A série aqui apresentada foi elaborada tendo como base principal os mapas de tropas guiadas pela barreira de Itapetininga, disponíveis para o período 1854/55-1857/58 e 1861/62-1868/69. Com relação ao período 1858/59- 1860/61, durante o qual falham os mapas, utilizou-se os livros de termos de fiança para complementar, sem prejuízos, as informações. Tais livros também foram utilizados para cobrir falhas eventuais nos demais anos, onde elas se
fizeram presentes, viabilizando a compilação completa da série, sem necessidade de recorrer a técnicas estatísticas de interpolação. Respeitou-se a periodização apresentada nos documentos originais, baseada em anos financeiros, que se iniciam em 1º de julho de um determinado ano e terminam em 30 de junho do ano seguinte.
TABELA 3.1
VOLUME DE ANIMAIS CONDUZIDOS ANUALMENTE PELA BARREIRA DE ITAPETININGA, 1854/55 – 1868/69
Ano Financeiro Muares Cavalos Éguas Total
1854/55 51.102 8.213 251 59.566 1855/56 56.645 7.808 122 64.575 1856/57 61.097 9.753 147 70.997 1857/58 32.549 9.835 278 42.662 1858/59 50.184 7.865 516 58.565 1859/60 48.720 6.006 245 54.971 1860/61 57.043 7.021 192 64.256 1861/62 54.001 6.980 343 61.324 1862/63 19.986 4.939 330 25.255 1863/64 28.285 4.943 128 33.356 1864/65 28.380 4.845 270 33.495 1865/66 22.254 2.201 54 24.509 1866/67 29.790 3.162 64 33.016 1867/68 40.464 3.807 98 44.369 1868/69 50.402 2.446 75 52.923
Os dados da tabela 3.1 evidenciam a magnitude do negócio dos muares durante as décadas de 1850 e 1860. O ápice no volume de muares conduzidos ocorreu no ano de 1856/57, quando mais de 60 mil bestas passaram pelo registro. Seguiu-se então uma queda abrupta no ano seguinte, que parece estar relacionada a uma grande crise econômica de âmbito nacional47. Contudo, o comércio retorna posteriormente a altos patamares,
47 Encontram-se freqüentes menções a uma suposta crise nacional generalizada ocorrida em fins da
década de 1850 nos relatórios dos presidentes da província do Paraná, como no relatório de 15 de fevereiro de 1866, no qual o então presidente André Augusto de Pádua Fleury se refere às “crises porque tem passado o paiz desde 1857”. (p. 53)
seguindo assim até princípios da década de 60. A partir de 1862/63, uma crise de grandes proporções atinge o mercado, reduzindo o volume conduzido anualmente a menos da metade. As razões desta nova crise permanecem bastante obscuras – apresentaremos hipóteses parciais de explicação mais adiante neste capítulo. Por ora, basta observar que a diminuição abrupta dos negócios em Sorocaba não passou despercebida pelas autoridades da província do Paraná, preocupadas como estavam com a renda proporcionada pela arrecadação dos direitos sobre animais. Neste sentido, encontramos o presidente da província justificando a queda ocorrida na receita provincial no ano financeiro 1862/63 por meio da “crise havida o anno passado na feira de Sorocaba, que desanimou os negociantes de animaes...48”. A recuperação plena apenas viria no final da década, quando o mercado retoma os níveis do início do decênio.
GRÁFICO 3.4
VOLUME DE ANIMAIS CONDUZIDOS ANUALMENTE PELA BARREIRA DE ITAPETININGA, 1854/55 – 1868/69
48 Relatório do Presidente da Província do Paraná, 15 de fevereiro de 1863, p. 29.
0 10.000 20.000 30.000 40.000 50.000 60.000 70.000 1854 /55 1855 /56 1856 /57 1857 /58 1858 /59 1859 /60 1860 /61 1861 /62 1862 /63 1863 /64 1864 /65 1865 /66 1866 /67 1867 /68 1868 /69
O volume de cavalos conduzidos pelo registro apresenta padrão ligeiramente diferente. Após atingir seu pico no final da década de 1850 – justamente no momento da primeira crise no mercado de muares –, o mercado de cavalares declina de forma suave, porém constante, até o fim do período. Tais tendências podem ser mais bem captadas através do gráfico 3.4, que exibe a evolução do volume de animais conduzidos. Em particular, a suavização da série dos muares através de um processo de médias móveis de três anos evidencia claramente as três etapas acima indicadas: apogeu, crise e recuperação.
A sazonalidade na passagem das tropas pelo registro de Itapetininga apresenta um padrão bastante semelhante ao encontrado por Klein (1989, pp. 358-361). O período de maior movimentação no mercado de muares encontra- se, sem dúvida, nos meses de abril e maio, com um pico de menor relevância ocorrendo também nos meses de dezembro e janeiro. Tal fenômeno se explica por uma conjunção de fatores favoráveis: em primeiro lugar, a época do ano mais propícia para a condução das tropas pelo caminho do Viamão era a estação chuvosa (iniciada em setembro, aproximadamente), dado que, neste período, a fertilidade dos pastos estava em seu ponto máximo, facilitando a alimentação e engorda dos animais. Além disto, após o fim da estação chuvosa iniciava-se o período de colheita do açúcar e do café, para cujo transporte eram necessários os muares. Em estreita correlação com estes dois fatores, a feira de Sorocaba era realizada precisamente neste período, durante o segundo trimestre de cada ano.
Quando analisada em relação ao conjunto de todos os rebanhos, a sazonalidade na passagem de animais se mostra um pouco mais suave, embora apresentando os mesmos traços gerais. A razão fica clara quando se leva em conta o padrão apresentado pelas passagens de cavalos, cujo pico ocorre nos meses de dezembro e janeiro – abril e maio aparecem como meses
apenas medianos. Esta diferença nos padrões de sazonalidade pode apontar para a existência de estruturas de comercialização diversas entre os mercados de muares e cavalos.
GRÁFICO 3.5
MÉDIA DE ANIMAIS CONDUZIDOS PELA BARREIRA DE ITAPETININGA, SEGUNDO MESES DO ANO, 1854/55 – 1868/69
É interessante notar que Lavalle (1974, pp. 114-115; 155-156), ao estudar o padrão de sazonalidade nas passagens de tropas pelo registro do Rio Negro na primeira metade do século, verificou que o pico da movimentação se dava nos meses de outubro e novembro de cada ano. A contradição é apenas aparente. Estando o registro do Rio Negro situado na fronteira meridional da 5a comarca da província de São Paulo – posteriormente província do Paraná –, passavam por ali as tropas recém saídas da estrada da mata. Antes de completar sua viagem, atravessando a 5a comarca em direção à feira de Sorocaba, estas tropas necessitavam de um período de repouso e engorda em uma estação de invernagem dos Campos Gerais. Por outro lado, os registros de passagem em Itapetininga refletem a movimentação das tropas que já estão prontas para comercialização, rumo a Sorocaba. É natural, portanto, que se verifique uma defasagem de alguns meses entre as
0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000 16000 18000 20000
JUL AGO SET OUT NOV DEZ JAN FEV MAR ABR MAI JUN
movimentações nas duas estações fiscais.