2.3. Hikâyelerde Mekân
2.3.2. Algısal Mekanlar
2.3.2.2. Açık ve Geniş Mekanlar
A temática “Capacitação Técnica” relativa à função policial torna-se mais em evidência com o advento da profissionalização da polícia no início do século XIX, quando tanto na América do Norte quanto na Europa e na Ásia, os aparelhos policiais começaram a sair da perspectivas de funcionamento de “polícia voluntária” para “polícia paga” mantida pelo Estado. Contrariamente a outras categorias profissionais, a concepção de “policial profissional” está baseada, principalmente, no pagamento de seus salários pelo Estado. Some- se a esse fato, a estruturação de saberes de natureza técnica através de formação sistematizada.
Na obra “Sociedades e Polícias na Europa”, de Jean-Claud Monet (2001), a capacitação técnica se relaciona à modernização dos sistemas policiais. Nesse sentido, ele esclarece que a evolução desses sistemas acompanhou também a perspectiva de entendimento
do serviço policial como profissão, o que seria imprescindível, entre outros pontos, o desenvolvimento do saber técnico através de processos formativos. Cita o autor:
A noção de “polícia moderna” remete, com efeito, a evoluções precisas que constituem a função policial como profissão: estabelecimento de critérios meritocráticos – o concurso, em matéria de recrutamento; elaboração e
transmissão de um saber técnico através dos processos de formação;
remuneração suficiente para que o ofício policial seja exercido em tempo integral... (p. 61, 62) – Grifo da pesquisa.
Portanto, os sistemas policiais hoje, uns mais e outros menos, passaram a ver na capacitação técnica dos corpos policiais, entre outros pontos importantes, um caminho viável para controlar e ter esses profissionais mais a serviço dos governos que lhes dão sustentação, o que é defendido como sendo uma conseqüência natural dos “movimentos de profissionalização da polícia”.
No Brasil, por exemplo, que teve, por assim dizer, o seu primeiro núcleo policial organizado de forma mais sistematizada com a chegada da Família Real em 1808, e que de determinada forma importou o modelo português na formação do Estado Nacional Brasileiro, apresenta ainda hoje reflexos desse fato nos processos de profissionalização dos operadores da segurança pública. Não poderia ser de outra maneira, na medida em a própria formação do Estado Português, sob o regime monárquico, exigiu o surgimento de uma policia estatal.
Fazendo uma análise do surgimento dos Estados Nacionais na Europa, o autor citado ressalta que a criação dos corpos policiais militarizados teve a incumbência de moldar e estabelecer os Estados Nacionais. Na seqüência, Irlanda, Itália, Espanha, Portugal, todos ligados a sistemas monárquicos, criaram seus sistemas policiais.
A herança de atentar para a capacitação técnica como um item de aquisição do status de “profissional” para os policiais é compreendida como um caminho ainda hoje muito ideologicamente orientado, pois o que ainda é mais almejado pelo Estado e pelo poder político é a utilização do sistema de segurança pública como aparato de forças mais voltado para sua manutenção. Ocorre como conseqüência a diminuição do fator segurança pública como função estatal, na perspectiva mais direcionada às demandas sociais relativas à segurança pública, e o concomitante trabalho de prevenção.
O profissionalismo nas ocupações ligadas à função policial ostensiva está relacionado ao estabelecimento do salário mantido pelo Estado e a capacitação técnica para o trabalho através de instruções com enfoque mais voltado à formação militar. Em contrapartida, vigoram ainda salários aquém das dificuldades do serviço policial e pouco é incentivado os processos de reflexão sobre a prática de forma a promover a renovação das estratégias de
serviço que possa ser mais eficiente no lidar com as questões da segurança pública e de controle da criminalidade.
Na perspectiva da função ostensiva em segurança pública, o eixo relativo à “Capacitação Técnica” deve ser analisado sob a ótica dos investimentos em formação inicial e em capacitação continuada dos ocupantes dessa função. Considera-se em tese como o seu fator de contraponto o também princípio das atividades de polícia militar denominado “Atuação Ostensiva”. No avançar das discussões, mostrar-se-á melhor porque se admite que por muitas vezes a “Capacitação Técnica” é colocada em segundo plano quando instituições policiais privilegiam a “Atuação Ostensiva” de uma maneira desvirtuada.
Essa contradição fica mais explícita quando, em nome da “Atuação Ostensiva”, policiais militares são aplicados nas variadas tarefas do seu trabalho sem a devida capacitação mínima para o serviço em segurança pública.
Por essa análise, parece que a atuação policial ostensiva – traduzida pelo aspecto da explicitação do fardamento, do equipamento e do armamento policial militar – tem também vigorado na realidade potiguar, até pelas quantidades de aquisição desses materiais nos últimos anos. Isso se contrapõe ao fato de que, por mais de 10 anos, o RN ficou sem um centro de formação e aperfeiçoamento para o pessoal de base: os soldados, os cabos e os sargentos de polícia militar.
Em conseqüência, o que o respectivo Estado perdeu nesse mesmo período no âmbito da prática de formação policial mais contextualizada com as necessidades cotidianas do serviço ostensivo em segurança pública, ganhou, infelizmente, em respostas negativas às demandas de segurança pública, tendo como exemplos a inadequação ao serviço e a indisciplina; o aumento do índice de erro em ocorrências; a ampliação dos processos na justiça, além da diminuição da eficácia das estratégias de combate à criminalidade, aumentando consequentemente a sensação de insegurança pública.
Ainda no caso particular da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, a questão da capacitação técnica torna-se item de grande atenção a partir do momento em que se considera que aproximadamente há duas décadas saiu-se de um contingente de policiais em torno de 4.000 integrantes para mais de 8.000 com a criação de batalhões de polícia e de serviços especializados.
No entanto, a ótica que defende a presença ostensiva sem um treinamento mais adequado para confrontos, como se apenas essa presença ostensiva pudesse dar conta de todo o serviço policial, potencializando a sensação de segurança e de tranqüilidade pública, fez reduzir praticamente a zero as instruções no nível dos batalhões. Esses treinamentos que,
geralmente, eram realizados nos denominados “expediente de instrução” para todos os policiais, hoje não são feitos, sendo um dos motivos principais a aplicação desses efetivos nas missões intituladas de “diárias operacionais”6.
No entanto, desses fatos negativos provenientes de tais contradições, nasceu o esforço concentrado por parte de algumas pessoas que passaram a refletir sobre as possibilidades de mudança, a partir principalmente da provocação da SENASP em colaborar na qualificação de especialista em segurança pública. Com destaque para a área formativa, esse grupo de pessoas foi constituído não somente por policiais, mas também por integrantes de outros setores interessados, dentre eles a Universidade e membros da sociedade organizada, de ONGs e de organismos internacionais.
Portanto, mesmo com a gama de coisas ainda a avançar, acredita-se que se está chegando ao ponto em que as discussões teóricas sobre a idéia da capacitação técnica têm mais prioridade como um dos eixos orientadores do serviço policial militar, pelo menos no contexto geral do país. Cabe agora partir para a institucionalização mais objetiva de práticas dessas idéias com a construção de centros formativos contextualizados com as demandas mais emergentes do serviço policial em níveis local, nacional e regional. Dessa maneira pode-se melhor promover o devido equilíbrio da balança entre o fundamento da “Capacitação Técnica” e o da “Atuação Ostensiva” nas atividades da polícia militar.
Hoje se é mais capaz de visualizar as deficiências a partir do momento em que se aumenta o ângulo de visão a respeitos de coisas e fatores que até então se pensava estar sob controle. O que não se tinha mais consciência era o fato de que a demanda por segurança pública, sempre crescente, pede qualidade dos serviços policiais e, ainda sob uma espécie de “ditadura da atuação ostensiva simplista” e descontextualizada da capacitação técnica, é importante a melhoria das condições de ensino policial.
Geralmente o item “Capacitação técnica” como um fundamento da função policial tem ocupado os espaços de discussão, principalmente o espaço midiático, quando acontecem tragédias e se faz necessário que a notícia seja também “vendida” numa conotação mais ideológica, partidária, ou mesmo mercadológica, evidenciando-se então o despreparo técnico- profissional dos que fazem o sistema policial.
A criação e estabelecimento de dispositivos legais mais intervenientes nessa situação no sentido de subordinar os investimentos reais em segurança pública, ostensiva ou não, ao cumprimento de programas e projetos concretos de formação inicial e continuada de policiais
6 . Para aumentar a quantidade de efetivo nas ruas, a polícia militar providenciou a remuneração adicional aos policiais que, de forma voluntária, queiram trabalhar nos horários de folga ou nos dias em que eles teriam os
é uma opção que pode melhor obrigar os gestores públicos a tratar com maior atenção a questão. Para isso, será necessária maior fiscalização dos investimentos, bem como acompanhamento desses programas como item para liberação de recursos e parcerias.
De outro modo, não é possível que, pelo menos por médio prazo, a própria sociedade não observe que apenas policiais armados em viaturas caracterizadas e equipadas, sem índice mínimo de qualificação, não garante maior controle da criminalidade. Pelo contrário, é urgente o investimento na capacitação técnica.
Por fim, alerta-se também que o termo “Capacitação Técnica” não diz respeito apenas à qualidade de investimento na aquisição de técnicas instrumentalizadas com emprego de certos materiais, equipamentos e armamentos, mas também, e principalmente, incide na preparação constante da pessoa como ser humano para o trabalho com a segurança pública em geral, considerando-se essa como um componente de importância em qualquer sociedade.
Portanto, na perspectiva deste trabalho de pesquisa, salienta-se que o enfoque de atenção sobre esse princípio da “Capacitação Técnica”, sem desmerecer as dimensões históricas, políticas e sociais já comentadas, diz respeito à noção de currículo para a formação do policial atuante no processo de segurança pública ostensiva. O fundamento curricular representado pelos planos de curso de formação e de capacitação, a despeito das contribuições e interferências dos outros fundamentos da função policial ostensiva, pode dar informações importantes do status da capacitação técnica no desenvolvimento da função policial ostensiva. Um esforço atual que pode representar bem a intenção entre o aspecto ostensivo e a capacitação técnica, entre outros pontos, mesmo sob a perspectiva de atuação reativa e repressiva, é a proposta em andamento da Força Nacional, estrutura montada em parceria com Estados da Federação para atuações em situações de cunho extraordinário, como estratégia de combate ao crime sem substituir as responsabilidades dos aparelhos policias locais, mas atuando em apoio.
Mesmo ainda com atuações iniciais, vê-se nesse caso da Força Nacional que é possível mobilizar saberes e capacitar tecnicamente policiais para, inclusive, colocarem de forma mais aprimorada uma de suas mais marcantes características: o fator ostensivo, mas em constante diálogo com a capacitação técnica.