• Sonuç bulunamadı

Eu, de pequena, tinha inveja muitas vezes, mas hoje não tenho. Agradeço muito isto a vovó. Foi ela quem me corrigiu. Eu sou a mais pobre da minha roda. Vejo a diferença da minha vida e das outras e não as invejo. Se elas soubessem os meus serviços em casa e na Chácara teriam pena de mim; no entanto eu gosto muito de todos eles. (MORLEY, 1998, p.148, 26abr94).

O diário Minha vida de menina tematiza a memória, revela o estado psicológico da personagem em fase de transição da infância para a adolescência, marcado pelo luto e a descoberta de uma nova etapa de vida, o capitalismo e o processo de modernização

vivenciado no Brasil. No seu conjunto, podemos assinalar uma série de temas e motivos complementares que perpassam pelo diário, como: inveja, pobreza, ilusão, sonho, marginalidade, superstição, causos e casos populares, caridade, alimentação, diversão, inauguração do telégrafo, diferenças econômicas e culturais, formas de organização familiar, hipocrisia, brincadeiras infantis (confecção de bonecos e apresentação de teatro), aulas de economia e boas maneiras. Educação, inventos, diferenças pessoais e sociais, velhice e costumes, manias, esquisitices, crenças, descrença, o relativismo ético e moral. Religiosidade, rituais e convenções religiosas. Sentimentos e emoções: vingança, raiva, mágoa, ressentimento e máscaras sociais. Roubo/furto, enfrentamento, acusação, marginalização do negro. Modernização, mineração, escrita, arte, pobreza. De fato, Helena traz uma série de temas e motivos; alguns deles se repetem, no decorrer dos registros, como também se ampliam, com a introdução de novas informações

Dentre a lista dos temas que percorrem o diário, acreditamos ser interessante trazer à tona a discussão sobre alguns aspectos temáticos que nos possibilitam entender Helena Morley, como, por exemplo, a questão da inveja. Esse sentimento de desgosto ou de pesar, ou o desejo de possuir algo alheio, é nomeado em vários momentos pela narradora, sentimento que é percebido pela mãe e avó. Ambas procuram amenizar a expressão e pautam-se nos ensinamentos bíblicos, para sustentar e reparar o estado da menina: “Quando eu tenho inveja da sorte dos outros, mamãe e vovó dizem: “Deus sabe a quem dá sorte”. Na Boa Vista agora é que acabei de crer. Já disse a vovó que ela quase nunca erra, quando fala as coisas” (MORLEY, 1998, p.21 – jan93).

A partir da linha psicanalítica, Melaine Klein explica que a pessoa invejada é “[...] sentida como possuidora daquilo que, no fundo, é o mais prezado e desejado [...] A inveja é uma fonte de grande infelicidade, e estar relativamente livre dela é sentido como um estado de espírito de contentamento e de paz – em última análise, sanidade” (KLEIN, 1991, p. 235)13. Conforme a estudiosa, a inveja não é um estado que, precisamente, perdura a vida toda, porque há recursos internos em que a pessoa pode recuperar a paz interior. Para tanto, tal atitude inclui “[...] gratidão por prazeres do passado e satisfação com que o presente pode oferecer” (KLEIN, 1991, p. 235), a fim de, por conseguinte, alcançar um espírito de serenidade. A gratidão é essencial para a construção “[...] da relação como objeto bom e é

13 Klein escreve: “Quando Goethe disse ‘O mais feliz dos homens é aquele que pode harmonizar o fim e o começo de sua vida’, eu interpretaria ’o começo’ como sendo a relação inicial feliz com a mãe, que ao longo da vida mitiga o ódio e a ansiedade, e ainda dá apoio e contentamento a pessoa idosa. Um bebê que tenha estabelecido com segurança o objeto bom pode igualmente encontrar compensação para perdas e privações na vida. Tudo isso é sentido pela pessoa invejosa como algo que ela nunca pode alcançar, porque nunca pode ficar satisfeita, e, portanto, sua inveja é reforçada” (KLEIN, 1991, p. 235).

também o fundamento da apreciação do que há de bom nos outros e em si mesmo” (KLEIN, 1991, p. 219).

Se ela inveja a irmã que sai à rua com uma faixa no rosto, por causa de uma dor de dente, ou da chácara de uvas do professor Sebastião, ou de quem não tem acesso de risos, ela também pode provocar inveja nas primas, quando leva cera debaixo da bandeira na festa do Divino, considerada por ela uma das melhores festas de Diamantina, já que dona Teodora fizera uma “[...] promessa todo o ano e quando chega a festa do Divino eu ganho um vestido novo para levar a cera. Também é a única coisa em que eu faço inveja às outras primas” (MORLEY, 1998, p.56, 21mai93).

Em outros momentos, ela não consegue nomear esse sentimento. Como exemplo, no mês de junho, numa comemoração de São João, na Chácara da Romana, tio Conrado e tia Aurélia fizeram uma grande festa com muita comida e brincadeiras (traquinhos, busca-pé), mas, segundo o tio, de algumas brincadeiras as meninas não podiam participar, com exceção de Helena:

Pular fogueira só para Helena que é doida. Assar cana, batata-doce, que horror! Só de uma coisa eu tive inveja. Não estou bem certa se é mesmo inveja, porque a gente às vezes pensa que é uma coisa e é outra; foi de tio Conrado fazer a festa cedo e mandar os primos descerem às nove horas para estudarem suas lições, apesar de ser sábado.

Se mamãe fizesse assim, eu seria boa aluna como eles são. Mas felizmente ela não se lembra disso. (MORLEY, 1998, p.64, 25jun93).

Podemos observar a presença de um sentimento marcado pela ambivalência e pela falta, visto que, ao mesmo tempo em que deseja o controle dos pais, sobretudo materno, ela goza da liberdade que lhe pertence. Ela reconhece a situação e o desempenho escolar, mas delega a autoridade aos pais. Enquanto não é cobrada, aproveita a festa. Em outros momentos, inveja a sorte da mãe que fica na Boa Vista, ela e Luisinha aos cuidados da avó. Esta faz Helena estudar horas durante o dia e tranca Luisinha no quarto. A irmã dorme, enquanto ela precisa escrever durante quase o dia todo, “[...] morrendo de inveja de mamãe e meus irmãos que estão no paraíso e nós aqui” (MORLEY, 1998, p.126 – 13fev94). Helena prima pela liberdade, prefere o campo à cidade, sabe da importância do estudo e sempre encontra meios para passar de ano, seja decorando os pontos, seja mesmo colando.

Helena tem percepção das diferenças sociais e econômicas, há uma dinamicidade na forma de olhar a si mesma e o outro, de sorte que realiza uma autoanálise, percebe as carências, como também os pontos positivos de seu lugar de fala. A partir disso, dá-se a construção de sua subjetividade e a reavaliação de seus sentimentos. Prova disso é o instante

em que a avó discutiu com Dindinha, porque a tia enaltecia a beleza de Naná, talvez com intuito de provocar ou diminuir Helena. Nesse sentido, dona Teodora consola a neta, porém ela se assegura da mudança interna que lhe ocorreu.

A inveja não cessa de uma vez e os relatos de Helena sobre o sentimento sempre acontecem. Uma vez relatou da inveja que sentiu quando Catarina, uma amiga que lhe ensinava a fazer crochê, contou-lhe da bondade de Deus para com sua família, porque providenciava todas as necessidades básicas. Helena chega a acreditar que rezar “[...] vale mais do que proteção ou trabalho” (MORLEY, 1998, p.183, 30ago4). Nesse dia, a família precisava de toicinho para o almoço; como seu Neves não tinha dinheiro, disse que Deus o daria e, de fato, o alimento chegou. A filha perguntou-lhe: “‘Donde veio, papai?’ – ‘De Deus’, respondeu ele” (MORLEY, 1998, p.184, 30ago94). A curiosidade de Helena aguçou e quis saber: “[...] ‘Onde o senhor encontrou Deus para Ele lhe dar o dinheiro?’ Seu Neves respondeu: ‘Ele mandou por linhas travessas. Pedro Moreira estava me devendo uns atrasados de aluguel de pasto, e Deus o fez pagar hoje’” (MORLEY, 1998, p.184, 30ago94). A inveja de Helena não recai sobre o objeto alcançado, mas a forma como as coisas acontecem e, ao mesmo tempo, desconfia dessa providência.

À medida que o tempo passa, Helena sabe que também pode provocar inveja, não apenas pela sua criatividade, como também pela inteligência. Nem mesmo ela acredita em tanta astúcia: “Às vezes eu mesma fico pasma de como me vem inteligência para certas coisas” (MORLEY, 1998, p.208, 3dez94). Atribui essa habilidade à contribuição advinda de Nossa Senhora: “Ela viu que eu precisava ao mesmo tempo de um uniforme e de um vestido e me inspirou tudo direitinho. O vestido foi tirado tudo da minha cabeça, sem ver um figurino. Como eu podia ter tido uma idéia tão boa!” (MORLEY, 1998, p.208-9, 3dez94).

Para a realização desse desejo, Helena apropriou-se de um broche da família e vendeu- o para o ourives Seu Mendes, pois já fazia um mês que queria o vestido e o uniforme, mas não se arrepende, porque a mãe conseguiu os trinta mil-réis para conseguir novamente a joia. Ela diz: “Sei que está bonito pela inveja que causou” (MORLEY, 1998, p.208, 3dez94). E assinala, ainda: “Estou gozando a inveja que causei às colegas quando passei na loja do Mota, na vinda para o almoço e na volta, e eles vieram para a porta me olhar. Tião veio de lá de dentro me cumprimentar pelo vestido. O diretor passou por mim duas vezes, viu e não disse nada. Foi um sucesso!” (MORLEY, 1998, p.209, 3dez94). Helena busca mecanismos de defesa, procurando suscitar a inveja nas amigas, através do sucesso que imagina ter alcançado. No entanto, esse método é ineficiente e deriva “[...] da ansiedade persecutória a que dá origem. As pessoas invejosas e em particular o objeto interno invejoso são sentidos

como os piores perseguidores” (KLEIN, 1991, p.251). Esse desejo de perceber a inveja dos outros pode também gerar a culpa e o medo de danificar as pessoas amadas.

Helena se mostra e se esconde, há um jogo que permeia o diário, evidenciando-se o desejo de liberdade e a construção de fantasias do objeto invejado, como se este pudesse assegurar-lhe a sua felicidade: “Eu tenho às vezes tanta inveja do urubu voar tão alto. Agora que seria se eu virasse urubu? Isso é que seria engraçado [...]” (MORLEY, 1998, p.95, 11out93), uma vez que o desejo “[...] que acompanha a inveja é assim determinado como um desejo de coincidência, de restauração da plenitude narcísica rompida com a descoberta do limite e da diferença, isto é, do intervalo entre um e outro” (MEZAN, 2009, p.150, grifo do autor).

Conforme Melaine Klein, o sentimento de inveja tem sua origem no início da vida (sádico-oral e sádico-anal), “[...] remonta a mais arcaica e exclusiva relação com a mãe” (KLEIN, 1991, p.212); resumidamente, trata-se da maneira como se estabelece a relação com o seio bom e o seio mau. Assinala que a inveja causa sofrimento, quando o sujeito vê que a outra pessoa possui aquilo que deseja. Provavelmente, todas as pessoas experimentam esse sentimento, umas em grau maior, outras menor, mas o certo é que todos os seres humanos ativam em si a inveja. Como exemplo, no caso de Helena, os familiares que invejam a relação entre a neta e a avó ou a maneira descontraída e comunicativa da menina.

Assim, a inveja remete às circunstâncias comuns marcadas pela frustração e pelo tédio presente nas situações cotidianas da vida. Em consequência, cada um a sua maneira vivencia- a de uma forma. Helena, por sua vez, realiza um exercício terapêutico de ver-se a si mesma, analisar a sua atitude num processo de reparação quando se apropria do caderno de anotações. Quer dizer, por meio da escrita ela reconstrói a sua experiência, por conseguinte, é capaz de elaborar situações anteriores e recuperar o objeto bom.

Helena reconhece o sentimento de inveja, tanto na escrita, como também pela voz da avó materna, e não reluta em aceitar seu auxílio – aceita, deixa-se beneficiar e valoriza as observações de dona Teodora, pois não recebe os conselhos como uma atitude destrutiva. Nessa perspectiva, se o bom alimento e o objeto originário não puderam ser aceitos e

assimilados nas experiências iniciais de vida, isso não se repete na relação estabelecida entre avó e neta ou na relação com o diário. Desse modo, o objeto bom14 é recuperado e favorece a

14 No que se refere ao seio bom, Melaine Klein declara: “O seio ‘bom’ que nutre e inicia a relação de amor com a mãe é o representante da pulsão de vida e é também sentido como a primeira manifestação de criatividade. Nessa relação fundamental, o bebê não apenas recebe gratificação desejada, mas também sente que está sendo mantido vivo. Pois, a fome, que suscita o medo de morrer de inanição, e possivelmente suscita até mesmo toda dor psíquica e física, é sentida como ameaça de morte. Se a identificação com um objeto internalizado bom e

estabilidade e construção de um ego forte. Daí o desejo de reparação e a aceitação. Isso implica a gratidão dos conselhos advindos da avó, que interpreta o comportamento e a atitude da neta, porque ela ajuda a neta atravessar os conflitos e sofrimentos internos; de seu lado, a menina consegue promover, internamente, a sua estabilidade e integração e ganha confiança em si mesma. Além disso, a partir do momento em que há uma mudança dos desejos orais para os genitais, há uma redução significativa da importância da mãe como instância provedora. Isso possibilita a redução do sentimento de inveja, portanto, o sujeito busca outros ou novos objetos de amor.

Podemos observar uma menina aos catorze anos que se descobre mulher, sente-se olhada e desejada, não chamando a atenção apenas de olhares femininos, como também do sexo oposto. Ela está crescendo e descobrindo-se não mais uma menina, mas alguém que tem ciência das qualidades e atributos físicos e psicológicos. Além dessas questões, vale assinalar a importância do diário, porque o leitor se depara com um sujeito que vivencia uma série de conflitos internos, não um ser idealizado, meramente bom. Ao contrário, Helena mostra o avesso, aquilo que todos procuram esconder, os desejos e sentimentos mais arcaicos e mesmo o que denigre a imagem. Por isso, quando pensamos em Machado de Assis, que denuncia a hipocrisia humana, pensamos em Helena, que se mostra livre dessa hipocrisia, porque se apresenta como sujeito que busca a reparação e não o encobrir-se da não vicissitude da alma, do seu aspecto mais sombrio.

Ela provoca ou suscita a inveja nas outras meninas, pelo uso da sua própria capacidade criadora, sente-se possuidora de algo que lhe traz felicidade e reconhecimento, sobretudo perante os outros. No caso do estudo, assinala não a sua incompetência ou a ausência de habilidades intelectuais: sabe que priva a si mesma desse potencial, porém, reage quando percebe que pode ser reprovada, pois, conforme a avó, as tias e o pai, ela é muito inteligente. Nesse sentido, desvaloriza os seus próprios dons, nega-os, de que decorre a inveja da cobrança dos tios em relação aos filhos.

Roberto Schwarz assinala uma série de hipóteses no que se refere à questão em pauta: a menina pode estar “fazendo gênero” e sustentar a tese da contradição, como também colocar-se no lugar de abnegada, bucólica ou construir uma imagem de um sujeito edificante, embora não seja essa a impressão que ela dá: “Aliás, para afastar a hipótese da ostentação de virtude, note-se a sua inveja também enérgica dos confortos e pertences das primas ricas”

propiciador de vida puder ser mantida, ela se torna uma força propulsora para a criatividade. Embora superficialmente isso possa manifestar-se como cobiça por prestígio, riqueza e poder que os outros tenham alcançado, seu objetivo real é a criatividade. A capacidade de dar e preservar a vida é sentida como o dom máximo e, portanto, a criatividade torna-se a causa mais profunda de inveja” ( KLEIN, 1991, p. 233-4).

(SCHWARZ, 1987, p.53). Se há esse desconforto em relação às primas, sobretudo no que diz respeito às condições materiais, há também um sentimento de inveja das amigas estudiosas e aplicadas na sala de aula, como também da vida pobre da lenheira com a filha que moravam num casebre no meio do mato: “Se eu disser que lhes invejo a sorte ninguém acredita; mas elas vivem a vida de que eu gosto! Moram num rancho que não dá trabalho para arrumar e no meio de um campo largo com uma vista maravilhosa” (MORLEY, 1998, p.292, 3set95).

Dessa maneira, o emprego da palavra “inveja” ganha um caráter ambivalente e podemos questionar: Helena, de fato, é uma menina invejosa ou se apropria do vocábulo de maneira trivial e sem um alcance relevante? Ou o objeto da inveja reside no modo de vida que lhe condiz, seja das relações sociais, seja daquilo que o espaço lhe oferece. Ou se trata do comportamento das pessoas. O discurso de Helena se pauta na valorização das relações sociais: estas, sim, seriam fatores que definiriam o bem-estar das pessoas: “Eu regulo por mim; tenho invejo das pessoas boas e santas mas não posso deixar de ser o que sou” (MORLEY, 1998, p.40, 3dez93).

Se Helena apresenta um conflito ocorrido na relação imaginária com o seio bom; se acredita que há outras meninas mais bonitas e inteligentes do que ela e que podem ter vestidos lindos; a maneira como as pessoas conseguem encontrar solução para os problemas cotidianos, sobretudo a partir da providência divina; pessoas santas ou não, as relações de trabalho, que permitem uma relação comunicativa, perturbam-lhe a alma. Todavia, ela reconhece que quer se encontrar com o seu si mesmo, sabe ler o seu desejo interno, ainda quando olha para o outro e reconhece o que gostaria de ter, mesmo quando se defronta com o discurso religioso. Que seja uma marca lexical ou não, reconhece-se como sujeito e evidencia a desigualdade social em que está inserida, o espaço paradoxal que é a pequena Diamantina daquele tempo, e comunica pelos relatos a complexa sociedade brasileira que começa a se formar após a Abolição e o início da Nova República.

Outro aspecto temático no diário é a questão da religião e dos preceitos tratados, especialmente pela Igreja Católica ou pelos fiéis que interpretam a fala dos padres, porque podemos observar que não há exercício de leitura de textos bíblicos pelos católicos, mas a exaustiva realização de rituais, procissões e novenas. Paralelo ao catolicismo, vale lembrar que Helena perpassa por dois espaços extremos, visto que a família paterna descende de ingleses e protestantes, de sorte que apresentam outros hábitos e costumes, diferentes dos da família materna. A avó materna, por exemplo, recebe a comunhão em casa, como também recebe o Santíssimo e espera-o em procissão: “Mandou pôr pela rua afora montinhos de areia

e folhas de café. Preparou o altar, acendeu as velas e ficou radiante de ver o Santíssimo entrar em casa” (MORLEY, 1998, p.31, 28fev93).

Desse modo, são representadas no diário manifestações da religiosidade católica na cidade de Diamantina, caracterizada pelas práticas e crenças ligadas ao culto e às devoções aos santos, em atividades organizadas pela Igreja. Conforme Solange Ramos de Andrade, estudiosa da História das Religiões e das religiosidades, a religiosidade católica “[...] constitui um patrimônio cultural extremamente rico e suas potencialidades para os estudos acerca da identidade, patrimônio material e imaterial” (ANDRADE, 2010, p. 116). Por esse viés, podemos observar como Helena manifesta as impressões das experiências vividas da identidade coletiva daquela época. Há, pois, um processo que envolve uma dimensão mais ampla, porque as manifestações envolvem a organização social no todo (economia, política, educação, dentre outros).

Andrade explica que as principais manifestações da religiosidade podem ser compreendidas em três aspectos que se complementam. O primeiro tem a ver com o “[...] culto aos santos. As pessoas vivem sua relação diretamente com Deus e ao mesmo tempo de uma maneira muito hierarquizada ao eleger como intermediários aqueles santos que, por uma série de detalhes, aparecem mais próximos da vida cotidiana” (ANDRADE, 2010, p. 117). O segundo refere-se às viagens dirigidas aos santuários (romaria e peregrinação) e o terceiro concerne aos ritos e cerimônias. Como exemplo, o pedido de “[...] curas, proteção dos e para os mortos, resolução de problemas emocionais e financeiros, conservação da saúde, dentre outros” (ANDRADE, 2010, p. 117). Dessa forma, podemos constatar que o primeiro e o terceiro aspectos são recorrentes no diário, ou seja, são manifestações que perpassam por todos os ambientes, quer na casa do abastado, quer não. Embora Helena critique tais manifestações, ela também se vale dos santos para encontrar soluções dos problemas cotidianos, seja para passar de ano escolar, seja pela saúde da avó ou para conseguir uma roupa nova.

Nesse sentido, as práticas religiosas permitem a aproximação do sujeito ao sagrado. Há uma aproximação entre o homem e Deus ou ao santo que provê algo para ele. Ou seja, os desejos, sentimentos e vaidades humanas. Conforme Andrade, geralmente as necessidades imediatas são relativas a problemas com dinheiro, emprego, questões acerca dos sentimentos e das relações familiares e amorosas. Sendo assim, a devoção aproxima o religioso do sagrado, e, ao “[...] mesmo tempo que privatiza, há na religiosidade uma tendência à comunidade, ao grupo, necessidade de se unir a outros que falam a mesma língua e vivem em conjunto a presença de Deus” (ANDRADE, 2010, p. 118). Definem-se, então, estratégias de

convivência, onde se pode perceber o trânsito de um espaço de opressão para outro que lhe pode beneficiar.

Helena apresenta vários rituais praticados pelos cristãos; como exemplo, a Procissão

Benzer Belgeler