2. KURAMSAL TEMELLER
2.1. Kapiler Elektroforez
2.2.6. Kapiler Elektroforez Türleri
Após todas essas reflexões em termos éticos e sua relação com a educação, é importante refletir agora sobre a questão política, que para Tomás se trata de uma Ética do homem, nesse sentido.
Tomás não deixou um tratado sistemático sobre política. Suas idéias políticas estão esparsas em várias de suas obras. Recebe a influência de duas grandes figuras que são Santo Agostinho e Aristóteles, que convergem numa importante síntese, embora de tarefa difícil. A diferença entre a posição tomista e as concepções patrísticas é que Tomás supera o pessimismo metafísico com relação ao mundo com desvalorização da vida política, além da influência na Idade Média de um individualismo filosófico-político, que conduzia à idéia da comunidade política como uma situação artificial, resultado de um livre convênio entre os homens e não algo proveniente da própria natureza humana. No pensamento aristotélico não há nenhuma situação ou forma de vida que seja estranha à convivência política, sendo o homem por natureza um ser social e político e não podendo deixar de sê-lo, sem deixar de ser homem (GALÁN GUTIÉRREZ, 1945, p. 1-5).
Para Tomás, como para Santo Agostinho o Estado não é um produto do pecado original. A vida humana, mesmo na situação paradisíaca, era de convivência social. Sem pecado original existiria da mesma maneira a sociedade e com ela o Estado. O fundamento do Estado está na natureza social, racional e livre do homem, sendo que tal natureza exige uma autoridade, um gestor com a incumbência de buscar o bem comum, devendo os homens esclarecidos e destacados por sua virtude saber colocar-se à cabeça e ao serviço de seus semelhantes, dirigindo-os. Uma das idéias chave do pensamento tomista é que o homem é por essência e natureza um ser social e sociável. Ser um animal político e social é próprio do homem. A sociedade e o Estado são, portanto, uma dimensão ontológica do homem, algo ligado ao mais íntimo dele. O Estado é um produto da natureza, porém, não causado diretamente por ela, mas pelos homens em virtude dos mais profundos e consubstanciais impulsos de seu ser. Mais: considerando que tudo o que é natural procede de Deus, o Estado é, por fim, obra divina. Isso não quer dizer que a vontade divina crie diretamente o Estado. Deus intervém na ordem natural, a que, por último, corresponde o Estado. Ele o faz por causas secundárias, que são as ações humanas. O Estado é natural também, porque surge como conseqüência do instinto social do homem e não algo artificial ou casual. Por outro
lado, sendo o homem racional, a obra de tal impulso pode e deve ser racionalizada, voluntariamente querida e livremente determinada. Nesse sentido, ele é também um ato voluntário, uma coincidência de vontades, em resumo, um convênio ou contrato, porém, diferente de uma visão contratualista no sentido moderno, em que o contrato é o fundamento constitutivo do Estado. Para Tomás, o fundamento constitutivo se encontra no impulso social do homem, sendo o Estado conjuntamente um produto do instinto social e da indústria do homem (GALÁN GUTIÉRREZ, 1945, p. 9-15).
Os animais já têm por instinto a capacidade de suprir suas necessidades por si próprios, enquanto que o homem faz uso da razão e precisa, portanto, da ajuda de seus semelhantes para seu aprendizado, ainda que seja para as coisas mais básicas. Para Tomás é também necessária a linguagem para a vida em comunidade. Os animais também emitem sons, mas não no mesmo sentido do homem, necessitando de comunicar-se com seus semelhantes, exprimindo por meio de palavras, pensamentos ordenados (GALÁN GUTIÉRREZ, 1945, p. 16-20).
Para o autor, a teoria do direito natural é o fundamento da teoria política, herança do estoicismo e que era considerada como fundamento do próprio direito canônico. O fundamento dessa lei, por sua vez, é a lei eterna, que existe na mente divina e que governa todo o universo. A lei natural que existe no homem é uma participação nessa lei. Ela se concretiza em três inclinações: 1) a inclinação para o bem natural, que existe em qualquer substância, que, como tal, deseja a sua conservação; 2) a inclinação para certos atos ensinados pela natureza a todos os animais, tal como a união do macho e da fêmea, a educação dos filhos e outros e 3) a inclinação para o bem, de acordo com a natureza racional própria do homem, como a inclinação para conhecer a verdade, a de viver em sociedade, etc. Além dessa lei eterna que é natural para o homem, há ainda duas outras espécies de lei: a humana, inventada pelos homens para regulamentar de modo particular as coisas e a divina, necessária para conduzir os homens aos fins sobrenaturais. Segundo Tomás, que se baseia na teoria do direito natural, a lei que não é justa não é lei. Para ele, da lei natural devem derivar todas as leis humanas (ABBAGNANO, 1985, p. 48).
Compete também à coletividade ditar as leis, uma vez que o fim primeiro e fundamental delas é dirigir para o bem comum. Portanto, cabe à coletividade estabelecê-las ou à pessoa pública que cuida de toda coletividade. A razão disso é que em todas as coisas somente pode dirigir para um fim aquele a quem o próprio fim pertence. Deste modo, o autor
afirma explicitamente a origem popular das leis. A melhor forma de governo é a monarquia32, porque é a que melhor garante a ordem e a unidade do Estado, sendo também a mais parecida com o governo divino do mundo. O Estado, por sua vez, embora possa conduzir os homens para a virtude, não pode, no entanto, endereçá-los para a fruição de Deus, o seu fim último. O governo civil, que é fim menos alto, deve se subordinar ao fim mais alto, ou seja, o governo religioso que é o próprio Cristo e que foi confiado por Cristo ao Papa (ABBAGNANO, 1985, p. 48-49).
A sociedade civil necessita de uma autoridade, cuja função é a busca do bem comum no respeito ao direito e à justiça. O direito ou o justo é o objeto da justiça, que faz dar a cada um o que lhe é devido, a respeitar nas relações com os outros o que é justo, o direito de outros. Convém distinguir o direito natural do direito positivo. O primeiro diz respeito à natureza das coisas e o segundo o que nasce de uma convenção. Finalmente o direito das gentes é o direito positivo comum a quase todas as sociedades humanas. Ele é constituído por convenções, que a razão humana deduz do direito natural. O uso dos bens da terra de acordo com as necessidades é um direito natural, sem o que a vida humana é impossível. Quanto ao direito de propriedade, o de possuir permanentemente certos bens depende do direito das gentes. É comum os homens admitirem este direito de possuir pessoalmente bens, considerando que possuí-los em comum envolve graves inconvenientes: é uma fonte de conflitos, de insegurança e negligência, já que ninguém cuida do que pertence a todos (VAN STEENBERGHEN, 1995, p. 145-146).
O poder político é a causa formal do Estado, a sua essência. As formas de Estado são formas em que se exercita este poder. Porém, o poder político pertence à comunidade por direito natural. Sempre que a comunidade é incapaz como multidão de exercer por si mesma qualquer ato de poder político, precisa conferir o poder a uma determinada ou determinadas pessoas. No entanto, não se trata de uma alienação, mas de uma concessão pela qual se transfere simplesmente o exercício do poder, mas este permanece tendo seu titular na comunidade (GALÁN GUTIÉRREZ, 1945, p. 151-152).
A monarquia é o governo de um chefe único, a aristocracia o governo de um grupo restrito formado por cidadãos de elite e a república um governo organizado pelo povo. Dessas formas de governo qual é a melhor? Na opinião de Tomás, todo sistema tem suas vantagens,
32 Embora o autor na prática faça opção por esta forma de governo, por considerá-la mais conveniente, em princípio considera que todas as formas têm seus méritos e deméritos. Se, por exemplo, a monarquia é a mais aceitável, quando degenerada se torna a pior das demais.
mas também seus inconvenientes33, já que cada uma dessas formas pode tornar-se tirânica por abuso de poder: o monarca torna-se um tirano, a aristocracia torna-se oligarquia e a república demagogia34. No entanto, parece-lhe que a melhor forma seria a monarquia, porque garante melhor a unidade, com um contrapeso de um conselho aristocrático, o monarca e seus conselheiros, sendo esses eleitos pelo povo e proveniente dele. É normal a intervenção do povo, porque se a autoridade vem de Deus, o povo é seu primeiro depositário, que a delega aos que escolhe pela sua virtude e competência (VAN STEENBERGHEN, 1995, p. 146-147).
A respeito da degeneração de um governo na tirania, entende Tomás que o regime será reto e justo quando o governante visa o bem comum, mas quando o regime se orienta ao bem privado do governante, então seu governo será injusto e perverso. Esse governo, buscando o interesse privado, oprime de várias maneiras os homens de acordo com sua ânsia de bens (GALÁN GUTIÉRREZ, 1945, p. 182-183).
Após todos esses posicionamentos, o que se pode concluir da concepção política de Tomás? Que conseqüências práticas podem ser úteis para os dias atuais? Alguns pontos servem como premissas importantes para uma reflexão. Ao tratar da certeza livre, afirmou-se que os argumentos teóricos devem ser suficientes para serem seguidos, muito embora por envolver certas exigências, tais argumentos não sejam levados em conta. Mesmo que a decisão da vontade esteja em divergência com os argumentos teóricos, esses, no entanto, não podem faltar, devendo ainda ser consistentes. Mesmo que a vontade, num dado momento, opte por uma decisão diferente, essa decisão poderá ser revista, retomar as mesmas premissas e levá-las a cabo, agora de modo coerente. Os referenciais nunca perdem a sua substância, se num dado momento eles não forem seguidos. O problema não é dos referenciais, mas de quem não é conseqüente com princípios corretos. Porém, os motivos devem sempre manter a sua seriedade e, além do mais, ser continuamente aprofundados.
No decorrer deste capítulo, falou-se da seriedade da Ética, como fundamental e necessária para a vida humana, não se tratando de uma simples convenção artificialmente acrescentada à conduta dos homens e indiferente para eles, de maneira que sem tal Ética as coisas seguiriam tranquilamente o seu curso, sem qualquer prejuízo.
Essa Ética em Tomás deve ter como base o direito natural, dos quais as leis devem derivar. Trata-se de uma justificativa sólida. Nos dias de hoje, existem discussões a respeito
33 Segundo Jolif (1963, p. 42), não é possível uma forma ideal de regime no entender de Tomás como realidade histórica, sendo a história a manifestação da contingência. O “regime ideal” é uma idéia diretriz.
34 A terminologia usada por Tomás para designar as formas de governo é bastante variada, tanto para o sentido positivo, quanto para o negativo na degeneração de cada uma das formas (GALÁN GUTIÉRREZ, 1945, p. 153- 154).
do que é natural, e mesmo desconfianças em relação ao termo natural. Trata-se de um exagero, mas isso em parte se justifica em razão de excessos do passado, em que muitas afirmações ganhavam título de direito natural, quando não eram mais que produtos de uma cultura, ou pior, afirmações eivadas de sérios preconceitos. Hoje há talvez um exagero em sentido contrário, com uma forte tendência de se considerar tudo como cultural ou histórico. Porém, a preocupação de se distinguir o natural do cultural é de suma importância. Leis naturais existem, mas é preciso saber quais são elas.
De outra parte, indiretamente os indivíduos acabam por invocar a lei natural sem mencioná-la. Isso ocorre quando se criticam atos arbitrários de governos, bem como decretos ou leis nesse sentido, quando tais normas não gozam de uma racionalidade, de um fundamento que as justifique. Mais: para além do aspecto legal, invoca-se hoje o seu aspecto legítimo. Isso só vem confirmar a necessidade de reconhecer nas realidades do mundo as leis que as regem, não sendo possível agir sobre a ordem das coisas sem respeitar tais leis. As descobertas científicas se dão conta cada vez mais dessa realidade. Mesmo na vida humana ou da sociedade existem prioridades, começando-se pelo que é fundamental, considerando-se que sem certas coisas a pessoa vai adiante, mas sem outras, não.
É verdade que Tomás na questão ética e política fez afirmações que hoje não mais se sustentam, porém, são afirmações condicionadas pelo tempo, de que dificilmente se pode fugir. Ademais, ainda que alguém esteja à frente de seu tempo, não pode pensar em estabelecer propostas para não serem cumpridas naquele momento. Ninguém legisla para o futuro, ainda que prepare as bases para os tempos vindouros, a menos que uma lei do presente sirva também para o futuro. Mesmo assim, se o autor defendeu certas coisas da ordem existente, como a monarquia, por exemplo, não o fez de forma servil, mas por convicção. Nem por isso deixou de apontar para os riscos dessa forma de governo. Embora lhe parecesse o melhor regime por ser mais coeso e manter melhor a unidade, considerou que degenerada em tirania, seria a pior de outras formas de governo pela concentração de poder e a conseqüente capacidade de realizar maiores prejuízos para a nação. E se um tirano fosse insuportável deveria ser deposto, posição que hoje tem grande aceitação, independente aqui de quem deve realizar esta tarefa. O autor, portanto, foi capaz de se mostrar independente frente ao status quo, com seu juízo crítico. Desses e outros posicionamentos de Tomás, sejam eles éticos, políticos, educacionais ou quaisquer outros, é possível tirar muitas lições para os nossos dias. Saber tirar importantes lições do passado e vivê-las criativamente no presente, preparando também o futuro é o que se pode considerar viver com sabedoria e o que se deve esperar de cada ser humano.