2.1. MOTİVASYON KAVRAMI VE KURAMLARI
2.1.2. Motivasyon Kuramları
2.1.2.1. Kapsam Kuramları
A pesquisa qualitativa, segundo a visão fenomenológica, trabalha com as
descrições do sujeito, quer este seja o próprio pesquisador quer seja dos sujeitos
significativos que vivenciam a dialética do ver-visto, em que o fenômeno se mostra.
A experiência fenomenológica, enquanto reflexão, de acordo com Husserl em
Meditações Cartesianas e Conferências de Paris, “[...] deve permanecer afastada de
todas as invenções construtivistas e deve ser tomada precisamente com o teor de sentido
e com o teor de ser com que surge.” (HUSSERL, 2013, p.11). Aqui, abre-se uma
compreensão do que seja a descrição fenomenológica. Esta passagem converge, em
nossa perspectiva, ao dito por Merleau-Ponty, no prefácio de a sua obra Fenomenologia
da Percepção, aclarando que “Trata-se de descrever, não de explicar analisar...”
(MERLEAU-PONTY, 1994, p. 3). Desaprova-se, assim, o estatuto da ciência como o
que primeiro me dá acesso ao que percebo, compreendo, anterior à “percepção externa”,
requerida por uma psicologia que abriga a consciência “[... ] como complexo dos dados
dos sentidos e, eventualmente, se introduz de seguidas qualidades de forma, deixando
que estas cuidem da totalidade.”( HUSSERL, 2013, p.11).
O trata-se de descrever, aludido por Merleau-Ponty, reabre o dito por Husserl
sobre a análise fenomenológica, que se faz por uma descrição, o mais
pormenorizadamente o cogito, “[...] e segundo os modos de aparição. E o mesmo para
todo e qualquer tipo de consciência.” (HUSSERL, 2013, p.12).
De acordo com Bicudo (2011), posta a interrogação, partimos olhando para o
contexto das experiências vividas, à busca de dados significativos. Desse modo,
estamos atentos ao movimento de pesquisar, entendido como “[...] perseguir uma
interrogação em diferentes perspectivas (BICUDO, 2011, p.22)
66.
O interesse que neste texto nos move, impulsiona-nos a mostrar um caminho
possível, aquele que entendemos acolher nossas análises; um caminho em constituição
pelas análises e reflexões, ou seja, um caminho que se exonera de um possível pensar
linear e adentra aos procedimentos rigorosos do método fenomenológico em pesquisa
qualitativa.
66
Nessa obra, Bicudo (2011, p.23) aclara que a interrogação se comporta como se fosse um pano de
fundo onde as perguntas do pesquisador encontram seu solo, fazendo sentido. Ela persiste, ainda que a
pergunta específica de um determinado projeto seja abordada, dando-se conta do indagado.
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O propósito da Fenomenologia, como caminho de investigação, é estarmos
sempre perguntando: qual o sentido disso a que visamos? Essa pergunta conduz os
movimentos do procedimento fenomenológico. Esses movimentos, segundo Bicudo,
começam por uma descrição das vivências intencionais, ou seja, pelo ato de descrever o
visto ou o perguntado a um sujeito que vivencia o fenômeno, sempre atento ao que se
deseja saber, aclarar.
Antes, porém, de explicitarmos esses procedimentos, entendemos ser importante
aclararmos o sentido que para nós faz o termo “método”. Ales Bello (2006) recorda-nos
o dito por Husserl e afirma que devemos fazer um caminho para compreendermos um
fenômeno. Discorre, ainda, que a palavra grega para designar caminho é método,
formada por “odos”, estrada e “meta”, que significa por meio de... Consideramos
caminho como o que se constrói por andanças, passagens, aberturas, entroncamentos,
peregrinação... por direções diversas que se cruzam e se afastam, e que, embora não
tenha uma via única possível, pelo qual trafegamos sempre com uma intenção, meta,
intento, visualizando a um horizonte do que buscamos compreender.
Esse caminho é constituído por passos orientados por uma interrogação “[...] que
expressa a perplexidade do pesquisador orienta os passos a serem dados em busca da
compreensão e explicitação do compreendido e interpretado” (BICUDO, 2011, p.38).
Dando-nos conta do indagado, ainda em consonância com a autora, a interrogação
interroga aspectos específicos do mundo-vida circundante e que se constitui no norte
orientador dos procedimentos de pesquisa.
Sendo uma investigação inserida na área da Filosofia da Educação Matemática,
há que ser uma análise abrangente, sistemática, crítica e reflexiva (BICUDO, 2011,
p.255)
67. Entendemos não se tratar de uma universalidade ancoradoura e depositária de
análises, mas ao enlaçar trabalhos relevantes que contribuem para nossa compreensão
do tema aqui indiciado, também se põe à abrangência de estudos pertinentes, sejam de
cunho histórico, metodológico, filosófico ou no campo de políticas públicas
educacionais, voltadas a avaliações externas.
O proceder da investigação fenomenológica, sendo sistemático, solicita que o
pesquisador desenvolva seu trabalho, atendo-se aos modos de um estilo de rigor
entendido, conforme dispõe Bicudo (2011):
67
BOLEMA – Edição comemorativa – 25 anos.
77
O rigor no âmbito da pesquisa fenomenológica não se funda em
metodologias construídas e aceitas como válidas em si, ou seja,
independentemente da interrogação, de região de inquérito, da indagação
pelo quê se pesquisa e como se procede à investigação, mas se constitui no
próprio movimento de perseguição à interrogação. Ele se instaura na própria
dialética de perguntar, buscar pelo inquirido sempre atento ao o quê se busca
conhecer, suas características antevistas, e os modos de proceder para dar
conta do indagado. Trata-se de um diálogo estabelecido pelo pesquisador
consigo mesmo e com seus parceiros de estudo, mediante o qual ficamos
atentos ao sentido que vai se fazendo a cada movimento. (BICUDO, 2011,
p.56).
Concernente ao rigor fenomenológico, há trabalhos importantes que o
tematizam, como os apresentados por Bicudo (2000; 2004; 2010), por Giorgi (2010) e
por Moreira (2002). Esses autores apresentam os procedimentos fenomenológicos
como modo de pesquisa qualitativa nas ciências humanas. Mais focadamente, os textos
de Bicudo nos mostram caminhos possíveis para se fazer uma pesquisa no âmbito da
Filosofia da Educação Matemática. Nesses textos, há uma característica comum que os
perpassa, no que se refere às aproximações e às distinções entre a pesquisa qualitativa e
a pesquisa qualitativa segundo uma abordagem fenomenológica.
O ponto que as aproxima, consoante os dizeres da autora, “[...] está no
qualitativo e em muitos recursos utilizados para investigar; está em muitos aspectos
presentes na descrição da realidade percebida, está no olhar em perspectiva.” (BICUDO,
2004, p.108)
68. O que as diferencia, segundo Bicudo, é “a intencionalidade
69e a atitude
dela decorrente que já não é mais natural” (p.108), mas é a atitude fenomenológica. Esta
assume que, em termos de compreensão humana e respectivos desdobramentos em
diferentes regiões de conhecimento (científico, religioso, etc.), a consciência enlaça a
totalidade fenomenal pela percepção. E mais: nosso conhecimento, enquanto seres
mundanos, é constituído e produzido mediante o percebido e seus desdobramentos de
compreensão, interpretação e expressão que se faz no campo da intersubjetividade, ao
mesmo tempo, em que este já é sempre dado.
68
Atenta aos significados de intencionalidade, como proveniente do verbo latino intendo, tendi, tentum,
ere, que quer dizer tender em uma direção, estender, tender para, abrir, tornar atento, aumentar, sustentar,
dar intensidade, afirmar com força
68, “a pesquisa qualitativa que procede segundo uma abordagem
fenomenológica [...] busca a manifestação da coisa que se expõe na percepção e, portanto, é dependente
da consciência”. Consciência, nesse pensar, é entendida como movimento, como ato de expandir para... o
mundo...o outro, inclusive em sua própria direção. (BICUDO, 2004, p. 109).
69
Intencionalidade, modo de ser intencional, é característica da consciência. Consciência é compreendida
como movimento intencional, efetuado pelo corpo-encarnado, ao ir de modo atento em direção ao focado
como figura destacada de fundo, totalidade em que sempre estamos com os outros. (BICUDO, 2011,
p.31).
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Esses movimentos abarcam a percepção do fenômeno, indo à compreensão da sua
estrutura, ou, na linguagem fenomenológica, aquele que percorre os caminhos
(tortuosos) da intuição sensível à intuição eidética ou essencial, conforme nos diz
Bicudo (2010). E mais, avança a autora: “Vamos do mundo percebido à elaboração da
estrutura do fenômeno, mediante movimentos de redução transcendental” (BICUDO,
2010, p. 41). A transcendência, conforme Husserl, “[...] é um caráter de ser imanente,
que se constitui no interior do ego. Todo sentido que se possa conceber, todo ser
concebível, chama-se ele imanente ou transcendente, cai no domínio da subjetividade
transcendental.” (HUSSERL, 2013, p.31). Porém, sempre é também transcendente, pois
o percebido transcende o ego.
Para perseguir nossa interrogação, “Que Licenciatura de Matemática à distância é
essa, a oferecida pela UFJF?”, assumimos essa postura, a fenomenológica, buscando
estar com o programa, com a equipe formadora e em formação, realizando o curso a
distância de Licenciatura em Matemática da UFJF.
As vivências descritas, que nos possibilitaram a produção dos discursos escritos,
são as entrevistas havidas com os sujeitos que consideramos significativos. Ou seja,
aqueles que vivenciaram a Licenciatura aqui sob estudo. Esses sujeitos são aqueles que
estavam nas posições de coordenador do curso, coordenadoras do Polo, professores,
tutores e alunos. Esses encontros foram registrados, com o auxílio de caderno de campo,
e recursos de gravação de som (gravador) e imagens (fotografias), devidamente
autorizadas pelas pessoas presentes e seguindo todo o procedimento legal e ético, para
esse fim, inclusive nos ambientes.
As entrevistas, devidamente autorizadas para gravações e transcrições, foram
iniciadas com uma pergunta abrangente e focada na posição ocupada pela pessoa que a
desempenha e que é responsável pela sua realização, porém abertas no sentido de, no
curso das falas dos entrevistados, o entrevistador lançar questões, pequenas observações
que ajudem a avançar no esclarecimento do tema proposto.
Prosseguindo o movimento, expõe Bicudo:
Visualizados e assumidos quais são a perspectiva e sujeitos tidos como
significativos, o passo seguinte incide sobe a modalidade do como constituir
os dados e analisá-los. Por meio de entrevistas orais, escritas, filmagens de
situações, leitura e interpretação hermenêutica de textos [...]. (BICUDO,
2011, p.42).
79
Essas modalidades, de acordo com a autora, podem ser entendidas como
descrições de experiências vivenciadas
70. No texto citado, Bicudo faz uma importante
interpretação acerca dos §§ 74 e 75 do Ideias (Husserl, 2006, p. 161)
71, que trata das
ciências descritivas e exatas e da fenomenologia como doutrina eidética descritiva dos
vividos e nos traz que a fenomenologia não opera por abstração sobre abstração, mas
com o compreendido nos vividos reduzidos em intuição pura, isso quer dizer que a
fenomenologia não opera com fixações conceituais que se dariam por meio de
raciocínios lógicos, ao modo da ciência exata.
Esse o ponto que nos afeta, e nos mostra a importância da descrição das vivências
em nossa investigação. Ao indagarmos acerca do sentido da atualização de uma
licenciatura de matemática, à distância, não nos satisfazemos apenas com o
sacramentado em textos e pesquisas que dizem desse tema. Com esses textos prontos,
conforme entendemos, o curso investigado seria tomado como “fato”. Acenamos que
não os desconsideramos; colocamo-los em suspensão, no movimento em que vamos ao
próprio curso, o curso em sua atualização, entrevistando pessoas que nele ocupam
papéis e posições.
Para Bicudo, “A descrição descreve o movimento dos atos da consciência
72. Ela se
limita a relatar o visto, o sentido, ou seja, a experiência como vivida pelo sujeito. Não
admite avaliações e interpretações, apenas exposição do vivido como sentido ou
percebido.” (BICUDO, 2011, p.46). Destacamos, portanto, que apenas descrever não é o
suficiente no movimento de investigação fenomenológica, pois é preciso evidenciar a
estrutura do vivenciado e relatado, ou seja, transcender o dito, o relatado, exposto,
caminho esse que, se não percorrido, permanecemos no nível da linguagem tomada
como objetivamente dada
73. Essa, a tarefa assumida nos movimentos que se seguem.
70
A autora faz uma menção: “[...] com alguma discrepância em relação à leitura e interpretação de textos,
uma vez que estes já transportam experiências vividas, agora postas em linguagem predicativa e escritas
com o cuidado característico da região de inquérito na qual o texto está inserido” (BICUDO, 2011, p.42).
71
A autora anota que essa obra foi publicada, em sua versão primeira, em 1913.
72
Consciência, na fenomenologia, é intencionalidade, é o estar voltado para o que o sujeito destaca,
atentivamente.
73