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GEREÇ VE YÖNTEMLER

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Além da abordagem metodológica, outros aspectos influenciaram na construção dos depoimentos, dentre os quais, o cenário de realização dos encontros. Parte das entrevistas, por exemplo, foi realizada na residência dos participantes, onde a familiaridade do espaço lhes proporcionava maior conforto, assim como constituía um ambiente de imersão propício à mobilização das lembranças, já que objetos, fotografias e documentos mantinham-se acessíveis e incitavam novas recordações. Esta dinâmica também se verificou, em menor escala, com as entrevistas concedidas nas dependências do espaço profissional dos depoentes.

Duas entrevistas deram-se no contexto de um espaço público, sendo obtidas durante exposição indígena13 realizada nas instalações de um shopping local. Embora existisse uma atmosfera de valorização das identidades culturais motivada pela própria temática da exposição, a situação de trânsito e comércio que o local inspirava provocou inúmeras interrupções de fala. Notamos que o envolvimento emocional destes participantes se manteve estável, predominando uma narrativa objetiva dos fatos ao invés da introspecção natural a que o procedimento normalmente conduz. Observamos também que tais depoimentos foram os mais concisos de toda a pesquisa, provavelmente em função deste cenário.

Outro cenário de entrevistas se abrigou nas instalações do CATI. Embora tais encontros se processassem no contexto de um espaço formal, o longo período de preparo e mobilização para essa atividade colaborou na construção de uma atmosfera adequada aos depoimentos. A continuidade temporal da atividade também permitiu que elementos da cultura material fossem trazidos pelos participantes com o intuito de serem compartilhados com a pesquisadora e com o grupo. O senhor Vicente Napoleão de Oliveira, por exemplo, relatou aos colegas suas experiências na colheita, demonstrando como era amarrado o lenço que abrigava o algodão (foto 01), assim como as suas fases de crescimento (foto 02).

13 Exposição e comercialização de produtos indígenas, fotos e danças, realizada entre 15/04/13 e 27/04/13,

integrando a programação da 7ª Semana dos Povos Indígenas de Osasco, cujo lema foi: “Resgatando a cultura Pankararé: lutas e conquistas”.

Foto 01: Demonstração de utilização do lenço para colheita do algodão.

Autoria: Danielle Albino (data: 27/05/2013)

Foto 02: Fases de crescimento do algodão.

Outro aspecto que influenciou o produto final das entrevistas foi o grau de envolvimento pessoal dos participantes com a pesquisa. Notamos que cada um dos depoentes atribuiu um significado pessoal e uma destinação específica para o material que estávamos produzindo: alguns o compreenderam como uma recordação de vida para a próxima geração, outros como um recurso para expressar aos familiares alguns conteúdos que não conseguiam expressar pessoalmente e ainda outros o significaram apenas como um ato de colaboração com a pesquisadora, atribuindo reduzida importância pessoal. Curiosamente, essa última postura normalmente se modificava após a leitura do material produzido, momento em que os conteúdos emocionais frequentemente emergiam com maior intensidade.

Esse grau de envolvimento pessoal repercutiu numa maior ou menor necessidade de precisão dos dados informados e de revisão dos depoimentos. Relembrando a ideia de Pollak (1992, p.205), de que a pessoa vai manifestar sua representação sob a forma como ela quer ser percebida pelos outros, notamos que alguns trechos foram extraídos ou modificados nos relatos depois que os participantes definiram sua motivação pessoal para o material produzido e estabeleceram quais pessoas do seu círculo de relações sociais teriam acesso ao mesmo.

Outro aspecto que instigou nossa reflexão refere-se ao momento em que os participantes do CATI foram comunicados sobre o início das novas atividades: o primeiro questionamento levantado por eles junto à psicóloga Rita de Cássia Silva Barbeta foi a minha naturalidade; aparentemente o fato de eu ser ou não ser osasquense imprimia uma marca de identidade e qualificava as intenções do meu estudo frente ao grupo. Essa busca constante por similaridades entre as suas narrativas e o meu cotidiano foi um comportamento recorrente em todos os depoimentos, o que se revelou principalmente em três circunstâncias: rede de relações sociais, referências espaciais pretéritas e desconstrução-reconstrução de paisagens.

A primeira perspectiva aponta para o reconhecimento da rede de relações sociais. Notamos um esforço dos participantes em descrever conexões genealógicas ou relações sociais com meus familiares: relações de parentesco tão extensas ou distantes que mal podiam ser compreendidas e que, muitas vezes, se resumiam aos laços de compadrio. A existência de uma rua com o nome do meu bisavô paterno (Rua Vitório Tafarello) e de um ginásio de esportes com o nome de meu primo de segundo grau (Ives Tafarello) constituiu referencial suficiente de identidade para muitos participantes, pois eles puderam reconhecer qual família eu integrava.

A segunda perspectiva aponta para o posicionamento de referências espaciais pretéritas. Notamos um esforço de contínua descrição do que existe atualmente nos lugares mencionados durante as narrativas. Neste sentido, os participantes situaram numerosas localidades, dentre as quais citamos a título de exemplo: uma triparia localizada na atual loja de materiais de construção e um casarão mal assombrado na atual rua do fórum da cidade. É curiosa também a manutenção de referências espaciais que deixaram de existir, mas que permanecem tão funcionais na fala dos moradores locais que dispensam explicações de posicionamento. Isso se aplica, por exemplo, com a fábrica do Granada, a cerâmica Hervy e o frigorífico Wilson. Nem todas essas referências foram registradas nos depoimentos desta pesquisa, mas são rotineiras nas conversas coloquiais entre os munícipes.

A terceira perspectiva aponta para uma dinâmica de desconstrução e reconstrução das paisagens. Notamos que a reação imediata dos participantes ao serem esclarecidos quanto ao objetivo da pesquisa era descrever o que não existia na cidade em ‘sua época’, relatando a ausência dos elementos da infra-estrutura urbana como a pavimentação das ruas, luz elétrica e água encanada. Os participantes iniciavam seus discursos desconstruindo a minha percepção da cidade, para então reconstruí-la com as imagens mentais da ‘sua época’. Em algum sentido isso evidencia que as narrativas não eram apenas influenciadas pela presença da pesquisadora,

mas eram construídas para ela. Se por um lado isso tornava meu trânsito pela configuração dessas paisagens pretéritas mais confortável, por outro lado, poderia significar que os participantes estivessem elaborando sua narrativa na direção daquilo que eles imaginavam que eu desejava ouvir. Em relação a isso, Schmidt e Mahfoud (1993, p.295-296), afirmam que “o narrador não é indiferente ao pesquisador como representante de um outro grupo e, portanto, sua narrativa é, inclusive, um diálogo com este grupo que o pesquisador representa”. Esta tendência se mostrou mais acentuada nas entrevistas preliminares do que naquelas que foram construídas sob a modalidade da história de vida, provavelmente como reflexo da orientação temática promovida pela primeira abordagem.

A quantidade de depoimentos não foi rigidamente determinada, mas obedeceu às necessidades de informação da pesquisa, totalizando um conjunto de 22 narrativas com a participação de 24 colaboradores. Essa diferença se deve à realização de uma entrevista coletiva (entrevista 16) e à integração das lembranças de uma acompanhante ao depoimento de sua mãe (entrevista 03).

O impulso de participação que as reminiscências causam nos acompanhantes dos sujeitos entrevistados é notável. O encontro realizado com as senhoras Cléria de Souza Viriato e Ione Augusto Viriato (respectivamente mãe e filha) exemplifica este comportamento, pois ao final do encontro tínhamos um material de excelente qualidade construído por ambas, entrevistada e acompanhante, quando a dinâmica original da técnica previa apenas uma explanação individual. Outro aspecto relevante é que as lembranças dos acompanhantes mantêm um grau de individualidade, compondo quadros singulares que se cruzam em diversos momentos com a linha de exposição do entrevistado, podendo gerar complementaridade ou conflito de informações. Quando atentamos para esta dinâmica, conseguimos evidenciar a construção social da memória.

Benzer Belgeler