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2.4. KARAR VERME

2.4.2. Karar Verme İ le İ lgili Temel Kavramlar

O mundo colonial é um mundo cortado em dois. A sua linha divisória, a sua fronteira está indicada por casernas e posto policiais. (Fanon,Os condenados da terra 1968, p.128).

A descolonização é sempre um processo longo e não pode ser tratada como um ato político e pontual. Não é possível, de forma simples, ou generalizadamente, falar de pós-colonização, sem situar espácio-temporalmente essas referências.

É significativo observar a relação colonizador/colonizado, pois esta quase sempre nos aponta, desde as suas denominações, posições exageradamente desiguais. Enquanto o sufixo da palavra

colonizador marca o sujeito da ação, a palavra colonizado

apresenta o sufixo indicativo daquele que sofre a ação. Assim, o encontro que se dá nessa situação – a da colonização – é passível de sobreposição de valores de um grupo em detrim ento dos de outro.

Coube aos povos colonizados, em última instância, reestruturarem profundamente as relações sociais dentro de sua própria sociedade, uma vez que os valores dos colonizadores

59 foram impostos. Em um primeiro momento, o repúdio à alteridade é mútuo; aos poucos, e por meio de instrumentais dos mais diversos, a cultura do colonizador vai infiltrando-se nos meandros da sociedade conquistada. Consequentemente, novos estereótipos passam a circular nessa sociedade bem como são reformulados aqueles já existentes.

As novas relações a serem estabelecidas nessa sociedade – a colonizada – serão irremediavelmente alteradas, de tal forma que os lugares destinados aos subgrupos que a formam serão redistribuídos, e seus componentes passarão por novo processo de auto-reconhecimento e recolocação perante a comunidade. Mesmo após o período colonial, as sociedades colonizadas estarão marcadas pelo encontro com a outra cultura e, ainda mais grave, têm sua cultura fraturada e a tradição inundada em um caos.

Os países envolvidos nesse processo vivem a catarse da libertação, mas passam a ter novas formas de dependências e “modelos” para se guiarem ou mesmo para rejeitá -los. Pensar o pós-colonialismo é uma forma de refletir sobre as marcas na identidade desse povo e na imediata e demorada reconstituição da Identidade dessa nação. Ora, o termo pós-colonial pode soar como um rótulo que serve muito mais de invenção do outro colonizador do que efetivamente como um processo de reflexão.

Walter Mignolo (1996), no artigo “A razão do pós- colonialismo: heranças coloniais e teorias pós-coloniais”,

60 problematiza o uso do termo pós-colonial, lembrando ser “uma expressão ambígua, algumas vezes perigosa, outras vezes confusa, e geralmente limitada e empregada de forma inconsciente” (1996, p.8). Ressaltando que existe uma diferença entre, por um lado, as situações pós-coloniais e, por outro, os discursos e as teorias pós-coloniais (1996, p.13), o autor defende que a razão pós-colonial deve ser entendida

como um grupo diverso de práticas teóricas que se manifestam na raiz das heranças coloniais, na intersecção da história moderna européia com as histórias contra-modernas coloniais. (1996, p.9)

Na percepção temporal, fica clara a relação de posterioridade a um tempo denominado colonialismo. No entanto, nossa observação pauta-se na compreensão de durabilidade deste tempo, pois não há um “para sempre” nessa relação.

O termo “pós-colonialismo” remete-nos a uma série de estudos centrados nos efeitos da colonização sobre as culturas e sociedades colonizadas; estes podem ser interpretados como parte da teoria sobre o pós-modernismo, que busca trazer à baila as vozes das culturas e dos segmentos sociais periféricos.

Desta forma, podemos afirmar que os estudos pós-coloniais centram-se nas representações, entre elas a expressão literária,

61 das nações que conquistaram sua independência após um longo período de dominação política e cultural.

Muitos pesquisadores, como Laura Padilha e Inocência Mata, negam a prefixação do colonialismo pois, para esses estudiosos, isso perpetua uma visão segregacionista, que cria, com o rótulo, uma espécie de gueto cultural, onde ficaria alocada a produção crítica e literária oriunda dessas culturas, considerando -se que toda produção posterior está marcada pelo passado co lonial.

Essa negação ocorre porque compreendem que o rótulo “pós - colonial” mantém o mundo dividido em centro e periferia. As oposições entre os conceitos de identidades e alteridades ficam prejudicadas na análise mais profunda sobre a relação entre colonizador e colonizado, desvalorizando os critérios de igualdade e diferença.

A representação do “outro”, em tempos de pós-colonialismo, conforme este tem sido concebido e interpretado, promoverá sempre um processo de exclusão, uma vez que o “eu” ao qual todos os outros se opõem é exatamente o ex-colonizador.

Para o teórico Armando Gnisci (1999), que nega o pós- colonialismo como forma de interpretação literária, o processo de descolonização passa pela desconstrução dos modelos de dominação que têm orientado, não só os estudos culturais, como também uma boa parte dos estudos literários contemporâneos.

62 Baseado nessa afirmação, ele opõe o conceito de “Literatura Global”, orientada pelo mercado e pela indústria de cultura de massa, ao conceito de “Literatura dos Mundos”, uma literatura de resistência, que recusa o processo de assimilação a ela imposto, em prol do reconhecimento da diversidade cultural. Essa literatura é o locus do diálogo entre os “mundos”, isto é, entre indivíduos de etnias e heranças culturais diversas.

Também Said (1993) demonstrou o vínculo entre as literaturas europeias e o colonialismo. Ao tentar compreender e interpretar o Oriente, o europeu criou uma imagem especular, desenhando a imagem do próprio rosto. A representação dos povos orientais foi feita segundo o olhar hegemônico do Ocidente e serviu para consolidar o domínio das nações imperialistas. Não foi por acaso que a teoria pós-colonial surgiu justamente nos meios acadêmicos dos países que, no passado, ocuparam a posição do colonizador.

Seguindo essa lógica, os pesquisadores não deveriam preocupar-se com os meandros do pós-colonialismo, mas com uma literatura reveladora da capacidade de traduzir-se e traduzir os mundos, a pluralidade dos discursos e das culturas alia das contra a globalização. Um diálogo aberto pelas migrações, hibridações, da mestiçagem forma aquilo que Édouard Glissant (2008) denomina “crioulização”.

63 Livres das rotulações acadêmicas, esses textos e autores contestam formas estereotipadas e preconceituosas criadas pelos colonizadores, denunciando os interesses ideológicos que caracterizaram as representações de suas culturas. Trata-se, assim, de um discurso a contar seu passado por meio de suas especificidades físico-temporais.

Os debates sobre o pós-colonialismo seguem diversos caminhos: consideram uma marca temporal que os liga ao passado colonial, buscando perpetuar esse tempo sem possibilitar voz aos subalternos constantemente silenciados, ou ainda, segundo Inocência Mata,

o “pós” do significante “colonial” refere -se a sociedades que começam a agenciar a sua existência com o advento da independência. Nesta acepção, o pós-colonial pressupõe uma nova visão da sociedade que reflecte sobre a sua própria condição periférica, intentando adaptar -se à lógica de abertura de novos espaços (...) E os significantes desses (novos) espaços apontam tanto para novas corporizações e legitimidades socioculturais como para um compromisso na adaptação da tradição às exigências de um mundo cujos mecanismos de regulação ultrapassam os limites dos sujeitos dessa tradição. Assim, pode pensar-se que uma das marcas desse gesto de abertura de novos espaços, portanto, da condição pós-colonial, é tanto a recusa das instituições e significações do colonialismo como das que saíram dos regimes do pós- independência. (2000, p.27).

De certa forma, o pós-colonialismo gera questões tão graves quanto o próprio período colonial. As colônias afastaram -se demasiado de sua cultura primeira, mas não podem reconhecer os

64 valores com os quais aprenderam a viver como inteiramente seus. Ainda segundo a estudiosa, o pós-colonial solicita uma visão diferenciada da sociedade na qual se assume a condição periférica e abrem-se novos espaços. Esses locais legitimam novas corporizações socioculturais e também adaptam a tradição a “exigências de um mundo, cujos mecanismos de regulação ultrapassam os limites dos sujeitos dessa tradição” (2000,p.2).

Neste contexto, a mulher africana passou todo o processo de colonização e de independência amordaçada pela tradição e pela imposição de costumes europeus. Portanto, as mulheres obrigaram-se a libertar-se também internamente. Essa liberdade rompeu o silêncio, e a literatura “nos informou sobre as sensibilidades discordantes, os eventos omitidos do discurso oficial” (Mata, 2007, p.28), ou seja, é por meio do surgimento de textos produzidos por mulheres africanas que vamos delineando a visão de um mundo na perspectiva feminina, algo até então aparentemente idealizado.

A modernidade é face europeia e o colonialismo é a representação contra-moderna necessária para a dominação. O pós-colonialismo estaria ligado em cadeia não-dicotômica e paralela ao pós-modernismo. No nosso ponto de vista, a problemática da identidade cultural, tão cara à pós -modernidade, é o elo emaranhado que une o pós-modernismo ao pós- colonialismo. Nesse sentido, os discursos e teorias pós -modernas

65 e pós-coloniais desafiam a construção hegemônica da modernidade. O chamado Primeiro Mundo foi sempre visto como o “local de enunciação” que, em nome do racionalismo, da ciência e da filosofia, afirmou seu próprio privilégio intelectual e cultural, em detrimento de outras formas de pensamento.

Os discursos pós-modernos estariam construindo uma “razão pós-colonial”, criando local de enunciação minimamente diferenciado, priorizando, ou pelo menos, dando destaque, aos substratos subalternos (Spivak, 2010), marginais, até então desprezados ou silenciados.

Daí pensarmos em novas perspectivas para a constituição de identidades e na relação destas com a cultura. A autora questiona as ligações entre poder, tradição e as mulheres, no colonialismo , afirmando que o silêncio gritante do sujeito colonial nos revela a impossibilidade de falar em um espaço marcado pela opressão. Spivak alerta ainda para especificidade de uma tirania particular sobre o sujeito feminino, pois em consonância com Bonicci , “se o homem foi colonizado, a mulher, nas sociedades pós -coloniais, foi duplamente colonizada” (2008, p.16), porque apesar de participarem ativamente dos processos de independência, não são pensadas fora dos dizeres de uma tradição patrilinear, tanto numa cultura assimilada aos costumes europeus, quanto na tradição cultural ancestralizada.

66 Compreender a dupla colonização passa por desvencilhar -se das ataduras do espaço colonizado e do tempo ancestralmen te marcado pelo masculino. No pós-colonialismo, segundo Bonicci, (2005, p.31), existe uma forte analogia entre patriarcalismo/feminismo e colonizador/colonizado, no qual

a objetificação da mulher funciona como metáfora da degradação das sociedades pelo c olonialismo”, posto que a mulher” sempre foi relegada ao serviço do homem, ao silencio, à dupla escravidão, à prostituição ou a objeto sexual”. (idem, p.31).

O discurso do colonialismo criou, a respeito do sujeito feminino, estereótipos que ficaram mantidos no pós-colonialismo. A fixidez descrita por Bhabha é,

signo da diferença cultural/rigidez e ordem imutável como também desordem, degeneração e repetição histórica racial no discurso do colonialismo, é um modo de representação paradoxal. Do mesmo modo o estereótipo, que é sua principal estratégia discursiva, é uma forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que está sempre no lugar, já conhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido como se a duplicidade essencial do asiático ou a bestial liberdade sexual do africano, que não precisam de prova, não pudessem na verdade ser provadas jamais no discurso. (2007, p.105)

Portanto, o discurso literário de autoria feminina, no pós - colonialismo, traz em si uma dupla desmistificação, pois busca desconstruir estereótipos não somente do colonialismo, mas também da tradicional parceria entre o patriarcalismo e suas formas de dominação.

67 Percebemos que tanto o colonizador quanto o homem colonizado projetam, na figura da mulher, uma metáfora para a invasão e castração. Seu corpo e suas subjetividades são marcas de sua força e também de sua derrocada, pois o homem utilizará deste olhar metafórico negativo para submetê-la aos silêncios e às situações que desejam perpetuar, como denuncia Paulina Chiziane em Niketche,

As mulheres são mais fortes, superam o abandono com mais valentia. São trocadas em cada dia. Traídas. Seduzidas. Abandonadas com filhos nos braços. Compradas. Espancadas em cada dia, mas elas resistem. (2004, p.278)

Essa resistência encontra brado nas personagens da autora moçambicana.

2.1 - O Feminismo e o Pós-colonialismo

O discurso feminista tem uma ligação estreita com a teoria pós-colonial, primeiramente porque ambos são predominantemente políticos e preocupam-se com a luta contra a opressão e a injustiça. Além disso, rejeitam o estabelecido sistema hierárquico patriarcal, que é dominado pelo sexo masculino hegemônico branco, e negam, veementemente, a supremacia do suposto poder masculino e sua autoridade. O imperialismo, como o patriarc ado,

68 é, afinal, uma ideologia da supremacia falocêntrica, que subjuga e domina seus súditos. A mulher oprimida é, neste sentido, semelhante ao colonizado.

Pode-se considerar que o mundo ainda é definido pelo olhar masculino: assim, tanto o patriarcalismo quanto o colonialismo são meios autoritários de pensar a diferença. O sujeito colonizado e o sujeito feminino são reduzidos a estereótipos que negam a constituição de uma identidade balizada pela alteridade.

A ligação entre pós-colonialismo e questões de gênero estreitou ainda mais, ao passar a questionar acerca de seu efeito sobre a vida de sujeitos coloniais, ou seja, passou-se a investigar se o gênero ou a opressão colonial impunham às mulheres restrições políticas e de transformação social.

O colonialismo é o mal maior porque implica, automaticamente, a ameaça de misóginos, crenças patriarcais, dado o fato de que o imperialismo era inequivocamente centrad o no homem e eurocêntrico; assim, imediatamente rotula todas as mulheres estrangeiras, subalternas alienígenas. Ora, a opressão colonial afeta a vida das mulheres, tanto social como economicamente, tem forçado os críticos pós -coloniais a adotar uma consciência mais viva dos papéis de gênero quando se discutem façanhas imperialistas.

69 Neste rumo, o feminismo tornou-se muito mais consciente de seus pós-coloniais homólogos nos últimos tempos. Na década de 1980, as críticas feministas de algumas autoras centravam -se na análise dos tipos de preconceitos eurocêntricos que tentava encontrar um modo de evitar a negligência continuada da "mulher do terceiro mundo". Consideravam altamente negligente classificar todas as mulheres como um grupo homogêneo, sem levar em conta as diferenças inevitáveis de etnia e circunstância.

Percebemos que também as feministas estão atentas ao fato do eurocentrismo, empenhar-se em construir um “modelo único” de colonizado, e, portanto, uma visão única do feminismo, ignorando a importante questão da diferença de gênero.

Sabemos ser inegável o fato de a opressão colonial afeta duplamente as mulheres, de maneiras diferentes. De acordo com Spivak (2010) esta diferenciação é essencial para um exame exaustivo de dominação colonial. Essas construções desde o pré - colonial são fortemente influenciadas pelo preconceito falocêntrico que define erradamente as mulheres nativas como inferiores passivas e subsidiárias.

Há um número significativo de textos literários escritos de ambos os pontos de vista: feminista e pós-colonial. Esses textos muitas vezes compartilham pontos de vista sobre a individu alidade e a disparidade do assunto, bem como concordando em estratégias comuns de resistência contra as forças externas opressoras. Por

70 exemplo, Bill Ashcroft (1998), em conceitos-chave em estudos pós- coloniais, compara a descrição do corpo no feminismo à descrição de um lugar. Isto sugere que o espaço colonizado no discurso feminista é o corpo vulnerável feminino, refletindo a natureza fértil e produtiva do corpo e lugar, que tem o poder de produzir cultura, mas também para destruí-lo enquanto corpo cultural.

Durante o período de colonização houve forte imposição dos costumes europeus, principalmente sobre as mulheres, que foram ainda mais afastadas do meio social e econômico de seus países em diversos locais da África colonizada. No caso de Moçambique, há relatos de uma vida de restrições em que a voz da guerra e do masculino silenciava cruelmente toda e qualquer resistência ao colonialismo e negava voz e pensamento às mulheres , e estas, sem completar estudos e normalmente destinadas a casar-se e dedicar-se ao marido e aos filhos, quase não tiveram acesso à alfabetização. Ainda como afirma Laura Padilha “o acesso ao texto verbal lhes era duas vezes barrado: por serem mulheres e africanas. Encher de palavras o silêncio histórico foi para elas uma árdua e difícil conquista” (2002, p.97). Dessa forma, a discriminação e a segregação durante o período colonial eram duplos no que tange a mulher nessas sociedades.

A ligação das mulheres ao espaço rural e a idiossincrasias tradicionais aparece frequentemente nos romances de Chiziane: Sarnau, protagonista do seu primeiro romance, Balada de Amor ao

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Vento, é a voz de uma espiritualidade pagã: a mulher que recria o

significado de monogamia e de poligamia, sugerindo uma relação poligâmica ao seu amante, Mwando. Nessa reconceitualização do sentido do tradicional, determinadas práticas culturais são reavaliadas, questionando-se a sua condição de veículos de subalternização feminina.

A temática surge novamente no romance de 2002, Niketche, que inverte a interpretação ocidentalizada da situação da mulher num casamento poligâmico, por meio do ímpeto feminino. Rami, juntamente com as restantes esposas de Tony, questiona o valor da tradição e da modernidade, de convenções sociais e de práticas culturais.

O abuso sexual por parte de portugueses ou de outras representações masculinas do poder colonial, ou o encontro intencional entre mulheres moçambicanas e homens portugueses, dá espaço a uma complexa leitura do corpo feminino enquanto canal de vitimização da mulher e/ou de reconceit ualização da identidade racial.

Em O Alegre Canto da Perdiz (2008), o corpo da mulher, enquanto veículo de miscigenação atribui-lhe um renovado sentido de poder, não obstante a sua condição de objeto, inerente ao processo. Serafina, Delfina, Jacinta e Maria das Dores retratam três gerações entre o período colonial e pós -colonial, cujo percurso canaliza um diálogo constante entre as categorias de

72 raça, gênero e identidade. O posicionamento histórico e cultural da mulher é abordado sob uma estrutural oral, em capítulos que se intercalam com o desenrolar da ação.

A concepção do corpo feminino enquanto objeto é recorrente nas narrativas de autoria feminina; no decorrer das percepções sobre o colonialismo e sua leitura do sujeito feminino , como subalterno, nasce um questionamento: o que seria o Feminino, para Paulina Chiziane?

2.2 – Matizes do feminino

No sono de Vera há trovoadas, rugidos, estrondos. As águas de todos os mares elevam-se e abraçam o fogo da terra em Chamas. Dumezulu, o dragão dos céus, fustiga a terra com lanças de fogo. O vento ulula com insistência fazendo a chuva cair no dilúvio dos séculos. Sonâmbula, vai à janela para assistir o fim do mundo. Desperta. Não há dragão nenhum, nem chuva, nem trovoada e a natureza continua o seu curso. Há uma voz que a chama. Mãe! Mas ela não escuta, os ouvidos ainda viajam no pesadelo. Mãe! Desta vez a voz ouve-se distante, nas ondas de fogo que pouco a pouco vai esmorecendo. (Chiziane, O sétimo juramento, 2008, p. 194)

O feminino parece não figurar nos dicionários e nem nos livros de alguns intelectuais que buscam compreender a mulher e

73 seu papel na sociedade durante o decorrer dos tempos. Seguindo a moda dos “ismos”, é comum encontrarmos teorias sobre o feminismo e as feministas, sobre feminilidade e feminae. Falar sobre o feminino parece ser, de algum ponto de vista, um incômodo, pois parece não haver dados científicos sobre o feminino, os quais não estejam, em alguma escala, ligados a questões essencialistas do que é ser mulher.

O oposto não é verdadeiro, pois, sobre o masculino há muito para se pesquisar em livros, em detrimento dos estudo do feminino. Essa afirmativa se comprova, pois a mulher é sempre estudada dentro de alguma esfera que a designe e não em sua própria designação.

Feminista e existencialista, Simone de Beauvoir, por meio de suas obras, lutou para que a mulher tivesse reconhecido seu lugar equânime na sociedade e, em torno dessa ideologia, construiu a sua idéia de justiça, que tem como estandarte a Liberdade. Essa Liberdade só possui significado na ação e na capacidade do ser humano de impor modificação real. Isso constitui uma revolução permanente, que não pode realizar -se sem o rompimento da antiga ordem.

A mulher, para tornar-se livre, deve modificar tudo o que já foi construído em torno de sua imagem e se posicionar como ser humano, pois ela é prisioneira de sua própria situação: não possui um passado, uma história e não tem religião própria. Muito do que

74 ela acredita ter construído ainda parece ilusório, pois ela não conquistou nada: tudo lhe foi cedido pelos homens. Eles é que permitiram essa evolução aparente.

Contudo, não se deve colocar essa situação como algo intransponível. A libertação é fundamental para os seres humanos, tanto ao homem que domina, como à mulher que é dominada. Porque ambos, em algum momento de suas vidas, sofrem por existir esta distinção entre os sexos.

Beauvoir acreditava não ter importância o que a sociedade fez da mulher, mas qual atitude ela tomará a respeito do que fizeram dela. Entende a liberdade como escolha incondicional que o próprio ser humano faz do seu ser e do seu mundo. Quando a mulher julga estar subordinada a forças externas mais poderosas

Benzer Belgeler