Conhecer o que os professores-formadores pensam, sabem, e que significados atribuem à avaliação da aprendizagem pode indicar um caminho para um repensar e um refazer das práticas avaliativas vigentes nos cursos de formação de professores. O interesse desse estudo se pautou firmemente, em conhecer que significados, que conhecimentos e saberes relacionados à avaliação escolar foram mobilizados pelos professores-formadores no decurso que ministraram a disciplina que debateu aspectos da Avaliação Educacional no programa Magister de formação de professores da Universidade Estadual do Ceará.
De acordo com Machado (1995), a idéia ou concepção de avaliação do rendimento escolar que orienta o pensamento e a prática do professor/avaliador se relaciona diretamente a sua concepção acerca do processo de ensino e aprendizagem, ao tipo de teoria da educação defendida pelo professor, e essa idéia se liga diretamente à concepção de que tipo de homem ele pretende formar, e para que tipo de sociedade. A luz desse pensamento de Machado (1995), transcrevemos as falas da professora (E3) que expõem abaixo, as suas concepções sobre Educação e Avaliação:
(...) nós temos que refletir sobre a concepção de Homem, de Educação e de Sociedade. Por que eles chegaram tão assim na faculdade? (...).
Então a Educação é um processo multidimensional, é uma visão articulada da dimensão humana, da dimensão técnica e da dimensão político-social (...).
Eu acho que avaliar é acompanhar o processo de evolução do aluno, ou seja, contribuir para o aprimoramento do seu saber. (...) a avaliação da
aprendizagem está inserida no próprio processo de transformação social do aluno (...).
A respeito da avaliação da aprendizagem a professora (E4) demonstra a seguinte concepção:
A avaliação da aprendizagem faz parte da essência do processo ensino- aprendizagem, pois perpassa todos os momentos dessa trajetória.
Já o professor (E5) expõe que:
Essa questão da avaliação está muito ligada à postura do professor em sala de aula, como o professor consegue ver o processo educacional, o processo de ensino e aprendizagem (...).
Os comentários arrolados acima pelos professores-formadores, no tocante as suas concepções de educação, de sociedade e principalmente de avaliação da aprendizagem reportam a uma visão relacional e processual entre elas, essas percepções denotam uma apreensão de avaliação como um processo multidimensional, que extrapola a dimensão instrumental, mas também com dimensões sociais, política, ética e afetiva. Partindo dessas visões a avaliação é compreendida como avaliação-ensino expressão cunhada por Both (2005, p.56) onde:
O ensino e avaliação como processos mantém simultaneidade e concomitância de ação, de intervenção e de efeito, pois ensinando avalia-se e avaliando ensina-se, ao mesmo tempo, sem prejuízo das peculiaridades inerentes a cada um. Por isso mesmo, reafirmando, o processo de avaliação ocorre no ensino como que por osmose, constituindo igualmente ensino por excelência.
A compreensão de avaliação sob o enfoque de avaliação-ensino representa um redimensionamento da avaliação que visa à qualidade, que visa uma transformação, onde não há um divórcio entre o ensino e avaliação, pois ao avaliar o professor está ensinando, e enquanto ensina exerce a ação avaliativa, assim o foco da avaliação-ensino se diferencia da verificação por que segundo Both (2005 p.56):
A avaliação-ensino visa á qualidade, com função transformadora como a de fermento na massa, por osmose. A verificação, por sua vez, igualmente tem em mira a qualidade, mas a partir de diagnóstico da realidade, da utilização de dados quantitativos, de empregos de instrumentos auxiliares do ensino- aprendizagem.
Nessa perspectiva aventada por Both (2005), a avaliação-ensino é compreendida sobre a dimensão essencialmente qualitativa, enquanto a verificação é encarada como quantitativa. O autor elucida que a concepção de avaliação-ensino não abomina a utilização de dados quantitativos-verificação, mas que estes devem permanecer no plano de apoio exercendo a sua função por excelência, que seria de um instrumento auxiliar do ensino- aprendizagem.
Ainda a respeito das concepções dos professores-formadores sobre a avaliação da aprendizagem, temos os seguintes depoimentos:
Através dessa avaliação é possível perceber os avanços e necessidades dos alunos, bem como da prática docente, para, assim, se buscar novas estratégias e construir novos caminhos que possibilitem a efetivação da aprendizagem e, por conseqüência, a eficácia do ensino (Entrevistada N. 04).
Acho que avaliar é acompanhar o processo de evolução do aluno, ou seja, contribuir para o aprimoramento do seu saber.(Entrevistada N. 03)
Analisando as falas das professoras-formadoras percebemos que elas expõem uma opção clara pela avaliação com função formativa, já que ressaltam a necessidade da avaliação como um procedimento que vise o ajuste e o aprimoramento do processo de ensino e aprendizagem, e principalmente a serviço da aprendizagem do aluno, do seu crescimento, essa concepção é reafirmada por Perrenoud (1999, p.50) que esclarece ser a avaliação formativa quando auxilia o aluno a aprender e a se desenvolver, ou seja, que colabora para a
regulação das aprendizagens e do desenvolvimento no sentido de um projeto educativo. Essa
defendida por pesquisadores como Perrenoud (1999), Afonso (2000) Hadji (2001), Melchior (2003), e outros, também foi verificada no depoimento da professora-formadora (E3) mencionado abaixo:
Avaliação deve ser um instrumento educativo para o aluno, por exemplo, a avaliação é um instrumento pra gente refletir sempre o dia-a-dia dele, o que ele aprendeu, o que ele deixou de aprender, o que ele fez e também fazer, tomar consciência desse processo de crescimento dele.
Na avaliação formativa, o aprimoramento não se restringe apenas à aprendizagem, mas também contribui para a boa regulação da atividade de ensino, assim o professor que ver a avaliação com finalidade formativa, não está preocupado apenas com os resultados atingidos pelos alunos, mas essencialmente com a aprendizagem, claro que os resultados ou notas não são desprezados, mas são utilizados como um meio que o auxiliará na tomada de decisões.
Melchior (2003) destaca uma característica da avaliação formativa que devemos considerar relevante, a autora esclarece que a avaliação com função formativa não necessita está vinculada a nenhum quadro metodológico específico, pois não são os instrumentos ou procedimentos que tornam a avaliação formativa, mas sim o uso que o avaliador faz como as informações obtidas a partir das observações ou dos instrumentos aplicados.
Para Hadji (2001, p. 21) o que caracteriza a função formativa é, exatamente, o
trabalho de retomada de informação após os resultados. O pesquisador considera que a
avaliação formativa se sustenta no trinômio: coleta de informações – diagnóstico individualizado – ajuste de ação, deste modo Hadji (2001) corrobora com o pensamento de Melchior (2003) quando asseverar que o mais importante não é como as informações foram coletadas, mas como serão usadas.