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Kapalı ve Dar, Labirentleşen Mekanlar

2.3. Hikâyelerde Mekân

2.3.2. Algısal Mekanlar

2.3.2.1. Kapalı ve Dar, Labirentleşen Mekanlar

“Tortura: mazela escondida no Homem”; “Scotland Yard não assume a morte de Jean Charles”; “Policial é o profissional da barbárie, diz Soares”.

Essas são algumas das notícias que geralmente chegam pelos meios de comunicação, notadamente através dos jornais televisivos e também através da impressa escrita e falada. Não por acaso parece existir uma espécie de processo de naturalização ou banalização desses episódios, os quais já fazem parte do dia-a-dia das pessoas não somente das grandes cidades, mas do país, e porque não do mundo. Por outro lado, ocorre o aumento da expectativa sobre qual o próximo episódio desta novela (ou filme de terror) que insiste não acabar, incidindo em muita frustração por parte da população, pois, como a violência é fenômeno complexo e humano que fascina principalmente aqueles que estão somente nas arquibancadas aguardando os acontecimentos, a tendência também é ocorrer uma forma de alimentação entre o fato criminoso ou delituoso praticado e uma parcela do público sedento por esse tipo de informação.

O eixo orientador “Rigor Ético e Moral” adverte para a problemática de que é urgente uma reavaliação das questões éticas e morais no contexto das funções em segurança pública, sem é claro, esquecer de que, infelizmente, esse não se resume em apenas um problema da polícia.

Por que os operadores da segurança pública, nos casos aqui analisados, os integrantes de forças de segurança pública ostensiva, teriam mais do que outros empregados ou profissionais a obrigatoriedade ética e moral para o desempenho mais satisfatório de suas funções?

Tentando dar respostas a essas indagações, no que coincide com a análise desse eixo orientador, exige-se aprofundar os seguintes componentes do respectivo fundamento: o que seria Ética no tocante a essa categoria? E a Moral? Quais caminhos tomados por essas categorias na especificidade da função ostensiva em segurança pública?

Dada também à dimensão deste trabalho de pesquisa, não se pôde centrar unicamente numa análise filosófica do que venham a ser a Ética e a Moral. Foi escolhido por

analisá-las como categorias desta pesquisa a partir de leituras específicas relativas às funções em segurança pública, com o cuidado de pontuar as dimensões legais, ou do “dever saber” e alguns reflexos nos desempenhos de operadores da segurança pública, que aqui se relacionam à dimensão do “saber fazer” e do “querer fazer”.

Segundo o Dicionário Aurélio Século XXI (2005), Ética seria o “estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”. Nisso se evidencia a preocupação em ser dado um sentido relativo ao termo tomando como referência a possibilidade (ponto de vista) do “bem” ou do “mal”, com a qual se pode atribuir valor, analisando um grupo social (uma coletividade).

Por outro lado, tomando um direcionamento mais absoluto, a Ética pode ser encarada como uma referência ligada a uma espécie de “dever ser” como contradição ao “o que não é”. Ou seja, a Ética como um sistema dual em que duas instâncias distintas se negariam reciprocamente. Sem meio termo, o ser humano ou estaria na dimensão do “bem” ou na dimensão do “mal”.

Esse sentido absoluto, então, contradiz a idéia básica de Rousseau ao defender a bondade natural da criança, de modo que para esse filósofo ela nasceria boa (do lado do bem), mas a sociedade a corromperia transformando-a em má. Será certamente por isso que Manacorda (1999) ao tratar sobre os Fundamentos da Educação dentro da História da Educação, segundo a “Abordagem Antropológica”, cita a influência desse filósofo.

Na análise da condição do operador da segurança pública ostensiva, observa-se que uma variável de fatores deve estar de alguma maneira implicada nas ocasiões ou circunstâncias em que essas pessoas estão ocupando uma posição ética ou não; que contemple ações/atribuições “boas”, diga-se, voltadas para o “bem”, e outras ocasiões consideradas como não éticas e que tenham uma conotação ou uma prática sob a lógica do “mal”. Por exemplo, em ocasiões nas quais são desrespeitadas regras básicas dos direitos da pessoa e de sua dignidade.

Com um pouco mais de atenção à descrição do Aurélio sobre a Ética, o autor se refere a condutas humanas, com orientação para o “bem” ou para o “mal”. Então, vai ser a partir desse ponto que se pode ver que na análise da função policial ostensiva o que realmente é levado em conta são as condutas no seu sentido mais literal. Na realidade, o que tem contado não são simplesmente as intenções, mas as ações e as omissões relativas à realidade da prática cotidiana, através das quais esses policiais chegam a transgredir contra a Ética, ou melhor, contra a sua Ética profissional.

Existe um encaminhamento para uma forma de pensamento que remete entender a ética que os profissionais da segurança pública ostensiva vivenciam na prática cotidiana dos seus serviços como sendo uma forma de atuar e decidir no contexto dos variados conflitos provenientes das demandas de segurança pública e de contenção da criminalidade. Por exemplo, quando aplicados nas missões e operações de polícia ostensiva, desde as mais simples às mais complexas, como o Policiamento Ostensivo Preventivo, ou mesmo em apoio ao cumprimento de um mandado judicial, eles são capazes, através de estratégias de aplicação de seus saberes refletidas nos seus níveis de profissionalização, ou provenientes mesmo do senso comum, de intervirem nestes conflitos. E nessas ocasiões, a depender do desfecho, têm seus desempenhos classificados como éticos ou não.

Quanto à Moral, o mesmo dicionário, Aurélio Século XXI (2005) se refere a ela como o “conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada”. Aqui a Moral, também como uma categoria que trata das questões de conduta, está inter-relacionada com sistema de regras de maneira que será este sistema que lhe dará validação.

Nesse caso, quando se leva em consideração a função de polícia ostensiva não é por acaso que logo se percebe que pessoas tais que exercem essas ocupações ou profissões devem estar, de alguma forma, mais “controladas” ou orientadas por certo conjunto de regras as quais, no conjunto ou isoladamente, darão validade às suas atuações enquanto operadores da segurança pública.

No entanto, o inquietante nessa questão não seriam os conjuntos de regras, mas o cumprimento aos mesmos. Nesse cumprimento deve-se atentar para o fato de que os policiais militares, como componentes da força ostensiva em segurança pública, constituem a linha de frente de tratamento que lida com questões conflitantes por natureza. E na maioria das vezes essas questões são de difícil gerenciamento por demandar outros fatores que independem do serviço policial em si, mas são conseqüências de outras demandas sociais pouco trabalhadas por setores outros da administração pública. Então, parece ser necessário o estabelecimento de instrumentos de controle da atividade policial, inclusive externos, mas também de apoio, porque em muitos momentos seus serviços não se constituem nas ações estritamente policiais, mas perpassam esse campo fazendo com que a atuação de policial se alargue. Nesse caso, o próprio poder discricionário5 que lhes é atribuído ou conquistado não evita que entrem, não

raramente, em verdadeiras armadilhas da função.

5 . O poder discricionário do policial ostensivo neste aspecto está relacionado à “autonomia do trabalho policial”. (BITTNER, 2003).

Portanto, esse mesmo poder discricionário deve estar embasado em uma considerável conduta moral e ética, além de sustentado por consistentes saberes sobre as atividades de polícia ostensiva.

É bom esclarecer que dentre as demandas que alargam os serviços desenvolvidos pelos policiais militares se destacam as ocorrências do tipo condução de doentes mentais a hospitais psiquiátricos, a condução de parturientes, ou mesmo ocorrências mais atípicas com animais enfurecidos e perigosos a transeuntes (cães, geralmente). Essas intervenções, aparentemente simples, possuem uma forte conotação social dentro da dimensão moral e ética, e mesmo elas, não sendo uma atribuição básica do serviço policial ostensivo, no momento em que não ocorrem com êxito, essas falhas também podem incorrer, ou serem interpretadas, como desvios do fundamento moral e ético da função.

Portanto, parece ser necessário o estabelecimento de um sistema que estabeleça e acompanhe de forma construtiva os preceitos morais e éticos de suporte ao exercício das funções em segurança pública ostensiva, tomando como referências as atribuições da PM num mundo repleto de transformações.

Mas o “Rigor Ético e Moral”, como eixo relativo ao trabalho policial militar, em linhas gerais não se resume em estabelecer os níveis de tendências ao “bem” ou ao “mal”, reguladas por um conjunto de regras instituídas. Pelo contrário, como se observará na análise do eixo orientador referente à “Interação com a Comunidade”, o “Rigor Ético e Moral” tem suas origens, e assim o deve ser, nas exigências e apelos da sociedade através das comunidades organizadas. Estas, como verdadeiros centros de reivindicação do constante aprimoramento do serviço policial.

Bayley (2002), tratando das questões de controle pelo qual passa a polícia, sem entrar diretamente no mérito desse eixo, ressalta a participação da sociedade nesse sistema de controle quando diz que

O Relacionamento da polícia com a sociedade é recíproco – a sociedade molda o que a polícia é e a polícia influencia aquilo em que a sociedade pode se tornar. Essa relação pode ser explícita ou proposital, como quando os tribunais recebem o poder de punir a polícia quando esta comete erros ou quando reprime as pessoas que se opõe ao governo. Também pode ser difusa ou acidental quando, como quando a capacidade intelectual dos recrutas afeta a forma das operações policiais. (p. 173)

Com a descrição acima, amplia-se o entendimento de que as questões relativas ao desenvolvimento do eixo “Rigor Ético e Moral” como um fundamento da polícia ostensiva tem sua gênese nas comunidades, mas é sancionado pelos tribunais, o Poder Judiciário. Esse, em acordo ou não com os anseios da sociedade, em geral faz a regulação legal do serviço

policial, tomando como base o nível de cumprimentos aos preceitos éticos e morais para àquela atividade, no que conta também com as intervenções do Poder Político.

Dessa maneira também se destaca que, independente da relação que a polícia tem com a sociedade (Ribeiro, 2002), ser interativa ou mesmo difusa (acidental), o “Rigor Ético e Moral” de alguma forma irá depender do nível de capacitação profissional do policial. Portanto, é necessário ser trabalhada a aquisição de atitudes e de valores capazes de desenvolver no policial a noção de que a Ética e a Moral, para ele em si, e para o seu satisfatório desenvolvimento profissional, não deveriam ser uma mera questão de obrigação. Pelo contrário, deveria ser uma necessidade sua como profissional de tão importante atuação em qualquer sociedade que almeja um estado melhor de democracia e de convívio entre seus cidadãos, contando com a redução dos seus níveis de criminalidade e aumento da sensação de segurança pública.

Finalizando este tópico, a escolha pela expressão “Rigor Ético e Moral”, ao invés da expressão “o Rigor Moral e Ético”, prende-se ao fato de que a primeira toma como sustentação inicial a Ética como a capacidade humana em emitir juízo sobre a própria vida, escolhendo entre o “bem” ou o “mal”, mas principalmente no que defende Paulo Freire (2004, p. 33): “Não é possível pensar os seres humanos longe, sequer, da ética, quanto mais fora dela. Estar longe, ou pior, fora da ética, entre mulheres e homens, é uma transgressão”. Portanto, algo da dimensão fundamental e intrínseca da pessoa; enquanto a segunda expressão depende mais de preceitos externos e de regras estabelecidas.

Benzer Belgeler