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Kapitalist Sistem İçinde Resmin Metalaşması

Eu estava com a pena na mão pensando o que havia de escrever, pois há dias não acontece nada. Tem chovido a semana toda, só hoje estiou. Fui à janela para ver se olhando o céu e as estrelas me vinha alguma coisa à cabeça. Nada. Passa um enterro que subia do Rio Grande. Pensei: Vai me dar assunto? Não, pois se não sei quem é. (MORLEY, 1998, p.174, 26jul94).

Se no primeiro momento tecemos considerações sobre a relação entre Helena, a tia, a avó e os pais, vale assinalarmos, também, a presença dos irmãos e irmã da protagonista, pois estes completam o quadro familiar. Helena registra as travessuras, brincadeiras, questionamentos, as tristezas e alegrias dos irmãos. Podemos notar a diferença que há entre eles: um mais apático, outro marcado pela vivacidade e curiosidade, outro acomodado, esperto, tímido ou obediente; também a diferença de idade entre eles deve ser considerada porque cada um reage conforme seu estágio de maturidade psicológica.

Helena participa da educação dada aos irmãos, interfere nas decisões maternas e revela sentimentos e apreço pelo outro:

Hoje vimos que Nhonhô estava de cabeça quebrada, com uma grande brecha, e nem passou água para tirar o sangue. Meu pai indo à casa de Seu Manuel César soube do que Renato fez, porque o caso se passou na porta de Seu Sebastião Coruja, caixeiro dele. Renato montou Nhonhô na besta em pêlo e cutucou-a com uma varinha. Ela deu um pinote e atirou o pobrezinho com a cabeça na calçada.

Renato sempre faz dessas coisas. Já pedi a mamãe que não deixe Nhonhô acompanhá- lo. Eu carreguei Nhonhô de pequeno e por isto gosto muito mais dele. Quando ele nasceu eu já tinha cinco anos e pude ajudar mamãe. (MORLEY, 1998, p.76, 23ago93).

Helena é aliada ao irmão menor, por quem demonstra um carinho especial, sobretudo porque participou das primeiras experiências dele. Assim, exerce sobre o irmão uma postura maternal. Já no que se refere a Renato, o mais velho, Helena sublinha:

Eu fico admirada da fraqueza do Renato para tudo. Vive sempre fazendo coisa malfeita, fugindo de casa atrás de fruta do quintal dos outros que tem muro caído. Mamãe sofre, fala, mas não adianta. Outro dia lhe perguntamos por que ele aborrece tanto a mamãe, e ele respondeu: “O demônio me tenta”. Tive muita raiva da resposta porque sei que a gente pode muito bem livrar das tentações do demônio.

Ontem eu vi que ele é fraco demais e tive até pena. Tenho medo de que ele, com as más companhias, fique desencaminhado, porque ele não pode resistir quando tem vontade de uma coisa

Tio Geraldo veio visitar vovó na Chácara, ontem de noite, Dindinha foi à cozinha e comprou uma travessa de pastéis de carne que as negras estavam fazendo para vender na porta do teatro. [...] Renato que é muito arado ficou assentado perto de mamãe, com os olhos pregados na travessa de pastéis. Quando só tinha ficado um, ele levantou-se, chegou à mesa, enfiou o garfo no pastel e voltou comendo. Quando chegamos em casa meu pai lhe disse: “Você hoje me envergonhou, meu filho. Para que você tirou o pastel que o seu tio estava comendo? Você não viu que ele não tinha

acabado?”. Renato respondeu: “Eu sei, meu pai, que fiz uma coisa malfeita. Pensei muito antes de fazer aquilo; mas estava com tanta vontade que não pude resistir”. Eu fiquei triste com a fraqueza dele. (MORLEY, 1998, p.105, 13nov93).

Podemos observar a impressão e o julgamento sobre a atitude do irmão, acrescido da observação paterna. Helena supostamente condena-o, cobra-lhe o exercício da renúncia, salienta a sua fraqueza e constrói uma impressão talvez falseada desse evento, porque o que está em jogo para ela, diferentemente do pai, é a posse do pastel e não as boas maneiras. Desse modo, Helena revela-se ao observar os irmãos no dia-a-dia. Vejamos outra passagem:

Estou esta semana presa em casa com o joelho ferido e inflamado de uma queda de cavalo. Tenho sofrido muito, não pela ferida do joelho mas pela prisão em casa; ainda mais, no campo. Como é horrível ficar presa num rancho, sabendo que há tanta coisa boa para a gente fazer! Quando eu penso que podia estar no córrego pescando ou mesmo atrás das frutas do mato, dos ninhos de passarinho, armando arapuca e tudo, e que em vez disso estou num rancho pequeno, vendo Renato e Nhonhô lá fora aproveitando, nem sei mesmo o que eu sinto. Se eu soubesse escrever poderia até mesmo escrever um livro grande, tão compridos têm sido os dias agora para mim. Mamãe diz que eu merecia este castigo para não querer mais virar menino homem. Foi mesmo castigo. Tudo que meus irmãos fazem eu invejo, e enquanto não faço não sossego.

Segunda-feira meu pai mandou Renato levar o cavalo para o pasto e eu invejei e fui atrás. No caminho eu lhe pedi para me deixar montar em pêlo, como ele fazia. De maldade ele deixou. Montei no cavalo e não tinha ainda me sentado direito e Renato o cutucou. O cavalo deu um pinote e me atirou nas pedras. Foi com sacrifício que eu consegui voltar para casa. Se a coisa fosse perto de casa eu teria chorado mais e feito muita manha para meu pai castigá-lo; mas foi longe e eu só pude vir gemendo até nosso rancho.

Eu tinha muita inveja de ver meus irmãos montarem no cavalo em pêlo, mas agora estou curada e não montarei nunca mais na minha vida, pois vi que cair é horrível e machuca muito a gente. Como vou acabar mal o ano! Só desejo agora sarar e cair no campo. Como vou ser feliz quando estiver na beira do rio com minha peneira pescando! (MORLEY, 1998, p.116, 30dez93).

Nesse trecho, podemos observar a busca do eu e o papel desempenhado pela mulher. Dessa maneira, vêm à tona questões pautadas na (des)igualdade, como também na busca do autoconhecimento como forma de superação de conflitos internos que povoam o psiquismo da adolescente, já que o seu desejo de ser menino é reprimido e, naquele momento, inclusive o desejo de passear, pescar e brincar no rio também o é. Estes foram interditados pelo irmão que tem mania de cutucar o animal, como já acontecera em outra situação com o irmão mais novo. A superação dessa situação advém com o exercício da escrita do diário e da possibilidade de a escrita levá-la a superar as angústias e resolver os problemas do cotidiano. Outra passagem significativa envolvendo uma situação com o irmão: trata-se de um registro em que Helena questiona a monotonia dos dias e as reflexões de Renato sobre sua visão de mundo. O irmão parou com a atividade e expôs o seguinte argumento:

Renato parou com o alçapão e disse: “Sabem o que eu já estive pensando? Não há esse negócio de céu nem de inferno nada; isso tudo é conversa de padre. Eu penso que a vida é como um punhado de fubá que se põe na palma da mão; quando se assopra vai embora e não fica nada. Nós também depois de mortos a terra come; não tem nenhuma alma”. Mamãe ficou horrorizada e perguntou: “A quem você saiu com estas idéias? Estou pasma do que você disse! Como um menino de sua idade pode ter essas idéias tão hereges! Valha-me Deus, que castigo! Que fiz eu a Deus para ter um filho assim? Virgem Santa! Agora vou viver só por sua conta, meu filho”. Mamãe contou a história de uma mulher que tinha um filho assim e fez penitência de rasgar o corpo com um prego para deus perdoar-lhe. Deus perdoou e ele se ordenou e foi um padre muito santo. Renato fazendo o alçapão, sem levantar a cabeça, disse: “Mas a senhora não precisa rasgar seu corpo com prego que eu não vou ser padre. Pau que nasce torto não se conserta”. (MORLEY, 1998, p.121-2-3, 10jan94).

Os dois trazem à tona afirmações, olham para si mesmos, questionam sua condição psicológica e material, perturbam e impressionam a mãe. Esta, visivelmente horrorizada, se apropria de um fato com o intuito de mudar o pensamento do filho e levá-lo a acreditar nas aventuranças descritas pela Igreja. Ambos, o filho e a filha, apresentam uma forma ousada de pensar, sobretudo no tempo em que viviam. Além disso, trata-se de uma família extremamente religiosa. Nesse sentido, a ousadia impressiona e o apontamento de ambos desconstrói a imposição delegada pela sociedade patriarcal. Helena procura compreender a condição humana e observa as limitações impostas e as restrições pautadas numa ordem coletiva que objetiva o controle e exerce a renúncia.

Renato, diferentemente de Bentinho, de Machado de Assis, assegura à mãe que não se tornará padre, que ela trate de se conformar com a situação. Desse modo, podemos observar as ideias de Renato e Helena, os quais desmascaram uma forma de ver a realidade imposta pela família. Assim, podemos nos voltar às ideias postuladas por Marx, que percebia a religião como uma “[...] fuga da realidade e das condições inumanas de trabalho” (MARX apud SPERBER, 2003, p. 893), ou como Nietzsche, o qual já a pensava como um refúgio para aqueles que sofrem as agruras do cotidiano, ou seja, os fracos. Vale observarmos que Helena apresenta, inicialmente, as implicações que a afligem e, em seguida, expõe a opinião do irmão, e fecha o registro sem nenhum comentário. Isso posto, traz alguma implicação interna que decorre das diferentes vozes que se cruzam.

Trata-se, portanto, não apenas da ousadia, mas da busca de liberdade que move os adolescentes, ou seja, a liberdade de ser e de agir em um tempo nada fácil de expor ideias e pontos de vista. Tais interrogações e especulações promovem uma transformação interna da protagonista. E, se de um lado, percebemos essa construção subjetiva que se dá de forma subliminar, pois as mudanças dessa natureza acontecem no decorrer do modus vivendi, por outro lado, o leitor que se depara com tais registros, precisa, então, ressignificar e inferir sobre

as situações e acontecimentos que trazem implicitamente outro discurso, que se deixa (re)velar para manter a ambiguidade do jogo.

Nesse sentido, “[...] ler ficção significa jogar um jogo através do qual damos sentido à infinidade de coisas que aconteceram, estão acontecendo” (ECO, 1994, p. 93). Helena permite ao leitor elaborar um quadro de cada situação vivida por ela e por aqueles que a circundam. Dessa maneira, a menina apresenta-se de forma dissimulada, pois não pretende expor apenas a impressão do irmão, mas sugere algo para que o leitor, ou ela mesma, experimente a dúvida; ou, talvez, ela seja aquela que provoca e semeia a dúvida para que esta retorne como verdade.

A narradora não aponta apenas as desavenças com o irmão, registra, pois, momentos nostálgicos em que se percebe o companheirismo no dia-a-dia:

Penso que vou ter a maior alegria no dia em que pescar um só que seja. Renato me explica tudo bem. Eu fico com a vara na mão tempos esquecidos e não sai nada; o lambari belisca o anzol, come a isca e vai-se embora. Renato pescou mais bagres que lambaris e Nhonhô não pegou nem um passarinho. Eu, quando desisti de pescar, fui passear e apanhar sempre-vivas. Depois tomamos banho no Glória, lavamos os cabelos e subimos já com as roupas enxutas. (MORLEY, 1998, p.141, 5abr94).

O quadro que podemos visualizar distancia-se das interrogações contundentes, aproximando-se de um paraíso idílico, que fica em Diamantina, onde se pode pescar, apanhar flores e tomar banho no rio. Esse cenário descrito retoma o belo e o sublime numa visão paradisíaca, como se o campo fosse o lugar ideal para se viver, locus amoenus, que provê as necessidades básicas de sobrevivência e as de natureza de afetiva. Todavia, o leitor avisado não se esquecerá de outras passagens descritas pela diarista, como as dificuldades que rondam a família.

Posteriormente, ressalta que Renato era muito acanhado e tia Madge toma a decisão de “[...] desasnar o Renato. Ele já fez quinze anos e parece um bicho do mato. Só quer andar pescando e pegando passarinho e não aprendeu a entrar numa sala” (MORLEY, 1998, p.198, 3nov94). Porém, o irmão possui liberdade de ir e vir, é habilidoso nas atividades que desempenha e isso lhe garante uma autonomia financeira, mas, segundo Morley, “[...] se ele gostasse de estudar como de trabalhar, poderia dar gente” (MORLEY, 1998, p.219, 2jan95). O interessante é que Helena também prefere a liberdade da rua à escola. No entanto, no irmão vê como defeito o que nela é prazer de viver livremente.

O irmão acaba ocupando o lugar paterno, na ausência de Alexandre, desdobrando-se em cuidados com a irmã:

Renato entrou em casa como uma fúria; tinha brigado com um português chegado há pouco, que está empregado como caixeiro na loja de Seu Cadete. Foi entrando e me dizendo: “Já briguei com o Manuel do Cadete por sua causa. De agora em diante passe por ali com a cara séria. Não fique andando pela capistrana com as outras sempre rindo como vocês fazem. Você está ficando moça; é preciso ter modo na rua. Por essas e outras é que eu ouço dessas coisas”.

Fiquei desapontada, sem compreender. (MORLEY, 1998, p. 298, 2out95).

Helena e o irmão estão crescendo, e ela, embora diga que não compreendeu a história, sabe que não é mais uma criança. Para os outros, tem um corpo, sexualizado e desejável. Dessa maneira, podemos observar a presença de Renato em vários episódios narrados pela protagonista, seja em alguns momentos corriqueiros ou quando se apresenta alguma tensão. Já no que se refere à irmã Luisinha, apesar de estar sempre com Helena e presente em quase todos os registros, a menina apresenta uma imagem desfigurada em relação à irmã mais velha, já que Morley tem controle sobre ela, a qual está sempre a seu favor: “Hoje cheguei em casa tão diferente que Renato foi me olhando e dizendo: ‘Olha a cara dela!’. Luisinha que é melhor mil vezes do que ele, disse: ‘Como você ficou bonita, Helena! Quem te arranjou assim?’” (MORLEY, 1998, p.77, 24ago34). Helena engana a irmã, faz-lhe propostas indecorosas, toma o que lhe pertence, mas questiona:

Por que todo mundo gosta de reprovar as coisas más que a gente faz e não elogia as boas? Eu e minha irmã nem parecemos filhas dos mesmos pais. Eu sou impaciente, rebelde, respondona, passeadeira, incapaz de obedecer e tudo o que quiserem que eu seja. Luisinha é um anjo de bondade. Não sei como ela pode ser como ela, tão sossegada. Nunca sai de casa sem ir empencada no braço de mamãe. Não reclama nada. Se eu disser que já vi reclamando um vestido novo, minto. E se ganha um vestido e eu quiser lhe tomar, ela não se importa. Pois todos me chamam de menina rebelde e ninguém elogia Luisinha. (MORLEY, 1998, p.79, 29ago93).

A impressão registrada por Helena revela a maneira pacata de ser da irmã e isso colabora para que suas qualidades sejam enaltecidas: “Luisinha é muito teimosa. Ela me obedece muito mas é muito gulosa e come coisas que lhe fazem mal, mesmo escondido” (MORLEY, 1998, p.99, 1º nov93). Assim, as duas são companheiras, vão ao colégio, sofrem, gostam de cuidar de crianças pequenas dos vizinhos; nunca tiveram bonecas compradas em loja, confeccionam as suas próprias, grosseiras e de pano, roubam frutas, espiam tio Antônio, suposto maçom; porém Helena se surpreende com a irmã quando esta ficou no Colégio das Irmãs e manifestou um comportamento adverso, pois chorou, gritou e fez um espetáculo, conforme registra no diário. “Luisinha, sempre foi acomodada e boazinha, gritava alto para as Irmãs ouvirem: ‘Helena, você é que foi ladina de não querer vir parar aqui! Isto aqui é que é o inferno!’”(MORLEY, 1998, p.221, 7fev95).

Nhonhô, ou Joãozinho, é o irmão mais novo. Este aparece em número menor de registros e entradas no diário. O menino sempre está ao lado de Renato ou acompanha a mãe quando esta permanece na lavra com o pai. Ele gosta de caçar e prender passarinhos na arapuca. Em 1895, Helena registra: “Nhonhô, meu irmão, que tem sete anos, estava bem quietinho, sentado na porta” (MORLEY, 1998, p. 259, 8jun95), e toma uma surra de uns meninos da rua, ou acompanha Renato em afazeres do dia-a-dia. Dessa maneira, a protagonista registra e compõe o quadro familiar, interpreta-o e propicia ao leitor organizar uma ideia da configuração dos sujeitos envolvidos nos relatos. Além disso, a menina propõe diferentes perspectivas, mas também deixa lacunas no seu discurso.

Pensar na relação de Helena com os irmãos faz-se necessário, porque a família é um espaço de aprendizagem que insere e lança o sujeito a outros mundos. Além disso, conforme Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso, no texto intitulado Fadas no divã: Psicanálises nas

histórias infantis, onde “[...] houver irmãos, haverá desigualdade de fato ou a suposição de que ela existe. É raríssimo o caso em que um grupo de irmãos considere equânime a distribuição do amor dos pais” (CORSO, 2008, p.111), e também os filhos observam essa distribuição dos pais entre os seus pares. Assim, a preferência dos genitores “[...] incidirá sobre o filho menos independente, menos rebelde aos mimos, mais exigente de atenção. Os filhos que mostram maior interesse pelo mundo externo que pelos assuntos domésticos não são dignos dessa escolha por serem traidores” (CORSO, idem). Dessa maneira, para “[...] amar fora de casa, é preciso ter diminuído a importância do amor dentro e percebem” (CORSO, 2008, idem). Assim, a explicação dos estudiosos nos ajuda a compreender sobretudo o relacionamento entre Helena e Carolina.

Isso possibilita ao leitor apropriar-se do texto e participar da construção fictícia, pois “[...] nos estimula a fechar a lacuna na experiência através da interpretação, ao mesmo tempo dando a possibilidade de desmentir as nossas próprias interpretações; dessa maneira, continuamos abertos para novas experiências” (ISER, 1996, p. 102). De fato, Helena nos oferece a possibilidade de reflexão e também de participar de forma ativa desse mundo elaborado por ela.

Benzer Belgeler