estrutural desse quadro.
O texto prima por seu realismo. Nele despontam aspectos que se chocam agudamente com o arcabouço normativo que cobre tal realidade e, ainda, com o legalismo e com os métodos de interpretação e aplicação do direito segundo o paradigma liberal- individual-normativista-(neo)positivista, predominante na cultura jurídica nacional, da qual não se exclui a das instituições do trabalho, conforme se ilustrará nos tópicos seguintes.
Considera-se, no entanto, de extrema relevância a circunstância de que a incongruência da normatividade incidente sobre tais situações gera teratologias tais que – a despeito do incomensurável e heróico esforço do reduzidíssimo contingente de auditores fiscais responsáveis pela aferição do cumprimento da legislação trabalhista na região e apesar da criação de órgãos jurisdicionais na região e da atuação dos procuradores do Ministério Público do Trabalho – a ação dessas instituições não passa de mera ação simbólica, cujos efeitos não extrapolam os limites do caso isolado, de cada caso em particular, ressalvadas as exceções que confirmam a regra.
Denotou-se o crescimento de uma irresignação concertada entre o setores produtivos. No lugar do reconhecimento e acatamento dos programas legais e institucionais concernentes à regulação e organização das relações de trabalho, desenvolveu-se um forte espírito coletivo reativo à irracionalidade do sistema, responsável pelo enfraquecimento da
autoridade do Poder Público em suas atuações locais e pela adoção de condutas e medidas neutralizadoras da ação estatal, além do recrudescimento do conflito social.
Paradoxalmente, a grande maioria dos proprietários rurais da região reafirmou a convicção de que não deseja descumprir suas obrigações jus-laborais. No entanto, esbarra em situações de perplexidade, as quais, em seguida à revolta generalizada, transformam-se em motivo para o descumprimento, por princípio, da legislação trabalhista, por uma questão de sobrevivência. Consuma-se, portanto, a deslegitimação da regulamentação e das instituições do trabalho.
O maior desafio das instituições do trabalho reside na superação de incongruências normativo-operacionais em salvaguarda da efetividade dos direitos sociais, mediante adequação daquelas de caráter instrumental ou burocrático à realidade local, a fim de evitar que os transtornos causados por estas últimas sejam fator de desestímulo ao cumprimento das primeiras. É que os obstáculos emergentes das incoerências normativas das regras de caráter operacional ou instrumental acabam por servir de justificativa para o descumprimento generalizado dos direitos sociais.
Se do lado das empresas de menor porte verifica-se a inaptidão para o ingresso no campo da tecnologia substitutiva da contratação de mão-de-obra, as grandes empresas se encaminharam no sentido da aceleração da absorção da tecnologia disponível. Em termos práticos, a colheita realizada por mão humana ainda é a melhor alternativa para a maior durabilidade e vicejamento das lavouras, e a adoção de colheitadeiras na cafeicultura significa redução da produtividade e da vida útil das lavouras de café. Ainda assim, optou-se pela assimilação de tecnologias experimentais cujo impacto negativo nas lavouras, em comparação com o uso do trabalho humano, foi absorvido, uma vez que a minimização das conseqüências da crise da organização do trabalho no âmbito das respectivas atividades significou benefício compensatório dos custos de tal opção. A questão trabalhista persistiu, porém, em relação aos pequenos e médios produtores, cuja função social é indiscutível, tendo em vista os dados colecionados até aqui. É nesse setor que ainda persiste a maior oferta de postos e trabalho.
Exatamente nesse setor é que se detectam as profundas incongruências do sistema de organização do trabalho, nas suas diversas esferas de atuação do Poder Público, no âmbito tanto da administração quanto da regulamentação do sistema de solução de conflitos do trabalho.
Aspectos dessa crise sistêmica serão a seguir tratados pontual e exemplarmente, de forma a viabilizar seu contexto e o impacto no sistema da organização do trabalho e da administração de justiça locais.